Amar o Caos
1 A Chegada do Caos
Era fim de tarde em Haedam.
As ruas estreitas começavam a ficar douradas pela luz cansada do sol, enquanto as senhoras varriam a frente das casas e os comerciantes recolhiam placas antigas das calçadas. O cheiro de pão fresco escapava da padaria da esquina, misturado ao som distante de uma televisão ligada em alguma janela aberta.
Era o tipo de bairro onde todos se conheciam pelo nome.
E onde absolutamente nada mudava.
Até o som das motos rasgar o silêncio.
Grave.
Pesado.
Ameaçador.
Cinco motos surgiram na rua principal como uma tempestade atravessando um lugar calmo demais para suportá-la.
E no instante em que chegaram…
Haedam parou.
Um senhor abaixou lentamente o jornal.
A dona da floricultura congelou no meio da calçada.
Uma criança deixou a bola escapar das mãos.
Até o dono da bicicletaria fechou a porta de vidro com pressa disfarçada.
Porque todos reconheceram imediatamente quem vinha à frente.
Felix.
Sentado sobre a moto como alguém que nunca precisou pedir espaço ao mundo, ele atravessava a rua com postura firme, expressão fechada e os olhos escondidos atrás dos óculos escuros.
Atrás dele vinham Jim, Kim, Kadu e Kako.
Quatro homens marcados pela mesma vida dura.
Jaquetas gastas.
Tatuagens expostas.
Cheiro de cigarro impregnado na pele.
Olhares que pareciam sempre prontos para brigar.
Eles não pediam licença.
Nunca pediam.
Homens como aqueles aprendem cedo que o mundo não reserva lugar para gente quebrada.
Então tomam espaço à força.
O ronco das motos morreu devagar quando Felix estacionou em frente à velha casa abandonada no fim da rua.
A construção pertencia a um parente distante que desaparecera anos antes, deixando apenas paredes envelhecidas, janelas empoeiradas e histórias esquecidas.
Agora seria deles.
Um covil enfiado bem no coração do bairro mais tradicional de Haedam.
Felix retirou os óculos escuros lentamente.
E bastou aquilo para o desconforto crescer no ar.
Porque havia algo errado naqueles olhos.
Algo frio.
Cansado.
Perigoso.
Naquela noite, as cortinas das casas permaneceram abertas por mais tempo.
Os vizinhos cochicharam baixo durante o jantar.
As mães chamaram os filhos para dentro mais cedo.
E o nome de Felix percorreu Haedam como fumaça.
O bairro ainda não sabia.
Mas a partir daquele dia…
Tudo começaria a mudar.
O bairro inteiro parecia inquieto.
As senhoras cochichavam nas portas das casas, os comerciantes comentavam baixo entre um cliente e outro, e os mais velhos balançavam a cabeça em desaprovação sempre que o assunto surgia.
Os novos moradores.
Os homens das motos.
A casa velha no fim da rua.
Haedam não estava acostumada com aquele tipo de presença.
Muito menos com homens como Felix.
Mas enquanto o bairro inteiro reagia com medo e desconfiança…
Yuna apenas observava.
Da janela do segundo andar, apoiada contra a madeira da sacada, ela viu os cinco homens descarregarem caixas, rirem alto e fumarem como se já fossem donos daquele lugar.
Pareciam deslocados da realidade tranquila de Haedam.
Como personagens saídos de algum filme proibido demais para alguém como ela assistir escondida tarde da noite.
Tatuagens.
Botas pesadas.
Correntes prateadas.
Jaquetas escuras impregnadas pelo cheiro de cigarro.
Homens que pareciam carregar problemas no olhar.
E entre todos eles…
Seus olhos encontraram Felix.
Ele não falava muito.
Não ria.
Não tentava impressionar ninguém.
Mas existia algo nele que prendia atenção sem esforço.
Algo bruto.
Perigoso.
Vivo.
Yuna nunca havia visto alguém assim tão de perto.
Sua vida inteira fora cercada por gentileza, rotina e silêncio. Tudo sempre estivera no lugar certo. As pessoas certas. As palavras certas.
Mas aqueles homens…
Pareciam não pertencer a lugar nenhum.
E talvez fosse exatamente isso que os tornava tão difíceis de ignorar.
— Yuna.
A voz de Hana a trouxe de volta.
Sua mãe aproximou-se rapidamente da janela e fechou parte da cortina ao perceber para onde a filha olhava.
— Não encare esse tipo de gente — disse em tom baixo, firme. — Eles não são como nós.
Yuna desviou os olhos por um instante.
Mas voltou a olhar logo depois.
E lá embaixo, como se sentisse o peso daquele olhar distante, Felix ergueu o rosto lentamente pela primeira vez.
Os olhos dos dois quase se encontraram.
Quase.
E sem perceber…
Alguma coisa começou naquele instante.
Aos poucos, Haedam começou a mudar.
Primeiro foram os sons.
O canto tranquilo dos pássaros nas manhãs desapareceu sob o ronco grave das motos atravessando as ruas estreitas do bairro.
Depois vieram os cheiros.
O aroma quente de pão fresco escapando da padaria da esquina agora se misturava à fumaça constante de cigarro e gasolina.
E então veio o silêncio.
As crianças já não brincavam na rua até tarde.
As senhoras recolhiam as cadeiras das calçadas mais cedo.
As janelas passaram a permanecer fechadas durante a noite.
O bairro inteiro sentia.
Alguma coisa havia se instalado em Haedam.
E ela tinha nome.
Felix.
Mas o mais assustador era que Felix não gritava.
Não ameaçava.
Ele apenas… propunha.
Sempre acompanhado de Jim ou Kadu, batia de porta em porta com calma irritante, oferecendo pequenas “colaborações” para manter a paz do bairro.
Um valor simbólico.
Era assim que diziam.
Como se a paz realmente pudesse ser comprada.
Ou pior:
como se dependesse deles para existir.
Na venda de seu Junho, foi Kim quem apareceu primeiro.
Camisa aberta.
Tatuagens à mostra.
Zero paciência para gentilezas.
Junho tentou manter a postura firme atrás do balcão, mas sentiu o sangue ferver quando o envelope vazio foi deixado sobre a madeira antiga da caixa registradora.
Aquilo não era pedido.
Era aviso.
Mesmo humilhado, acabou cedendo.
Não por covardia.
Por sabedoria.
Homens honestos reconhecem quando estão diante de pessoas que não seguem as mesmas regras do mundo.
E Felix sabia disso.
Aos poucos, a gangue se infiltrou em Haedam como fumaça entrando por frestas invisíveis.
O bar da esquina, antes fechado às dez da noite, agora permanecia aberto até a madrugada ao som de música alta, garrafas quebrando e risadas embriagadas.
Os policiais fingiam não perceber.
E quem ousava reclamar recebia resposta rápido demais.
Um pneu cortado.
Uma vidraça destruída.
Um empurrão num beco escuro.
Ou apenas um olhar longo demais vindo da direção errada.
Então o bairro aprendeu a fazer o que cidades pequenas fazem quando o medo chega:
Silenciou.
As conversas diminuíram.
Os cochichos aumentaram.
Os olhos passaram a evitar os cinco homens sempre que cruzavam a rua principal.
Mas havia também outra coisa crescendo entre os moradores.
Curiosidade.
Um tipo estranho de fascínio.
Porque o medo e a atração costumam andar lado a lado quando o caos chega devagar.
E Felix…
Felix apenas observava tudo acontecer.
Sem pressa.
Sem culpa.
Sem precisar provar mais nada.
Como um homem que já sabia, desde o começo, que Haedam acabaria pertencendo a ele.
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