Amantes de Sangue
6 Capítulo 6 VIRTUS LINEA (A força da linhagem)
Notas iniciais
A mente de Titus alternava entre mentiras e verdades, como um pássaro preso em uma gaiola dourada. Era o homem mais poderoso de Roma, no entanto, bastou Shion adentrar o palácio com suas exigências, ora diretas, ora veladas, para que sua situação se tornasse delicada.
— Preocupado, César?— perguntou Pandora aproximando-se dele como se fosse um felino.
— Shion quer levar Júlia com ele e teve a petulância de insinuar certas coisas. Eu sempre o respeitei como o chefe de uma das famílias mais importantes de Roma, mas confesso que estou com isso atravessado em minha garganta!
— Se me permite uma humilde opinião...
— Fale.
— Ele pode ser importante e poderoso, mas não é o imperador! Ele lhe deve respeito e não o contrário.
Titus olhou-a com admiração, o ego inflado.
— Você tem o dom e elevar-me, minha querida...Em ambos os sentidos.
— Sabe o que eu acho... – disse ela aproximando-se do ouvido de Titus. – Acho que, assim como a filha, Shion pode sofrer um acidente. As estradas são muito perigosas e traiçoeiras... Não se deve deixar um inimigo como ele à solta. Ouvi que ele andou perguntando sobre as suas ações e como tratava Márcia. Um homem como ele tem influência suficiente para prejudicá-lo, meu domini.
O olhar admirado adquiriu um brilho maquiavélico e ele sorriu.
— Realmente, as estradas são perigosas com os rebeldes à solta. Ainda mais depois que as tropas acabaram com o refúgio original. Se pudermos fazer com que pareça um assalto, conseguirei que o senado aprove, integralmente, a moção para que a nona legião parta para a caçada ao gladiador Scorpionis e seu bando!
— Fala com sabedoria e sagacidade, César... — disse Pandora passando a língua nos lábios.
Havia um clima de sordidez e sensualidade no ar. Pandora tomou a mão de Titus e levou-a aos seus seios... Ao senti-los, macios e pequenos, o desejo dele explodiu e a reação dele foi agarrá-la com fúria para beijá-la e tomá-la para si.
Pandora gemeu quando Titus segurou seus cabelos negros, puxando-os para trás, enquanto beijava a pele macia do seu pescoço. Sorriu ao sentir-lhe a ereção e antever o que viria a seguir... No entanto, em meio àquele furor, os dois foram interrompidos pela voz infantil e aguda que irrompeu o ar.
— Vim me despedir, papai. – disse Júlia que estava em pé, séria, ao lado do busto de mármore branco.
Pandora sorriu, friamente... Pirralha irritante! Ainda bem que vou me livrar de você!
— Ah, minha querida... Vou sentir saudades! – disse ela abrindo os braços para abarcar a menina.
Júlia franziu o cenho e nada disse. Desviou do abraço e foi ter com seu pai.
— Adeus, papai.
— Adeus, Júlia. Comporte-se junto de seu avô. – falou Titus sem nem mesmo abraçar a menina.
Fazendo uma reverência, Júlia deixou o aposento e foi ter com Shion.
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Yohma, Aiolia, Mu e Verônica chegaram ao novo refúgio quando já estava entardecendo. No caminho, encontraram Albafica, Aldebaran e El Cid e uma genuína alegria tomou conta do grupo.
As acomodações eram precárias em vista do que tinham antes, mas ao anoitecer, o jantar frugal ainda conservava vivo o espírito de liberdade e igualdade em cada ação. As experiências foram sendo compartilhadas e logo algumas estratégias surgiam em meio à conversa.
— Então Titus está oferecendo espetáculos com mulheres, agora. – disse Kanon bebendo um copo de vinho com mel.
— Sim, e escravizou Shina, colocando-a na arena com outra gladiadora. – falou Aldebaran.
Atento a tudo, Milo estava sério e silencioso, o que chamou a atenção de Camus. Raramente via o amante desse jeito e se não fosse a postura tensa do corpo, diria que ele estava longe dali.
— Um denário por seus pensamentos. – disse o ruivo baixinho.
Milo olhou-o como se tivesse acordado de um sonho.
— Estou pensando... Não gostei nada de saber que meus amigos estão sendo prejudicados por minha causa.
Camus franziu o cenho.
— É isso mesmo que Titus deseja, atraí-lo com estas situações.
Com um suspiro profundo, Milo bebeu o restante do vinho em seu copo. Depois olhou em volta, analisando os atuais acontecimentos. O estoque de comida ainda era suficiente para passar alguns meses. No entanto, logo o inverno chegaria e aquele refúgio, apesar de protegido, seria gélido, quase mortal para velhos e crianças.
— Vou sair. – disse ele, num impulso.
— Como assim, sair? Milo você não está raciocinando direito. Não pode estar pensando em resgatar a Shina, sozinho.
— Quem disse que eu vou fazer isso?
— Seus olhos. E seu corpo.
— Não posso ficar parado aqui como um rato encurralado, Camus.
— Eu sei, mas temos que traçar uma estratégia, antes de qualquer coisa.
— Eu preciso ir até lá. Preciso ver o que está acontecendo. Vou aproveitar esta noite.
Revirando os olhos, Camus aproximou-se do amante, tocando-o na face.
— Acalme-se, gladiador. Pelo que Yohma contou, Shina parece ter desenvolvido alguma habilidade.
— Não é só ela, veja o que aquele maldito fez! Eu... Eu não vou ficar de braços cruzados, Camus. Não vou mesmo!
— Muito bem, então. Antes do amanhecer, você e eu vamos fazer um reconhecimento.
Milo fitou Camus com seriedade e depois, um sorriso.
— Pegou o gosto por lutar, ruivo? – perguntou abraçando-o e mordendo-lhe o lóbulo da orelha.
— Não, apenas não vou deixá-lo fazer isso sozinho.
— Eu sei me cuidar, Camus. Não se force por mim.
Ao ouvir a fala de Milo, foi a vez de Camus voltar-se para o gladiador e olhá-lo bem dentro dos olhos.
— Eu já perdi muito, Milo. Perdê-lo não é e nunca será uma opção. Sei que sabe se cuidar, afinal, você é o maior gladiador de Roma. O que eu quero dizer é que não me permitirei sair do seu lado. Nem hoje, nem nunca. – disse o ruivo.
Todo o corpo de Milo se retesou ao ouvir aquelas palavras. Num rompante, ele puxou Camus delicadamente pelo cabelo, encostando os lábios nos dele. O beijo iniciou lento, com o gladiador enfiando a língua na boca do ruivo por entre seus lábios, até que ambos aprofundaram aquele beijo, entrelaçando as línguas e se consumindo no fogo que jamais se apagava entre os dois.
De repente, Milo recuou, as respirações ofegantes continuando a bailar juntas, misturando-se com o sentimento forte existente entre os dois.
— Não vai me perder, Camus. Nunca.
— Então não tem mais discussão. Vou com você.
O gladiador sorriu e depois balançou a cabeça.
— Creio que a convivência comigo o está influenciando. Está teimoso e passional demais, ruivo.
Camus sorriu e deu as costas ao amante.
— Esteja preparado, gladiador e... se quiser conversar mais intimamente sobre esse assunto, siga-me. – disse ele deixando a casa.
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O amanhecer chegou com nuvens em forma de pequenos riscos brancos sob o céu róseo.
Shion deixara Roma, dirigindo-se a sua propriedade rural, nos arredores do Vesúvio. Júlia dormia encostada ao seu ombro, dentro da liteira que, excepcionalmente, era conduzida por animais e não escravos. Havia, apenas um cocheiro que o nobre pagara para conduzi-lo.
Esse era um detalhe interessante na vida de Shion, um detalhe que o aproximara de Dohko, em sua juventude. Nenhum dos dois apreciava a escravidão, embora tivessem crescido junto dessa prerrogativa. Quando se tornara adulto, tanto Dohko quanto ele tratava os servos com justiça e benevolência. Jamais gostara dos maus tratos ou da humilhação que presenciava em outras casas. Aliás, esse era um motivo de discórdia que tinha com sua mulher e uma semelhança que dividia com Penélope, embora só viesse, a saber, de tal coisa quando a filha morrera no parto e a parteira lhe revelara quem era o pai da criança.
Havia uma umidade no ar, característica daquele lugar, e Shion inspirou, tentando lembrar-se de coisas mais agradáveis, quando ouviu um trotar de cavalos e algo, dentro de si, disparou. O condutor da liteira também sentiu e tentou imprimir velocidade aos cavalos, mas sem sucesso. Um chicote longo atingiu-o no rosto e ele caiu, sendo perfurado com a espada, antes mesmo de saber o que estava acontecendo.
De imediato, Shion acordou Júlia e pegou a espada que colocara ao lado da menina.
— Fique bem quietinha, minha querida... – sussurrou ele à criança que abriu os olhos, sonolenta.
— O que foi, vovô?
— Shiiii... – fez Shion colocando o indicador nos lábios num sinal de silêncio.
Júlia obedeceu e Shion deixou a liteira já com a espada em punho. Havia seis homens com o rosto coberto e espadas muito bem afiadas. Trajavam túnicas de algodão grosseiro e sandálias próprias dos gladiadores.
— Parece que demos sorte e encontramos um nobre! – disse o líder que possuía uma grande falha nos dentes da frente.
— Aconselho a nos deixar passar. – falou Shion com autoridade.
O homem riu.
— Se dá valor à vida, velho. Deixe que aproveitemos um pouco da dama que conduz consigo e nos dê dinheiro.
— Estou com uma criança e não carrego dinheiro. Vou dizer, apenas mais uma vez, deixe-nos passar!
Mais risadas.
Os outros cinco foram se aproximando, cada um parecendo um predador dentro da sua matilha. O líder se parecia com hiena de cara suja e era o que apresentava os dentes incisivos bastante afastados. Os demais se assemelhavam a ele, porém se diferenciavam na estrutura do corpo. Dois eram corpulentos, um era de estatura normal e os demais um tanto baixos, mas com estrutura óssea bastante robusta.
Buscando uma brecha para atacar o nobre e fazer o serviço encomendado, o líder passava a espada de uma mão para outra, fitando Shion com cuidado.
Júlia espiava com medo, mas obediente ao avô, permaneceu escondida na liteira.
Shion apertou o cabo da espada e se preparou. Sabia lutar, embora não exercesse a arte do combate há bastante tempo. Um som de galope chamou a sua atenção e ele viu dois homens a cavalo, um pouco acima do lugar onde agora se encontrava. Estavam encapuzados, mas podia vislumbrar fios loiros e ruivos por debaixo deles e também notara que eles olhavam a cena e já disparavam na sua direção. Rezou para que não fossem mais bandidos.
— Aqueles homens... Parecem gladiadores, mas atacando um velho e uma criança? –disse Milo, enquanto batia com os calcanhares no cavalo para incitá-lo a ir mais rápido.
— São soldados disfarçados. – disse Camus sem nem pestanejar.
— Como sabe?
— Estão vestidos como gladiadores, mas as espadas parecem mais armas de combate que de luta e a postura do corpo é diferente.
Foi então que, em um movimento feito com a espada, Milo percebeu a tatuagem de um deles, embora as vestes tentassem cobri-la.
— A marca dos legionários. Tem razão, Camus. Mas, porque estão atacando um nobre romano?
— Talvez queiram nos incriminar e deixar a população contra nós. – analisou o ruivo.
Milo disparou na frente e quando chegou perto, dois homens atacavam Shion, enquanto um deles retirava Júlia à força da liteira, fazendo-a gritar.
O gladiador desmontou já com as duas espadas em movimento. Um corte profundo no rosto retirou um dos homens de combate, enquanto uma estocada rápida e frontal incitou o outro à atacá-lo, aliviando Shion que lutava, com dificuldade e preocupação com a neta.
Camus foi até o homem que agarrava a menina e chamou-o para a luta. O romano sorriu e quando se deu conta do erro em menosprezar o adversário, já se dobrava sobre si mesmo ao receber o corte preciso do ruivo no ventre.
Em seguida, Camus foi até a menina e estendeu-lhe a mão.
— Venha, está segura, agora. – disse ele sem sorrir, mas com um tom sereno e amigável.
Júlia estendeu a mãozinha, sem deixar de olhar para a espada suja de sangue que Camus carregava.
— Está tudo bem. – disse ele. – Eu vou confessar-lhe um segredo... Também não me agrada esta visão. – emendou olhando para o sangue vivo e embainhando a espada.
Timidamente, Júlia sorriu e encostou-se ao ruivo, como se quisesse agradecê-lo com aquele carinho.
Milo encaminhou-se para os outros três que sobraram, deixando a guarda baixa, um reflexo dos seus tempos de gladiador. Isso os atraiu , porém, ao chegar mais perto e ver cair o capuz que Milo usava, os três arregalaram os olhos e exclamaram, ao mesmo tempo:
— É o Scorpionis!
Um sorriso brincou nos lábios carnudos de Milo.
— Ora, ora... fui reconhecido! Mas que honra...
Shion franziu o cenho, abraçando a neta que tremia e seus olhos fixaram-se no jovem loiro que movia-se com extrema agilidade e rapidez.
Os três legionários gritaram, como se estivem indo para uma batalha e avançaram com as espadas afiadas. Nesse momento, as tatuagens que os identificavam como soldados da Legião ficaram visíveis e Shion compreendeu o que se passava. Então Titus me considera uma ameaça e não hesita em conspirar e mandar matar a mim e a própria filha. Pensou o nobre detendo-se na luta entre Milo e os três legionários.
O gladiador deixou-os avançar e saltou para o lado, descendo uma espada no flanco direito de um e golpeando com a outra, por baixo do braço e por entre as costelas do segundo atacante. Uma imensa mancha vermelha se formou nas vestes improvisadas e Milo empurrou-o com o pé, para então saltar sobre o último deles.
Golpeou o legionário na altura do ombro, abrindo um corte que quase lhe decepou o braço. O sangue vivo jorrou fazendo-o gritar e, sem ter tempo de mais nada, além do olhar agônico, teve a cabeça decepada devido ao golpe violento e certeiro desferido pelo gladiador.
— Pronto! Acabou a festa! – disse Milo.
Shion estava pasmo e, pela primeira vez em seus 57 anos, não sabia o que dizer. Estava frente a frente com seu neto que, apesar do jeito selvagem, possuía o mesmo olhar que sua filha, Penélope.
Está ferido? A pergunta soou longínqua e retumbante. Foi só então que se deu conta que sua túnica aderia-se ao seu flanco direito, revelando uma mancha vermelha e pegajosa.
— Vovô, você está ferido. Não se mexa! – disse Júlia com os olhos cheios de lágrimas.
— Estou... bem, minha querida. – disse Shion tentando manter-se de pé.
— É melhor ouvir sua neta. – falou Camus aproximando-se dele para ver o ferimento.
— Quem é você, velho? – perguntou Milo.
Sou seu avô! Teve vontade de gritar, mas achou por bem não revelar nada naquela situação.
— Meu nome é Shion e esta é...
— Júlia. – disse Milo, reconhecendo a menina.
— Vocês se conhecem? – indagou Shion.
A menina fez que sim com a cabeça e Milo franziu o cenho, tentando compreender o porquê de Titus mandar matar a própria filha.
— Pelo visto você não é bem quisto pelo imperador... Já simpatizo com você, velho. Venha, vamos deixá-los em segurança.
Shion poderia até rir se não fosse a ira se espalhando dentro de si. Titus havia ido longe demais.
— Minha casa fica além daquelas árvores. Fico-lhe grato pela ajuda.
Após algumas horas depois, os quatro chegavam a uma construção sólida e fortificada. A domus ficava no alto e antes dela, pinheiros e outras árvores frondosas ocultavam-lhe a fachada.
Ao chegar junto ao portão que antecedia à entrada, dois jovens vieram receber o seu senhor e mostraram genuína preocupação ao vê-lo ferido. Um deles ficou pálido ao colocar os olhos em Milo.
— Por Júpiter... É...É o Scorpionis!— deixou escapar o mais jovem deles.
— Sim, é o herói de vocês! – disse Shion, enquanto era acolhido pelos servos.
Milo sorriu e Camus observou Shion e a forma que ele olhava para o loiro. Parecia um olhar terno e curioso, algo que só um parente próximo lança a outrem. A constatação do fato fez o ruivo inspirar fundo e ficar atento. Júlia aproximou-se de Camus e tocou-lhe a mão.
— Obrigada por me defender. Agradeça ao seu amigo por mim. – disse ela, tímida.
O gladiador viu que Júlia olhava-o com receio e então abriu um sorriso, ainda maior.
— Não precisa ter medo de mim. Não deixarei que nada de mal aconteça a você ou seu avô.
— Você ameaçou meu pai. – retrucou ela.
Coçando a cabeça, Milo aproximou-se dela e suspendeu-a em seus braços, atirando-a para cima e, em seguida, aparando-a na queda. Júlia gritou, mas em seguida começou a rir e pedir que ele repetisse o ato. O clima tenso foi quebrado pelas risadas da menina e de Milo, assim como pelo olhar de aprovação de Camus e Shion.
Dentro da domus o ambiente era sóbrio, porém requintado. O chão de mármore brilhava, entremeado por um belo mosaico e uma piscina cristalina rodeada de belas esculturas. Havia um arco central dividindo o ambiente e podia-se ter uma vista das árvores do pátio interno, dispostas em um caramanchão parecido com uma cúpula natural.
Os servos acomodaram o nobre e começaram a tratar de limpá-lo e servi-lo de vinho quente com especiarias. Shion aceitou e pediu que servissem também Camus e Milo.
— Ele é sempre assim? – perguntou o nobre à Camus.
— Milo? Como diria Ovídio, ele é “Forte puer corpus animae. Et venustus etiam mortifera, perfectum compositum et seductoria.)
Shion olhou incrédulo para Camus.
— Essa frase... “Uma alma de criança num corpo de guerreiro. Encantador e mortal, uma perfeita e sedutora combinação”. Eu conheci alguém que amava Ovídio e o citava sempre. Como você, sendo um gladiador, conhece Ovídio?
— Não sou um gladiador, sou um professor que aprendeu a lutar. Fui feito escravo muito jovem, mas tive a sorte de ser acolhido por um homem justo e bom. Um homem que acreditava na igualdade e liberdade dos homens e que me fez amar Ovídio, também.
O nobre engoliu em seco. Não... Não podia ser!
— Você está falando de... Dohko? – perguntou ele, sentindo uma fisgada onde um dos servos estava tocando-o para limpar a ferida.
— Sim, o senhor o conheceu?
A palidez de Shion fez com que Camus subentendesse muito mais do que o nobre mostrava.
— Dohko foi o melhor e mais gentil homem que conheci. Éramos amigos íntimos até o meu casamento. – disse o nobre e sua voz soou melancólica.
— Posso fazer-lhe uma pergunta? – inquiriu Camus.
— Faça.
— O que Milo significa para o senhor?
— O que quer dizer com isso? Acha que o desejo, por acaso? Logo eu, um velho? – tentou desconversar Shion.
— Não é desejo que vejo em seus olhos, senhor. Eu vejo amor e me pergunto como um nobre romano pode sentir ternura pelo mais famoso inimigo de Roma.
— É muito perspicaz, ruivo. Deve ser um professor e tanto. Você e Milo são...
— Somos amigos íntimos. – respondeu Camus e Shion sorriu. Amigos íntimos... o sinônimo mais adequado para... amantes!
— Eu gostaria de contar a verdade a ele, mas não sei se farei mais mal que bem. – disse Shion. – Eu mesmo só soube que tinha um neto bastardo, quando a parteira que auxiliou minha filha veio procurar-me para contar, na esperança que eu a pagasse para esquecer o fato. A única que poderia confirmar isso já está morta.
— A mãe de Milo, Marin. – completou Camus, mantendo a serenidade diante daquela revelação.
— Sim, somente a jovem serva de minha filha poderia dizer-me se ele é mesmo meu neto. No entanto, ao colocar meus olhos nele, meu coração soube. Ele é. Posso sentir a força da linhagem nos fios dourados de seus cabelos e no mesmo olhar desafiante de sua mãe. Penélope arriscou tudo por esse amor, cometendo adultério com um escravo e insistindo em ter a criança. Se não morresse no parto, o marido tinha todo o direito de apedrejá-la em praça pública. Os deuses foram piedosos levando-a, antes disso...
Milo brincava com Júlia, mas de vez em quando lançava olhares na direção de Shion e Camus. Não soube a razão, mas sentiu-se incomodado com o jeito que ambos conversavam. Ele já é quase um velho, mas é bonito e tem presença. Parece ser culto e notei que é bondoso com seus servos. Camus está muito à vontade com ele e está sorrindo.
Alguns minutos depois uma das servas tomou Júlia pela mão e levou-a para banhar-se e preparar-se para jantar. Foi então que Milo aproximou-se de Camus e do nobre.
— E então, velho... Já está seguro o suficiente, não? – perguntou o gladiador com um olhar afiado e certo tom de arrogância. – está na hora de irmos embora, temos muito que fazer e, embora você pareça um bom sujeito, ainda é um nobre romano.
Camus franziu o cenho e Shion sorriu.
— Velho? Bem, ser um homem maduro tem as suas vantagens... – disse o nobre batendo de leve, sobre a mão de Camus.
Olhando para Camus, Milo ficou, ainda mais sério, o rosto tenso.
— Pode até ser, mas não pense que isso é lá uma grande vantagem. Na hora H o que conta é dar no couro e não conversas intelectuais. – falou o gladiador fixando os olhos nos de Shion.
— Milo, pare com isso. Vocês dois precisam conversar – disse Camus deixando-os sozinhos.
O gladiador encarou Shion, os olhos como chispas azuis. Os ombros largos e o peito musculoso brilhando sob a luz das velas...
Shion notou-lhe a imponência e o vigor, mas também o temperamento fogoso e irrequieto. Sim, ele era filho de Penélope, não havia nenhuma dúvida.
— Sente-se ao meu lado, Milo. E não se preocupe, Camus é um jovem belo, inteligente e o ama, portanto, nada de ciúmes de um velho como eu. Tenho algo para lhe contar. – disse com simplicidade.
Cuidadoso, Milo deu um passo na direção do divã, onde Shion se apoiava em um dos cotovelos. Algo dentro dele se remexeu, mas assim como Camus aprendera com ele a ser mais enfático em seus desejos, ele também aprendera, um pouco, a dominar seu temperamento.
Olhando para a taça de vinho, Milo sentou-se e bebeu de um gole só, o vinho adocicado.
— Pois bem, o que tem para me contar? – perguntou ele.
— Eu poderia dar voltas para falar-lhe, mas vejo que é impetuoso e direto. Então farei o mesmo. Você tem meu sangue, gladiador e, embora, eu tenha descoberto isso muito tarde, ainda assim quero que saiba ter em mim o avô que fará o impossível para ajudá-lo contra Titus.
As chamas das velas ondularam e, por alguns segundos, Milo ficou sério e olhando para o homem à sua frente. Sentiu-se engasgado e desorientado. Meu avô?Meu avô é este nobre romano?
Levantou-se do divã e andou alguns passos. Depois tornou a encarar Shion e, finalmente, abriu um sorriso largo.
— Eu sou foda, mesmo!
Shion não sabia o que aquilo queria dizer, mas pela expressão de Milo, parecia que recebera a notícia com relativo bom humor.
— Então... permaneça aqui, esta noite. Temos muito que conversar.
— Marin contou-me a verdade, antes de morrer. Ela foi a mãe que conheci e sempre vou reverenciá-la. Prefiro que tudo fique como está, mas fico honrado em saber que tenho um avô fodão como você. – disse Milo estendendo a mão.
O aperto de mão foi forte e Shion sentiu a força do sangue não só no olhar, mas também nas escolhas do gladiador.
— Titus é um homem poderoso e fará de tudo para destruí-lo. Eu sempre o achei ambicioso, mas agora percebo que ele não hesitará e está há um passo de tornar-se um tirano. Tenha cuidado, meu neto.
— Ele pode até sonhar com isso... Mas depois de tudo o que ele já fez e do que acabou de tentar contra você e Júlia. Acho que está na hora de Roma escolher outro imperador.
— Ele tem o senado a seu favor. Será difícil arrancá-lo do poder, mesmo que eu tente provar que ele foi o mandante desta cilada contra mim.
— Bem, que eu saiba, o lugar de um morto é nas catacumbas. Eu o deixei vivo, da última vez. Mas agora, a conversa é outra. – disse Milo.
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