Amaldiçoado
1 Capítulo I - Procurada
Notas iniciais
Vivemos em um tempo onde a diversidade de religiões, pessoas e culturas são enormes. Mas houve uma época onde pensar demais era tido como conspiração contra aqueles que detinham o poder, tais como os grupos dominantes de cada religião ou país.
Trouxemos muitas características dessa época, ainda somos preconceituosos e muitas vezes quando vemos ou ouvimos alguém dizer que pode ver demônios, achamos que essa pessoa está mentindo ou até mesmo louca. Todavia, mal sabemos que os mesmos vivem por todos os lugares, são aqueles que esperam ansiosos uma oportunidade de destruir nossas meras vidas humanas.
E para detê-los somos protegidos pelo que nós chamamos de anjos da guarda. Sim, eles também existem, e estão em constante guerra contra os demônios na intenção de impedir que eles possuam o poder sob a terra e acabe com a raça humana. Além do mais, algumas histórias se escondem nas entrelinhas dessa guerra.
Tal guerra começou desde eras antigas, onde os homens ainda estavam se desenvolvendo e na qual o fogo ainda não fora descoberto. É a chamada Guerra Milenar, o embate de titãs, e tudo começou quando dois jovens irmãos decidiram abandonar a vida celeste e andar pelos humanos afim de encontrar fêmeas para procriarem. Eram os últimos de sua raça, os Hyuuga. Os demais morreram na guerra contra os Leviatãs. Por serem de um Clã de Anjos raros e que possuírem um gene poderoso para batalhas, eles foram escolhidos para virem à terra e criar aqui o próprio reino. Os primeiros e guardiões, que respondiam diretamente ao Céu.
Era um verdadeiro conflito, muitos se revoltaram com a escolha do alto escalão em relação aos Hyuuga, muitos os invejavam pelas vitórias e missões com êxito que os gêmeos conseguiram. Mais do que isso, muitos queriam seus lugares e estavam dispostos a qualquer coisa, até mesmo a traição.
Alguns foram descobertos e isso resultou na separação do grupo. Os traidores foram expulsos de Céu e agora vivem em pontos distintos da terra. Alguns aliaram-se aos demônios, e os dominaram. E aqueles que tinham honra e glória permaneceram no Céu com a missão de proteger a raça humana. Já que os traidores expulsos juraram dizimá-los.
Em meio a tantos acontecimentos que ocorreram após a expulsão, famílias e amigos foram separados nessa batalha. Uma batalha que tem como foco a salvação dos humanos para um e a morte destes para o outro.
No fim das contas, vivemos rodeados de criaturas boas e ruins, não estamos livres das aberrações do mundo. Existem pessoas que ainda dizem que para cada humano há um demônio e um anjo, tais quais para os guiar pelos bons e maus caminhos... basta sabermos escolher, basta sabermos olhar o caminho à nossa frente e tudo o que nos espera.
Eles possuem uma forma humana. Eles se relacionam com humanos, os filhos gerados possuem algumas características próprias. Algumas qualidades que só possuindo tais genes que são obtidas. Entretanto os Anjos só se relacionam com alguma humana quando este tem algum propósito para com o filho. A humana é classificada a partir de uma rígida seleção. Anjos fêmeas não descem à terra para procriar, elas não são aptas para gestação. Isto é algo que só ocorre em casos raríssimos. E eles evitam ao máximo se relacionarem entre si devido ao fato de muitas vezes cortarem os laços antes já existentes. Diferentemente dos demônios, onde os mesmos se relacionam com várias mulheres e vice-versa. Um relacionamento sujo, regado de sexo e sangue, brutal.
Uma vez imerso nessa relação, até o ser mais puro é corrompido pela luxúria. Algo assim tão pecaminoso poderia alcançar um equilíbrio?
***
As quatro paredes eram testemunhas de sua personalidade. Os lençóis escarlates sujos de sangue, gozo e suor se espalhavam pela enorme cama redonda e pelo chão. As três mulheres espalhadas em lugares estratégicos para o amaldiçoado. Havia um motivo para ser chamado assim, mas este não o revelava e arrancava com as próprias mãos o coração daquele que ousasse falar. Uma das jovens estava morta, eram uma morena, loira e ruiva respectivamente. Era como um ritual para o moreno que não se importava em cansar as suas escolhidas ou até mata-las caso não lhe satisfizesse. Era podre. Fedia a enxofre.
O anjo amaldiçoado com asas caídas e pesadas. Anjo? Há quanto tempo não se denominava assim? Milênios, talvez. Era a carcaça do que um dia já foi, o espelho da desgraça, e o reflexo do desespero. Uma vez chamado de pai do inferno, oh sim, há muito tempo. Alguém com uma maldade questionável até para o próprio diabo. Diferentemente do tinhoso, ele trazia o caos para a terra, não separando pessoas boas de más. Se Lúcifer punia os maus, ele punia a todos. Mas ele não era mais assim, havia melhorado com o tempo. Só um pouco. Na verdade, aquilo parecia ter perdido a graça com o passar dos séculos.
Os rituais eróticos entre eles era assim, poderiam durar dias, não cansavam nunca. Coisas quebravam, até ossos, peles rasgavam. Era um verdadeiro bacanal de promiscuidade e perversão. Era o jeito deles, como uma religião.
Pôs os pés no chão frio e caminhou até a enorme janela vidro. Atravessando o corpo endurecido e inerte da demônia, o sangue seco pintando o chão ao seu redor. Abaixou-se rapidamente buscando sua cueca enquanto lançava um olhar de desprezo e nojo para a defunta que apodrecia e atraía moscas. Há quantos dias deveria estar ali? Dois ou três? Sequer lembrava, ou se importava. Nem mesmo com o cheiro de carne podre.
— Tirem isso daqui. — ordenou, sem emoção, vestindo o seu robe para as duas outras criaturas nuas que assentiram com pressa saíram puxando o cadáver dali.
Ele jogou os cabelos pra trás. Os longos cabelos castanhos e lisos. Inexpressivo, frio e sombrio. Ele não precisava obrigá-las a fazer sexo, elas queriam, mas aguentar seu ritmo não era pra qualquer uma. De frente à enorme janela, uma lufada de ar gélido assanhou seus cabelos, esvoaçando. Era os confins do mundo, nem deveria ter vento ali. E de frente aquele abismo enegrecido, uma entrada para o inferno, ele divagava. Amarrando seu robe preto e longo. Havia uma faixa branca em sua testa, sempre presente, a qual ele baixou a cabeça e tocou sem demora com a ponta dos dedos. E o que havia abaixo dela, era o motivo pelo qual recebera aquilo apelido. Amaldiçoado.
O corpo másculo e perfeito fora resultados de anos de treinamento em que estivera a serviço do Céu, séculos. Quando ainda era membro de seu antigo clã. Antigo e maldito clã, ao qual se recusava a manter algum laço.
"Imperdoável" era como julgava o que fizeram. "Ainda terei minha vingança".
Ouviu sons agudos e gemidos atrás de si, na direção do quarto, mais precisamente na cama, onde novamente a demônia loira e a ruiva se agarravam no intuito de provoca-lo mais uma vez. Sorriu de canto, um sorriso imperceptível a olho nu, mas que ainda estava lá. Satisfeito por aquelas criaturas bestiais de baixo escalão estarem sempre dispostas a servi-lo.
— Não quer voltar para a cama, Neji-sama? — com a voz rouca, ciciou. A forma como elas o tratavam, a veemência, talvez realmente acreditassem que ele se equiparasse a Lúcifer. Ele adorava aquilo, aquela servidão. Era como um rei.
— Estamos aqui... prontas pra você. — instigou a loira enquanto deslizava a mão esquerda pelo corpo da ruiva, terminando seu trajeto na feminilidade molhada da outra que gemeu com o toque sob olhares do moreno, fazendo seu pau tremer. Sexo nunca é demais.
Ele inspirou fundo, pensando no que fazer com elas. Demônias eram boas, elas o respeitavam, o satisfaziam e entendiam bem quem mandava, já humanas eram mais fracas, sensíveis e quebradiças, não tinha resistência. Por vezes, sequer as filhas de Lilith o suportavam, quem dirá criaturas da terra? A verdade é que só um anjo fêmea poderia estar à altura dele, mas estas não davam pra pescar no Céu.
Sua atenção então é desviada para a janela após um acusar do seu sexto sentido, agora ali havia um rapaz loiro e de intensos olhos azuis sentado no parapeito. Parecia nem se importar com a cena das mulheres, sua atenção estava voltada para a floresta seca que havia nos arredores da mansão onde ambos moravam. A qual se localizava literalmente no meio do nada.
— O que faz aqui, Naruto? — indagou ele ainda com as mãos na cintura, desinteressado.
Distraído, o loiro despertou do transe ao ter seu nome chamado e olhou na direção do moreno que o olhava cautelosamente. Em seguida sorriu de canto e falou:
— Jiraya quer falar com você... imediatamente! — deu ênfase na última palavra. Neji suspirou, cansado. — Parece que ele tem uma missão pra você... — Naruto riu assim que viu o outro resmungar e olhar para os lados com o punho cerrado, sabia como o Hyuuga odiava que lhe dessem ordens.
— Diga a ele que eu não sou sua marionete para me chamar a hora que quiser. — enfatizou, com o dedo enriste. — E aliás... — parou de falar, dando o mesmo sorriso imperceptível de antes, uma característica sua. — Não devo nada a ele e muito menos a você! — virou-se sem querer esperar a resposta do loiro. O qual havia intercalado entre olhar nos olhos curiosamente perolados do anjo, um traço de seu clã, e o dedo do mesmo apontado em sua direção. Porém, antes que o moreno tivesse tempo de se afastar o suficiente, o outro atiçou:
— Tem certeza? Soube que é sobre o anjo que matou seu pai... — jogou. Neji paralisou. Seus punhos antes cerrados agora tremiam tentando conter a fúria do amaldiçoado. De onde o loiro estava era possível ouvir o rosnado que o outro deu ao ouvir tais palavras. O mesmo tinha certeza que ele estava se contendo para não perder o controle do próprio corpo.
Sabendo que era sua deixa, antes que ele fosse próxima vítima. E sem esperar uma resposta, Naruto desapareceu.
***
Seus passos apressados ecoaram pelo grande salão, o robe preto pareciam asas negras com a velocidade que ele andava. Os cabelos lisos rebeldes. Com os punhos tremulando tão firmes que as unhas cravavam na palma de sua mão, e o sangue pingava pelo chão de pedra.
As portas foram escancaradas sem cerimônias, Jiraya observou o jovem possesso adentrar a sua sala parcialmente escura, iluminada apenas com algumas velas espalhadas no ambiente mórbido. Ele conhecia aquelas veias ao redor de suas pérolas brancas, ele conhecia aqueles olhos, eram olhos de morte. E um ódio letal como a ponta de uma seringa envenenada, pronta pra matar. Seus braços caídos ao redor do corpo e o rosto que não esboçava nenhuma outra expressão além da fúria, o peitoral marcado por cicatrizes que subia e descia ritmado... ele observava a criatura que Neji estava prestes a se tornar.
"Seria um show interessante, no entanto ainda não é o momento para isso. Esse ódio inflável dele pode colocar em risco o sucesso da missão. Será que eu posso mandar ele? Sem dúvidas, eu devo." refletia o velho Jiraya, com sua aparência de alguém na casa dos cinquenta anos, quando na verdade, assim como os demais ali, possuía alguns milênios mais. Até mais que os outros. Um antigo anjo caído, também.
— O que pensa que está fazendo? — inspirou fundo o ar, dilatando as narinas. Os olhos amaldiçoados com veias latentes ao redor dos mesmos, e os dentes cerrados. Jiraya era mesmo muito louco para se colocar naquela situação. Ainda mais contra alguém que tinha a fama que aquele ser em questão tinha. — Já falei que não quero ser incomodado com suas missões patéticas, Jiraya. — rosnou ele entredentes. Em uma fração de segundos, milésimos, que nem mesmo os olhos experientes do mais velho fora capaz de acompanhar, o Hyuuga o segurava pela gola contra parede agora quebrada onde o crânio do anjo de cabelos grisalhos estava. Um filete de sangue escorria detrás de sua cabeça após ter sido jogado com força contra a mesma, sujando os fios brancos. — E não envolva meu pai nisso, filho da puta. — seu timbre era grave e ameaçador, fazendo até mesmo um dos três grandes anjos tremer. Ao mesmo tempo que era fascinante, era uma verdadeira máquina mortífera e impiedosa.
— Acha que eu perderia meu tempo para provocá-lo? — observou a tensão convertida em fúria do moreno, que estava a um pequeno passo de arrancar-lhe a cabeça. — Ainda mais que desonraria a memória de um grande guerreiro que foi Hyuuga Hizashi? — indaga-lhe. Vendo um pouco, só um pouco, da sua fúria cessar. Ele lhe afrouxa o aperto, e Jiraya pode mais uma vez respirar.
O mais velho põe as mãos sob a do Hyuuga que segurava suas vestes, soltando-as devagar, Neji observava ainda irritado, mas com uma mistura de curiosidade e interesse. Louco seria alguém que despertasse sua fúria. Porém, os olhos amaldiçoados continuavam lá, como um aviso silencioso pro anjo de cabelos brancos. Seu maxilar estava tencionado, fitando-o.
— Explica. — ordenou, sem rodeios. E um sorriso vilão surgiu nos lábios do mais velho.
— Eu vou te dar a chance de se aproximar da cria do anjo responsável pela morte dele. — viu o outro arquear uma sobrancelha, levemente interessado. — Ela é uma mestiça, meio-humana, meio-anjo... — não fez questão de esconder seu nojo diante da informação, fazendo pouco caso ao desviar o olhar. — Mas não a subestime! — alertou, fazendo os olhos brancos se voltarem pra si. — Ela é a promessa da criação mais poderosa do Céu...
— E é humana? — não precisava de esforços para notar seu pouco interesse na criatura, esnobando como podia. — Humanos são fracos, quebram... e nem precisa apertar muito. — abriu um pouco os braços, inclinando a cabeça.
Seus olhos voltaram ao normal e ele girou os calcanhares dando mais atenção à mesa com os ofícios e pergaminhos do que ao Jiraya, que suspirou, parecia que o Hyuuga esquecia que também havia nascido de uma mulher humana, que ele se achava tão perfeito e inalcançável que o sangue podre de sua mãe deixaria de existir em suas veias.
Ele pegou uma pena de metal, e pingou na tinta estragando seus trabalhos.
— Por que eu faria isso!? — questionou, erguendo os olhos ao soltar a pena de lado. Apoiando-se na mesa. — Se eu quisesse uma prostituta pra transar, procuraria uma mais interessante... — ele disse, com as mãos espalmadas no objeto de madeira.
— Aí que está! — Jiraya pontuou, com o dedo enriste, fazendo o mais novo semicerrar o olhar. — Ela ainda não sabe de sua procedência... e isso poderia ser um trunfo para nós, se você conseguir trazê-la antes que o Céu a alcançasse... o que sem dúvidas pode acontecer a qualquer instante. — ele gesticulou na última parte. O Hyuuga pareceu ponderar, pensativo.
— Ahn... não. — respondeu batendo as mãos uma na outra para limpá-la, Jiraya respirou fundo. — Não tenho interesse no fruto podre da árvore, eu vou cortá-la! — falou, girando os calcanhares.
— Lembre-se do que dizem, Neji... — o Hyuuga parou no caminho do caminho, observando-o. — Se quer destruir alguém, até não restar nada, destrua seu coração. — viu o sorriso sádico e imperceptível surgir nos lábios daquele que era tido como um amaldiçoado. O anjo mais velho sabia que estava apelando, sabia que poderia colocar tudo em risco com aquela informação. Colocar o Hyuuga no rastro de alguém que ele esperou tantos séculos para matar, sem dúvidas, era perigoso. Neji poderia perder o controle pôr tudo a perder num piscar de olhos.
E agora, ele parecia realmente excitado com a situação. Como um jogo de gato e rato. Onde a filha de Dan seria o alvo, e o mesmo iria pra guilhotina.
— E o que você tem em mente? — questionou, com aquele olhar sádico de arrepiar a espinha de qualquer um.
— Traga a garota pra nós, e então você vai ter o ponto mais fraco dele na palma das suas mãos...
De uma gaveta de uma do móvel rústico ele retirou uma pasta fina e entregou nas mãos do moreno, que curioso abriu a mesma observando as informações sobre a garota:
Ela havia perdido a mãe recentemente, tão recente que o corpo sequer havia esfriado no caixão. Não tinha muitas informações sobre o pai, o que indicava que a progenitora havia escondido bem suas origens. Provavelmente com a desculpa esfarrapada de que ele nunca quis assumir. Era quase uma ficha criminal, com tantos detalhes preciosos. Sem dúvidas Jiraya havia se esforçado. Dentre as folhas impressas, o anjo amaldiçoado encontrou uma foto de sua vítima, o que lhe atraiu a atenção.
Instintivamente aspirou fundo, quando algo o atraiu direto pra aquela garota, como um ímã forte. Um magnetismo.
Os olhos enluarados com veias que salteavam sua pele como raízes profundas de árvores. Crescendo lentamente. Os dentes semicerrados e a respiração curta, ele sentia sua garganta rasgar como se bebesse do próprio ácido. Atraído pelos intensos olhos castanhos, que pareciam ter um universo todo dentro deles. Os cabelos de mesma cor, com nuances dourados contra o sol. O largo sorriso com os dentes que pareciam rasgar sua pele em agonia, como se desejasse... ele desejava aquela garota.
Jiraya percebeu o desconcerto daquele anjo, a forma como ele foi golpeado com apenas uma imagem. E achou no mínimo... curioso.
— Tem certeza que quer ir!? Podemos enviar outra pessoa no seu lugar. — ele fechou a pasta com fúria, erguendo os olhos amaldiçoados pra ele.
— Ela é minha.
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