Notas iniciais
Esse capítulo ficou um pouco longo, mas acho que ficou tão resumido quanto possível. Espero que gostem, e nos vemos nas notas lá embaixo, ok?

Cinco dias de viagem: foi este o tempo levado até alcançarem as florestas após Last Bridge. Poderiam tê-lo feito em menos tempo, caso fizessem uma marcha forçada, mas os cavalos enfrentariam uma dura subida quando tivessem de cruzar as montanhas, e era imperativo poupar os animais o máximo possível. À medida que se aproximavam do Rio Bruinen, uma discussão se instalava entre Thorin e Gandalf: este era favorável a uma breve estadia em Rivendell, enquanto aquele irava-se mesmo à menção de tal hipótese. Se seguissem a vontade de Gandalf, cruzariam o vau do rio e pediriam os conselhos de Lorde Elrond, que os ajudaria de muito boa vontade – especialmente quando a irmã de sua esposa acompanhava a companhia. O anão, contudo, estava convencido de que os elfos tentariam impedi-lo – como o mago admitia que realmente fariam, se soubessem de suas intenções – e não estava nem um pouco disposto a ter mais contato com tais criaturas, além do que já travava com a arrogante e estranha Amandil.

Naqueles cinco dias, doze dos treze anões haviam passado a apreciar a companhia da elfa; nos acampamentos noturnos, esta já não se sentava em silêncio, solitária, mas participava das canções que conhecia, tocava sua flauta de junco, conversava um pouco e ria-se das piadas e fanfarronices trocadas pelos novos amigos. Não que a Companhia realmente confiasse nela – conheciam-na há muito pouco tempo, para tanto – mas o clima de hostilidade fora completamente quebrado. Afinal, não era ela pessoa de confiança de Mithrandir? A verdade é que pouco importava à maioria que ela fosse do povo dos elfos: revelava-se excelente companhia, dividia o trabalho e conversava amigavelmente – ainda que nada falasse sobre si – e isso era tudo o que importava.

Por duas vezes haviam cruzado com caravanas de mercadores seguindo para Ered Luin; nessas ocasiões, tanto Thorin quanto Amandil preferiram manter suas identidades ocultas – um príncipe anão e uma princesa elfa viajando juntos seria algo inaudito! – e deixar que Mithrandir falasse; o que haviam sabido por tais encontros não fora grande coisa: boatos sobre corvos voltando para a Montanha Solitária, sobre tremores e rugidos ouvidos nas profundezas daquela região, e notícias sobre um grande mal despertando nas sombras da Floresta Verde... Contudo, eram apenas rumores, aos quais o mago lhes aconselhou não dar mais atenção. Amandil, porém, sabia que os sussurros sobre aquele mal eram bem mais do que meros boatos... Algo muito maligno espreitava nas sombras do Reino da Floresta, e fora este um dos motivos que a haviam levado àquela louca aventura. Mas ela nada diria antes do momento... Por ora, precisava apenas sobreviver à viagem na companhia de Thorin, o que era um desafio por si só. Como se isso não bastasse, há duas noites vinham ouvindo o ulular de grupos de orcs, à distância.

O líder da comitiva, ao contrário de seus seguidores, não conseguia sentir qualquer simpatia pela garota; parecia haver uma voz em sua mente – uma voz baixa e profunda, como sussurros dentro de um sonho – que incitava seu ódio contra os elfos e o fazia voltar enorme raiva e desconfiança contra a mulher. A dignidade e calma com que ela recebia mesmo suas palavras mais duras apenas acirravam tal sentimento, e aumentavam a desconfiança; o modo como a dama ganhara a boa vontade de todos – especialmente de seus dois sobrinhos, Fili e Kili – despertava a certeza de que Amandil usava de algum feitiço para se fazer aceita. Uma bruxa. Uma feiticeira. Como todas as mulheres de sua raça.

– Ao acaso tem tanto medo dos elfos, que a proximidade de Rivendell tirou seu bom-senso, Thorin Escudo-de-Carvalho? – perguntou Gandalf, enquanto avançavam através da floresta.

– O que quer dizer com isso?

– Quero dizer que seu ódio por Amandil é totalmente absurdo. Ela lhe deu algum motivo para desconfiar? Ainda assim, você a olha como se quisesse rasgar-lhe a garganta! O que a menina lhe fez, afinal?

– Ela é uma elfa... Não vou confiar em alguém da raça deles, especialmente tão perto das terras de seu povo.

– Não estou pedindo que confie nela... Mas sua raiva já está beirando a paranoia. Está agindo deste modo absurdo desde que ela se juntou a nós, e isso vai acabar causando um desastre! Desconfie dela, se quiser, mas não seja estúpido: se a moça quisesse nos impedir, não seria na estrada que o faria.

Chamado à razão pelos argumentos do mago, o anão assentiu; podia ser orgulhoso, mas sabia reconhecer quando uma crítica era válida. Mesmo contrariado, assumiu:

– Tem razão, Gandalf. Temos um longo caminho pela frente... Não posso deixar meus ressentimentos criarem desordem na comitiva. – ele olhou para a elfa, que seguia conversando em voz baixa com Bilbo e Dwalin – mas o modo como ela ganhou a simpatia de todos... Anões que odiavam os elfos tanto quanto eu... Parece até bruxaria.

– A bruxaria de ser uma pessoa agradável. – interrompeu o mago – eles não confiam nela mais do que você o faz, Thorin, mas a menina não deu qualquer motivo para que a hostilizassem. Não faça disto um drama maior do que o necessário, está bem? – e assim dizendo, o mago avançou. Andando pela orla da floresta, haviam alcançado o que parecia as ruínas de uma fazenda incendiada; marcas de pegadas enormes circundavam o lugar, e não havia qualquer indício da família que ali morava. Com a noite caindo, o guerreiro desmontou e avaliou o lugar.

– Parece bom para passar a noite – declarou enfim, observando os restos da cabana de pedras – temos um teto, e cercas para amarrar os cavalos.

– Eu não passaria a noite aqui. – afirmou Gandalf – algo grande fez essas marcas, e talvez ainda esteja por aí.

– Não podemos arriscar a prosseguir, com orcs rondando a estrada. – respondeu o homem moreno – precisamos parar.

– Sabe que poderíamos seguir apenas um pouco para o Norte, e conseguir abrigo, proteção e conselhos... Assim como ajuda para decifrar o que está escrito no mapa legado a você por seu pai.

– Não vou pedir ajuda a elfos. Já me basta a presença dela – o rei apontou para a dama, que examinava preocupada as marcas no chão, discutindo algo com Dori.

– Escute bem, filho de Thrain: não lhe dei a chave e o mapa para que ficasse preso a ódios passados e pensamentos mesquinhos! – Gandalf estava começando a se irritar com a obstinada teimosia do anão.

– Não sabia que eram seus para que dispusesse deles como quisesse! – devolveu o líder do grupo, tão irritado quanto o feiticeiro. Este, indignado, afastou-se a passos duros, sendo interpelado por Bilbo:

– aonde vai, Gandalf?

– Ficar na companhia do único aqui que tem algum bom-senso, mestre hobbit: eu mesmo! – e sem mais palavras, desapareceu por entre as árvores. A abrupta partida do mago tirou Amandil de sua discussão com Dori acerca do que teria causado tais marcas, e ela se dirigiu a Thorin:

– Thorin, não seria sábio ficar aqui. Se estou certa, aquelas pegadas foram criadas por trolls, e mais de um... seriam três ou quatro. Melhor prosseguirmos mais um pouco.

– trolls, você diz? – indagou ele, encarando a mulher – melhor do que um grupo de orcs. Somos todos guerreiros, aqui – e ao olhar para Bilbo – quase todos. Não creio que um trio de trolls seja problema para uma guerreira élfica, afinal.

Em dúvida quanto a se o anão estaria sendo irônico ou não, a princesa preferiu ignorar o leve tom ácido de suas palavras, e continuou:

– Eu sei que não confia em mim, mas acredite: não tenho a menor intenção de ser morta por orcs ou por trasgos... Deixe-me fazer um dos turnos de vigília, esta noite.

– Para você correr a chamar seus amiguinhos de Rivendell?

– Para que você possa dormir uma noite inteira, seu idiota! Não vai chegar nem à metade do caminho, se não dormir um pouco! – as palavras saíram antes que pudesse contê-las. Como alguém podia ser tão estupidamente teimoso?! A ousadia de suas palavras, porém, não irritou o lorde anão, mas o surpreendeu; após um breve segundo, ele declarou:

– Tem muita coragem, isso eu preciso admitir. – ele deu de ombros – fique com o primeiro turno. Bifur fará o segundo, e Bofur, o terceiro. – com um sorriso, a moça ia se afastando quando a mão do homem se fechou em seu punho – se tentar nos trair, terá uma faca entre suas costelas antes de dar o terceiro passo. Todos temos sono leve.

– Você é muito gentil – retrucou a mulher, com indiferença na voz, indo se juntar aos outros enquanto amarravam os cavalos e os escovavam. Ela própria tratou de Nevoeiro e Mirtle, um dos pôneis, escovando-os e juntando capim fresco para comerem. Bombur, como sempre, encarregou-se do jantar, e logo se reuniram todos dentro da cabana, enquanto Fili e Kili permaneceram lá fora, a fim de vigiar os pôneis: se houvesse trolls naquelas cercanias, eles talvez ficassem tentados a roubar um dos animais para comer.

Embora geralmente participasse das brincadeiras e conversas, naquela noite a elfa estava muito apreensiva: a sensação de perigo só fazia aumentar em seu coração, fazendo-a andar de um lado para outro como uma fera enjaulada. Curioso com o comportamento da moça, Glóin perguntou:

– O que houve, Amandil? Está parecendo um lince enjaulado.

– Alguma coisa está muito errada, Glóin... Alguma coisa se aproxima, mas ele simplesmente não me escuta! – respondeu a jovem, indicando Thorin com o olhar – e agora, Gandalf se meteu sabe-se lá onde... Estamos cometendo todos os erros possíveis.

– Ah, relaxe! O mago sabe o que faz! E depois, não será um grupo de trolls a nos dar problemas, afinal.

– Não são os trolls que me preocupam. – murmurou a elfa, mais para si do que para o amigo. Tentou se acalmar e comer, mas seu estômago se revirou com o primeiro bocado que levou à boca; a ansiedade não lhe permitiu comer ou beber nada, e só piorou depois que Bilbo saiu para levar o jantar a Fili e Kili. O que estava acontecendo, afinal?!

*

– Larguem as armas – rosnou o mais velho dos trolls, enorme e tendo uma rala barba branca, segurando Bilbo por um braço e uma perna – ou seu amiguinho vai ser despedaçado.

Os anões hesitaram: se largassem as armas, não poderiam se defender dos trolls... mas se atacassem, Bilbo seria feito em pedaços em um segundo. Thorin, enraivecido, mas sem escolha, foi o primeiro a largar a espada, cravando-a no chão; um a um, os demais começaram a imitá-lo, depondo as armas com expressões furiosas. Kili ia fazer o mesmo, quando sentiu o toque de Amandil em seu braço; ela olhou para o próprio arco, e então para o do anão, que imediatamente compreendeu: fazendo menção de largarem os arcos, adiantaram-se um pouco. Contudo, num gesto rápido demais para ver, alcançaram uma flecha nas respectivas aljavas, e nem um segundo se transcorreu antes que os dois trolls que continham Bilbo urrassem em agonia. Um tinha uma seta élfica perfurando-lhe o olho, enquanto o segundo urrava com uma flecha crava entre os dedos, tendo soltado o hobbit.

Sem perder tempo, todos recuperaram o armamento; o halfling ficara pendurado na mão de um dos trolls, e tentava esquivar-se às tentativas do terceiro de agarrá-lo. Fili foi em socorro do amigo, saltando para abrir um talho na mão da besta que ainda segurava o Pequeno, o qual caiu sobre o jovem anão, derrubando-o no exato instante em que uma mão enorme se fechava no ar, pouco acima de onde estivera a cabeça dele. Os outros se lançaram contra as feras, numa luta ferrenha, enquanto Fili ocultava o halfling num buraco onde não poderia ser pego.

Se os anões eram como ursos furiosos, golpeando com suas espadas, martelos e machados, Amandil era uma pantera ágil que saltava de um troll para outro, golpeando-os com sua espada curva e adagas longas, cortando-os, irritando-os, fazendo-os chocar-se um contra o outro. Mas o couro dos monstros era duro, e seus golpes não chegavam a alcançar qualquer órgão ou músculo; para isso, teria de possuir a força de um dos guerreiros anões, mas só possuía sua velocidade. A menos que acertasse um olho, ou mesmo dentro da boca de seus inimigos, não conseguiria causar um ferimento letal!

Foi na tentativa de dar uma estocada no olho de Bert, o maior dos trolls, que ela se sentiu agarrar por dedos gigantescos, que se fecharam em torno de seu peito. Com a respiração e os movimentos tolhidos, incapaz de libertar os braços, ela chutava furiosamente para se soltar, sem sucesso, sentindo seus ossos começarem a estalar devido à intensa pressão. A dama não gritou – gritar esvaziaria seus pulmões, e apressaria o esmagamento – mas tentou girar a faca que tinha em sua mão tolhida; não foi mais que uma espetadela no dedo do gigante, que apenas riu:

– Carne de elfo é novidade... – mas suas palavras morreram num guincho de dor quando um violento golpe de machado abriu-lhe o punho de um lado a outro, rompendo-lhe os tendões e fazendo-o abrir a mão. A elfa caiu sem qualquer graça no chão coberto de folhas, sua visão clareando aos poucos enquanto o ar voltava a seus pulmões; para sua total perplexidade, percebeu que quem a defendera fora Thorin, que agora postava-se entre ela e o troll. Mas como seria possível?! Thorin, que deixava claro o quanto a odiava, Thorin, que desde o começo afirmara que a vida dela não valia a vida de um anão... E ainda assim, ele enfrentava o inimigo com cinco vezes o seu tamanho, para lhe dar tempo de se recuperar. E ela não decepcionaria!

Erguendo-se com agilidade, a jovem desembainhou a espada; Escudo-de-Carvalho, Dwalin e Bofur enfrentavam o troll que quase a esmagara. Acuada contra um emaranhado de árvores espesso demais para dar-lhe passagem, a besta se apoiava ora em uma mão, ora em outra, enquanto tentava desferir tapas para derrubar os guerreiros. Amandil só teria uma chance, e não pretendia desperdiça-la: como um raio ela correu pelo braço do monstro e saltou, mirando diretamente o olho do troll. Desta vez sua espada acertou o alvo, cravando-se até o punho no globo ocular; mortalmente ferido, o monstro urrou e cambaleou. A guerreira foi rápida e, soltando sua arma da carne do oponente, saltou para longe, aterrissando suave como um gato nas folhas secas. Trocando um olhar cúmplice com Thorin, viu o companheiro assentir em aprovação antes de se voltar em socorro dos demais.

Do outro lado da clareira, os outros dois trolls lutavam contra os demais anões e, embora muito feridos, não davam mostras de desistir. Aquilo certamente acabaria com a morte de pelo menos um dos companheiros, se a luta se estendesse por mais tempo... Mas como terminar aquilo? De repente, como se vinda do nada, a voz de Gandalf se fez ouvir:

– Que o Sol se mostre e os conduza à pedra! – um estrondo ressoou, fazendo até a terra tremer, e a rocha às costas do grupo fendeu de alto a baixo, deixando um único raio de Sol nascente incidir direto sobre a clareira. Os gritos e uivos de dor e medo dos trolls encheram o ar, enquanto seus corpos se enrijeciam e embranqueciam, tornando-se rapidamente pedra bruta. Graças à chegada oportuna do mago, uma tragédia acabara de ser evitada.

*

A caverna dos trolls estava recheada de tesouros roubados de suas presas; de espadas élficas – como eles haviam arranjado algo assim?! – a moedas de ouro e armas de ferro. Enquanto Glóin e Bofur enterravam parte do tesouro – um depósito a longo prazo, como haviam chamado – os demais vasculharam as armas e armaduras; Thorin pareceu especialmente atraído por uma lâmina longa de um só gume, folha larga, cuja bainha era ricamente bordada e desenhada. Vendo aquilo, Gandalf comentou:

– Uma das espadas antigas, forjadas pelos altos elfos de Gondolin. – vendo aquilo, Amandil estendeu a mão, pedindo a espada, que o anão lhe cedeu.

– Creio que esta seja Orcrist, a Fende-Orc – o anão franziu o cenho, irritado, e recusou-se a tomar a arma de volta quando a menina a estendeu. Vendo aquilo, ela insistiu – Não poderia pedir melhor arma. Os orcs o temerão mesmo ao ver sua espada; tem o equilíbrio perfeito, pode ser usada em combate corpo a corpo, ou atirada com extrema precisão. Seria sábio usá-la... É mais versátil do que um machado de guerra.

Vencido, o anão cedeu á tentação que dele se apoderara ao ver tão bela arma. Tomando-a, colocou-a no cinto, o que satisfez a princesa. Mas ainda havia algo que precisava dizer... Aproximando-se do rei, murmurou:

– Obrigada por me salvar, hoje. Devo-lhe minha vida.

– Agradeça não nos traindo. – retrucou o anão.

– Pensei que tinha dito não se importar com minha sorte. – ela não desistia facilmente.

– Estava lutando ao nosso lado; não tenho o hábito de deixar um companheiro de armas ser esmagado, se puder fazer algo a respeito. – e antes que a moça dissesse algo mais – não gosto da sua raça, e não confio em você, como já deixei bem claro... Mas a honra não me permitiria agir diferentemente do que fiz. Acha que me deve algo? Deve lealdade à sua palavra. Isso é tudo. Esta conversa está encerrada. –e voltou as costas à moça, deixando a caverna que cheirava a putrefação e morte.

– Encantador – comentou a elfa, dirigindo-se a Mithrandir; vendo que o mago tomara para si uma outra espada de Gondolin, explicou – esta é Glamdring, o Martelo-do-Inimigo. Uma arma feroz, e é próprio que seja empunhada por um Istari.

– E como a jovem Amandil sabe tanto sobre armas ancestrais? – perguntou o mago, sorrindo.

– Aprendi algumas coisas com Lorde Elrond. – respondeu ela, devolvendo o sorriso. Procurando por si própria, viu que apenas aquelas duas armas eram de forjadura antiga; as demais datavam de, no máximo, uns poucos séculos. Ainda assim, havia ali bom armamento, e ela repôs seu estoque de flechas; pegou mais uma faca élfica, que guardou dentro da bota, e então deixou o lugar. Enraivecia-se ao pensar em todos os que os trolls teriam matado para juntar tal tesouro!

Reuniram-se todos do lado de fora – pelo canto do olho, a jovem viu Gandalf presentear Bilbo com um espadim élfico, pouco mais longo que suas próprias adagas – e havia grande tensão na Companhia. Nori resmungava qualquer coisa com Balin, que veio até Gandalf:

– Trolls, tão ao sul? Quando foi que algo assim ocorreu?

– Não nesta era. – respondeu o mago, voltando-se então para Amandil – talvez fosse este o motivo de sua apreensão, ontem à noite.

Sem nada dizer, a princesa apenas meneou a cabeça; não... Sua premonição fora muito clara: era algo bem maior do que um trio de trolls famintos... Embora a presença deles naquelas terras ao sul certamente indicasse que havia algo errado, não fora aquilo que causara a sensação de perigo que, inclusive, persistia em seu âmago.

– Vamos continuar – ordenou Thorin, já se preparando para subir a encosta de volta para o lugar onde haviam deixado os cavalos quando, subitamente, uma revoada de pássaros alçou vôo, assustada por alguma coisa. Árvores estalaram e galhos se quebraram enquanto algo grande avançava através das árvores. Sem perder tempo, o herdeiro de Durin tomou a dianteira do grupo e, de espada em riste, bradou – Estão nos atacando! Fiquem firmes!

Todos os dezesseis membros da Comitiva se postaram de armas em mãos para enfrentar o que quer que estivesse vindo em sua direção; os ouvidos de Amandil, contudo, captaram aquilo que os outros ainda não podiam escutar, e ela avisou:

– Baixem as armas! É apenas Radagast, o Castanho! – de fato, poucos segundos depois irrompeu do meio dos arbustos uma figura, no mínimo, curiosa: um homem idoso e já meio encurvado, usando vestes marrons sujas de terras, os cabelos e barba grisalhos e longos terrivelmente emaranhados com galhos, penas e folhas. Insetos subiam por suas vestes, assim como pequenos pássaros se empoleiravam em seus ombros; vinha conduzindo um trenó de madeira puxado por quase duas dúzias de coelhos enormes e gordos, e havia urgência em seu olhar. A elfa e o mago sorriram ao ver tão inusitado ser, enquanto os demais manifestaram apenas a mais pura surpresa.

– Radagast! – exclamou Gandalf, indo abraçar o velho amigo – que bons ventos o trazem aqui?

– Ante fossem bons ventos, Gandalf – o Mago Castanho ia dizer algo, mas interrompeu-se ao ver a princesa de Lórien – Ah, Amandil! – ele lançou os braços ao redor da mulher, que retribuiu com alegria, pouco se importando com os gafanhotos que subiram em suas mãos – Você está linda! Continua praticando o que aprendeu comigo?

– Sempre, mestre – respondeu a elfa, gentil – mas o que faz por aqui, tão longe de casa?

O recém-chegado pareceu recordar o que tinha vindo falar, e isso o perturbou; tentou falar, mas nada além de um frenético gaguejar escapou aos seus lábios. Mithrandir, que já acendera seu cachimbo – quando ele ia perder aquele hábito horrível?! – passou um braço pelos ombros do outro Istari e o fez se sentar, oferecendo:

– Tome: prove um pouco de fumo do Velho Toby. – Radagast deu algumas tragadas, enquanto os anões enchiam Amandil de perguntas:

– Quem é esse, Amandil? O que faz aqui? Você o conhece? – as perguntas se misturaram todas, até fazê-la perder a paciência:

– Eu não sei, está bem! Radagast é meu amigo, mas o que faz aqui, preciso que ele mesmo diga! – e voltou-se para o lugar onde os dois magos conversavam. O Istari de vestes castanhas parecia já mais calmo, e foi com voz grave que, enfim, ele conseguiu falar:

– Perdoem-me a perda de controle... Foi uma viagem difícil até aqui.

– E o que motivou essa viagem? – indagou o Mago Cinzento.

– A Floresta Verde está doente, Olórin – Radagast era um dos poucos que ainda tratavam Gandalf por seu nome original – uma doença se espalha por lá, uma sombra negra. As crias de Ungoliant já não se restringem aos confins da floresta – Amandil se inquietou ao ouvir aquilo: Greenwood era como seu segundo lar, uma vez que lá passara muitos anos de sua vida. Sabia da presença da Sombra, mas ouvir que esta se intensificava a alarmou – Aranhas gigantes andando por aí, como não acontecia há quase uma era. Então, fui eu mesmo investigar... Havia boatos sobre um necromante instalado ao sul, em Dol Guldur...

– Um necromante? – perguntou Gandalf – não existe mais este tipo de feiticeiro na Terra-Média!

– Por isso fui investigar. – os anões ouviam a tudo com ar de quem nada compreendia. Thorin parecia apenas irritado por estar sendo atrasado, mas sabia que a conversa dos magos era realmente importante, ainda que não soubesse como isso afetaria a missão. Sem prestar atenção a mais ninguém, Radagast continuou – Existe um mal terrível se formando lá. Um necromante? Talvez, mas não creio que um simples feiticeiro pudesse reunir algo tão maligno.

– Conseguiu descobrir algo? – perguntou a princesa elfa, angustiada em saber mais sobre o que ocorria nas terras de Greenwood.

– Descobri isto. – respondeu o Istari, apresentando uma arma de lâmina longa e triangular, empunhadura negra, que parecia emitir um brilho cruel capaz de cortar sem sequer tocar sua vítima. – Uma arma Morgul.

Gandalf ficou sério ao ver a arma, enquanto a elfa empalideceu tanto que Bilbo se apressou em ampará-la, fazendo-a sentar num galho. Mas o que havia de tão terrível numa simples espada, afinal? O mundo estava cheio delas!

Com olhos graves e distantes, Mithrandir ia dizer algo quando, de repente, um uivo ecoou bem junto do grupo. Olhando para cima, depararam-se com um enorme lobo cinza cavalgado por um orc; antes que a besta atacasse, Kili puxou seu arco e disparou. O animal tombou, derrubando seu cavaleiro bem aos pés de Amandil, que o matou com um golpe de adaga. Outro lobo avançou a galope pelo outro lado, sendo derrubado por duas flechas: uma da elfa, e uma do anão.

– Batedores wargs. – constatou Thorin, reagindo depressa à súbita mudança na situação.

– Vocês estão sendo caçados. – declarou Mithrandir. – temos de fugir, e depressa!

– Mithrandir! – havia pânico na voz de Ori – os cavalos fugiram!

Pela primeira vez, o olhar do mago se perdeu em desespero; sem os cavalos não havia qualquer esperança de fugir aos orcs, e quem poderia dizer quantos haveria? Provavelmente, muito mais do que dezesseis pessoas poderiam resistir! Foi Radagast, contudo, que falou:

– Posso distraí-los. Vou chamar-lhes a atenção.

– São orcs de Gundabad! – exclamou Gandalf – vão alcança-lo!

– Estes são coelhos Rosgobel – devolveu o mago, apontando para os animais que puxavam seu trenó – eles nunca me alcançarão.

Decidida, Amandil se dirigiu ao Mago Castanho, num tom que não admitia contestações:

– vou ajuda-lo. – e com um assobio agudo, chamou por sua montaria. Como um cão obediente, o cavalo surgiu por entre as árvores, permitindo que sua dona lhe saltasse para as costas – Gandalf, guie-os para lugar seguro; tendo dois alvos a perseguir, os orcs não prestarão atenção em vocês.

– Tome cuidado, Amandil. – pediu o Mago Cinza, mas a jovem já disparara a galope pela floresta, seguida de perto por Radagast; não tardou para uivos agudos preencherem o ar, mostrando que os lobos warg e seus cavaleiros estavam ao encalço de uma presa. Agora, Olórin apenas tinha de levar os anões para terreno seguro, e já sabia qual rota tomar.

Notas finais
Agora é oficial: Amandil é totalmente louca. Quem concorda levanta a mão! o/ Thorin não consegue deixar de ser rabugento - eta homem difícil - mas no fim, é muito melhor do que ele mesmo pensa. Apesar de tudo, sou fã desse anão, quando ele não está sob a influência da Pedra Arken. E agora... Agora sabemos muito bem aonde Gandalf está levando o grupo; Rivendell. Mas o que esperar desse encontro? Espero realmente que estejam gostando da história - fangirls, Legolas vai aparecer logo, está bem? - e agradeço muito às minhas leitoras maravilhosas que comentam em todo capítulo! kisses, amores!