Amantes de Sangue

4 Capítulo 4 EXODUS!


Notas iniciais
Demorou um pouco, mas aí está, mais um capítulo. Obrigada , Tuany, por ter me enviado uma MP! Bjs, lindinha!

Nápoles, tarde dos jogos...

Violate segurava a espada com firmeza, o olhar agudo e atento, a expressão de quem doma o medo ao seu favor. Ao seu lado, Shina cerrava os dentes e tentava não tremer. Porém, quando o portão se abriu e ela viu a pequena arena lotada de todos os tipos de rostos foi tomada pelo pânico. Vou morrer! Pensou, deixando cair a espada.

— Pegue essa espada e pare de tremer! Vou estar com você e espero que, ao menos, você demonstre um pouco de coragem! – disse Violate.

Unidas por algemas de ferro, as duas eram a atração do dia e esperadas na cidade como uma exótica atração que o imperador oferecia.

— E-Eu não sei e não quero lutar!– falou Shina com lágrimas nos olhos.

— Escute aqui! E escute bem! Você pode escolher entre morrer com honra ou sem ela. Esse será o seu teste final! Se passar daqui, eu mesma a deixarei tão forte que nem você mesma vai se reconhecer.

— Eu sou uma mulher livre! Não quero dar espetáculo para esses animais!

— Acorde, garota! Você não é mais livre, é uma escrava! Aceite isso até o dia em que possa ser livre, novamente.

Shina olhou para Violate com lágrimas e ódio. Sentia a garganta apertar e o estômago doer. Não queria e nem sabia lutar, mas não queria morrer assim, não em uma arena e coberta de sangue. Lembrou-se das palavras de Saga e do dia em que ele libertara todos os escravos da sua casa. Sabia que, em algum lugar, ele construíra o sonho de uma sociedade igualitária e sem escravidão. Desejava, do fundo do seu coração ver algo assim de perto. Respirou fundo e olhou para as algemas e correntes. Então encarou Violate e falou:

— Eu sempre serei livre.

Violate olhou-a e depois para a arena que já fervilhava. Tocou na faixa que trazia amarrada à coxa e apertou, novamente, o cabo da espada com força. Como era de praxe, tinha um dos seios descobertos e o outro ocultado por uma faixa presa na diagonal.

Shina vestia uma túnica curta, mas recusara-se a deixar os seios à mostra. A faixa amarrada à coxa parecia queimar a sua pele, uma lembrança dolorosa de ter sido escravizada, novamente.Porém, por mais que a odiasse, não havia escolha, nesse sentido. Aquele pedaço de couro, aliado à marca feita com ferro em brasa a identificava como gladiadora da ludus do imperador e agora ela percebia que a razão de estar ali era para ser um chamariz, uma forma de atrair os gladiadores da Casa de Gemini.

O governador de Nápoles anunciou a luta e as arquibancadas de madeira balançaram sob os pés dos espectadores.

— Vamos! – disse ela à Shina. – Está na hora de mostrar do que somos capazes. Fique ao meu lado e defenda-se. Deixe os ataques comigo!

Quando as duas entraram na arena, o público se levantou. Homens gritavam obscenidades e mostravam os genitais, algumas mulheres riam, outras aplaudiam e incentivavam com palavras de ordem. Ao todo, era uma massa uniforme de gente que buscava, nos jogos, aplacar as emoções e a desgraça social em que se encontravam.

O sol estava alto e queimava a pele, mas mesmo assim a arena estava lotada. As adversárias de Violate e Shina eram duas mulheres vindas de Cartago, uma província romana na costa africana. Altas, esguias e de temperamento guerreiro, elas usavam a lança e o tridente, parecendo duas deusas de ébano cuja pele reluzia à luz do sol.

Violate reconheceu nas duas, a fibra e a força, porém também combatera por seu povo e não estava em seus planos, morrer ali, embora estivesse unida a uma mulher frágil e que não sabia combater.

— Fique perto de mim e defenda-se! Lembre-se disso. – falou ela.

Shina nada disse, mas arregalou os olhos quando uma das mulheres, que usava o cabelo preso em um rabo de cavalo no alto da cabeça raspada avançou com a lança, tirando um fininho do seu rosto.

— Defenda! – gritou Violate, enquanto tentava chegar mais perto da outra adversária.

Tremendo, Shina se encostou às costas de Violate. Seu coração estava disparado e ela ofegava, já no início da luta. A gladiadora franziu o cenho e teve vontade de gritar um palavrão, porém por algum motivo que nem ela mesma entendeu, resolveu falar de forma mais suave.

— Respire fundo e devagar. Deixe que se aproximem e me dê cobertura para atacar. Vamos atraí-las para nós e não o contrário.

Shina obedeceu e, estranhamente, sentiu funcionar o conselho dado por Violate.

A mulher tatuada no rosto atacou junto com sua companheira, cujo cabelo no alto da cabeça raspada lhe dava um ar selvagem e perigoso. Violate defendeu e usou o impulso do corpo para lançar-se sobre a adversária, fazendo-a recuar. Com este movimento, Shina foi levada junto e como se tivesse combinado, estocou de forma desajeitada com a espada, mas ainda assim fez a outra mulher também esquivar-se do ataque.

Violate quase sorriu, porém tinha que agir rápido e acabar com aquela luta, logo. Saltou com os dois pés unidos no peito da adversária tatuada que caiu. No ato, a gladiadora fez com que Shina viesse junto, sentindo o tranco no braço, mas como estava assustada, esse fato não foi suficiente para fazê-la parar. Por instinto, quando foi levada junto, aterrissou com os pés próximos ao rosto da mulher caída.

— Chuta a cara dela! – gritou Violate.

Ofegante, Shina obedeceu e um jato de sangue espirrou do nariz quebrado da mulher caída. A outra, vendo que a companheira estava em dificuldades, partiu para cima de Shina que tentou defender o ataque, mas o tridente conseguiu furar seu bloqueio e raspou-lhe a coxa, fazendo-a gritar de dor.

Violate levantou-se com rapidez e usou a espada para afastar a mulher com o tridente, porém como Shina cambaleava, tornava difícil o seu movimento.

— Mantenha a postura! – gritou ela para Shina.

Com o sangue escorrendo da coxa ferida, Shina apertou o cabo da espada e obedeceu. Com isso, deu a chance para que Violate atacasse, primeiro a lutadora que sangrava pelo nariz. Ela viu que a mulher estava com raiva, mas ainda assim atacava, então fez uma manobra inusitada, deitou-se no chão no momento do ataque e moveu a espada em um semicírculo, arrancando um seio e, em seguida, cortando-a no flanco direito. Mais uma vez o sangue jorrou e a plateia aplaudiu e gritou, ensandecida.

Shina estava respirando pela boca, suada, ferida e ofegante. Mas, ao ver o golpe de Violate, sentiu uma força dentro de si que desconhecia, Gritando, ela também lançou-se sobre a mulher tatuada que, por alguns segundos, olhou para a companheira que caía morta. Foram esses segundos decisivos que Shina aproveitou, conseguindo ferir a guerreira no ombro e, quando ela reagiu, Violate já estava próxima e, com um grito de guerra, saltou e decepou-lhe a cabeça, fazendo-a voar num espetáculo macabro onde os fios de cabelo, presos no alto, moveram-se se executassem uma dança...

Escondidos embaixo das arquibancadas, Yohma e Verônica assistiam a luta das mulheres. Os dois estavam há um dia em Nápoles, esperando a chegada de Mu e Aiolia. Quando souberam que haveria espetáculo, trataram de se infiltrar entre o público adulto e agora presenciavam a vitória de Violate e Shina.

Verônica estava com os olhos brilhando, fascinada por ver a luta das mulheres. Yohma percebeu-lhe o olhar e comentou:

— Essa Violate é foda, heim?

— Ela é forte, mas a outra também ajudou bastante. – respondeu ela, com uma visível admiração por Shina.

— A outra não sabe lutar.

— Sabe sim! Ou está aprendendo, eu acho.

Yohma ficou sério, depois deu um meio sorriso, compreendendo um pouco do universo feminino, através de Verônica. Ela era forte, mas magra. Natural torcer por uma lutadora parecida consigo mesma.

— Tá, você tem razão. Agora vamos, precisamos ir até a fronteira e esperar.

Verônica assentiu com a cabeça e deu uma última olhada para a arena. Era livre, mas um dia sonhava ser uma grande guerreira e quem sabe, apresentar-se nos jogos e ser tão aclamada quanto a tal Violate.

0000****0000****0000

A fumaça negra se elevava do acampamento romano e também do refúgio que outrora abrigara a tão sonhada comunidade que Saga construíra. Olhando para trás, aqueles homens, mulheres e crianças que haviam vivido ao lado dos gladiadores choravam e lamentavam. Kanon, Máscara da Morte, Milo, Camus e Hyoga juntaram-se ao grupo algumas horas depois e marchavam em silêncio na direção do lugar secreto que Kanon fizera questão de construir. Como um bom general romano, Kanon sempre pensava em estratégias de segurança e locais que poderiam ser usados caso fosse descobertos.

Ao chegar a uma encosta íngreme que levava até uma garganta fechada em meio à montanha, Kanon parou e dirigiu-se ao grupo:

— A passagem aqui é estreita e perigosa. Subiremos por um caminho árduo e acidentado. Por isso, fiquem em grupo e ajudem as crianças e os mais velhos. Eu e Saga estaremos um pouco mais à frente para verificar se houve modificações com o tempo. Se mantivermos o ritmo, chegaremos ao cair da tarde.

Houve murmúrios e alguns vivas. Afrodite olhou para a carroça onde Shura era carregado. Ele estava desacordado e se debatia, sinal que estava febril. Com cuidado, pegou um pedaço de tecido limpo e molhou-o com água retirada de um odre que carregava. Colocou-o sobre a testa do centurião e tornou a olhar para trás, sentindo um alívio ao ver Máscara da Morte.

— Ainda bem... – disse ele abraçando o gladiador quando este se aproximou.

— Estou aqui, tudo vai se ajeitar. – falou Máscara acariciando o belo rosto que mostrava sinais de cansaço.

Quando o sol se pôs, entre os vales, o grupo chegou ao esconderijo. Havia acomodações para todos, embora sem a infraestrutura do refúgio original. O terreno oferecia uma proteção natural das altas paredes de pedra, mas também os isolava dos recantos abertos e dos rios que pertenciam às planícies abaixo dali.

— Bem, chegamos! As casas maiores abrigarão as famílias e as menores, os casais e solteiros. A água disponível, por enquanto está em um poço central que fica ali. – disse Kanon apontando para o local. – Amanhã, faremos um reconhecimento das redondezas e montaremos um sistema de vigilância com os homens montando guarda dia e noite. Esse lugar será provisório, no entanto, por enquanto é o lar que temos e eu espero que todos colaborem. – falou Kanon.

Saga aproximou-se do irmão. Estava abatido, mas sabia que esperavam que também falasse.

— Eu, assim como vocês, estou terrivelmente triste com tudo o que aconteceu. Alguns de vocês perderam seus familiares, suas posses... Só posso dizer que me solidarizo com a situação e prometo pensar num modo de aliviar esse sofrimento.

O pai de Misty levou as mãos ao rosto e chorou, sendo amparado por duas mulheres mais velhas. Sentia-se humilhado por seu filho ter estado com os romanos, mas a dor da perda também era grande. Milo aproximou-se dele e tocou seu ombro.

— Quando Shura se recuperar, saberemos o que houve com Misty. Mas tenha ele feito ou não alguma coisa, daremos um enterro decente a ele. – disse o gladiador.

O velho beijou as mãos de Milo, as lágrimas saltando dos olhos esbranquiçados.

— O-Obrigado, meu senhor! Obrigado.

— Não faça isso... – disse Milo.

Camus deu um pequeno sorriso ao ver seu amado consolando o homem. Era fascinante a forma como Milo podia ir de um extremo ao outro. Era implacável e mortal com seus inimigos, mas gentil e generoso com as crianças e os velhos.

— Eu o ajudarei a buscar o corpo dele. – disse o ruivo olhando nos olhos do amante.

Milo sorriu.

— Parece que ficamos animados, após a luta. Estou gostando de ver, ruivo!

O rosto de Camus ficou corado e ele tentou sorrir, embora estivesse cansado e preocupado com a nova situação. Sabia que os romanos prosseguiriam a caçá-los e que era, apenas, uma questão de tempo até o embate final.

— Eu quero me lavar. – disse Camus.

— Vem... Vamos nos instalar e depois eu te ajudo a lavar esse corpo... – falou Milo com um tom malicioso.

As construções eram pequenas cabanas feitas de madeira, aproveitando algumas pedras naturais do lugar, o que as tornavam construções híbridas com os quartos diferenciando-se das cozinhas de pedra que possuíam fornos para assar carnes e pães.

Aos poucos, todos foram se acomodando e o novo refúgio não lhes pareceu tão mal assim. Shura foi levado para a casa do pai de Misty e o velho ocupou-se de cuidar dele, com a ajuda de Afrodite, já que Albafica, El Cid e Aldebaran estavam em viagem também.

— Vocês pensaram em avisar seu irmão também? — perguntou o velho.

— Os três passarão disfarçados por Roma, diferente de Aiolia e Mu que irão até Nápoles. Albafica faz questão de visitar Shina e o marido e certamente, será informado do que aconteceu. Os três sabem deste refúgio, pois ajudaram a construí-lo. – respondeu Afrodite.

— Muito bem... – disse o velho suspirando. – Oremos a Júpiter para proteger a todos.

Afrodite inspirou fundo e fez menção de levantar-se quando Shura abriu os olhos e segurou-o pelo braço.

— Obrigado... – disse ele com uma voz baixa e rouca. – Por favor... diga à Máscara da Morte que lhe devo uma.

— De nada, centurião. Estamos devolvendo a gentileza com que nos tratou em Roma. Agora descanse. – disse o loiro.

Shura assentiu e fechou os olhos. Sua mente estava povoada de imagens que pareciam tão reais que ele não conseguia distingui-las da realidade. A única coisa que o trazia para o presente era o olhar dele, Afrodite. Mas até isso se tornava doloroso quando percebia a relação dele com Máscara da Morte. Ele o ama e é, igualmente, amado...

O velho pegou um odre com água e colocou nos lábios ressequidos de Shura.

— Beba e durma, meu jovem. Daqui para frente, precisaremos de boas espadas. Quando se sentir melhor, quero que me fale sobre o meu filho.

O olhar febril do centurião encontrou o do velho.

— Seu filho... Ele... Ele foi uma vítima. Os soldados o prenderam, mas ele nada falou. Ele não traiu ninguém...

O velho derramou mais lágrimas ao ouvir a fala do centurião e Afrodite olhou para Shura, percebendo que ele havia dourado a situação. Admirou-lhe a sensibilidade em oferecer a um pai envelhecido uma última imagem heroica de seu filho. Desde que o conhecera, vira naquele homem uma generosidade e honra sem igual. Sorriu quando ele olhou em sua direção e agradeceu-o, em silêncio.

0000****0000****0000

O palácio estava silencioso até a chegada das carpideiras. Os longos corredores pareciam ainda maiores e frios. O mármore branco do piso refletindo os bustos e esculturas de Titus e o som dos passos, ora pesados, ora leves criavam uma monótona sinfonia que se unia aos choros e lamentos.

Abraçada à Pandora, Júlia chorava e era consolada por palavras carinhosas e falsas. Márcia havia morrido em um terrível acidente que deixara órfã, a filha de saúde frágil e viúvo, o homem mais poderoso de Roma.

— Não chore, eu cuidarei de você. Sua mãe partiu, mas eu estou aqui. – murmurava ela.

A menina soluçava enquanto o corpo de sua mãe era preparado para o funeral. A imperatriz havia sido encontrada morta, com o pescoço quebrado, nas escadas do palácio. Ao seu lado jazia uma ânfora estilhaçada, o vinho derramado... Diante do que sabiam acontecer todos os dias, todos acreditaram que ela caíra por estar bêbada. Somente Pandora sabia da verdade...

Aquela noite, Pandora estivera nos aposentos do imperador. Ele a beijara, segurando seus cabelos e a possuíra com fúria. E, na medida em que se movia dentro dela, sussurrava um nome que ela não conseguia entender, mas também não importava.

Enlaçou-o com as pernas e o trouxe para mais fundo dentro de si e quando ele estremeceu, contendo um urro de prazer, Márcia adentrou o aposento e começou a gritar:

— Seu animal adúltero! É por isso que não me procura mais! Prefere a boceta dessa vadia que já se deitou com metade de Roma! Como ousa?! Eu sou sua esposa!

Titus levantou-se e a expulsou, ordenando que ficasse em seus aposentos. Ela reagiu, estapeando-o na face, deixando as marcas de seus dedos, até que ele também a agrediu com força, fazendo-a cair sobre o busto esculpido em bronze.

Márcia ficou imóvel, os olhos abertos... Titus foi até ela, constatando que ela não respirava. Atordoado, tentou reanimá-la, mas em vão, ela batera forte com a cabeça e quebrara o pescoço na queda.

— Eu a matei... – murmurou ele.

— Deixe-me ajudá-lo, César! Vamos levá-la para a escadaria e fazer com que pareça um acidente.

Titus olhou-a com o cenho franzido e então ela o beijou...

— Será menos um obstáculo em sua vida, meu senhor... Ela não era digna de um imperador, não permita que ela o destrua. Quando trouxer a cabeça de Scorpionis e de todos os rebeldes, será considerado o maior governante que Roma já teve!

O imperador concordou e a cena do acidente foi armada. A escrava pessoal encontrara a senhora caída e tudo aconteceu dentro do previsto.

Os senadores e nobres adentraram o salão onde Márcia permanecia exposta para ser homenageada. O corpo, cuidadosamente preparado, vestia as cores da realeza e a serenidade da expressão de seu rosto não denunciava a dor e violência que sentira. Ela parecia adormecida e em paz...

Pandora cuidava de Júlia e mantinha uma atitude contrita, enquanto sorria por dentro. Titus olhou-a com cumplicidade e então tornou a receber os pêsames pela morte da esposa. Agora, os dois estavam ligados por aquele segredo e Pandora iniciava sua jornada em direção ao poder...

0000****0000****0000

Finalmente, após um dia de viagem, Aiolia e Mu alcançavam o longo caminho que levava à Nápoles serpenteando junto ao rio que indicava as fronteiras da cidade.

O céu claro se mostrava com algumas poucas nuvens e o calor havia afugentado a maioria das pessoas. Yohma e Verônica cavalgavam devagar, degustando um pedaço de pão roubado em uma das feiras próximas da arena. A estrada se alargava, agora e as planícies de pastagens mostravam algumas ovelhas.

— Veja, ovelhas! – disse Yohma. – Vou pegar uma e...

— Não vai pegar coisa nenhuma! Não podemos chamar a atenção. – rebateu ela.

— Não me diga que não está com fome. Por isso é magra desse jeito.

Verônica fechou o semblante e desmontou.

— Ei, aonde vai? –falou o garoto.

— Vou andar um pouco prá não ouvir as suas bobagens e insultos!

Yohma bufou, depois bateu com os calcanhares na barriga do cavalo pra afastar-se dela. Verônica correu atrás e ele riu, deixando-a, ainda mais furiosa. Até que ela parou e ele afastou-se mais que devia. Quando se deu por conta, ela tinha sumido.

— Verônica! – chamou ele, agora preocupado.

Alguns metros atrás, Verônica deparava-se com dois sujeitos malvestidos e com aparência grotesca, acentuada pela sujeira na pele e nas vestimentas.

— Ora, ora... O que temos aqui? – disse o homem atarracado e que possuía uma falha em meio aos dentes. – É magra, mas até que tem um rostinho bonito.

Verônica encarou-o com agressividade e as lembranças desagradáveis do padrasto abusivo despertaram com violência.

— Se quer conservar essa sua cara feia, fique aí mesmo, seu idiota! – disse ela sacando de um punhal que trazia por dentro das vestes.

— Olha só, a tigresa tem garras! – falou o outro que era mais esguio, porém igualmente sujo.

Os dois sorriram e se aproximaram quando ouviram o galopar de um cavalo. Yohma viu os homens e olhou para Verônica, compreendendo a cena.

— Deixem-na em paz! – gritou ele.

O homem atarracado soltou uma gargalhada.

— Que dia mais feliz! Eu consegui uma boceta virgem e você, um rabo apertadinho, meu irmão. Faremos a festa nós dois, do jeitinho que gostamos.

Yohma puxou as rédeas e seu cavalo empinou. Quando desceu as patas, o fez próximo do homem que acabara de falar, enquanto Verônica aproveitava a distração do outro e o chutava nos genitais, aproveitando que ele se dobrara e caíra para pisar nele, tomar impulso e aterrissar junto à Yohma que lhe estendeu a mão fazendo-a montar em sua garupa.

— Vamos embora, agarre-se em mim! – disse o garoto batendo forte com os calcanhares na barriga do animal para que ele corresse.

Xingando e fazendo gestos obscenos, os dois homens ficaram para trás, envoltos numa nuvem de poeira.

Quando estavam em uma distância segura, Yohma voltou-se para Verônica que se mantinha em silêncio. A intenção de falar alguma coisa se perdeu quando ele viu a dor nos olhos dela. Algo se remexeu em seu peito e deu-se conta que sentia ódio pelo que aqueles homens tinham feito.

— Quer parar um pouco prá descansar? – perguntou ele.

— Não. – a resposta seca tentando encerrar os questionamentos do garoto.

Antes que Yohma pensasse em outra coisa para dizer, os dois avistaram dois homens a cavalo e, apesar do manto que encobria as cabeças, reconheceram aqueles a quem tinham vindo avisar.

— São eles! – disse Yohma.

Verônica suspirou de alívio e emendou um sorriso que mais parecia uma careta.

— Missão cumprida. – disse ela e Yohma sorriu também, indo na direção dos dois cavaleiros.

0000****0000****0000

Aldebaran, El Cid e Albafica chegaram à Roma ao anoitecer, como sempre faziam. Em meio à multidão que se recolhia às suas casas, eles passavam despercebidos e assim, Albafica podia visitar Shina e ser colocado a par dos acontecimentos.

No entanto, ao chegar a casa simples, os três se depararam com uma palavra escrita em vermelho: Proditorum! *(traidores)

Albafica franziu o cenho e olhou para El Cid.

— Traidores? Mas o que aconteceu aqui?

— Eles foram presos, meu senhor! – falou uma voz infantil que carregava um cesto de vime com algumas frutas murchas.

Albafica olhou para o menino maltrapilho e com um olhar vivo.

— Foram presos por quê? Você sabe?

— O imperador mandou caçar e prender todos os simpatizantes do gladiador Scorpionis. Mesmo os livres, ele os escravizou de novo. Alguns reagiram e foram mortos. O senhor Gnaeus e a senhora Shina foram levados pelos soldados.

El Cid e Aldebaran se olharam, enquanto Albafica se abaixava para ficar no mesmo nível do menino.

— Eles foram levados para a prisão central?

— O senhor Gnaeus sim, mas a senhora Shina foi levada para a Ludus Maxima. O imperador tem gladiadoras, agora. Embora eu ache que a senhora Shina não tenha a aparência, nem a força de uma gladiadora. – respondeu o menino dando de ombros.

— Pode me dizer o que mais aconteceu sobre a perseguição desse tal Scorpionis? – insistiu Albafica com um estranho pressentimento.

— O imperador enviou tropas para o esconderijo dele e parece que o destruiu. Só não conseguiram pegar os gladiadores. E, cá prá nós... todo mundo rezou para que ele escapasse. Mas agora, parece que ele vai enviar uma legião forte. – disse o menino cochichando.

— Obrigado. – disse Albafica entregando uma moeda ao menino que sorriu e saiu correndo com a cesta, deixando cair algumas frutas.

El Cid, Aldebaran e Albafica se olharam, por alguns instantes.

— Temos que voltar e rápido. – disse Albafica.

— E quanto aos nossos amigos? Não vamos fazer algo a respeito? – falou Aldebaran.

— Precisamos pensar, Aldebaran. Está claro que Titus está nos deixando um recado. Mas, há essa hora todos devem estar no esconderijo aguardando a nossa volta. Veremos o que fazer quando nos reunirmos. – disse El Cid.

— Você tem razão, precisamos voltar logo. – falou Albafica com tristeza na voz.

El Cid percebeu o abatimento de Albafica e abraçou-o, aproveitando a escuridão que caía sobre Roma.

— Não fique assim, vamos pensar em algo.

Albafica elevou o rosto, encontrando os olhos escuros e densos do gladiador.

— Sabe, às vezes, eu me pergunto quando tudo isso vai acabar. E mesmo sabendo a resposta, eu ainda tenho esperanças que esta ciranda de servidão e morte acabe.

O gladiador estreitou-o, ainda mais em seus braços fortes. Não tinha as respostas que Albafica desejava ouvir. No entanto, enquanto tivesse vigor e força, lutaria para mudar o estado das coisas, nem que isso lhe custasse a vida.

Notas finais
Agradecimentos especiais: DOCE AMARGA, JULI-USUMAKI, TUANY, NANE YAGAMI, SHALL, AGHATA MARIE, ANGELIQUE, HINATAILOVE, LEMONY, LAURA HIEI! Lindinhas, obrigada pelos comentários atenciosos, sensíveis, intensos. Obrigada, também: ROLY UZUMAKI, CLE, HITSUGIKAI ATSUYA, MIMIRANDA. Bjs a todas e bom fim de semana!