Amanhecer Violento No Vilarejo Dos Sonhos
3 Amanhecer Violento
Notas iniciais
Capítulo 3 – Amanhecer violento
Isabela abre os olhos lentamente. Ela sente a cabeça latejar, sua boca e sua garganta estão secas. Seus olhos vão aos poucos se adaptando à pouca claridade do lugar onde estava e ela então olha ao seu redor. Mesmo com a iluminação quase inexistente a jovem começa a reconhecer o ambiente onde se encontrava, afinal era um lugar bastante familiar, no qual ela já tinha estado inúmeras vezes antes. Estava na casa de Marina, mais precisamente em seu quarto. Sim, SEU quarto. Quando Marina se casou com Ofélio e eles decidiram morar no vilarejo, Isabela praticamente EXIGIU que a nova casa deles tivesse um quarto para ela, para quando ela quisesse se livrar de Rebeca, mesmo que fosse temporariamente, e Marina, que amava a menina como se fosse sua filha, concordou. A própria Isa decorou o quarto para que ele ficasse com a sua cara, prevalecendo as suas cores favoritas, preto e roxo. Era muito parecido com o seu quarto na mansão, porém menor. Aquele era seu refúgio no vilarejo. Lá ela realmente se sentia em casa. Segurando a cabeça, como que temendo que seu cérebro salte para fora se ela não o fizer, ela senta-se na cama. Logo ela ouve passos se aproximando pelo corredor até que param na soleira da porta e então ela ouve uma voz familiar:
— Bom dia, Isabela! Não esperava que você fosse acordar tão cedo...
Ao voltar o seu olhar para a direção de onde vinha a voz ela pôde então confirmar de quem se tratava:
— Marina... Como eu vim parar aqui?
— A sua irmã e o Téo te trouxeram, você não se lembra? Tsc, é claro que não lembra. No estado em que você chegou aqui, não é de admirar...
Marina então vai em direção à janela e abre a cortina. A claridade que entra pela janela incomoda Isabela, que reclama:
— Ai, Marina! Fecha essa cortina!
— Um pouco de luz do sol vai te fazer bem. Agora toma, você precisa beber bastante água. – Diz Marina ao pegar a moringa do lado da cama e servir um copo de água à jovem.
Isabela bebe a água com sofreguidão. Sentia-se seca, como se tivesse passado dias no deserto sem sequer uma gota de água. Esvaziando o copo, logo serve-se de outro, que ingere com a mesma voracidade.
— Calma, minha menina! Assim você vai engasgar! – Adverte a mais velha.
À medida que seus olhos vão se acostumando à claridade, Isabela começa a identificar melhor os detalhes do ambiente ao seu redor. Nada parecia diferente da última vez em que estivera aqui, a não ser por um colchonete cuidadosamente dobrado em um canto do quarto e, sobre ele, um travesseiro. Pelo jeito como aquelas coisas estavam tão bem organizadas, ela já tinha quase certeza de quem as tinha usado. Mesmo assim, indaga Marina para confirmar:
— A Manuela dormiu aqui?
— Sim. Ela estava muito preocupada e fez questão de dormir aqui e cuidar de você, mesmo eu garantindo a ela que podia fazer isso sozinha. Téo também queria ficar, até se dispôs a dormir no sofá da sala, mas nós garantimos que nós duas e o Ofélio éramos mais que o suficiente para cuidar de você e dissemos para ele não se preocupar, então ele voltou pra casa. – Marina então encara Isabela e se dirige à ela em tom de repreensão: — Mas o que deu em você para beber daquele jeito?!
— Ugh, Marina, sermão agora não! – Reclama Isabela apertando os olhos e segurando a cabeça com as duas mãos, e então prossegue: — Minha cabeça está para explodir...
Marina suspira e balança a cabeça em sinal de negação.
— Vou fazer um chá para ver se cura essa sua ressaca. Enquanto isso você fica aí descansando.
— Ah, obrigada! – Exclama Isa e desaba na cama.
Algum tempo depois, a menina ouve uma voz lhe chamando:
— Isa. Isa, acorda...
— Ai, Marina, me deixa dormir mais um pouco... – Responde Isabela sonolenta e mal-humorada.
— Não é a Marina, Isa. Sou eu. – Responde a voz em um tom calmo.
Isa então abre lentamente os olhos, deparando-se com um rosto idêntico ao seu.
— Ah, é você, Manuela. Pensei que você tivesse voltado pra casa...
— Não, eu só fui até a farmácia comprar uns remédios pra curar a sua ressaca. Aliás, eu trouxe um chá que a Marina fez pra você. Ela disse que é pra você tomar com esse comprimido – Coloca um comprimido na mão de Isabela que o coloca na boca e então entrega a Xícara cautelosamente nas mão da irmã enquanto a adverte: — Cuidado que está quente!
Isabela cheira o chá, então o sopra para esfriar e, um tanto desconfiada, toma um gole. Ao fazer isso, seu rosto é tomado por uma careta e ela resmunga:
— Urgh, o que tem nesse chá?
— Boldo e carqueja. A Marina disse que é muito bom pra ressaca! – Responde Manuela sorrindo.
— Pode ser bom pra ressaca, mas para mim não é ... – Resmunga Isa fazendo careta, tomando o chá o mais rápido que podia.
— E aí, está se sentindo melhor? – Pergunta Manu preocupada.
— Minha cabeça está me matando, mas eu vou ficar bem. Aliás, que horas são?
— Sete e meia – Responde Manu.
— O quê?! Tão cedo?!Argh! – Se joga na cama e se cobre toda com o lençol
— Você pode voltar a dormir se quiser. Afinal, nós estamos de férias.
Isabela sai debaixo dos lençóis em um pulo, assustando Manu.
— Ah, quer saber? Já estou acordada mesmo, eu vou dar uma volta.
— Legal! Posso ir com você? – Pergunta Manu animada.
— Tá, pode...- Responde Isabela distraída enquanto procura algo – Agora onde estão as minhas chaves? – Diz pensando alto.
— Acho que o Téo deixou no bolso da sua jaqueta. – Responde Manuela.
Isa então olha em volta até ver a sua jaqueta em cima de uma cadeira. Ela então a pega e começa a procurar os bolsos até que em um deles encontra as chaves e então comemora. – Ah, aqui estão elas! Então, vamos? – Pergunta dirigindo-se à Manu enquanto veste sua jaqueta.
— Claro, vamos! — Responde Manu. As duas então saem do quarto e seguem em direção à porta da frente.
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Enquanto isso, na cidade, um grupo de jovens, três meninos e uma menina, estão na sala de estar de um apartamento. Os dois meninos mais velhos estão jogando videogame enquanto o mais novo está avidamente devorando um enorme sanduíche. A menina, que está sentada em uma poltrona parecendo entediada, chama a atenção do mais novo em tom de preocupação:
— Calma, Felipe! O sanduiche não vai fugir! Desse jeito você vai acabar se engasgando!
— ‘Ada a ‘er, Úlia!(Nada a ver, Júlia!) – Responde o menino de boca cheia.
— E não fala de boca cheia, seu grosso! Assim vão pensar que não te dão educação em casa! – Repreende a menina, Júlia.
Felipe, o menino mais novo, dá de ombros. Ele estava prestes a dar outra mordida em seu sanduiche quando ouve uma voz.
— Bom dia...
Deixando o lanche de lado e voltando suas atenções para a direção de onde vem a voz, ele tem uma visão que o deixa encantado: Uma linda menina quase da mesma idade que ele. Ela estava de pijama e calçando chinelos de dedo. Os longos cabelos ondulados totalmente desgrenhados e a cara de quem acabara de acordar só faziam deixa-la ainda mais linda. Não era uma visão nova, afinal ele a via todas as manhãs, mas nunca deixava de encantá-lo. Ele estava tão hipnotizado que nem mesmo se deu conta que a estava encarando, até que a menina olha para ele, confusa:
— Por que você tá me olhando, Felipe? Tem alguma coisa na minha cara? – Pergunta a menina preocupada.
Isto foi o suficiente para tirá-lo do transe. Ao perceber que fora pego em flagrante, Felipe começa a gaguejar, nervoso:
— É-É que eu...bo-bom... — Até que ele vê seu sanduiche e tem uma idéia: — É que você está com uma cara de fome! Quer um sandubão? Eu preparo pra você! – Diz levantando de um salto e quase derrubando seu lanche.
— Claro! Eu estou mesmo morrendo de fome! – Responde a menina empolgada.
Os dois então se dirigem à cozinha. Julia, que observava a cena, ri e balança a cabeça negativamente, como se tivesse visto algo mais naquele momento entre os dois jovens. Neste momento um celular toca.
— É o seu, Joaquim. Você não vai atender?
Joaquim, o mais alto dos garotos que estavam jogando vídeo game, responde distraidamente, sem tirar os olhos da tela:
— Ah, atende aí pra mim por favor, Júlia?
A garota suspira e revira os olhos, mas faz o que o rapaz lhe pede:
— Alô? Oi Manu! Tudo bem?
Ao ouvir o nome “Manu”, Joaquim quase que instantaneamente volta suas atenções para a conversa entre sua irmã e a citada menina, esquecendo-se do jogo.
— O Joaquim? Ele não pode atender no momento! Ele está muito ocupado joga...
Antes que Julia possa completar, Joaquim salta do sofá na direção dela e lhe arranca o celular das mãos, fazendo a menina rir.
— Oi amor! Ocupado? Não, não, a Júlia se enganou! Sim, aqui está tudo bem! Estaria melhor se você estivesse aqui... Mas e aí? Como estão as coisas?
Do outro lado da linha, Manu está no banco do carona do carro de Isa. As duas estão em um posto de gasolina a alguns poucos quilômetros do vilarejo, pois Isa decidiu parar para abastecer seu carro:
— Tá tudo bem aqui também. Bom, mais ou menos. Não, eu estou bem! Quem não está muito bem é a Isa...- Manu então aproxima mais o celular e fala baixo: — Ela está de ressaca...
— Manuela, o seu namorado não tem por que saber disso...- Resmunga Isabela do banco do motorista e então revira os olhos ao ser totalmente ignorada pela irmã. – Quer saber, eu vou até a conveniência comprar água. Fiquem à vontade... – Disse com ironia e saiu do carro, dirigindo-se à conveniência.
— Você não sabe o quanto eu estou feliz em ouvir a sua voz! Tudo fica tão triste sem você aqui... – Diz Joaquim dramático.
— Ah amor, não fica assim! Logo, logo eu estou de volta! Além disso você sabe o quanto esta viagem é importante! Não só para mim como para minha mãe e para a Isa também, apesar de ela discordar.- Responde Manuela.
— É Claro, Manu. Eu sei o quanto você se esforça para unir a sua família . – Diz Joaquim compreensivo.
— E eu não vou desistir até que a Isa se entenda com a nossa mãezinha! – Declara Manu decidida.
Júlia senta-se no sofá ao lado de André e os dois ficam observando Joaquim e rindo.
—Pelo jeito essa conversa vai longe... – Diz Julia entre risos.
— É mesmo... – Concorda André.
— Ah, acabo de lembrar que esqueci uma coisa no quarto! Você não quer me ajudar a procurar, André? – Dirige-se Júlia ao garoto direcionando a ele um olhar insinuante.
— Cla-Claro , Júlia! Com todo o prazer... – Responde André com um tom igualmente insinuante e logo segue a jovem.
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Chegando ao quarto de Júlia, assim que a menina fecha a porta atrás de si, o rapaz a pressiona contra a parede e os dois começam a se beijar apaixonadamente. Sem interromper o beijo, Julia direciona André até sua cama, empurrando-o sobre a mesma, fazendo o garoto cair sentado. Ela então se senta no colo dele e o abraça pelo pescoço. O garoto então a abraça pela cintura e os dois continuam a se beijar até que eles ficam sem ar e param, olhando um para o outro:
— Você...tem...certeza...que...quer...fazer...isso? – Pergunta Júlia ofegante.
— Claro...absoluta! – Responde André igualmente ofegante, olhando para a jovem apaixonadamente.
— Mas como será que eles vão reagir? – Pergunta Júlia preocupada.
— Ah, tenho certeza que eles vão curtir!Afinal eles te adoram! Agora só vai faltar o Felipe e a Lola, aí vamos todos fazer parte da mesma família!
Os dois riem. André então leva uma mão ao rosto de Júlia, acariciando-o:
— Mas falando sério, você não precisa se preocupar. Enquanto estivermos juntos, tudo vai ficar bem!
— Eu sei... – Diz Julia encostando a cabeça no peito de André e sorrindo.
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Enquanto isso, no posto de gasolina próximo ao vilarejo, Isabela volta para o carro, garrafa de água em mãos, tomando goles a todo instante. Ao ver que Manuela continua conversando com Joaquim ao celular, ela apenas revira os olhos e acomoda-se no banco do motorista. No momento em que o frentista lhe entrega as chaves, ela avista alguns aviões sobrevoando a região do vilarejo, inclusive o local onde elas agora se encontravam, chamando atenção não só dela como de Manu:
— Nunca vi tantos aviões por aqui antes. Olha, eles estão jogando alguma coisa. O que será? – Diz Manu intrigada.
— Seja o que for, sinto que não é coisa boa. Vamos cair fora! – Responde Isa ligando o carro e pisando fundo, o que acaba fazendo com que Manu derrube o celular.
— Isa, meu celular! – Exclama Manu.
— Esquece o celular! O mais importante agora é sairmos daqui!
O carro de Isabela segue pela estrada em alta velocidade. Poucos instantes depois de elas deixarem o posto, elas ouvem uma grande explosão vinda da direção deste.
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Do outro lado da linha, Joaquim ouve parte da conversa e logo a explosão que se segue.
— Alô? Manu? MANU?! MEU AMOR, RESPONDE!! TÁ TUDO BEM?!
Os gritos do rapaz chamam a atenção dos demais, inclusive de Júlia e André, que correm de volta para a sala, aflitos com os gritos desesperados do rapaz.
— O que foi, Joaquim?! Aconteceu alguma coisa?! – Pergunta Júlia preocupada.
— A Manu e a Isa estão em perigo! – Exclama Joaquim exaltado!
— Como assim em perigo? O que aconteceu com elas?! – Indaga André.
— Eu não sei! Eu estava conversando com a Manu quando de repente ela falou alguma coisa sobre aviões jogando alguma coisa e depois a Isa falando para elas caírem fora porque não devia ser coisa boa, então eu ouvi uma explosão, e depois eu não ouvi mais nada... – Relata Joaquim quase indo às lágrimas.
O relato de Joaquim deixa todos apreensivos, fazendo com que por um momento a sala seja tomada por um silêncio mórbido. Até que a menina mais nova decide quebrá-lo:
— Vo-você acha que pode mesmo ter acontecido alguma coisa, Joaquim ? – Pergunta a garota com a voz trêmula.
— Eu não sei Lola, mas só tem uma maneira de descobrir... – Responde Joaquim pegando um molho de chaves e dirigindo-se à porta determinado.
— Espera Joaquim, não me diga que você está pensando em ir pra lá... – Indaga Júlia apreensiva.
— Não estou pensando. Eu vou! – Afirma Joaquim.
— Mas você nem sabe o que está acontecendo por lá! Pode ser perigoso! – Exclama Júlia preocupada.
— A minha namorada, a família e os amigos dela, que também são NOSSOS amigos, podem estar em perigo! Eu não posso ficar aqui de braços cruzados! – Diz Joaquim enfático.
— Sendo assim, eu também vou! – Declara Júlia.
— Se a Júlia vai, eu vou junto! – Completa André.
— Se o André vai então eu vou! – Acrescenta Lola.
— Não, Lola! Você é muito pequena pra ir com a gente! Nós nem sabemos o que estamos enfrentando! – Repreende André.
— Eu já tenho 13 anos, não sou mais uma criança! Além do mais, é mais seguro ir com vocês do que ficar sozinha, você não acha? – Retruca Lola em tom de desafio, dirigindo um olhar destemido a André, que suspira, derrotado:
— Tá bom! Eu acho que você tem razão... – Declara André a contragosto, fazendo a menina sorrir triunfante.
— E você, Felipe – Pergunta Júlia ao seu irmão mais novo.
— Eu o que? – Indaga Felipe confuso.
— Ô, cabeção, você vai ou fica? – Pergunta Júlia como se fosse óbvio.
— Bom, já que todo mundo vai, então eu vou, né ? – Responde Felipe resignado.
— Então vamos logo, que não temos tempo a perder! – Diz Joaquim com urgência, e então todos partem em direção ao vilarejo.
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O conversível preto que leva as gêmeas segue pela estrada a toda velocidade. Seguia assim desde que saiu do posto de gasolina, do qual agora só restam escombros. A diferença é que agora elas sabem do que estão fugindo. Instantes depois de os aviões começarem a lançar coisas no chão, as meninas descobriram que o que estava sendo lançado destes aviões não eram coisas, mas sim pessoas. Soldados. Vários deles, surgindo em todos os lugares. Ao avistarem o conversível, estes lhe davam ordens para parar, que obviamente não eram obedecidas por Isabela. Afinal, ela nunca foi do tipo que obedece a ordens, muito menos em circunstancias como estas. Alguns soldados tentavam, em vão, seguir o carro a pé. Outros começaram inclusive a atirar na direção dele, porém felizmente nenhum dos tiros atingiu as jovens. Agora elas estavam sendo perseguidas por um veículo militar, o qual tentavam a todo custo despistar.
— Por que estão atrás da gente?! O que eles querem de nós?! – Indaga Manuela apavorada.
— Com certeza não estão aqui por nós, mas se foram capazes de atirar na gente não creio que as intenções deles sejam as melhores... – Constata Isabela no tom mais calmo possível.
— Mas então o que a gente faz? Nós não podemos fugir para sempre! – Inquire Manuela preocupada.
— Sei de um lugar aonde nunca vão nos achar. Se segura! – Diz Isabela confiante.
O conversível se aproximava de uma curva, com o veiculo militar ainda em perseguição. Ao ver a curva em frente, Manu fica temerosa:
— Uma curva, Isa! Você tem que diminuir! — Exclama Manuela sobressaltada.
— Nada disso, irmãzinha! Agora é a hora do meu show! – Declara Isa em tom desafiador.
— Show ?! Do que você está falando Isa! Isso não é hora pra brincadeira! – Exalta-se Manu.
— Pelo contrário, a brincadeira está para começar. Só preciso esperar mais um pouco... — Diz Isa aproximando-se da curva. Ela então se aproxima mais ainda e, com o mesmo tom frio, diz: — Mais um pouco... – Ela então chega ao meio da curva e, a plenos pulmões, grita: — AGORA!
Isa então derrapa com o carro, fazendo um drift.
— AI LASQUEIRAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! – Grita Manu em pânico.
A manobra de Isabela pega os soldados de surpresa. O motorista do veiculo militar pisa no freio com tudo, porém por se encontrar em alta velocidade ele acaba por capotar. Saindo da
curva ainda pisando fundo, Isabela comemora gritando eufórica:
— UHUUUUUUUU! COMAM POEIRA, SEUS OTÁRIOS! VOCÊS NÃO PODEM COM A MINHA MÁQUINA! – Ela então se dirige à Manuela – Viu só, Manuela? Você estava preocupada à toa... – Ao não receber resposta, Isabela então chama pela irmã: — Manu? – Como Manu continuava sem responder, Isa tira brevemente os olhos da estrada e os coloca sobre ela. Ao fazer isso ela se depara com uma Manuela branca como um fantasma, com uma mão sobre o peito e paralisada de medo. Aos poucos a jovem vai recuperando-se do susto e começa a articular algumas palavras:
— Ai meu deusinho! Eu ainda estou viva ?! Isto só pode ser milagre...
— Aff, Manuela, quanto drama... – Diz Isabela revirando os olhos e voltando novamente sua atenção à estrada.
— Drama, Isa?! Nós podíamos ter morrido! O que deu em você para fazer uma loucura dessas? – Repreende Manuela.
— Eu estava tentando nos salvar! E consegui, não consegui? Então pode parar com o chilique! – Rebate Isabela incisiva.
— E afinal de contas, pra onde a gente está indo? – Indaga Manu ainda nervosa.
— Nós vamos pegar a estradinha e entrar no Parque Nacional Dos Sonhos. Duvido que eles nos procurem lá. – Responde Isa segura de si.
— Eu espero que você esteja certa... – Diz Manu esperançosa.
— É claro que eu estou certa! Eu sempre estou! – Retruca Isa convencida.
Elas continuam rodando mais um tempo até chegarem na estradinha de terra. Seguindo por ela por mais algum tempo, elas finalmente chegam ao Parque Nacional dos Sonhos.
— Pronto! Aqui nós estamos seguras. – Diz Isabela saindo do carro.
— Ai Isa, você tem certeza? – Pergunta Manuela preocupada.
— Mas é claro! Duvido que aqueles soldados pensem em nos procurar aqui...
Neste exato momento elas ouvem o som de um veiculo se aproximando. Imediatamente, Isa puxa Manu pelo braço e as duas se escondem atrás de uma árvore. Isa então faz sinal para que a irmã fique em silêncio, e Manuela assente com a cabeça. O veiculo vai se aproximando cada vez mais até que se torna possível para as gêmeas ver que não se trata de um veículo militar e sim de uma velha caminhonete, que para ao lado do conversível de Isabela:
— Espera aí, eu conheço esta caminhonete! – Diz Isabela com uma mistura de alívio e euforia.
— Eu também! – Afirma Manu no mesmo tom – Esta é a caminhonete do...
O motorista sai do carro e elas logo reconhecem o rosto familiar do jovem de cabelos encaracolados, que olha ao redor como se procurasse algo ou alguém.
— TÉO! – Gritam as gêmeas em uníssono, e então correm até onde está o rapaz e o abraçam.
— Isa! Manu! Que bom que vocês estão bem! – Diz Téo retribuindo o abraço das meninas, igualmente feliz e aliviado. Logo outras três pessoas saem do interior e da carroceria da caminhonete.
— Mateus! Dóris! – Diz Manu reconhecendo os amigos e os abraçando, com Isa fazendo o mesmo. Ela então nota a outra pessoa que está com eles: — E... Sabrina? – Diz Manuela dirigindo um olhar intrigado à garota de cabelos loiros.
— Por que o cachorrinho do Omar está com vocês? – Pergunta Isabela igualmente intrigada.
— Isa, isto não foi nada gentil! – Repreende Manuela, ao que Isa dá de ombros.
— Não tem problema, Manuela, eu já estou acostumada à “delicadeza” da sua irmã – Responde Sabrina sarcástica e então dirige um olhar de soslaio a Mateus: — Aliás, não só dela...
— Nós encontramos ela no caminho enquanto fugíamos dos soldados, e então resolvemos trazer ela com a gente. – Responde Téo.
— Aliás, eu não entendo por que tantos soldados apareceram de repente aqui no vilarejo. Será que estão gravando um filme? – Se pergunta Dóris, inocente.
— Não acho que seja isso, Dóris. Os tiros que eles deram na nossa direção foram bem reais... – Responde Mateus preocupado.
— O que importa é que estamos todos bem. Agora o melhor a fazer é ficarmos juntos... – Conclui Isabela.
Todos acenam a cabeça em concordância. Logo o grupo ouve o barulho de outro veículo se aproximando e se escondem. Ao reconhecerem a pick-up novinha em folha, a maioria deles revira os olhos ou resmunga para si mesmos.
— Pronto, chegou quem não faltava... – Resmunga Isabela.
O jovem de olhos verdes estaciona a pick-up próximo aos outros veículos e então sai de dentro dela, sorrindo de maneira cínica.
— Não é todo dia que se vê uma máquina dessas ao lado de uma lata-velha... – Diz sarcasticamente referindo-se aos carros de Isabela e Téo, então grita em direção às árvores: — AE CAIPIRADA! PODEM SAIR DO MEIO DO MATO! EU SEI QUE VOCÊS ESTÃO AÍ!
O grupo então sai de trás das árvores, quase todos fuzilando Omar com os olhos, inclusive Sabrina. A exceção eram Téo e Manuela, que o olhavam apenas com pesar:
— Nossa! Nunca vi tanto caipira no mato junto. O que aconteceu? Os banheiros das casas de vocês quebraram? – Comenta Omar sarcástico.
— E você, Omar ? Veio atrás do seu cachorrinho ? – Rebate Isabela igualmente sarcástica, deixando Sabrina tensa.
— Não sei do que você está falando! Eu só vim aqui porque um bando de soldados cercou o meu haras e quando eu perguntei o que eles estavam fazendo ali eles disseram pra eu seguir eles. Como eu não sou otário eu dei no pé e decidi vir para um lugar onde eles não pensassem em me encontrar! – Responde Omar secamente.
— Eles apareceram no haras também? Isto está ficando cada vez mais estranho... – Comenta Isabela intrigada.
Mais uma vez o grupo ouve a aproximação de um veículo e se esconde entre as árvores. Desta vez se trata de uma viatura policial, fato que deixa todos confusos e tensos. Quando esta para junto aos outros carros, todos voltam seus olhares para ela, observando com expectativa enquanto suas portas se abrem.
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