Amanhecer Violento No Vilarejo Dos Sonhos
1 Voltando pra casa
Fim de tarde. Um conversível preto cruza a estrada em alta velocidade. Dentro dele, duas jovens idênticas e, ao mesmo tempo, muito diferentes. A começar pelo modo de vestir. A que estava dirigindo usava uma jaqueta de couro preta sobre uma camiseta branca, legging e botas pretas, enquanto a que estava no banco do carona usava uma blusinha amarela de botão, jeans e rasteirinha. Mas o que mais diferenciava as duas era a personalidade. Enquanto uma era temperamental e decidida, a outra era doce e tímida, algo que se refletia no presente momento, no qual enquanto a motorista pisa fundo, sua companheira de viagem está à beira de um infarto:
- Diminui, Isa! Assim você vai acabar nos matando!
- Ué, Manuela, não era você quem estava toda ansiosa para voltar pra casa?
- E ainda estou, mas quero chegar lá viva!
- Aff, como você é medrosa...
Isabela, que está ao volante, diminui a velocidade e, sem desviar os olhos da estrada, se dirige à Manuela:
- De qualquer forma, não entendo por que tanta ansiedade. Afinal, seja qual for a hora que nós chegarmos, a sua mãe vai estar lá te esperando...
Sentindo-se incomodada, Manuela corrige Isabela de maneira enfática:
- A NOSSA mãe vai estar NOS esperando.
Isabela revira os olhos e suspira, enfadada:
- Estava demorando...Escuta, Manuela, até quando você vai insistir nisso?
- Até você entender que a nossa mãezinha não teve culpa de nada!
- Como você é ingênua, Manuela! Acreditou mesmo naquela história de que ela não sabia que estava grávida de gêmeas? Ora, me poupe!
- Ai, Isa! Eu conheço a nossa mãezinha! Ela nunca seria capaz de abandonar uma filha! Se ao menos você desse uma chance a ela...
- Chance?!Que chance?!Essa mulher me jogou fora como se eu fosse lixo e você está me pedindo para eu dar uma chance ?! Urgh, maldita hora que eu decidi voltar pra esse fim de mundo! Não sei o que deu na minha cabeça para fazer isso...
Manuela sorri para a irmã de forma marota:
-Ah, mas eu sei! Você está é doida pra ver uma CERTA pessoa...
A insinuação da irmã faz Isabela corar e ela responde, gaguejando:
- N-Não faço idéia do que você está falando...
- Ah não? Então por que você veio, já que detesta tanto o vilarejo?
- Eu não disse que detesto! Só não sou um bicho do mato igual você, que acha que aquilo é o paraíso! Mas eu também sinto falta da Marina, da Vó Nina, dos nossos amigos...
- Aham, claro, e de um em especial...
Corando ainda mais, e mantendo os olhos na estrada, Isabela responde:
- Já disse que não sei do que você está falando...
Manuela dá uma risada leve e então dirige-se novamente à irmã:
- Isa, nós somos gêmeas! Pode-se dizer que nos conhecemos desde antes de nascer! Você não precisa mentir para mim...
Uma cena rara se desenvolvia dentro do carro naquele momento, algo que poucos, não, pouquíssimos tiveram a oportunidade de ver: Isabela Junqueira, sempre orgulhosa e cheia de si, estava EXTREMAMENTE ENCABULADA. Mesmo Manuela, sua irmã, que já convivia com ela há um bom tempo, desde que Isa foi morar no vilarejo com sua família e depois quando as duas se mudaram para a cidade por conta dos estudos, quase nunca a tinha visto assim. Nas poucas vezes que isso ocorreu, assim como agora, quase todas foram por causa deste “amigo especial”. E como das outras vezes, Isabela decide encerrar o assunto, irritada:
- Ah, quer saber? Esse papo pra mim já deu...
Isabela liga o rádio. Começa a tocar a música “Contigo Sempre”, o que faz Manuela sorrir porém aumenta a irritação de Isabela, que muda de estação imediatamente. Manu para de sorrir e então olha para a irmã brevemente, com pesar. Para ela, aquela música lhe trazia alegria, fazia lembrar de momentos especiais de sua vida. Para Isa, no entanto, aquela música só trazia dor. As duas ficaram por algum tempo em um silêncio incômodo até que começa a tocar no rádio a música “Superstar”. A música faz com que elas se animem e comecem a cantar junto.
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Enquanto isso, no Vilarejo Dos Sonhos, todos estavam ansiosos. Desde que as gêmeas foram estudar na cidade, elas passaram a vir ao vilarejo com cada vez menos frequência, especialmente Isabela. Ao contrário da irmã, que fazia questão de vir sempre que possível, Isa vinha no máximo uma vez por ano, e costumava ficar o menor tempo possível, apesar que, de alguns anos para cá, ela tem costumado aumentar o tempo de sua estadia. Todos no vilarejo desconfiavam do motivo com exceção de Manuela, que tinha certeza do que se tratava. Por isso neste momento a família e os amigos mais próximos das meninas, junto com boa parte dos moradores do vilarejo estavam reunidos na pracinha para dar-lhes as boas-vindas. Dentre os mais ansiosos certamente estava Rebeca, a mãe das gêmeas, que andava de um lado para o outro, em expectativa :
- Ai ,será que elas ainda vão demorar?
Ao seu lado seu marido Otávio, sua mãe Dona Nina e sua irmã Helena procuravam acalmá-la:
- Calma, amor, logo, logo elas estão aí!
- O Otávio tem razão, minha filha! Elas já devem estar chegando...
- É, Rê! Você vai ver como daqui a pouco você vai estar abraçando as suas meninas!
- Eu sei, mas é difícil me controlar! Já faz muito tempo que eu não vejo as minhas filhas. Especialmente a Isabela ...
Junto à família de Rebeca também estavam Marina, que fora babá de Isabela, praticamente tendo-a criado até os doze anos de idade, e seu marido Ofélio. Ao ouvir o nome da menina, Marina suspira e sorri:
- Eu também estou com muita saudade da minha menina. Espero que ela fique mais tempo desta vez. Ela costuma ficar tão pouco...
Rebeca se volta para Marina e dirige-se a ela: — É verdade. E o pior é que eu sei o motivo...- Rebeca então olha para baixo com tristeza e suspira, então continua: — É para não me ver...
Neste momento Clara, a melhor amiga de Rebeca, que estava em outro canto com o marido, Luis, aproxima-se de Rebeca e, ao ouvir suas palavras, coloca uma mão em seu ombro, buscando confortá-la:
- Não fica assim, amiga! Tenho certeza que desta vez vocês vão se entender...
Lacrimejando e com a voz embargada de alguém que está prestes a chorar, Rebeca responde:
- Será, amiga? Já faz seis anos desde que eu descobri que ela é minha filha e até hoje não consegui fazê-la acreditar em mim! Ela ainda acha que eu a abandonei...
Com um olhar triste mas determinado, Marina se dirige à Rebeca:
- A minha menina sofreu muito, Dona Rebeca. Por isso ela ficou assim: arredia, fechada, até agressiva algumas vezes. Foi a forma que ela encontrou pra se defender da maldade daquela bruxa! Mas eu sei que com muito amor, compreensão e principalmente paciência a senhora vai conseguir conquista-la!
Rebeca suspira e, com o olhar direcionado à estrada, fala:
É, eu espero que você esteja certa...
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Em outro canto da praça, três jovens, dois meninos e uma menina, também esperavam a chegada das gêmeas. Um dos meninos, que tinha os cabelos cacheados, parecia especialmente ansioso, andando de um lado para o outro e olhando para a estrada a todo momento, impacientemente. Ao ver o amigo naquele estado o outro garoto, de cabelos lisos, se aproxima dele e ri.
- Ansioso, Téo?
Téo, o garoto de cabelos cacheados, que estava prestando atenção na estrada, responde ao amigo de maneira distraída:
- Ahn, falou comigo, Mateus?
A reação do jovem fez tanto Mateus quanto a menina rirem. Tentando conter o riso, Matheus fala:
- Deixa pra lá, isso já respondeu à minha pergunta...
Téo olha para o amigo, confuso:
- Que pergunta?
A menina então fala:
- Deixa ele, Mateus! Ele só está com saudades da amada dele ...
Ao ouvir isto Téo ruboriza instantaneamente e, voltando-se à garota, gagueja:
- D-do que você está falando Dóris?
Com um sorrisinho maroto a jovem, Dóris, responde:
- Ah Téo, nós somos seus amigos! Você não precisa mentir pra gente!
-É Téo, além do mais todo o vilarejo sabe que você arrasta um bonde pela Isa... – Concorda Mateus.
- Na- Nada a ver o que vocês estão falando! Eu e a Isa somos só amigos! – Gagueja Téo, ruborizando ainda mais.
- Amigos né? Sei... – Mateus diz e sorri, porém seu sorriso logo se desfaz ao olhar pro lado e ver dois jovens, um menino e uma menina, da mesma faixa etária dele e Téo, acompanhados por um homem mais velho. Sua expressão ao olhar para o rapaz é de mais pura raiva. Porém, quando a moça olha para a direção dele e seus olhares se cruzam, sua expressão muda imediatamente para uma de surpresa, replicando a dela, e ele imediatamente desvia o olhar. Dóris, que havia assistido à cena que se desenrolou, lhe lança um olhar de reprovação, o qual ele não nota. Ao ver a expressão do amigo, Téo indaga preocupado:
- Algum problema, Mateus?
- Não sei o que esses dois estão fazendo aqui... — Responde Mateus com raiva.
- Quem? – Pergunta Téo, que então dirige seu olhar para onde Mateus estava olhando, assim descobrindo de quem se tratava – Ah, Omar e Sabrina...
– Eles mesmos — Dóris responde, também em tom de desagrado.
- Ué, eles vieram receber a Isa e a Manu, como todo mundo... – Diz Téo como se fosse óbvio.
- E não te incomoda a presença deles, depois de tudo que eles aprontaram pra gente? Sem contar o fato de que o Omar quer roubar a sua garota... – Responde Mateus irritado.
- Já disse que ela não é minha garota! E além do mais, ela não está interessada no Omar. Ela me diria se estivesse. De qualquer forma, acho que nós devíamos dar uma chance à ele. Ele parece mesmo ter mudado. – Responde Téo.
- Pois eu não confio nele! Pra mim ele está é fingindo – Diz Mateus em tom de desconfiança.
- Eu também não confio nesses dois! Nem um pouco... – Dóris concorda.
Téo suspira e sacode a cabeça negativamente. Ele acreditava que as pessoas podiam mudar se você desse uma chance à elas, e achava uma pena que seus amigos discordassem da sua crença.
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Na praça também se encontrava um rapaz de trinta e poucos anos, que não parava de olhar para Helena, sempre mudando sua atenção para outro lugar quando ela se voltava para a direção onde ele estava. Junto com este rapaz estava um casal de idosos e um rapaz de baixa estatura. Em um destes momentos em que ele estava olhando para ela, a senhora se aproxima dele por trás e fala:
- Ma me vai ficar aí com essa cara de pastel?
- Ai, mama! Que susto! O que a senhora quer?
- O que eu quero é que você tome uma atitude ao invés de ficar aí olhando pra Helena com essa cara de babon.
- O- Olhando pra Helena? Ma- Mas eu não estava olhando pra Helena! De onde a senhora tirou isso? – Gagueja Pedro.
- Ah va Pedro, que esse é irmon desse – aponta para seus olhos, então continua – E eu vi direitinho que você non para de olhar pra lá ! Ma Dio Santo, me diz onde foi que io errei com esses miei bambini? Uno tá caidinho pela amiguinha ma no tem coragem de dizer- Olha para Pedro- E o outro nem mesmo admite que ta apaixonado, mesmo depois de passar due anni com a garota lá no meio da selva ...
- A- Apaixonado...Ah, mama! A senhora tá vendo coisa onde não tem! Apaixonado, humpf... – Pedro resmunga, visivelmente ruborizado.
Sua mãe abre a boca para falar, mas é interrompida pela voz de Nico, que chama a atenção de todos:
- Olhem, elas estão chegando!
Todos então voltam suas atenções à estrada.
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