Amanhecer Violento No Vilarejo Dos Sonhos
5 Estado de sítio
Notas iniciais
Em algum lugar do centro da cidade, um casal de idosos estava na sala de estar de sua casa. Os dois estavam extremamente ansiosos, o que se notava pelo seu comportamento. Enquanto o homem andava de um lado para outro, constantemente olhando para o relógio em seu pulso, a mulher estava no sofá roendo as unhas e balançando as pernas de maneira inquieta. O homem então para por um momento, olhando de seu relógio para a porta da frente, e comenta em um tom baixo:
— Faz uma hora que ela saiu. Já era para ela ter chegado...
— Ai, Fortunato, será que aconteceu alguma coisa com a nossa neta?! – Diz aflita a mulher, se levantando do sofá.
— Calma, Aurora! Não vamos pensar no pior! Tenho certeza que logo, logo, ela vai entrar por aquela porta sã e salva! – Diz Fortunato tentando acalmar a esposa e a si mesmo.
— Mas já faz tanto tempo que ela saiu! Nós nunca devíamos ter deixado ela sair sozinha! Se algo acontecer com a minha neta eu nunca vou me perdoar... – Lamenta-se Aurora já com os olhos enchendo de lágrimas.
— E tudo por causa destes malditos golpistas! E pensar que um dia eu já apoiei um absurdo destes! E olhe o que me custou! Mas desta vez não! Não vou deixar que golpe nenhum leve mais ninguém da minha família! – Vocifera Fortunato enfurecido.
Aurora vai até o marido e, colocando a mão em seu ombro, se dirige a ele em um tom calmo:
— Fortunato, você não teve culpa pela morte do Hilário! Foram eles que o mataram! Não havia nada que você pudesse fazer...
— Ele era meu irmão, Aurora! Meu irmãozinho caçula! Eu devia ter enfrentado meu pai! Eu devia ter ficado do lado dele! – Lamuria-se o homem caindo em prantos.
A mulher então abraça seu marido, procurando confortá-lo. Ela sabia o quanto ele se sentia culpado pela morte do irmão. Afinal, havia acompanhado a história toda de perto. Aos poucos, Fortunato vai se acalmando, então Aurora sugere a ele em um tom calmo:
— E se nós ligássemos a televisão? Quem sabe isso não nos ajuda a ficar mais calmos?
— Boa idéia, Aurora! Assim nós também podemos ver como estão as coisas na cidade! – Assente Fortunato, ligando a tv e sentando-se no sofá, com Aurora sentando ao seu lado. Na tv aparece uma tela estática com a bandeira do Brasil e uma legenda onde se podia ler “pronunciamento”. A voz de um narrador então anuncia:
— Interrompemos nossa programação para a transmissão do pronunciamento do Ex. Comandante-Chefe do Exército Brasileiro.
A tela então muda para um gabinete no qual se encontra um homem de meia-idade, fardado. Tratava-se do Comandante- Chefe do Exército, como já havia anunciado o narrador. O homem então começa o seu pronunciamento:
— Caros cidadãos, bom dia. Como bem sabem, nosso país encontra-se em guerra. Uma guerra promovida por uma facção composta de fanáticos que pretende acabar com a democracia para impor seus ideais radicais, e que escolheu fazê-lo através da força. Mas estou aqui para assegurá-los que isto não irá ocorrer, pois nós das forças armadas, que juramos defender este país, faremos de tudo para proteger a democracia, custe o que custar!
Porém, em tempos difíceis como este, se faz necessário também tomar medidas difíceis, como a que terei que tomar agora. Assim sendo, declaro que a partir deste momento nosso país se encontra em estado de sítio. Isto significa que agora algumas mudanças serão feitas com o objetivo de zelar pela segurança de todos. Desta forma está estabelecido a partir de agora um toque de recolher às 22:00 horas. Qualquer pessoa que se encontre nas ruas depois deste horário será encaminhada a uma delegacia para prestar esclarecimentos. Também fica estabelecido que pessoas em atitude suspeita poderão agora ser presas sem a necessidade de um mandado judicial, assim como também não será mais necessário o mandado para que membros das forças armadas ou policiais entrem em propriedades privadas quando se fizer necessário. Pedimos desculpas pelo transtorno, mas como dito anteriormente, estas medidas estão sendo tomadas visando a segurança de todos os cidadãos. Novamente pedimos a colaboração de todos e nos desculpamos por qualquer transtorno. Tenham um bom dia!
Fortunato desliga a televisão nervosamente. Visivelmente alterado, ele se dirige à mulher:
— Está decidido: Se a Priscila não voltar logo, eu vou atrás dela!
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Enquanto isso, em outro ponto da cidade, um casal anda pelas ruas apressadamente, carregando várias sacolas. Eles sabiam o quanto era perigoso estar na rua em um momento como este, mas eles não tinham escolha. Afinal em sua casa haviam cinco jovens que dependiam deles, e eles não podiam desampara-los.
— Mais rápido, Vicente! – Diz a mulher, apressando o marido.
— Eu estou indo o mais rápido que eu posso, Alicia! – Responde Vicente, o marido.
— Ai, nós não devíamos ter saído e deixado eles sozinhos! E se acontece alguma coisa?— Lamenta-se a mulher, Alicia, aflita.
— Mas nós precisávamos comprar mantimentos! Além do mais, eles estão mais seguros em casa! – Racionaliza Vicente, e acrescenta: — O Joaquim e o André podem cuidar dos mais novos até chegarmos em casa.
O casal havia decidido ir ao supermercado para abastecer sua despensa, enfrentando os riscos de acabar entrando em um fogo cruzado. Afinal tinham cinco bocas para alimentar, apesar de a tia de Joaquim, Julia e Felipe, que trabalhava em outra cidade e havia deixado os sobrinhos aos cuidados de Vicente e Alicia, sempre mandar uma quantia mensal para as necessidades dos jovens. Ela os deixou com o casal para que estes não tivessem que se mudar com ela e os mais novos acabassem perdendo o ano escolar. Joaquim, o mais velho, já maior de idade, ficou responsável pelos irmãos, mas como era apenas um estudante e ainda não trabalhava, não tinha condições de arcar com o aluguel de um lugar para morar com seus irmãos, decidindo então que os três ficariam morando com Alicia e Vicente até as coisas se acertarem.
Ao chegarem ao supermercado se depararam com um cenário de puro caos: Pessoas desesperadas, amontoadas, se acotovelando e tentando pegar tudo o que podiam antes que outros pudessem pegar. Uma imagem que refletia o profundo desespero causado pela guerra, fazendo o ser humano colocar o instinto acima da razão na busca pela sobrevivência. Felizmente, apesar de toda a confusão, os dois conseguiram o suficiente para alimentar sua família e agora estavam voltando para casa. Porém ao entrarem numa rua se deparam com um grupo de soldados formando uma barreira. Ao se aproximarem, logo um soldado levanta um braço na direção deles, indicando para que parassem ao mesmo tempo em que se dirigia a eles em um tom autoritário:
— Sinto muito, mas vocês não podem passar aqui.
— Mas nós moramos para este lado! – Tenta argumentar Alicia, nervosa.
— Esta é uma zona de conflito. É arriscado passarem por aqui. Desculpe mas vocês terão que ir por outro caminho.
Aflita, Alicia se dirige ao marido:
— E agora, Vicente?! Como vamos chegar em casa ?!
— Calma, meu amor! Não podemos nos desesperar! Nós vamos encontrar outro caminho! – Responde Vicente tentando acalmar a esposa.
Os dois então partem em busca de outro caminho que os leve até sua casa.
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No prédio da ON- Enterprise, uma das maiores empresas do ramo da moda no país, Otávio, o proprietário, encontrava-se reunido em sua sala com mais três pessoas, dois homens e uma mulher. A mulher, que aparentava ter por volta de 30 anos, tinha cabelos quase chegando aos ombros e vestia um terninho vermelho e sapatos de salto beges. Os homens, de idade entre 26 e 28 anos, tinham estilos completamente distintos. Um tinha cabelos encaracolados e um bigodinho cômico, e vestia uma camisa de botão, calças e tênis, tudo bem colorido. O outro tinha o cabelo liso e se vestia de maneira mais sóbria, com um paletó cinza sobre uma camisa preta, calças também de cor cinza, e sapatos sociais pretos. Neste momento, os quatro estavam discutindo sobre trabalho:
— Eu acho que a qualidade dos desenhos do Frederico caíram muito nestes últimos tempos! Dá só uma olhada Otávio! – Diz a mulher apontando para alguns croquis na frente de Otávio.
— Eu concordo com a Safira, Otávio! Parece que ele não anda se esforçando muito... – Diz o homem de cabelo liso.
— Ei, calma lá, Tomas! Eu dou o meu sangue por esta empresa! Você não tem o direito de me fazer este tipo de acusação! – Rebate o rapaz de cabelos cacheados, Frederico.
Otávio suspira. Esta discussão já o estava aborrecendo. Então ele decide tentar acalmar os ânimos:
— Calma, gente! Não vamos nos exaltar! – Ele então suspira cansado e se dirige a Frederico em um tom ameno: — Infelizmente eu também tenho que concordar Fred. Eu não estou duvidando da sua capacidade. Eu sempre confiei muito no seu talento, e ainda confio! Mas ultimamente a qualidade dos seus trabalhos está aquém do normal. O que tá acontecendo? Você está om algum problema?
— Boss, como assim? Como você pode me fazer uma pergunta dessas? Nós estamos no meio de uma guerra! Não é fácil ter inspiração quando você nem sabe se vai chegar em casa depois do trabalho!
A sala então mergulha no mais absoluto silêncio. Otávio compreendia completamente a situação de Fred. Afinal, ele também se sentia assim. Mas ele era o chefe! Ele precisava se manter forte e passar segurança para sua equipe. Então ele olha Frederico nos olhos e se dirige a ele em um tom confortador:
— Olha, Fred, eu sei como você se sente! Não está sendo fácil para mim também! Aliás não é fácil para nenhum de nós! Mas nós temos que nos manter fortes! Não podemos deixar que esta guerra acabe com as nossas vidas!
— Eu sei, Boss, mas é muito difícil! Tudo o que eu queria é ter a minha vida de volta como era antes... – Lamenta-se Frederico, cabisbaixo...
— Coragem, meu amigo! Não podemos perder a esperança! – Diz Otávio dando um tapinha no ombro de Fred em sinal de conforto.
Neste momento então todas as luzes se apagam, deixando a sala de reunião completamente escura. Apavorado, Fred fala:
— Mas gente, o que está acontecendo?
Logo o gerador do prédio faz as luzes voltarem. Instantes depois, uma moça de cabelos longos usando um vestido preto na altura do joelho entra na sala de Otávio. Apesar do nervosismo latente em seu rosto, ela se dirige ao chefe em tom profissional:
— Com licença, Seu Otávio, mas eu vim aqui avisar que o transformador da rua estourou devido a um combate entre os legalistas e os golpistas. E por causa destes combates as estradas para fora da cidade foram interditadas.
— Quer dizer que não dá pra sair da cidade?! – Exalta-se Otávio.
— Infelizmente não... – Responde a moça com tristeza.
— Esta bem, Lurdinha. Obrigado por me avisar... – Diz Otávio melancólico. A moça, Lurdinha, acena com a cabeça e sai. Otávio então fecha os olhos e dá um grande suspiro, sentindo-se derrotado. Esta guerra o estava impedindo de voltar para casa, para junto de sua família. Parecia que o único jeito de conseguir voltar para o vilarejo seria acabando com a maldita guerra! E ele faria tudo o que fosse preciso para isto acontecer, nem que ele mesmo tivesse que derrotar os golpistas!
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