Amar o Caos

28 A Vida Continua


Cinco anos passaram desde a prisão de Félix Park.

Tempo suficiente para Busan mudar suas luzes, seus prédios e até o ritmo das ruas.

Mas não o bastante para apagar completamente certas cicatrizes.

Yuna mudou primeiro.

A garota assustada que vivia cercada pelos perigos do mundo de Félix ficou para trás há muito tempo.

Ela terminou a faculdade com excelência, mesmo nos dias em que parecia impossível continuar respirando normalmente.

Yuna já não vivia mais em Busan.

Depois de se formar em Ciência da Computação e TI, recebeu uma proposta de uma grande empresa de tecnologia em Seoul — dessas que ocupam prédios inteiros de vidro e aço no centro da cidade, onde as pessoas vivem correndo entre cafés, reuniões e telas iluminadas madrugada adentro.

Ela aceitou.

Talvez pela carreira.

Talvez pela oportunidade.

Talvez porque Busan carregava memórias demais.

Agora sua vida acontecia em Seoul.

Apartamentos pequenos e caros.

Metrô lotado.

Noites diante de múltiplos monitores.

Projetos internacionais.

Prédios altos.

Salas de vidro.

Projetos internacionais.

Yuna cresceu.

Aprendeu a viver sozinha.

Aprendeu a ficar em silêncio sem desabar.

Aprendeu a parecer forte mesmo nos dias ruins.

Mas sempre que podia voltava para Busan para visitar os pais.

Construiu uma rotina limpa, estável… quase bonita.

Quase.

Porque existiam ausências que o tempo não preenchia.

Só ensinava a conviver.


Enquanto isso, do outro lado das grades, Félix também mudava.

A prisão arrancou muita coisa dele.

Liberdade.

Nome.

Orgulho.

Anos inteiros.

Mas não arrancou sua capacidade de sobreviver.

No começo, os dias dentro do cárcere pareceram intermináveis.

Violentos. Cinzentos. Desumanos.

Então Félix fez o que sempre soube fazer:

adaptou-se.

Começou a estudar.

Ler.

Aprender qualquer coisa que mantivesse sua mente funcionando longe dos próprios pensamentos.

E foi na oficina da prisão que encontrou algo inesperado:

silêncio.

Motores faziam sentido para ele.

Peças quebradas podiam ser desmontadas, entendidas e reconstruídas.

Diferente da própria vida.

As motos eram uma delas.

Félix sempre gostou delas.

Desde muito antes de Yuna.

Muito antes do dinheiro sujo, dos galpões e das rotas ilegais.

Ele mesmo desmontava e consertava sua moto quando ainda era jovem.

Gostava do cheiro de óleo queimado, das peças espalhadas pelo chão e da sensação de entender máquinas melhor do que entendia pessoas.

Era quase irônico.

Um homem criado no caos encontrando paz justamente em máquinas quebradas.

E durante aqueles cinco anos…

ele desapareceu completamente da vida de Yuna.

Sem cartas.

Sem ligações.

Sem notícias.

Como se nunca tivesse existido.

No início, Yuna insistiu.

Muito.

Tentou visitas.

Mandou mensagens através de Jim.

Procurou qualquer brecha que permitisse alcançar Félix outra vez.

Mas os anos desgastam até os sentimentos mais teimosos.

Porque amar sozinho cansa.

E Yuna começou a entender uma verdade dolorosa:

amor não sobrevive apenas de saudade.

Os dois precisam caminhar na mesma direção.

E Félix…

Félix escolheu ficar parado no passado enquanto empurrava ela para o futuro.

A insistência virou silêncio.

O silêncio virou desânimo.

E o desânimo, aos poucos…

virou aceitação.

Não porque ela deixou de amá-lo completamente.

Mas porque até o coração mais fiel aprende, uma hora, que não pode viver eternamente esperando uma porta que nunca se abre.


Seoul continuava correndo rápido demais.

Rápido como sempre.

Pessoas vivendo com café nas mãos e olheiras escondidas atrás de roupas caras.

E, no meio daquela cidade enorme, Yuna aprendeu a existir outra vez.

Não completamente.

Ainda havia dias difíceis.

Dias em que a saudade voltava sem aviso enquanto ela encarava a janela do apartamento pequeno depois do trabalho.

Mas agora… ela seguia em frente.

Os cabelos estavam mais curtos, na altura dos ombros.

O rosto continuava jovem, bonito de um jeito delicado e elegante, embora existisse um certo cansaço escondido no olhar que não estava ali anos atrás.

Yuna amadureceu.

Ficou mais direta.

Mais sincera.

Menos ingênua.

Ela já não abaixava os olhos facilmente.

Nem parecia mais a garota protegida que um dia Félix conheceu em Busan.

E isso chamava atenção.

Principalmente dele.

Do-yun apareceu na vida dela sem grandes explosões.

Como quase tudo que realmente muda alguém.

Era sênior na empresa.

Oito anos mais velho.

Mas aquilo nunca pareceu estranho para Yuna.

No fundo, talvez porque Félix também tivesse surgido em sua vida carregando a mesma distância de idade… e o mesmo ar de homem já marcado pelo mundo antes dela chegar.

Do-yun era diferente de Félix em quase tudo.

Alto.

Elegante.

Inteligente daquele jeito calmo que não precisava competir com ninguém.

Tinha um corpo bonito, bem cuidado, embora longe do tipo exageradamente musculoso.

Usava óculos de armação fina, e aquilo só deixava a aparência dele ainda mais atraente — sério demais à primeira vista, mas perigosamente charmoso quando sorria de verdade.

E ele observou Yuna antes mesmo dela perceber.

Observou a forma como ela trabalhava até tarde sem reclamar.

Como respondia reuniões difíceis sem rodeios.

Como nunca tentava agradar ninguém à força.

Ela era sincera.

Até demais às vezes.

E, numa cidade cheia de máscaras sociais e respostas calculadas…

aquilo destacava Yuna como uma chama acesa no escuro.

No começo foram apenas conversas pequenas.

Café durante intervalos.

Ajuda em projetos.

Comentários baixos durante reuniões intermináveis.

Então vieram os jantares casuais depois do expediente.

Caminhadas curtas até o metrô.

Mensagens enviadas tarde da noite sobre trabalho… que aos poucos deixaram de ser apenas sobre trabalho.

E Yuna percebeu.

Do-yun gostava dela.

O jeito como ele diminuía o ritmo dos passos para acompanhar os dela.

Como prestava atenção genuína quando ela falava.

Como nunca forçava intimidade.

Era diferente.

Calmo.

Seguro.

Maduro.

Sem jogos.

Sem violência.

Sem sombras escondidas atrás dos olhos.

E talvez fosse justamente isso que mais assustava Yuna.

Porque, pela primeira vez em muitos anos…

alguém parecia oferecer paz em vez de caos.


O inverno chegava devagar em Seoul quando Yuna finalmente começou a baixar a guarda.

Não aconteceu de uma vez.

Nem como nos romances exagerados que prometem curar feridas antigas em meia dúzia de encontros.

Foi lento.

Humano.

Do-yun não pressionava.

Talvez esse fosse justamente o motivo de Yuna continuar deixando ele se aproximar.

Ele aparecia com café nos dias em que ela virava noites trabalhando.

Esperava ela terminar reuniões sem reclamar.

Mandava mensagens simples:

“Você comeu?”

“Chegou em casa?”

“Dormiu pelo menos três horas hoje?”

Pequenas coisas.

Coisas normais.

E, depois de tantos anos vivendo um amor intenso demais, perigoso demais, Yuna começou a perceber o quanto sentia falta da leveza.

Do-yun também era paciente.

Nunca perguntou diretamente sobre Félix, embora claramente percebesse que existia alguém enterrado dentro do silêncio dela.

Às vezes, durante os jantares, ele notava o jeito como Yuna ficava distante olhando a chuva pela janela.

Ou como parecia endurecer quando escutava o ronco de alguma moto atravessando as ruas de Seoul à noite.

Mas ele não forçava respostas.

Só permanecia ali.

E aquilo, aos poucos, começou a aquecer alguma coisa nela outra vez.

Porque o coração de Yuna estava cansado.

Cansado de esperar mensagens que nunca chegavam.

Visitas recusadas.

Silêncios longos demais.

Seis anos, agora, eram tempo suficiente para transformar amor em saudade crônica.

Ou pelo menos ela tentava acreditar nisso.

Numa sexta-feira fria, depois de um jantar simples perto da empresa, Do-yun caminhava ao lado dela pelas ruas iluminadas de Seoul.

As luzes refletiam no asfalto molhado enquanto o vento bagunçava os cabelos de Yuna.

Ela ria de alguma história boba dele — uma risada pequena, mas real.

Do-yun percebeu.

E sorriu também.

— Finalmente consegui fazer você relaxar um pouco.

— Não se acostuma — ela respondeu no automático.

— Tarde demais.

Aquilo arrancou outro riso dela.

Então ele parou de andar.

Yuna virou o rosto sem entender.

Do-yun tirou os óculos devagar, segurando eles na mão antes de falar:

— Eu gosto de você. Bastante.

O coração dela falhou uma batida.

Porque fazia muito tempo desde que alguém dizia aquilo sem peso. Sem dor. Sem guerra escondida nas entrelinhas.

Só sinceridade.

Ela desviou os olhos imediatamente.

O velho reflexo.

Félix ainda existia dentro dela. Quieto. Distante. Mas existia.

E talvez Do-yun tenha percebido isso também.

Porque ele deu um pequeno sorriso cansado antes de continuar:

— Eu não tô pedindo que você esqueça nada. Nem ninguém.

Silêncio.

— Só queria saber se existe espaço pra mim aí também.

Aquilo desmontou Yuna de um jeito perigoso.

Porque durante anos ela viveu presa numa porta que nunca mais se abriu.

Esperando alguém que escolheu desaparecer da vida dela.

E pela primeira vez…

ela estava cansada de esperar sozinha.

Os olhos dela encontraram os dele devagar.

Do-yun permaneceu imóvel.

Paciente.

Sem pressionar.

Sem exigir.

E talvez tenha sido exatamente isso que fez Yuna finalmente ceder.

Ela respirou fundo antes de responder baixo:

— Talvez exista.

O sorriso dele apareceu pequeno primeiro.

Depois verdadeiro.

E naquela noite fria em Seoul…

Pela primeira vez em muitos anos, Yuna permitiu que alguém tocasse um coração que Félix tentou deixar para trás.


A prisão mudou muita coisa em Félix.

Menos uma.

Yuna.

Mesmo depois de seis anos, ela continuava presente na rotina dele como um hábito impossível de arrancar.

Os rapazes agora levavam vidas muito diferentes daquelas de antigamente.

Longe das rotas ilegais.

Longe dos depósitos escondidos.

Longe da violência que quase destruiu todos eles.

Mas continuavam trabalhando para Félix.

Só que agora… legalmente.

As empresas que Félix havia deixado organizadas antes da prisão cresceram ao longo dos anos sob administração de Jim. Oficinas, transportadoras, investimentos menores e negócios ligados ao setor automotivo. Nada grandioso demais para chamar atenção, mas limpo o suficiente para manter todos longe do submundo outra vez.

E, mesmo preso, Félix ainda era o centro silencioso de tudo.

Jim cuidava da administração.

Kako trabalhava diretamente nas oficinas.

Kadu ajudava na logística das empresas.

Kim cuidava dos investimentos.

A vida finalmente seguia.

E ainda assim…

todos continuavam orbitando Félix de algum jeito.

Nas visitas, as conversas quase sempre terminavam no mesmo assunto.

Yuna.

— Ela tá bem?

— Continua trabalhando demais?

— Ainda esquece de comer quando tá focada?

— Os pais dela estão saudáveis?

Félix perguntava tudo tentando soar casual.

Nunca conseguia.

Porque o jeito que escutava as respostas entregava demais.

Silencioso. Atento. Como alguém sobrevivendo através de notícias de outra pessoa.

E não era controle.

Nunca foi.

Félix não queria prender Yuna a ele.

Muito pelo contrário.

Ele precisava saber que ela estava conseguindo viver sem ele.

Talvez porque essa fosse a única forma de suportar os próprios dias ali dentro.

Então veio Do-yun.

Jim comentou durante uma visita, mexendo distraidamente nos papéis sobre a mesa:

— Acho que a Yuna tá saindo com alguém.

O silêncio que veio depois pesou tanto que até os sons da prisão pareceram distantes.

Félix permaneceu imóvel na cadeira.

— Quem?

A pergunta saiu calma demais.

E Jim conhecia Félix o suficiente para perceber perigo justamente quando ele parecia tranquilo.

— Um cara do trabalho dela. Sênior da empresa. Parece decente.

Félix desviou o olhar lentamente.

Aquilo bateu pior do que esperava.

Porque era exatamente o que ele queria, não era?

Yuna seguindo em frente.

Conhecendo alguém normal.

Alguém sem sangue nas mãos.

Sem passado criminoso.

Sem grades entre eles.

Alguém capaz de dar a ela uma vida limpa.

Então por que doía tanto?

Jim observou ele em silêncio antes de continuar:

— Kadu investigou ele.

Aquilo fez Félix erguer os olhos imediatamente.

Velhos hábitos nunca morriam completamente.

— E?

— Nome limpo. Família boa. Sem ligação estranha. Histórico impecável.

Jim soltou um pequeno sorriso torto.

— O cara parece até personagem de drama coreano.

Aquilo arrancou um riso curto e amargo de Félix.

Porque claro.

Claro que o homem que apareceu depois dele seria exatamente o tipo de pessoa que Yuna merecia desde o começo.

Mesmo assim… doía.

Mais do que deveria.

Naquela noite, Félix não conseguiu dormir.

Ficou sentado na cama estreita da cela olhando o teto escuro enquanto os pensamentos afundavam lentamente dentro dele.

Imaginava coisas que não queria imaginar.

Do-yun fazendo Yuna rir.

Esperando ela sair do trabalho.

Segurando a mão dela pelas ruas iluminadas de Seoul.

Tocando nela.

Aquilo o destruía de um jeito ridículo.

Porque Yuna nunca pertenceu a ele.

E mesmo assim…

uma parte cruel dentro de Félix ainda agia como se pertencesse.

Ele fechou os olhos com força.

Seis anos.

Seis anos tentando apagar a própria existência da vida dela.

E agora que Yuna finalmente começava a seguir em frente…

Félix descobria a pior verdade de todas:

Amar alguém também significava sobreviver ao momento em que essa pessoa aprende a viver sem você.