Amante Amado

20 Vinte - José


O trabalho consumia boa parte do meu tempo e meu esforço. Já faz um tempo que eu aceitei que, para continuar na delegacia, eu precisaria abrir mão de algumas coisas. Como, por exemplo, uma família. Além do risco que eles correriam (se algum infrator achar que tenho uma divida com ele), eu não poderia me dedicar.

Mas eu não precisava abrir mão de amigos e saideiras. Sendo assim, eu tinha um círculo de amizades não só na delegacia, e saia as sextas à noite. Mas eu não era o tipo badboy, que saia e pegava todas. Em geral, eu pagava uma prostituta.

Tenho uma personalidade altruísta e conservadora. Depois que a euforia da diversão passava, me arrependia da futilidade ligada a beber com os amigos e transa paga.

No entanto, eu não era nenhum tipo de bêbado, eram apenas algumas goladas no fim de semana; acaba que eu sempre era o sóbrio que alertava “olha, você bebeu demais, não quer ir para casa?”.

Butch. Faz uma semana que eu não o via, ele era meu amigo de infância e de trabalho. Admito que nas últimas semanas eu “peguei no pé dele” por causa da bebida (e eu tenho razão, de fato), entretanto isso não o afastaria de mim. Não desse jeito.

Ele não deu notícias no trabalho também. Mas ninguém se preocupou. Na verdade, eu estava passando por uma mamãe controladora por simplesmente expressar preocupação.

Decidi por um basta nisso na quinta-feita, exatamente uma semana depois que eu vi, indo até a casa dele depois do expediente. Eu sabia exatamente onde ele morava: um apartamento em um bairro comum da cidade. Depois de insistir um pouco, Carlos me deu carona até o apartamento.

Fomos com a viatura, eu não tinha uma, geralmente quem me dava carona era Butch... Ele não era muito famoso pelas amizades na delegacia, e sim pelo rancor. Sempre mal humorado e batia nos detentos. Nós, na delegacia, tínhamos que fingir que não víamos. Ou talvez, eu tinha que fingir. Carlos e os outros nem se importavam.

— Ahn... Jo. Chegamos, cara.

Carlos me desperta dos meus próprios pensamentos. Subimos até o apartamento de Butch sem problemas. Mas ao chegar lá, ele não nos atende. Carlos fica neutro, ao contrário de mim que quer explodir com Butch a cada segundo que ele nos deixa esperando.

Colo o ouvido na porta, esperando uma brecha, um único movimento/som que comprove que ele está nos ignorando.

O silêncio paira, não só no apartamento, mas no prédio todo. O que é quase improvável, já que várias pessoas com horários diferentes moram aqui.

Viro-me para Carlos:

— Vamos arrombar a porta.

Primeiro Carlos comprimiu os lábios antes de aceitar, um sinal típico “cara, isso é loucura”. Nos minutos seguintes concentrei toda minha força em esmurrar a porta, fazia um estrondo a cada impacto, no entanto a porta foi resistente. Interrompi-me no décimo-alguma-coisa golpe:

— O que há de errado com essa porta? — Resmungo. O ar entrando e saindo pesadamente do meu pulmão, fazendo com que a respiração acelere e eu transpire.

A gota de suor desce pela minha testa, e sinto todo o caminho que ela faz. Contornando as curvas do meu rosto, cogito limpa-la, só que eu já fui vencido mesmo.

— Deixe-me tentar. — Carlos assumiu a posição para derrubar a porta. Toma fôlego e bate num craque só. A porta se arreganha. Ora. Eu deixei fácil para ele depois de tanto esmurrá-la, o crédito era meu.

Apostava que Carlos não esperava ver nada fora do comum na casa de Butch, e quando entramos e vimos uma confusão de coisas no chão, quebradas e esparramadas, deixei-me por um momento triunfar a vitória de estar correto em relação à Butch. Mas isso passa num instante depois, quando me deu conta do que isso realmente significa.

Com a casa de Butch completamente revirada e ele sumido há uma semana, as coisas complicam.

Apenas com uma troca de olhar, eu e Carlos nos dividimos e exploramos o restante da casa. Eu entrei no banheiro enquanto Carlos foi para o quarto. A porta, a princípio, estava enterrada. O que me irritou demais. Qual era o problema dessas portas? Contudo, só precisei de um pouco de força para reverter à situação.

Logo quando entrei, dei de cara com um espelho estilhaçado e cacos pelo chão. Havia vidro e... Sangue por todo o banheiro. Assim como o restante da casa, havia uma bagunça generalizada lá.

No entanto, isso não é nada comparado ao que eu vi na banheira: um corpo. Completamente desfigurado, flutuando na água. Podia ter gritado ou algo assim, mas nesse emprego, por incrível que pareça, já esperamos ver algo desse tipo.

Tentei analisar friamente, mas era impossível. Butch, meu amigo de infância, quem passou cada etapa da vida ao meu lado e quem eu esperava que fosse enfrentar a velhice jogando pôquer numa praça comigo, jazia morto na banheira de sua própria casa.

Tentei, freneticamente, buscar uma motivação para tudo aquilo. Em sua vida pessoal, Butch não tinha inimigos. Porém tinha uma lista a perder de vista de infratores que ele maltratou e ferrou que poderiam ter feito isso.

Recuperei minha voz. — Carlos, venha cá um instante.

— Achou alguma coisa... — Ele estava dizendo enquanto se dirigia ao banheiro, mas parou ao entrar e se deparar com a mesma cena que eu estava vendo. Nada mais precisava ser dito.

— Oh — ele ficou levemente chocado, não era nada comparado a minha reação, mas era alguém que ele conhecia também. Entre aspas, para ser sincero, já que o rosto era impossível de identificar. — Vou chamar os peritos, um instante.

Carlos sai do banheiro, obviamente avido por escapar daquela cena. E eu também queria sair o mais depressa possível, mas algo me prendia aquela imagem. Aquele corpo parecia mais gordo do que Butch era. Bom, várias dessas comparações inúteis me ocorreram. Até que eu cedi, lançando um último olhar para o corpo, e sai da casa.

Uma parte de mim, queria se envolver nesse caso com unhas e dentes e vingá-lo, a outra parte dizia que eu não estava emocionalmente preparado. Concluo, por fim, que esse são um dos momentos "exceção" em que eu posso encher a cara e esperar que outra pessoa seja a voz razão.

Notas finais
Na minha Fanfic, José é solteiro. Acho um desperdício perder esse personagem logo no primeiro livro. rsrs Talvez amanhã tenha mais!!! xoxo ♥