Amar o Caos

2 Sussurros e Escapamentos


A chuva fina começou a cair pouco depois que o sol desapareceu atrás das montanhas de Haedam.

As luzes quentes das casas se acenderam uma a uma pela rua silenciosa, enquanto o vento frio balançava discretamente as placas antigas dos pequenos comércios já fechados.

Dentro da venda da família de Yuna, o cheiro de arroz recém-feito ainda pairava no ar, misturado ao aroma suave de sopa quente e legumes refogados. Tudo parecia igual.

Mas não estava.

Havia um peso estranho naquela noite.

Junho demorou mais que o normal para fechar o mercadinho. Hana mal falou enquanto organizava a mesa do jantar. E até os sons da televisão ao fundo pareciam distantes demais.

Como se a própria casa sentisse que alguma coisa havia mudado em Haedam.

Então o silêncio finalmente se sentou à mesa junto deles.

Sussurros na Mesa de Jantar

Naquela noite, o jantar estava mais silencioso que o normal. O arroz no centro da mesa esfriava sem que ninguém se importasse. Junho mastigava devagar, os olhos perdidos no próprio prato. Hana mantinha as mãos sobre o colo, rígidas, como se segurasse a própria revolta.

Yuna percebia o clima estranho — e sentia o gosto da curiosidade na boca.

— Eles vieram aqui também, não é? — perguntou, numa voz quase inocente.

Junho levantou os olhos lentamente.

Mas Hana respondeu primeiro.

— Não é assunto pra você, Yuna.

— Mas eu vi… aquele rapaz… o do cabelo bagunçado. Ele só entrou na venda. Não fez nada demais.

Junho soltou um suspiro cansado.

— Eles querem dinheiro. Pouco, mas querem. Dizem que é pra proteger os comércios… da bagunça que eles mesmos causam.

— Você vai pagar, appa?

Os olhos dela brilhavam — não exatamente de medo.

Era outra coisa.

Uma curiosidade nova.

Perigosa.

— Por enquanto… sim. — respondeu Junho, engolindo o próprio orgulho junto das palavras.

Hana se levantou abruptamente da cadeira.

— Essa gente não pertence a este bairro. Não são como nós. Vivem como se o mundo fosse deles. São perigosos, Yuna. Entenda isso de uma vez.

Mas Yuna já não prestava atenção completamente.

Porque sua mente voltava para ele.

Felix.

O silêncio pesado.

Os olhos frios.

A forma como ocupava espaço sem pedir licença ao mundo.

Enquanto a voz da mãe continuava ecoando pela cozinha, Yuna desviou o olhar lentamente para a janela.

E então ouviu.

O ronco distante de uma moto cortando o silêncio da noite.

Forte.

Grave.

Quase como um chamado.

Sem perceber…

Yuna sorriu de leve.

Os dias passaram devagar em Haedam.

Mas o bairro já não era o mesmo.

Antes, as manhãs começavam com o sino da pequena igreja ecoando pelas ruas estreitas e o barulho das senhoras abrindo as janelas para regar flores nas calçadas.

Agora, eram os escapamentos das motos que despertavam a vizinhança.

Graves.

Violentos.

Impacientes.

As marcas de pneus começaram a aparecer no asfalto antigo.

Pontas de cigarro ocupavam os cantos onde antes havia vasos de plantas.

E os comerciantes, que antes reclamavam em voz alta sobre qualquer mudança no bairro, agora apenas abaixavam a cabeça quando os cinco passavam.

Era mais fácil assim.

Felix nunca precisou levantar a mão para ser obedecido.

Jim cuidava da intimidação.

Alto, de ombros largos e olhar fixo demais para ser confortável, falava pouco. Mas quando abria a boca, até homens mais velhos perdiam a coragem de sustentar discussão.

Kim era diferente.

Explosivo.

Barulhento.

Sempre procurando motivo para transformar qualquer conversa em briga.

Gostava de rir alto nos bares, desafiar olhares e provocar desconforto só para sentir que controlava o ambiente.

Kadu era o mais calado.

Observava tudo.

Sabia quem pagava.

Quem atrasava.

Quem mentia.

Tinha mente rápida e olhos atentos demais para deixar qualquer detalhe escapar.

Kako era o mais imprevisível.

Num dia sorria para crianças na rua.

No outro, jogava pedras contra telhados apenas para ouvir o som dos moradores assustados apagando as luzes.

E no centro de todos eles…

Felix apenas observava.

Quieto.

Frio.

Como um homem que já havia decidido que Haedam lhe pertencia.


Primeiros Passos no Caos

Naquela tarde abafada, Yuna saiu de casa carregando uma pequena cesta de palha para comprar verduras no mercadinho de dona Marli.

As cigarras cantavam alto entre as árvores da rua principal, enquanto o calor deixava o ar pesado e preguiçoso.

Foi na esquina da antiga barbearia que ela os viu novamente.

Os cinco estavam espalhados pelo batente da construção abandonada, cercados por fumaça de cigarro, latas de refrigerante e risadas roucas.

Pareciam relaxados.

Como se o mundo estivesse exatamente onde deveria estar.

Yuna diminuiu o passo discretamente.

Fingiu ajeitar as verduras dentro da cesta apenas para olhar mais alguns segundos.

O coração batia rápido.

Mas seu rosto continuava sereno.

Curiosa.

Atenta.

Perigosamente fascinada.

Kim foi o primeiro a notá-la.

Um assovio debochado escapou de seus lábios.

Mas morreu rápido.

Porque Felix ergueu os olhos por apenas um segundo.

E isso bastou.

O silêncio caiu entre eles imediatamente.

Não havia espaço para aquele tipo de provocação.

Felix voltou a atenção para Kadu logo depois, como se Yuna nem estivesse ali.

Mapas rabiscados estavam espalhados pelo chão velho da calçada enquanto discutiam novos pontos de cobrança pela cidade.

Negócios.

Rotas.

Dinheiro.

Mas Yuna já não conseguia olhar para mais nada além dele.

O jeito como segurava o cigarro entre os dedos.

A postura relaxada, mas sempre alerta.

Os olhos frios escondendo pensamentos impossíveis de alcançar.

Felix ainda nem a enxergava de verdade.

Mas aquilo não importava.

Porque naquele instante…

Yuna percebeu algo perigoso.

O caos não estava mais apenas nas ruas de Haedam.

Ele começava a crescer dentro dela.