Amar Não É Pecado.
1 Nana e Amy
Notas iniciais
Espero que gostem...
Kisu kisu
- E não nos deixe cair em tentação; mas livrai-nos do mal. Amém. – Levantei arrumei a saia, peguei a mochila e sai do quarto.
- Bom dia mãe.
- Bom dia minha filha. Tome seu café. – Puxou a cadeira para mim.
-Ah, obrigada mamãe. Mas estou sem fome hoje. – Disse baixo já me retirando.
- Sente-se e coma Amélia.
Respirei fundo. Dei meia volta e sentei.
- Onde já se viu. Seu pai trabalha, graças a Deus, para colocar comida em casa e você a recusa.
- Desculpe mamãe. – Encarei o mingau de aveia nada apetitoso a minha frente.
- Sim... Sim. Desculpo. Sorte sua eu ser tão piedosa.
- Sim senhora. Mamãe, Maria vem aqui hoje. Temos trabalho da escola a fazer. Ela pode, né?
Ela pareceu pensar. Fez cara feia. Se sentou me olhou e disse:
- Esse trabalho vale muito?
A encarei assustada. Sempre adorou Maria... O que será que aconteceu?
- Vale sim, senhora. Metade da nota.
- Bem, então pode vir hoje. – Torceu a boca. – Mas no próximo trabalho, faça com a Roberta. A filha da Nora. Ela contribui bem com a igreja.
- Tudo bem mamãe... Mas a senhora gostava tanto da Maria... O que aconteceu? – Agora me preocupei. Maria era minha melhor amiga.
- Ela não te disse? Humph... Também deve estar com vergonha da família. – Fez aquele olhar de superioridade que eu detesto. – A mãe dela se separou do pai. Imagine que horror.
Não acredito nisso... A Ma deve tá arrasada! Tenho que falar com ela.
- Que horror mamãe. Mas porque isso? A tia Laura amava tanto o tio...
- Mas é ele o culpado! Traiu ela com a vizinha.
Estava a cada minuto mais apática com a situação.
- Agora vê se eu vou deixar minha filha ser amiga de uma menina a qual a mãe é uma separada e o pai um adultero.
- Mas mamãe. A culpa não é dela! – Só o que me falta agora ela querer que eu não fale mais com a minha melhor amiga.
- Vai discutir comigo Amélia?
Mesmo não querendo me calei.
- Anda. Não vai para escola hoje?
Levantei e quando ia sair da cozinha ela falou:
- E a benção?
- Benção mãe...
- Deus te abençoe filha. Boa escola.
//
Andando pela calçada podia observar o sol. Ele estava lindo mesmo. Sorri pensando o quanto Deus tinha abençoado esse mundo. Hoje o dia estava gostoso. Por mais que minha mãe tivesse me estressado hoje de manha. Ah, Deus que me perdoe. Mas as vezes minha mãe me irrita.
Tinha que falar com a Ma... Ela deve tá muito triste. Ah, Deus... Cuide dela sim...
Estava pensando quando bato em algo e caio no chão.
-Ah. – Olhei para cima dando de cara com o Davi. Simplesmente o menino mais popular da escola. Eu amava ele!
- Olha é a crente... Desculpa não vi você. – Me deu a mão e me ajudou a levantar.
- I-Imagina... N-Não f-foi sua culpa... – Droga. Eu sempre gaguejava com ele.
- Valeu. – Riu virando e indo embora.
Ah... Ele era um fofo!! Mesmo que assim como os outros, me chamava de crente... Ele não fazia isso com um olhar mau.
Pois bem... Assim eu não me importava. Pois sou crente mesmo! Crente em Deus.
Mas eles só falam isso porque eu não uso essas roupas obscenas... Bem, nem calças... Mas isso é porque eu não quero. E minha mãe morreria.
Bem, estava chegando na escola quando vi Maria. Corri até ela.
- Ma! Ma!
Virou com os olhos inchados para mim.
- Ah Maria... – A abracei forte sentindo a chorar em meu ombro. – Ah, amiga... Relaxa... Vai ficar tudo bem.
- É... Eu sei... Só que é triste né... Mas tudo bem. Vem vamos ao banheiro para eu lavar o rosto.
Quando estávamos andando pelo corredor alguém esbarrou em mim.
- Desculpe. – Disse uma voz rouca e seria, mas ao mesmo tempo doce e carinhosa. – Você tá bem?
Olhei para a pessoa me deparando com um par de olhos verdes pintados com uma maquiagem preta bem forte.
- T-Tudo! – Me endireitei e observei a pessoa melhor. Era uma garota, eu acho. Tinha o cabelo um pouco acima do ombro repicado e azul. Usava uma camiseta social preta bem larga e sem mangas, uma gravata vermelha e uma calça preta cheia de fivelas e um tênis preto também. Fora as varias correntes nos braços e uns anéis.
A olhei feio. Deve ser uma drogada revoltada com o mundo. Sem Deus no coração.
- Tem certeza que não machucou? Você ta fazendo careta... Tá com dor? – me olhou preocupada.
As palavras dela me chocaram um pouco. Primeiro ela parecia não ter percebido que minhas feições não eram de dor e sim de reprovação... Segundo ela parecia realmente preocupada.
Não era que nem hoje de manha quando o Davi trombou comigo e perguntou se eu estava bem por educação... Porque por mais que eu negasse ele não gostava de mim nem nada... Ele era educado.
Agora essa menina... Estranha! Parecia realmente preocupada. O que me irritou um pouco.
- Vem Maria. – Peguei sua mão e a puxei pelo corredor até o banheiro. Não sabia o porque de eu ter ficado tão irritada com a garota. Por mais que ela seja estranha... Estava sendo educada e preocupada comigo.
- Amélia... Quem... O que era aquilo? – Ma me perguntou assustada.
- Não sei... Mas espero que se mantenha afastado! Deus que me livre!
- Amélia! Não diga o santo nome em vão!
- Desculpe. É que me assustei mesmo. – Quem que era aquilo? Bem, sei que não é certo julgar pelas aparências, mas aquilo... Não é normal... Não quero nem ver se minha mãe descobre que uma pessoa assim aqui. Me tira dessa escola na hora.
- Vamos antes que bata o sinal.
Assim que entramos na sala avistei aquele cabelo azul exótico ao fundo. Arregalei os olhos “não acredito que ela está aqui.” Cutuquei Maria para que ela visse também. Ela ficou surpresa mais nada disse.
A tal menina me encarou também, o que me fez sentir um arrepio. Os olhos dela eram muito estranhos. Parecia que tinha eletricidade atrás da retina. Incomodada desviei o olhar me sentando na primeira carteira ao lado da Ma.
O professor entrou cumprimentando a mim e Maria. Sorrimos para ele. O Sr. Ferreira era uma pessoa boa. Ia a nossa igreja. Ajudava como podia. Era bem amigo do papai.
Olhou a sala e torceu a boca. Talvez ao ver o mesmo cabelo azul que eu tinha visto antes.
- Parece que temos alunos novos. Como se chama? Você ai do cabelo...
- Azul. – A voz rouca e doce de antes respondeu. – Meu cabelo é azul. E o nome é Nana.
- Nana? Esse é o seu nome? Me recuso a acreditar. O que esta escrito na sua certidão de nascimento?
Me virei vendo ela sorrir de lado.
-Meu nome é Nana. Queira o senhor ou não. – Quando ele ia contradizer ela o interrompeu. – Nana é um nome em japonês que significa sete.
Olhei para cara do Sr. Ferreira que abria e fechava a boca sem saber o que dizer.
- Pois bem, Ana...
-É Nana.
-Pois bem, sente-se aqui. – Apontou para a carteira ao lado de Ma.
A menina estranha olhou para ele e riu irônica.
- E porque eu faria isso?
- Porque eu estou dizendo para fazer. – A veia da testa dele estava latejando e ele estava vermelho. Parecia que iria voar nela a qualquer momento. – Ou senta aqui ou sai!
Ela sorriu levantou e andou até a carteira, se apoiou nela ficando cara a cara com o professor.
- Só vim porque adorei você viu... – Sorriu para ele o que o fez pular de susto. A menina se sentou ainda rindo.
- Deus que te perdoe. – Sr. Ferreira murmurou indo até o quadro negro.
Olhei para Ma vendo que ela se contorcia tentando chegar mais para cá e se afastar da tal Nana. Ri da cara dela que me fez uma careta de volta.
O resto da aula passava normal. Fazíamos exercícios em silencio.
Ouvi um suspiro e olhei para Ma vendo que escorria uma lagrima pela sua bochecha.
- Má... – Suspirei. Ela me olhou e sorriu triste.
- Não é nada...
Vimos uma movimentação ao lado dela. Era a menina lá, ela procurava algo na mochila.
Tirou de lá um lenço de papel. Virou para Ma e passou o lenço em sua bochecha. Ela pulou de susto chamando a atenção do professor.
- Tudo Bem Maria? A... Ana, esta lhe incomodando?
- É Nana! – A do cabelo azul disse arqueando a sobrancelha.
- N-Não... – Ma disse ainda em choque pela aproximação repentina da menina. – Tá tudo bem professor.
Ele olhou Nana ainda de boca torta, mas abaixou os olhos para o livro que segurava.
- Obrigada. – Ma disse pegando o lenço da mão da menina.
- Imagine. Quando precisar... – Sorriu de lado. – Mas não chora não. Seja lá o que te entristeceu, sempre lembra que tudo passa. E se as coisas ficarem ruins, fazer melhorar só depende da gente....
Ficamos olhando para ela sem entender nada. Ela estava preocupada com a Ma sem nem mesmo conhece-la. Ela sorriu e virou para frente. Ainda a encarei por um tempo... Ela era muito estranha.
Quando o sinal bateu ela se levantou e saiu rapidamente, chamando minha atenção novamente.
- Você viu como ela foi gentil?
- Ah? Ah, é... Estranha né... Nem te conhece e já age assim... – Eu não gostava nem queria gostar dela.
- É... – Pareceu pensar. – Achei ela bem fofa! Quem sabe se a gente levar ela para a igreja o pastor não salva a alma dela e ela fica normal... – Vi seus olhos se encherem de esperança. Mas essa ideia era ridícula. Levar aquilo para a igreja. Minha mãe morria.
- Nem pensar! Tá loca...
- Mas porque...
- Ah Maria para com isso! Vem...
O refeitório estava lotado. Sentamos afastadas, com nossos amigos. Você pode classifica-los em nerds católicos rejeitados pelo resto da escola.
Pois é, mas eu não me importava. Tinha uma vida respeitosa e uma relação boa com Deus. No final quando ele fosse escolher os melhores para ir para o céu não ia ser a Luci aquela loira patricinha e piranha, que se envolvia com todos os homens existentes no mundo, que ele ia escolher.
Bem, sentamos e começamos a comer.
- Vocês viram a aberração que entrou na escola?
Olhamos para Matheus que falava chocado do jeito que a novata se vestia e agia. Todos logo começaram a concordar e falar mau da menina. Gloria até disse que sendo esquisita daquele jeito só tento pacto com o lá de baixo. Credo.
Pensando nela comecei a procura-la pelo refeitório. Pois estava bem interessada em que mesa ela sentaria. Não existiam pessoas daquele jeito na escola. Surpresa percebi que ela não estava no refeitório. Fiquei pensando onde ela estaria quando fui acordada pelo sinal que tocava com aquele som irritantemente estridente.
Agora teria a terrível aula de educação física. Sorri. Há tempos não fazia essa aula. Tinha descoberto um ótimo lugar para mata-la. A noite rezaria o dobro para pagar o preço do pecado.
Mas agora iria me dirigir ao banheiro do 3° piso. Ninguém nunca ia lá. Então era ótimo para, com o perdão do pai, faltar à aula.
Subi as escadas com rapidez e a porta do mesmo jeito. A fechei com um sorriso no rosto. Este que logo se fechou. O cabelo azul e os olhos verdes, que eram de uma eletricidade única, estavam de frente para mim. Bufei.
- Não me surpreende... Sabia que você era dessas... Que ficam... Vadiando por ai...
Riu cínica.
- Pois eu estou bem surpresa... Sua religião permite que você falte à aula? – Fingiu horror.
Como ela ousa falar da minha religião. Me segurei para não voar nela.
- Não fale da minha religião?
- Porque? “Deus” vai me mandar para o inferno? – Ainda fingia horror. Mas depois deu uma gargalhada, me deixando ainda mais nervosa.
- Você não tem respeito nenhum!
-Ah? Faça-me rir. Eu estava quieta aqui quando você entrou me xingando! Agora sou obrigada a ouvir idiotices calada? Ah, vá rezar e me deixe em paz.
Não tive resposta. Pois acontecera isso mesmo. Já entrei xingando ela. Abaixei a cabeça e murmurei um desculpa.
Ela riu e disse que estava tudo bem. Sentou no chão e ficou me observando. Desviei o olhar incomodada.
- Faltando que aula?
- Educação física... Você?
- Matemática. – Fez cara de desgosto. – Odeio matemática.
-Todos odiamos... – Riu.
A olhei reparando realmente nela. Ela era linda, os traços retos, boca cheia, os olhos de um verde profundo e como eu disse antes elétrico, os cabelos azuis caiam muito bem a sua pele branca.
- Gosta do que vê?
A encarei surpresa por ter sido pega no flagra.
-Do que você tá falando? Ficou louca? – Corei na hora.
Ela gargalhou alto.
- Você esta me observando há tempos... Só estou perguntando se gosta do que vê...
Agora eu estava com vergonha. Podia sentir meu rosto esquentar. Mas optei por dar uma de seca.
- Não. Não gostei. Sua mãe não tem vergonha de ter uma filha assim?
Me olhou seria.
- Não sei. Me apresenta a ela. Quem sabe ela te responde.
Abri a boca surpresa. Ela não conhecia a mãe... Por isso era revoltada daquele jeito... Agora comecei a pensar bem no que Maria tinha falado... Quem sabe não é melhor a gente levar ela para a igreja... Porque, pensando bem, minha mãe adora salvar as pessoas do mundo do pecado.
- Sinto muito. Não sabia que você não conhecia sua mãe...
Ela suspirou desviando o olhar.
- Tudo bem...
Plano em ação.
- Mas olha... Não precisa se revoltar por isso. Varias pessoas boas não conheceram nenhum dos pais... Na minha igreja temos um menino assim... Se você quiser...
- OuOuOu... Pode parando... Como assim “não precisa se revoltar com isso”? Quem te disse que estou revoltada com isso?
Ah? Agora que eu não entendi nada...
- Mas você não é revoltada?
- Bem, sou. Mas com a fome na África, com a corrupção... Capitalismo, preconceito... Problemas ambientais... Não com o fato de não conhecer minha mãe... To pouco me fudendo para isso...
Não sabia nem o que pensar... Ela não era uma revoltada sem critérios...
- Mas mesmo assim... Se vestir desse modo e agir assim não vai melhorar nada...
- Me vestir assim? – Me olhou confusa. Mas depois suspirou. – Porque você se veste assim? Só porque sua religião impõe?
- Minha religião não impõe nada. – Fiquei um pouco brava. – Me visto assim por que... Por que... Acho bonito.
- Pois bem, você se veste assim porque acha bonito. Eu também. Gosto dessas roupas. Acho elas bonitas.
Sorriu simpática.
Parei para pensar. É fazia sentido, ela gostava de ser assim. Suspirei. Tinha que admitir, ela era corajosa. Mesmo sabendo que muitos, ou todos, a achariam estranha e não gostariam dela...
Assim como eu fiz. Suspirei novamente.
- Mas então... Como é o seu nome?
A olhei vendo que ela agora sentava mais perto de mim, com um sorriso.
-Ah... Er. – Me afastei um pouco. E quando achei que já estava bom, enchi o peito para falar meu nome. Só que parei. O nome dela era Nana. Um nome japonês, cheio de estilo... E o meu Amélia... Normal, chato.
- Você tem nome, certo? – Sorriu de lado.
Percebi que tinha ficado quieta por um tempo, que vergonha.
- Amélia. – Falei baixo.
- Hum... Amélia... – Disse como se apreciasse a sensação de falar meu nome. – Gostei. Bonito nome.
- Obrigada. –Sorri agradecida.
- Amélia... – Repetiu pensando. – Amélia... Ame... Amy!
Amy? Ah? Do que ela ta falando?
- Amy?
- É... É que eu tenho mania de dar apelidos às pessoas que eu gosto. Por exemplo, eu tenho um amigo que se chama Gustavo, e eu chamo ele de Gusty. Você se chama Amélia... Um apelido bom para Amélia é Amy...
Ah... Ela tinha me dado um apelido. Fiquei meio surpresa. Ninguém nunca me deu um apelido... Bem, me chamavam de crente... Mas não sei se isso pode ser um apelido... Porque eu não gostava... Agora, Amy... É gostei. Só não acho que alguém vá me chamar assim.
- E então, posso te chamar de Amy?
- Pode...
Ela sorriu feliz.
Mas bem, ela disse que apelidava as pessoas as quais ela gostava... Como ela pode gostar de mim se nos conhecemos hoje?
- Você gosta de mim? Mas como... Acabamos de nos conhecer...
- Ah, não sei... Quando se gosta de uma pessoa é assim. A gente gosta e pronto. – Riu. – Sei que acabei de te conhecer. Mas pelo pouco tempo que eu te conheço... Eu tiro que você é uma garota estudiosa, doce, obediente, agarrada a religião, forte, amiga... Gosto de pessoas amigas, doces, fortes... Por isso gostei de você.
Tive que fechar a boca. Estava pasma. Como ela tirou tudo isso de mim em um dia? Nossa.
E o mais surpreendente. Em nenhum momento ela me achou idiota, como os outros. Ou em momento nenhum ela não gostou de mim.
Ela tinha falado e falado de mim... Eu tinha que dizer algo dela ne...
- Bem, desde a primeira vez que eu te vi eu... Eu...
Ela gargalhou.
- Relaxa... Eu sei que você não gostou de mim... Tudo bem... AS pessoas nunca gostam a primeira vista. Mas e agora que a gente conversou? Sei que você ainda não gostaaa de mim... Mas pelo menos não me detesta mais ne? – Riu de novo.
Eu sorri um pouco com as palavras dela.
- É, não te detesto mais.
- Que bom! – Sorriu feliz me fazendo rir.
Notas finais
^^
kisu
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