Amantes de Sangue
5 Capítulo 5 SANGUINE MEO! (Sangue do meu sangue)
Notas iniciais
Se o sangue sair de mim,
E com outro se juntar,
Terei um filho.
Não é de mim, nem dela
Que sentirei as dores,
É um outro eu, através do qual:
Conjecturo, rio e choro.
É um outro eu, através do qual,
Amo.
É um outro eu, através do qual,
Gemo com as asperezas da sua vida.
Titus virou-se, no mesmo instante em que ele entrou. A presença dele, ali, trazia uma mal-estar, mas teria de enfrentar a situação com a cabeça erguida e evitar que qualquer vestígio de culpa transparecesse em suas atitudes e palavras. Aproximou-se e o saudou:
— Bem-vindo, Shion. Pena que tenhamos nos reencontrado em tão triste situação. Meu coração está dolorido.
O homem de aparência nobre e altiva, apesar da idade avançada e da tristeza, olhou-o longamente para depois falar.
— Saudações, César. Quero ver minha filha. Passo anos sem ter sequer uma notícia e quando, finalmente a tenho, é para comparecer ao seu funeral.
— Eu sinto muito, meu sogro. Márcia adoeceu e... foi tomada pela loucura. Tentei de tudo, mas... falhei!
O patrício fitou-o com intensidade, depois suspirou. Sua Casa era uma das mais nobres de Roma, mas isso não o livrava das perdas e das dores. Conhecida como a Casa de Áries eram todos descentes dos fundadores de Roma, os lendários Rômulo e Remo. Entretanto, apesar do poder que lhe era concedido, suas duas únicas filhas haviam morrido em circunstâncias trágicas. A mais velha, Penélope, havia morrido no parto, uma situação vergonhosa que a família só viera, a saber, quando era um fato consumado. Agora, a mais nova seguia o mesmo destino.
Ao aproximar-se do corpo da filha, Shion acariciou-lhe a face pálida e fria. Pensou no quanto havia de sua mulher naquele rosto belo e sem vida. Glória havia sido uma mulher inteligente e forte. No entanto, nunca a amara e esse simples fato a tornara silenciosa e amarga. Talvez, por isso, suas duas filhas desejassem tanto o amor, essa emoção avassaladora que ele só sentira com uma pessoa e nunca com a sua, ou qualquer outra mulher.
Quando jovem, amara um homem das letras que jamais aceitou ser a segunda opção e que se tornou celibatário por amor. Jamais o esquecera, mas também jamais quebrara as regras para tê-lo. Sempre colocara o dever e a honra acima de tudo, até de si mesmo. Dohko já deixara este mundo e ele sempre se perguntava se o tivesse escolhido, ao invés do casamento aceito e arranjado por sua família, sua vida poderia ter sido diferente...
Sentia-se velho, apesar de todos dizerem que, aos 57 anos, ele ainda conservava o viço. Não era isso que via em si mesmo, era apenas a teimosia de continuar existindo em um mundo que já não lhe oferecia mais nada, nem mesmo a oportunidade de conhecer o neto bastardo, um homem temido por Titus e por toda a Roma...
— Onde está minha neta? – perguntou ele, enquanto evitava as lágrimas que tornavam aquosos, seus olhos violáceos.
— Júlia está sob os cuidados da escrava Stela.
— Gostaria de vê-la.
— Como quiser, mandarei trazê-la.
Um sinal e o escravo encarregou-se de ir buscar a menina, enquanto Shion continuava em silêncio. Titus tocou-lhe o ombro, depois inspirou fundo e falou:
— Eu estou me empenhando em caçar os revoltosos e fugitivos. Assim que eu conseguir, mandarei erguer uma estátua em honra à adorável Márcia.
Shion encarou-o, de tal modo, que Titus sentiu a garganta secar. Havia algo naquele homem que sempre o deixara desconfortável, era como se ele pudesse ler as suas mais secretas intenções...
— Se quer mesmo honrar minha filha, respeite ao menos o tempo de luto e deixe sua amante fora do palácio. Estátuas não a trarão de volta e homenagens são para aqueles que ainda acreditam na glória.
Titus engoliu em seco, mas não demonstrou constrangimento. Apenas assentiu com a cabeça, deixando-o abraçar Júlia que já corria para os seus braços.
— Vovô!
— Venha, minha pequena... Deixe-me olhar para você.
— Mamãe morreu, vovô! Mas a senhorita Pandora disse que vai cuidar de mim.
— O que acharia de passar uns tempos comigo? – perguntou ele, olhando de lado para Titus e colocando uma entonação na voz que denotava uma ordem velada.
— Eu posso, papai?
Titus concordou e Júlia deu a mão para o avô. Os dois voltaram para junto do corpo e ali ficaram até o término dos rituais fúnebres do dia.
Shion permaneceu sempre vigilante, percebendo os movimentos, os olhares velados e as conversas baixas... Temia que a verdade estivesse sendo sepultada junto com sua filha e todas as conspirações existentes naquele pequeno grande mundo da corte do imperador.
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Todos já haviam se acomodado no refúgio quando a noite chegou, envolvendo a todos em um manto negro e sem luar.
Saga olhava o céu estrelado, sentindo uma imensa tristeza quando Kanon aproximou-se por trás, abraçando-o pela cintura e beijando-o no pescoço. A aspereza da barba que já se insinuava fazendo-o se arrepiar e fechar os olhos.
— Venha descansar um pouco. – disse o general estreitando aquele contato.
— Você fez mais coisas do que eu. É você quem precisa descansar. – respondeu Saga virando o rosto para encontrar os lábios quentes de Kanon.
— Nós dois precisamos. Venha.
Mesmo sem nenhuma vontade de sorrir, Saga buscou consolo no olhar amoroso do irmão. Tocou o rosto cansado, circundado pelos cabelos em desalinho. Sorriu, levando as mãos até as mechas loiras, afastando-as para ver-lhe melhor a face.
— Eu amo você. – sussurrou com paixão. – Se não fosse por você, não teríamos esse lugar.
— Apesar de ter deixado a legião, ainda sou um general e devo pensar sempre em estratégias de defesa.
— Está arrependido? Sei que... Ah, Kanon, eu só te trouxe sofrimento.
— Não ouse dizer isso! Você me trouxe a coisa mais preciosa que existe, me ensinou a amar, acima de tudo. – falou Kanon puxando Saga pelos cabelos, pedindo que o beijasse.
Os lábios do general se apossaram dos de Saga e a língua mergulhou, explorando com avidez todo o interior da boca. O beijo tornou-se profundo e cada vez mais exigente, os corpos ansiando por mais contato. Kanon afastou a boca e abriu os olhos, encontrando o rosto de Saga a centímetros do seu. Ele ofegava e estava, visivelmente, excitado.
— Eu quero você... – disse o senador.
Kanon entreabriu os lábios, num sorriso malicioso.
— Então venha comigo...
Saga obedeceu, deixando que Kanon o abraçasse e conduzisse. A casa dos dois era feita de rocha e madeira. As acomodações eram rústicas, mas nada disso importava. Comprimindo o corpo ardente de Saga contra o peito, Kanon procurou, mais uma vez os lábios dele, mordendo-os enquanto descia as mãos pelas costas até agarrar-lhe as nádegas, puxando-o para mais perto. O calor dos corpos ativaram as ereções que pulsaram juntas, famintas e ambos gemeram baixo, sentindo a respiração ficar entrecortada, antevendo o prazer...
Quando o beijo terminou, Saga começou a despir Kanon, vendo algumas escoriações e manchas rochas da luta contra os romanos. Devagar, olhou a plenitude da nudez do amante, refazendo o caminho pela pele, músculos, detendo os olhos no membro intumescido que denunciava o desejo... Queria tocá-lo, bem ali, senti-lo próximo ao seu falo que também latejava. No entanto, havia sangue e suor no corpo perfeito, máculas da batalha que nenhum dos dois queria para si. Lavaram o corpo um do outro, limpando os vestígios da morte, para celebrar a vida...
— Eu te amo, Saga... – sussurrou Kanon, antes de tomá-lo para si, aprofundando-se no corpo desejado.
Saga ofegou ao sentir a invasão rija e profunda. E quando Kanon moveu os quadris ele tomou-lhe o rosto corado nas mãos e o beijou, projetando-se de encontro a ele, desejando que ele aumentasse o ritmo...
As respirações se intensificaram, as mãos buscaram a carne, apertando-a em desespero e então o orgasmo irrompeu, sacudindo-os como se fossem um só. O sêmen quente espalhou-se nas peles e no interior de Saga.
Abraçaram-se, trêmulos e sorridentes. Naquele instante, ambos flutuavam no prazer compartilhado e esqueciam as dores...
Por alguns segundos, antes que o sono o tomasse, Kanon relembrou as palavras de Io de Scylla: “Morto por um traidor”. Aos poucos, o rosto e a voz do general romano foram evanescendo, enquanto sentia o corpo quente de Saga junto ao seu. Estreitou-o, ainda mais, dizendo a si mesmo, outras palavras: “Tudo o que me importa, daqui para frente, é o amor e a vida daquele que amo...”
Perto dali, a cabana, escolhida por Camus era pequena, porém funcional. Não havia divisões, apenas uma peça grande onde ficava uma lareira rudimentar que tanto esquentava o ambiente, quanto servia para cozinhar, uma mesa, dois bancos feitos de pedra e uma cama baixa coberta com lã e pele. Uma banheira feita de madeira jazia no canto, perto da lareira e era ali que o ruivo estava junto de Milo que esfregava as suas costas com a água aquecida.
A pele alva de Camus exibia marcas arroxeadas e arranhões, resultado do seu batismo de sangue. Milo vertia água sobre elas e beijava cada uma, fazendo Camus fechar os olhos e sorrir.
— Tem marcas de guerreiro, agora ruivo. – disse o gladiador, após beijá-lo na curva do pescoço.
— Prefiro as marcas que você deixa em mim... – murmurou Camus.
— Isso é um convite...? — devolveu Milo levando a mão aos mamilos do ruivo.
Camus lançou a cabeça para trás, num gesto que fez Milo levar a mão forte até seu pescoço e inserir o indicador nos lábios entreabertos, sentindo a língua úmida e quente lambê-lo...
Em seguida, as bocas se uniram com fome sensual e apaixonada, os corpos nus buscando a proximidade das peles...
— Vem, vamos sair da água... – sussurrou Milo.
Os dois deixaram a banheira e Milo puxou Camus contra si e continuou beijando-o com avidez. Os lábios insistentes dele exigiam uma resposta similar, e Camus se rendeu ao ataque, devorando a boca de Milo com fervor. As mãos, o cheiro, a voz sussurrada penetrava em suas veias como um chamado irrecusável, revolucionando seus sentidos, despertando a paixão enlouquecedora que sentia pelo gladiador.
Logo estavam na cama improvisada, nus e tocando-se, ofegantes e desesperados. Milo cobriu o corpo de Camus e continuou com os beijos ardentes, acariciando com a língua cada canto daquela boca que amava beijar. Deixou que o ruivo o sugasse, depois voltou a dominá-lo com a língua que se movia sugando e mordendo os lábios, o queixo e o pescoço. Camus gemeu entre o beijo, erguendo os quadris, apertando-os contra os de Milo, enquanto este lambia e chupava deixando marcas na pele que ficariam ali, aliando-se às marcas da batalha.
Sentindo as unhas de Camus, cravando em suas costas, o escutando gemer enquanto pressionava e esfregava seu sexo duro contra o dele, Milo continuou a deliciosa tortura, descendo com a língua até o tórax do ruivo, fazendo a linha dos músculos perfeitos que estavam cobertos por pequenas gotículas de água, colocando, alternadamente, os mamilos claros entre os lábios, lambendo e mordiscando, enquanto massageava o sexo quente e latejante do outro.
Camus gemeu longamente e abraçou Milo, alisando as costas fortes dele, sentindo os músculos tensos. Abriu as pernas, acomodando-o entre elas... Estava febril... queria que ele o penetrasse, queria senti-lo fundo dentro de si preenchendo-o com aquela paixão selvagem capaz de fazê-lo esquecer das sombras, das dores, da morte...
Esfregou-se num pedido mudo e Milo entendeu o recado, se encaixando com volúpia entre as pernas do ruivo. Com uma mão guiou seu membro para penetrá-lo e com a outra segurou na cintura estreita, erguendo-o um pouco. Não o tinha preparado, temia machucá-lo, mas Camus parecia querê-lo de imediato, cruzando as pernas em volta de seu quadril e o puxando-o para si.
Milo grunhiu alto quando se sentiu afundar de uma só vez dentro de Camus. Respirou fundo, tentando se controlar para não mover-se como desejava, deu um tempo ao amante para que se acostumasse com a invasão abrupta. No entanto, o que sentiu foi Camus remexer-se abaixo de si, acabando com qualquer dúvida sobre o que ambos desejavam. Abraçou-o e saiu um pouco de dentro dele, voltando a penetrá-lo com mais força e vigor. O ruivo deu um gemido profundo, falando rouco ao seu ouvido:
— Ah... Milo...
Milo gemeu e empurrou, se enfiando o máximo possível dentro de Camus, saiu e penetrou mais uma vez, rápido e com força, Os movimentos unindo os corpos com fúria...As bocas entreabertas deixando escapar os sons do extremo prazer que sentiam em pertencer um ao outro. Imerso no calor úmido do corpo do amante, Milo não estava mais aguentando sentia que ia gozar e sabia que Camus não demoraria muito visto a expressão descontrolada de seu rosto.
À beira do clímax, Camus arranhava as costas do gladiador, deixando marcas e sentindo os músculos ondularem sob a pele quente, enquanto ele o possuía. Prendeu as pernas em volta da cintura dele com mais força, puxando-o ainda mais e rebolando contra ele. Cravou as unhas nos ombros dele, arqueou as costas e gozou, sentindo-o se enterrar todo em si, pressionando fortemente o ponto sensível tão escondido, o corpo dele roçando seu sexo com mais intensidade, o atrito prazeroso fazendo sua pele incendiar.
Milo sentiu Camus estremecer e gozar, seu sexo sendo apertado com o espasmo do outro. O sêmen do ruivo molhou seu corpo, o rosto dele em fogo, enquanto gritava seu nome com a voz rouca e cheia de desejo, seu corpo tremendo e o puxando ainda mais para dentro...
Milo não segurou mais e gozou também, puxando Camus para um beijo apaixonado e se enfiando nele até o fundo. O ruivo gemeu entre o beijo intenso, enquanto Milo ainda se movia, esgotando cada gota de seu prazer bem fundo dentro dele. Manteve as pernas em torno da cintura do gladiador, não deixando que saísse de imediato. Aos poucos foram parando de se mover e Camus soltou as pernas, exausto e com o coração aos pulos.
O gladiador se deitou ao lado dele e o ruivo se aconchegou em seu peito. Ficaram em silêncio, abraçados e ofegantes. Camus fechou os olhos, querendo dizer alguma coisa, mas foi vencido pelo sono e cansaço.
Imerso naquela sensação de saciedade, Milo afagou o rosto do homem que amava, ternamente, passando os dedos na pele e nos lábios do ruivo fazendo-o estremecer em meio ao sono. Ficou um tempo, imerso na sensação gostosa de tê-lo junto a si, até desfazer-se, devagar, dos braços de Camus em volta do seu corpo. O movimento fez o ruivo abrir os olhos.
— O que foi?
— Nada... volte a dormir. Eu já volto.
Os olhos de Camus voltaram a fechar-se, o torpor do orgasmo fazendo-o esquecer das dores, obrigações, pensamentos insistentes...
Milo se levantou, o corpo nu, musculoso e firme, ainda quente do amor compartilhado. Sentia uma estranha inquietação, como se fosse um chamado. Olhou para Camus que dormia, profundamente, e sorriu ao notar-lhe o relaxamento. Sabia que não era fácil, nem natural para ele, matar. Mas, ao mesmo tempo, orgulhava-se da força e do caráter do ruivo. Passar por tragédias pessoais e ainda assim, conservar sua humanidade era algo que Camus havia feito e com louvor.
Aproximou-se dele, novamente, e acariciou os cabelos ruivos que se espalhavam como fios de fogo nos lençóis. Mesmo sendo uma carícia suave, Camus abriu os olhos e piscou.
— Aonde vai gladiador?
Milo sorriu.
— Não queria acordá-lo. Estou inquieto.
O ruivo estendeu-lhe a mão e assim que as mãos se uniram, os dois se olharam numa compreensão silenciosa.
— Eu tenho o sono leve. Posso te ajudar com a inquietação? – falou Camus.
Milo o abraçou e o contato com os corpos, ainda nus, os fez estremecer. Os dois riram ao sentir-se, novamente excitados.
— Eu não sei o que você faz comigo. – disse o ruivo fechando os olhos e aproximando os lábios do pescoço do gladiador.
— Faço o mesmo que você, seu ruivo safado. Não venha me dizer que eu sou o único tarado aqui. Olha só isso... – sussurrou Milo passando a língua nos lábios desenhados e levando a mão ao volume, considerável, entre as pernas do amante.
— Se eu fosse supersticioso diria que, além de gladiador, você é um feiticeiro. É você quem me provoca isso... — falou Camus, cheio de tesão, a respiração já alterada.
Milo riu alto, depois tornou a acariciar o membro de Camus, arrancando um gemido contido, porém pleno de luxúria. Nos olhos de ambos, ardendo a mesma chama, o cheiro do sexo ainda impregnando o ar.
As bocas, mais uma vez se encontraram e beberam longamente, uma da outra. Depois, olharam-se, com apaixonada ternura e voltaram para a cama...
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O amanhecer viera acompanhado de nuvens cinza. Yohma conversava, animadamente, com Aiolia e Mu, enquanto Verônica mantinha-se calada. A paisagem composta de campos verdes e árvores baixas produzia uma sensação monótona e relaxante, fazendo-a piscar e adormecer, de vez em quando.
Um cachorro latiu, enquanto eles passavam. Um peregrino maltrapilho pediu esmola e Aiolia atirou-lhe uma moeda. Em determinado momento, Yohma falou algo que Verônica não entendeu. Somente quando ele a cutucou ela percebeu que estava sonhando com os olhos abertos.
— Não foi Verônica? – insistiu Yohma.
— F-Foi o quê? – perguntou ela, esfregando os olhos.
— A gladiadora! Aquela grandalhona musculosa! Não é que ela era forte prá caralho?
— É, ela era. – disse Verônica sem muito entusiasmo.
O garoto fez uma careta, depois olhou para Aiolia e Mu, dizendo:
— Verônica gostou de uma tal de Shina. A mulher era pequena e lutava pior que eu quando não sabia pegar em uma espada.
— Shina?! Descreva-a para mim. – falou Aiolia.
— Pequena, desajeitada e tem o cabelo loiro, meio esverdeado.
Aiolia olhou para Mu. Os dois franziram o cenho, enquanto pensavam no assunto. Gladiadores eram escravos e Shina era uma mulher livre. Titus devia tê-la escravizado novamente, um ato que deixava claro as suas intenções, pois feria as leis e sinalizava que o imperador estava disposto a tudo para atraí-los.
— Vamos, temos que chegar ao novo esconderijo logo. – disse Aiolia batendo com os calcanhares na barriga do cavalo.
Entretanto, quando cavalgavam por uma estrada estreita e deserta, homens saíram de dentro da floresta como uma pequena massa de insetos. Gritavam e brandiam forcados e espadas enferrujadas.
Aiolia desembainhou a espada e Mu também, ficando à frente das crianças. Yohma adiantou-se, mas Mu sinalizou para que ele não entrasse na luta. Verônica ficou observando, mas tocou no pequeno punhal que trazia consigo escondido sobre as roupas.
— Afastem-se! – gritou Aiolia.
Porém, nenhum dos malfeitores obedeceu, então o centurião atacou o primeiro, cortando-o na altura do ombro e colocando-o fora de combate em frações de segundos. Mu deu cobertura ao amante, desmontando do cavalo e atacando com a mesma agilidade que já mostrara na arena. Quem o visse sem a espada, jamais, acreditaria nos movimentos rápidos e mortais que ele executava.
Um a um, todos foram caindo sob o fio dos dois guerreiros, até que um dos remanescentes, que mais parecia um anão, atirou-se sobre Yohma, agarrando-o pela perna. O garoto fez o cavalo empinar, mas ainda assim, o homem continuou tentando derrubá-lo quando Verônica pegou o punhal que carregava e desferiu um golpe certeiro, atingindo o homem no pescoço. O baque surdo do corpo fez notar que não havia mais nenhum homem em condições de atacá-los. Alguns gemiam, outros estavam mortos.
— Vamos! – disse Aiolia embainhando a espada, certificando-se que todos estavam bem.
Mu voltou a montar e Yohma que estava com Verônica na garupa, olhou-a com um misto de admiração e surpresa.
— Você matou um homem! – disse ele.
Verônica tentou sorrir, mas estava trêmula e buscava mostrar entusiasmo, embora sentisse o estômago revirado.
— Vocês estão bem? – perguntou Mu ao se aproximar dos dois e perceber a palidez da menina.
— Nós estamos, não é Verônica? – respondeu Yohma sorrindo.
A menina assentiu com a cabeça e sentiu-se tonta de repente. Mu aproximou-se e a segurou em tempo, quando ela resvalou da garupa do cavalo.
— Está tudo bem... – murmurou ele, carinhoso ao ampará-la em seus braços.
Verônica abriu os olhos, apoiando-se no gladiador. Sentia-se fraca e mal. Tinha vontade de vomitar, mas não tinha nada no estômago para isso. Mu pegou um odre com água e molhou uma tira de pano que trazia consigo. Depois, passou na testa da menina, fazendo-a sentir-se mais aliviada.
— Não precisa se envergonhar pelo mal-estar. Os homens matam, indiscriminadamente, porque a destruição e dominação fazem parte de sua natureza; no entanto, às mulheres foi dado o dom da vida e da nutrição. Cavalgue comigo. – disse Mu colocando-a com facilidade sobre o seu cavalo, de modo que ela ficou na frente, protegida entre seus braços fortes.
Verônica sorriu, tímida e Yohma sentiu uma raiva inusitada daquele gladiador. Carrancudo, o garoto cavalgou em silêncio, enquanto a menina adormecia nos braços de Mu e Aiolia vigiava com especial atenção o restante do caminho...
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Enquanto Albafica não retornava, Afrodite cuidava dos feridos e doentes. Ao levar água e comida, notou que Shura estava acordado e tentava se levantar, porém a dor o fazia retornar ao leito improvisado e gemer baixo.
O centurião quase perdera a vida na emboscada tramada pelo próprio imperador e feita pelos homens que já liderara em inúmeras batalhas. Agora ali estava, sendo tratado pelo homem que mexia com as suas emoções e que sabia amar outro homem. Homem este que o salvara e isso só aumentava o desconforto que sentia.
Afrodite havia cuidado de Shura durante a noite em que ele ardera em febre. Cauteloso, deslizara a mão sobre a face do centurião, afastando os cabelos negros da fronte ferida e limpando bem com água fria. Todos os ferimentos haviam sido tratados e a febre baixara, consideravelmente.
— Obrigado por cuidar de mim. – disse ele ao notar a presença de Afrodite.
— Não tente fazer esforço. – respondeu o loiro. – Precisa se alimentar um pouco e recuperar as forças.
Shura juntou forças até conseguir erguer o tronco e sentar-se, ignorando a dor e a tontura. Sua face estava pálida e suada, mas mesmo assim ele aproximou as costas da parede.
— Deve saber o que eu vim fazer, não é? – indagou ele encarando o olhar incisivo de Afrodite.
— É um centurião romano, portanto sua lealdade deve pertencer à Roma. No entanto, ajudou-nos em outra época, o que o tornou um traidor. E, mesmo que ninguém tivesse descoberto, ainda assim você se sentiria culpado... O que me leva a considerar que, inicialmente você veio à mando do imperador, mas tinha a esperança de encontrar-se com o general Kanon e mudar de lado.
O centurião não respondeu, ficou encarando Afrodite de forma intensa e sentindo as dores se intensificarem até fazê-lo cerrar os dentes. No entanto, ainda assim, sorriu depois de um tempo.
— Sempre sagaz... Você me lembra o próprio Titus. – disse Shura deitando-se novamente e fazendo uma careta de dor.
Indiferente ao sofrimento de Shura, Afrodite sentou-se ao seu lado e buscou a bacia com água, retomando seu paciente ritual de limpeza dos ferimentos. A água tingiu-se de vermelho ao primeiro contato com o pano, mas logo o sangue estancou e o loiro refez o curativo no tórax musculoso.
— Ficou ofendido com a minha comparação? – perguntou Shura, vendo que Afrodite permanecia calado.
Afrodite buscou acalmar-se antes de responder. Quando se sentiu pronto, elevou os olhos e sorriu sarcástico.
— Dizem que a geração seguinte supera a anterior. Titus é um tirano sedento de poder que só faz merda, então significa que eu poderia ir além e realmente fazer algo de útil se tivesse a chance!
Shura franziu o cenho, tentando entender a colocação de Afrodite quando Máscara da Morte entrou e olhou-o sorrindo.
— Então, centurião... vejo que já está acordado e pronto prá outra.
— Graças a você e Afrodite. – falou Shura.
— Fico feliz em saber. Saiba que só está vivo, porque ajudou Afrodite e lhe sou muito grato por isso. Embora eu tenha a curiosidade de entender o porquê...
O centurião começou a tossir e Afrodite acomodou-o, enquanto Máscara lhe alcançava um pouco de água. A mão macia de Afrodite tocou na fronte de Shura e uma mancha avermelhada insinuou-se nas ataduras, novamente.
— Vamos deixá-lo descansar. – disse o loiro, percebendo que Shura fechava os olhos, evitando olhá-lo. – Ele está febril e o esforço só vai piorar tudo.
Máscara concordou e os dois deixaram o aposento.
No exato momento em que a porta se fechou, o centurião abriu os olhos e ficou olhando o teto. Teria que fingir e encontrar outra desculpa para os seus atos, senão, fatalmente, seria levado ao confronto com o gladiador.
Em meio às dores, pensou na resposta de Afrodite: “Dizem que a geração seguinte supera a anterior. Titus é um tirano sedento de poder que só faz merda, então significa que eu poderia ir além e realmente fazer algo de útil!” e, de repente, a verdade surgiu frente aos seus olhos cansados. O loiro possuía uma altivez e uma inteligência semelhante ao imperador, assim como Albafica, seu irmão, era muito parecido com Titus quando mais jovem. Que Júpiter ilumine minha mente e fulmine meus inimigos! Esses dois são filhos bastardos dele e mesmo assim, ele vai caçá-los até destruí-los!
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