Amar o Caos
29 Depois de Oito Invernos
Oito anos.
Foi esse o tempo que o mundo levou para devolver a liberdade a Félix Park.
A redução da pena veio silenciosa, longe das manchetes que um dia destruíram seu nome na Coreia inteira. O acordo feito anos atrás com a promotoria, somado ao comportamento impecável dentro da prisão, acabou pesando a favor dele.
Félix saiu diferente.
Mais calado.
Mais velho.
Mais cansado.
Mas vivo.
Na manhã da libertação, o céu de Seoul estava cinza, carregado daquele frio típico que parece entrar pelos ossos. Jim esperava por ele do lado de fora, encostado num carro discreto, mãos nos bolsos e o mesmo olhar debochado de sempre.
Por alguns segundos, os dois apenas se encararam.
Então Jim soltou um riso baixo:
— Caramba… você tá com cara de quem saiu direto de um drama triste da Netflix.
Aquilo arrancou de Félix a primeira risada sincera em anos.
Pequena. Rouca. Desacostumada.
A cidade parecia diferente vista sem grades no caminho.
Movimento demais.
Barulho demais.
Liberdade demais.
Félix observava Seoul pela janela do carro em silêncio enquanto as pessoas caminhavam pelas ruas sem imaginar quem ele era ou de onde estava vindo.
E aquilo era estranho.
Bom… mas estranho.
Jim tinha organizado tudo.
Um apartamento pequeno em Seoul, longe de Busan. Confortável, discreto e limpo o suficiente para alguém tentando recomeçar sem chamar atenção.
Nada luxuoso.
Félix não queria mais luxo.
Queria paz.
As empresas continuavam funcionando bem sob administração dos rapazes. O dinheiro nunca mais seria um problema. Félix poderia facilmente viver sem trabalhar pelo resto da vida.
Mas não queria isso.
Precisava de algo real.
Algo que provasse — para a justiça, para a sociedade e talvez para si mesmo — que não era mais o homem de antes.
Então escolheu a oficina.
Era quase engraçado.
Félix passou metade da vida cercado de dinheiro ilegal, violência e homens perigosos…
E acabou encontrando dignidade justamente consertando motos velhas.
Nos primeiros dias fora da prisão, ele ainda acordava cedo demais, como se esperasse ouvir guardas batendo nas grades.
Às vezes esquecia que podia sair sozinho.
Comprar café.
Andar na rua sem vigilância.
Respirar.
Mas existia uma coisa que Seoul não conseguia silenciar.
Yuna.
Porque agora ela estava ali.
Na mesma cidade.
Mais próxima do que em todos aqueles oito anos.
E isso assustava Félix mais do que qualquer prisão já assustou.
Porque ele não fazia ideia do que sentiria se a visse outra vez.
Ou pior:
não fazia ideia do que faria ao descobrir que talvez ela já não pertencesse mais ao mundo dele nem em memória.
O domingo amanheceu silencioso em Seoul.
Um daqueles raros dias em que a cidade parecia respirar mais devagar.
Yuna acordou cedo sem motivo específico.
Do-yun ainda dormia, perdido entre os lençóis e a luz fraca entrando pelas cortinas do apartamento que agora dividiam havia quase dois anos.
Ela ficou alguns segundos parada ao lado da cama observando ele dormir.
Era uma vida boa.
Calma.
Segura.
Exatamente o tipo de vida que um dia pareceu impossível para ela.
Mesmo assim…
alguma coisa estava estranha naquela manhã.
Uma inquietação leve.
Um aperto difícil de explicar.
Como se o coração dela tivesse acordado antes do resto do corpo.
Yuna tentou ignorar.
Vestiu um moletom largo, prendeu os cabelos de qualquer jeito e saiu para caminhar sozinha na praça perto do rio Han — algo que fazia quando precisava organizar os pensamentos.
O vento frio da manhã atravessava as árvores enquanto Seoul despertava lentamente ao redor dela.
Pessoas correndo.
Ciclistas passando.
Idosos fazendo exercícios em silêncio.
Tudo normal.
Mas Yuna não conseguia sentir normalidade nenhuma dentro do peito.
Era estranho.
Não parecia tristeza exatamente.
Nem saudade.
Muito menos felicidade.
Era como…
como se uma parte antiga dela tivesse despertado sem aviso.
Uma sensação esquecida.
Quase familiar.
Ela caminhou mais devagar.
O coração batia diferente.
Inquieto.
Como quando a gente sente que algo importante mudou no mundo antes mesmo de descobrir o quê.
E aquilo assustou Yuna.
Porque fazia anos desde a última vez que sentiu algo parecido.
Desde Félix.
Ela parou perto do rio, abraçando os próprios braços enquanto observava a água escura refletindo o céu cinzento da manhã.
Então percebeu outra coisa:
não era dor o que sentia.
Era vazio desaparecendo.
Como se, durante anos, existisse uma tensão silenciosa dentro dela… uma corda puxada em algum lugar invisível do peito.
E naquela manhã…
a corda tivesse afrouxado pela primeira vez.
Yuna franziu levemente a testa, confusa consigo mesma.
Porque não fazia sentido.
A vida estava seguindo.
Do-yun era bom para ela.
Ela estava bem.
Então por que aquele sentimento parecia tão ligado ao passado?
O vento soprou mais forte naquele instante, bagunçando seus cabelos.
E, do outro lado da cidade gigantesca…
sem que Yuna soubesse…
Félix Park respirava liberdade pela primeira vez em oito anos.
O shopping de Seoul estava lotado naquela tarde de domingo.
Famílias.
Casais.
Sacolas.
Música baixa ecoando pelos corredores iluminados.
Félix odiava lugares cheios desde que saiu da prisão.
Muita gente.
Muito barulho.
Muitos rostos.
Mas precisava comprar algumas coisas para o apartamento novo e Jim insistiu que ele começasse a “agir como uma pessoa normal”.
Então ali estava ele.
Boné escuro.
Jaqueta simples.
Mãos nos bolsos.
Tentando passar despercebido no meio da multidão.
A oficina fechava cedo aos domingos, e pela primeira vez em anos Félix tinha tempo livre demais nas mãos.
Aquilo ainda parecia estranho.
Ele caminhava distraído segurando um copo de café quando aconteceu.
Primeiro veio a risada.
Baixa.
Familiar.
O corpo inteiro dele travou antes mesmo da mente entender.
Então Félix virou o rosto.
E viu Yuna.
O mundo pareceu silencioso imediatamente.
Ela estava alguns metros à frente ao lado de um homem alto usando óculos.
Do-yun.
Félix reconheceu ele na hora pelas fotos que Kadu havia mostrado anos atrás.
Mas nada preparou ele para ver Yuna daquele jeito diante dos próprios olhos.
Mais madura.
Mais mulher.
Os cabelos mais curtos agora balançavam levemente enquanto ela falava alguma coisa.
E ela sorria.
Aquilo acertou Félix direto no peito.
Porque fazia anos desde a última vez que ele viu aquele sorriso sem tristeza.
Instintivamente, deu um passo para trás.
Escondendo-se parcialmente atrás de uma coluna próxima.
Ridículo.
Covarde.
Mas o corpo reagiu antes da razão.
Ele não podia aparecer assim.
Não depois de tudo.
Do outro lado do corredor, Yuna segurava algumas sacolas enquanto Do-yun comentava algo sobre uma loja mais à frente.
Confortáveis juntos.
Naturais.
Como pessoas que aprenderam a dividir a vida.
Félix sentiu alguma coisa rasgar lentamente dentro dele.
Não raiva.
Não arrependimento da escolha.
Porque no fundo… era exatamente isso que ele quis para ela.
Uma vida leve.
Segura.
Normal.
Então por que doía tanto?
Os olhos dele continuaram presos nela como se oito anos simplesmente não existissem.
E foi aí que Félix percebeu a pior parte:
o amor não tinha acabado.
Só ficou adormecido atrás das grades.
Esperando.
Silencioso.
Vivo.
E agora, vendo Yuna ali tão perto outra vez…
parecia sangrar dentro do peito dele como se nunca tivesse ido embora.
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