Amaldiçoado
2 Capítulo II - Perigoso Desejo
Notas iniciais
Seus passos cada vez mais rápidos, pareciam que jamais alcançar seu destino. Sentia o cansaço cair sobre si, mas por que nunca chegava ? Tinha a sensação de estar andando em círculos, era como se estivesse presa à uma linha do tempo que a impedia de se aproximar.
– Mãe! — chamou com a voz fraca e deixando os joelhos tocarem o chão no momento em que perdeu as forças
No entanto ela sabia que deveria chegar, o mais rápido possível. Algo dentro de si gritava que seria a última chance. Com muito esforço voltou a se erguer e dessa vez andava devagar, como se examinasse as ruas por onde passava. Não se recordava de já ter visto as mesmas casas antes em sua trajetória, mas tinha certeza que o caminho nunca fora tão longo antes. Era como se algo não quisesse que ela chegasse.
Mais algumas quadras e finalmente pôde ver sua casa pequena onde residia com sua mãe. Não que não tivesse condições de morar em um bairro nobre e numa casa muito melhor ou até apartamento. Mas aquela em si era especial para sua mãe, foi a mesma casa onde nasceu e se criou, por isso a Senhora Mitsashi se recusava a sair de lá. E Tenten entendia perfeitamente, apenas encontrava complicações para se locomover ali, já que táxi nas suas próximas eram escassos e ela ainda não tinha carro. O único jeito era aguardar o ônibus. Um único transporte, ao qual passava a cada quarenta minutos.
Vagarosamente ia se aproximando do local, era como se não quisesse adentrar aquele recinto. Um sentimento de alerta se alastrava em seu ser a cada vez em que seus pés se moviam naquela direção. Notou que a casa estava aparentemente calma, o que não era uma surpresa, já que sua mãe não gostava muito de algazarra. Sorriu ao se lembrar de sua festa de aniversário de quinze anos, quando bebeu pela primeira vez e ela teve um ataque. Boas lembranças. Parou durante alguns segundos e sorriu ainda mais. Em seguida voltou a caminhar normalmente em direção à sua casa. Algo dentro de si ainda gritava, mas ela imaginou que não era nada demais.
Com a chave em mãos ela abriu a porta de sua residência e adentrou a casa silenciosa. Silenciosa até mais para falar a verdade.
– Mãe ? — chamou caminhando em buscar de algum interruptor para ligar a luz da sala. Assim que o encontrou levou um choque por ter tocado na tomada. Irritada com a dor e frustrada por não receber resposta, a jovem retirou as sapatilhas e jogou no sofá sua bolsa, seguiu em direção à cozinha também escura e dessa vez decidiu ir direto à procura de uma torneira na vã tentativa de apaziguar a dor da queimadura. O chão frio e os pés descalços entraram em contato com um líquido quente que sem avisos fez a morena escorrer e cair, só não foi de encontro ao chão porque seu corpo caiu em cima de outro.
Assustada ela se levantou e virou-se instintivamente para ver o que a havia impedido de se machucar feio, podendo ver através da luz da lua que iluminava um único ponto da cozinha, o corpo inerte de sua mãe e totalmente ensanguentado. Um grito de horror ecoou por sua garganta no mesmo instante.
– TENTEN! — chamou Temari desesperada ao ver a morena se debater na cama
– MÃE! — chamou acordando subitamente e com a respiração descompassada, seu corpo suado e tremulo evidenciava o horror em seus olhos castanhos. Temari olhou para a amiga com uma expressão de apoio e a outra apenas baixou a cabeça e escondeu o rosto entre as mãos, começando a chorar impulsivamente.
Já havia virado rotina, desde que perdera a mãe, Tenten vem tendo pesadelos com a morte da mesma. As imagens que com muito custo ela tentava esquecer, voltavam como déjà-vu todas as noites para inquieta-la. Após relatar o ocorrido para sua melhor amiga, Temari, a loira resolveu que iria ficar com ela até que melhorasse. Por isso a morena agora estava hospedada no apartamento da outra.
A amizade da loira e da morena vinha desde a época do colegial, quando a loira uma vez desafiara a Mitsashi para um torneio onde só os melhores participariam. De primeiro Tenten achou que ela era patricinha e só queria humilha-la, mas só depois entendeu que aquilo foi para incentivar a morena à fazer aquilo que tanto queria. Após isso, não se desgrudaram mais. Temari foi a pessoa mais presente na vida da morena desde a morte de sua mãe, a mesma havia se fechado para todos, até para a amiga era difícil as vezes lidar com ela.
– Amiga... — a única coisa que a loira pôde fazer foi abraçar a morena e aninha-la em seus braços. Deixou que ela chorasse ali o quanto fosse necessário. Todos os dias a mesma coisa, mas Temari não se arrependia das noites mal dormidas. Sabia que se a situação fosse inversa, Tenten faria a mesma coisa.
Olhou para o relógio que ainda marcava 04:32hrs da madrugada. Tinha certeza que aquela noite de sono já havia acabado.
***
As duas seguiam no carro de Temari em direção à faculdade, faziam cursos diferentes, mas sempre entravam e saiam juntas. O que certa vez gerou boatos maldosos em relação à tal amizade. Mas ambas jamais se importaram e isso foi esquecido com o tempo. Tenten fazia Medicina. Enquanto Temari, Direito.
O silêncio que se estava no veiculo era algo agradável, Tenten estava perdida em seus pensamentos enquanto a outra dirigia. Pensava no que fazer para fugir da aula de Asuma, já que o mesmo daria uma aula prática e disse que levaria uma surpresa para eles, ela já imaginava o pior. Desde a morte de sua mãe, a jovem Mitsashi havia criado certo receio em relação ao sangue, não era hematofóbica, mas ver a cor escarlate e vibrante do líquido a fazia lembrar-se de coisas que não queria.
– Tema — chamou a amiga que até então estava com a direção voltada para o trânsito. A loira olhou de lado e viu a morena de braços cruzados e uma expressão distante enquanto olhava pela janela do veículo.
– Oi Tenten — respondeu quando notou que a amiga não continuaria a falar, aquilo pareceu desperta-la
– Acho que hoje vou gazear a aula do Asuma, o que acha ? — indagou curiosa
– Sério ? De novo ? Acha que é prudente ? — perguntou rapidamente enquanto virava uma esquina que dava para a rua da faculdade, logo adentrando os largos portões do Campus.
– Eu não sei de nada, só não quero ter que assistir à aula dele — respondeu assim que o carro foi devidamente estacionando e retirou o cinto para sair do mesmo, sendo seguida pela amiga.
– Tenten — segurou seu pulso e a forçou a olha-la — Sabe que está fazendo algo errado ? — indagou com a sobrancelha arqueada — Você já faltou muitas aulas dele, vai terminar reprovando nessa cadeira — completou com um aceno de cabeça e a morena suspirou
– Eu sei Tema, não posso fingir que estou satisfeita com essa situação. Mas o que quer que eu faça ? — deu de ombros e virou-se — A aula dele é no mesmo horário do Kakashi com vocês, então não precisa se preocupar, eu vou ficar bem — disse ele seguindo para sala de aula sem esperar resposta da amiga. Muitas das vezes em que gazeou a aula de Asuma, Temari também fugia da dela para ficar com a amiga até a próxima aula, mas a morena sabia que a aula do Hatake era a que a loira mais gostava. Por isso não pediria mais do que ela pudia oferecer.
Temari suspirou, sentia o peso em suas costas em relação à amiga. Na verdade, mal via a outra sorrir e sabia que quando ela o fazia, era algo superficial. Após a morte de sua mãe, ela nunca mais fora a mesma. Ficou se perguntando se isso era porque só haviam se passado três meses e com o tempo as coisas melhorariam, ou se era mesmo permanente. Suspirou. Seus olhos azuis vagaram pelo Campus repleto de alunos que perambulavam pelo local enquanto a aula não começava. Foi então que um pensamento lhe veio à mente, Tenten jamais havia conhecido seu pai e lembrava-se dela lhe contado no dia em que se conheceram que sua mãe não falava sobre o assunto. Automaticamente isso pareceu perturbar a jovem estudante de Direito. Perguntou-se se já não era hora da amiga pelo menos saber do paradeiro do mesmo.
E com esse pensamento ela correu atrás da outra.
***
Seus passos lentos evidenciavam sua pouca vontade de chegar em algum lugar. Os corredores da faculdade estavam desertos, já que os alunos se encontravam em suas respectivas salas. Estava vagando em pensamentos relacionados a conversa tida com Temari pouco antes do inicio das aulas. A loira a incentivava a ir a procura do pai. Tenten não podia negar, a vontade de saber mais sobre o homem que sua mãe tanto insistiu em não falar era imensa. No entanto algumas coisas a faziam recuar, perguntava-se o que sua mãe acharia disso, bem, levando em consideração ao modo como ela agia quando a jovem lhe indagava sobre o paradeiro do mesmo, certamente não iria aprovar aquela situação. Mas agora sua mãe estava morta, ela não tinha ninguém para recorrer. Não tinha nenhum parente. Não tinha um que tenha chegado a conhecer. Na verdade, sua mãe sempre agiu de forma estranha para consigo. Era como se ela quisesse esconde-la do mundo. Só após a morte da mesma que a jovem sentiu um pouco do sabor da liberdade.
Tenten não podia negar, o que mais lhe assustava na verdade era o fato de descobrir que seu pai também estava morto. E aí suas suspeitas estariam certas, ela estava só. Era órfã de mãe, pai e família. Agradeceu a todos os deuses por ainda ter amigos como Temari que sempre estavam ao lado dela. Pensou em ir até a sala da amiga, mas desistiu no momento em que viu pela janela que a mesma estava escura, isso significava que eles estavam tendo uma aula com slides.
Suspirou e decidiu voltar para o primeiro andar, estava no segundo. Os andares nos prédios dividiam os cursos. Ela e Temari estudavam no Bloco C, a loira no segundo andar que era direcionado à Direito. E ela no primeiro, direcionado à Medicina. Haviam vários professores para uma mesma matéria, todavia cada um deles lecionava em prédios diferentes. Cada prédio, ou Bloco, como chamavam no local, eram divididos em cinco andares.
Assim que seus pés tocaram no piso de seu respectivo andar, a morena virou-se na direção do pátio e acabou esbarrando em alguém. Por estar com a atenção voltada para o corredor que dava para sua sala, nem havia notado a pessoa até que os corpos se chocaram.
Instintivamente os olhos se voltaram na direção do rapaz. Havia aberto a boca para desculpar-se por ser tão desajeitada, mas perdeu a fala no momento em que os olhos castanhos se cruzaram com os enluarados. Sua boca entreaberta deixava claro a surpresa em ver aquele monumento de homem à sua frente. Desceu um pouco a visão enquanto analisava com cuidado a fisionomia do mesmo. Era alto e possuía ombros largos, sua pele tão branca que parecia jamais ter visto a cor do sol, a blusa social listrada estava com as mangas dobradas até os cotovelos, o que evidenciava seus braços fortes, assim como o tórax. As pernas grossas e que quase colavam com jeans preto da calça e os sapatos sociais. Fez o caminho inverso até perceber que novamente encarava os olhos do moreno. Seus longos cabelos castanhos estavam soltos e deles exalava um cheiro diferenciado, franziu minimamente o cenho ao perceber que o rapaz usava uma faixa que rodeava sua cabeça na testa. Mas dentre todos os detalhes, o que mais lhe chamou atenção foi realmente os olhos diferenciados do humano, se poderia chama-lo assim, à sua frente. Ele parecia um ser superior, quase intocável. Sua pose altiva e sagaz lhe dava um ar de superioridade ao qual ela nunca havia visto nem em filmes, onde os protagonistas eram sempre bonitos e ricos. O queixo minimamente erguido e a mão que pousou sob o bolso da calça. Ele parecia impaciente. Com o gesto, Tenten pareceu voltar à realidade.
– M-Me desculpe — disse encolhendo-se perante a presença polida do rapaz. " Ótimo, agora está gaguejando Tenten ? " indagou-se ao perceber o quão tola estava sendo.
– O que faz aqui ? — a voz grave e fria fez com que um arrepio percorresse a espinha da morena que sentiu as pernas bambas.
" O que está acontecendo comigo ? " pensou ela ao perceber que suas mãos suavam e o os lábios estavam trêmulos.
– E-Eu vim ao banheiro — respondeu ela falando a primeira solução que lhe veio à mente e que parecia plausível. Viu o rosto do moreno virar-se e olhar sob o ombro na direção de duas portas que haviam um pouco atrás de si. Eram os banheiros feminino e masculino e na direção oposta a que ela vinha. Mordeu o lábio inferior sentindo-se encurralada por uma grande fera, ao mesmo tempo em que seus olhos pousaram sob si e ela teve a impressão de que ele era a mais perfeita criação de Deus. Cada traço, cada detalhe lhe impunha desejo ao mesmo tempo em que sentia que havia algo de errado com ele. Era como se ele não pertencesse à esse mundo.
" Ótimo Tenten, era só o que faltava falar que ele é um ET " repreendeu-se mentalmente
– É que eu prefiro o do segundo andar — surpreendeu-se ao perceber que havia parado de gaguejar, e em seu íntimo suspirou aliviada. O moreno ergueu ainda mais o queixo perfeito enquanto os olhos que mais pareciam um par de lua cheia lhe examinavam, pareciam ponderar o que ela havia acabado de falar.
– É melhor que retorne à sua sala — disse simplesmente e ela assentiu virando-se e andando rapidamente em direção à sala de aula. Devido ao horário, a aula de Asuma já devia estar no fim.
Voltou a pensar no homem misterioso, ainda não havia saído de seu campo de visão e tinha quase certeza que era observada por ele... Por ele e por aquele par de olhos que tanto havia lhe intrigado. Eram perolados e diferente de qualquer um que já vira antes. Quis pergunta-lo se ele fazia parte do grupo de teatro e estava usando uma lente para alguma peça. Mas pareceria uma idiota e não queria outra vez fazer papel de tola diante dele, não entendia essa necessidade que havia nascido em si de impressiona-lo. Balançou negativamente a cabeça na vã tentativa de apaga-lo de sua memória. Era como se ele tivesse se impregnado em sua pele, o que lhe assustou. Jamais havia se sentindo assim, tão diminuta e ofegante, na presença de um homem. Entretanto ao mesmo tempo em que seu corpo parecia lhe trair com suas ações, sua mente a alertava de algo em relação à ele. Impulsivamente olhou sob o ombro e como esperava, ainda era observada por ele. Chegou à sala e pôs a mão na maçaneta da mesma sem interromper o contato visual. Só depois ela o fez e abriu a porta, adentrando-a rapidamente.
– Com li... — ia pedir passagem à Asuma, mas este estava distraído demais para perceber algo. Sua atenção estava voltada para uma caixa pequena onde alguns se aproximavam para olhar seu interior. Deveria ser à tal surpresa.
Aproveitou a chance e seguiu para o fim da sala, onde sentou-se numa das cadeiras livres e se limitou à voltar sua atenção para um caderno de capa preta que deveria ser de aluno qualquer. Sua respiração ainda estava ofegante e os olhos fixos na mesa da carteira.
– Está tudo bem ? — perguntou Kiba, um moreno que havia chegado na faculdade pouco depois dela. Mas devido ao seu ensino avançado ele fora adiantado. Os dois se tornaram bons amigos.
Só então Tenten percebeu que apertava as laterais da mesinha com tanta força que suas mãos chegavam a doer. Rapidamente tentou disfarçar.
– Ah, Kiba! — exclamou com susto — Sim, estou ótima — respondeu ela com um falso sorriso e as sobrancelhas franzidas. O colega a analisou durante alguns segundos e voltou à falar.
– Olha, eu sei que é difícil pra você essa aula — e segurou sua mão gelada — Mas vai ficar tudo bem certo ? Eu prometo — sorriu ele de canto e ela não teve como retribuir num sorriso sincero. Assim como Temari, Kiba foi uma grande peça na sua superação quando perdeu à mãe.
– Obrigada Kiba, você é um ótimo amigo — ela respondeu e ele alargou ainda mais o sorriso.
Após isso o resto da aula ocorreu de forma mais tranquila. Asuma realmente não havia dado falta da Mitsashi e ela agradecia a Deus por isso. Ficou conversando sobre amenidades com o Inuzuka até que o sinal tocou e o professor os liberou para o intervalo. Seguiram rapidamente em busca de Temari que já descia as escadarias.
***
– Cara, eu contei pra vocês que o Akamaru estava doente ? — indagou o Inuzuka assim que terminou de mastigar sua torta de maçã, os três estavam no refeitório e sentados em uma mesa separada dos demais.
– É Kiba, você comentou semana passada — disse Temari terminando seu iogurte, não costumava comer na faculdade.
– Pois é, mas ontem ele teve uma piora e eu me desesperei. Levei para um veterinário o mais rápido possível, sabem o que ele diagnosticou ? — quis saber enquanto inclinava o corpo pra frente e olhava as duas amigas com uma expressão nada satisfeita
– O que ? — indagou Tenten que sequer havia tocado no seu sanduíche
– Que o Akamaru está com pulgas. Pulgas! — exclamou irritado e notou a morena de mãos dadas e o lanche intocado — Vai comer isso ? — ele indagou arqueando uma sobrancelha e ela negou, em seguida empurrando a comida para perto do Inuzuka — Valeu! — agradeceu — Sabem o quanto eu dou duro pra manter o pelo do Akamaru longe dessas pragas ? — perguntou com o semblante irritado e dando a primeira mordida no sanduíche
– É... Nós vemos tudo que você faz por ele — falou Temari
– Não faço ideia de onde ele possa ter pego pulgas — suspirou
– Não foi naquele parque que você sempre vai passear com ele ? — sugeriu a loira e ele franziu o cenho — Você sempre solta ele lá e depois volta pra casa. Talvez ele tenha se encontrado com outro cachorro, um de rua talvez... — o rapaz estava pensativo e com uma cara de poucos amigos
– Droga! — resmungou fazendo um bico que Temari riu, Tenten parecia alheia à conversa.
– Olá pessoal — disse um rapaz de sobrancelhas grossas se aproximando do trio. Sua aparência parecia um pouco abatida e até seu olá estava estranho, o que não passou despercebido pelas meninas que se entreolharam curiosas. Afinal, ele era sempre muito animado. Animado até demais.
– Fala sobrancelhudo — disse Kiba limpando o canto da boca — Senta aí — indicou o lugar a sua frente e o rapaz o fez. Seu semblante tristonho aguçou a curiosidade e preocupação da loira.
– Está tudo bem Lee ? — a pergunta fez as enormes sobrancelhas se franzirem, parecia que o mesmo não havia entendido a pergunta
– Então ainda não souberam ? — a confusão nos olhos das meninas era notória — O Guy sofreu um acidente ontem e está internado... — falou sem jeito. Might Guy era um dos professores de Tenten e Kiba e sua matéria era Histologia, os dois alunos se olharam surpresos e assustados — Eles nem tiveram a consideração de avisar — a voz de Lee continha certa raiva do coordenador do Bloco C. E não era para menos, afinal, Guy era como um pai para ele. Desde que o rapaz fora abandonado pelos pais em um orfanato quando ainda era um bebê que o mais velho cuida dele. Como o próprio Might dizia " Foi amor à primeira vista ". Lee se espelhava no outro em cada detalhe, até as roupas eram iguais.
– E como ele está ? — a voz de Tenten se alterou um pouco, deixando claro sua surpresa. O sobrancelhudo deu de ombros ainda cabisbaixo
– O estado dele é estável — em seguida os colegas viram os olhos negros e exagerados se encherem de lágrimas. Automaticamente Tenten e Temari se aproximaram do moreno para lhe dar apoio — Eu não quero perder a única pessoa que realmente foi importante pra mim — praticamente gritou as palavras, chamando a atenção de algumas pessoas que estavam em mesas próximas
– Calma Lee, vai ficar tudo bem — falou Temari. O moreno a olhou de canto, sua visão estava embaçada devido às lágrimas. Ele parecia duvidar daquelas palavras. Logo em seguida sentiu sua mão ser apertada e virou na direção da mesma.
– Eu sei exatamente como se sente Lee — falou Tenten. Sim, ela sabia. Afinal fazia apenas três meses que perdera a mãe. Também a única pessoa importante pra si. Com tais palavras o jovem se deu conta da realidade
– Me desculpe — pediu ele assustado e a morena arqueou uma sobrancelha — Meu Deus Tenten me desculpe, eu sei que você perdeu a sua mãe a pouco tempo... Não tenho o direito de dramatizar tanto as coisas e...
– Lee — ela o interrompeu. Respirou fundo — Está tudo bem — sorriu — Acredite, eu sei como é estar a espera de alguma solução. No momento você é capaz de dar uma volta no mundo à pé — falou ela
– Literalmente... — ironizou Kiba devido às manias estranha que Lee e Guy possuíam — Foi mal... — encolheu-se ao notar os olhos castanhos e azuis o fuzilando
– Só pra que ele fique bem... — Tenten voltou sua atenção para o amigo completou sua fala — Como a Temari disse, vai ficar tudo bem — ela sorriu
– Eu não sei... — temeu Lee baixando novamente a cabeça e a morena se apressou em segurar o queixo do rapaz e levanta-lo para fita-la mais uma vez
– Eu tenho certeza — disse com tanta convicção que chegou a assustar, em seguida sorriu abertamente — Eu duvidaria de qualquer pessoa, mas do Guy ? Lee, é o Guy! — falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo — Sabe quantas coisas incríveis ele já fez ? — Lee parecia pensativo — Eu tenho certeza que ele vai ficar bem e que antes mesmo de ter alta, vai sair correndo pelo hospital e vai dar um baita trabalho pras enfermeiras que tentarem alcança-lo — brincou e os quatro riram imaginando a cena. As palavras pareceram reconfortar o sobrancelhudo que mais uma vez abria aquele largo sorriso, um sorriso que não dava desde que soubera da noticia ruim. Mas agora era diferente. Porque só agora ele havia se dado conta, era o Might Guy afinal.
– É isso aí — ele se levantou rapidamente e pôs uma mão na cintura e fez um sinal positivo com a outra — É o Guy, ele jamais vai se deixar abater por nada nesse mundo — Tenten sorriu e assentiu — Obrigada Tenten — ele falou e deu beijo estalado no bochecha da morena que fechou os olhos e emitiu uma expressão engraçada ao sentir sua cabeça ser empurrada para o lado, tamanha era a força que o sobrancelhudo impusera — Eu vou indo pessoal — falou — Até mais — acenou e saiu correndo pelo refeitório, quase esbarrando com uma loira irritada que adentrava o local, na saída.
Os três amigos observaram a cena e acabaram rindo. Ino Yamanaka praguejava e xingava o sobrancelhudo que nem estava mais lá. Aparentemente seu humor estava péssimo. Provavelmente havia brigado mais uma vez com seu namorado, Gaara, um dos irmãos de Temari.
– Ino, o que houve ? — perguntou a loira ao ver a outra passar como um furacão próxima dos três. Ao ver o olhar que a Yamanaka a lançou, arrependeu-se amargamente da pergunta.
– Houve o seu irmão! — exclamou com os punhos cerrados. Da mesma forma que chegou, a loira saiu do refeitório.
– Nossa, ainda bem que vocês não namoram — comentou Kiba — Já imaginou ter um relacionamento conturbado como desses dois ?
– Se bem que o Gaara não colabora né — falou Tenten sem jeito e com o cenho franzido
– O Gaara tem seus problemas particulares, a Ino as vezes que é intrometida demais — Temari defendeu o irmão
– Mas ela é namorada dele, tem direito de saber tudo dele... — Inuzuka falou
– Nem tudo! — disse simplesmente e os outros dois se entreolharam e deram de ombros. Cada um com seus problemas.
O intervalo já estava quase acabando quando Kiba finalmente terminou de comer seu sanduíche. Não estava com tanta fome, mas não desperdiçaria a comida. Os três seguiam de volta para seu Bloco quando o moreno parou com uma expressão curiosa. Parecia ter se lembrado de algo.
– Kiba... O que foi ? — indagou Tenten ao ver o outro parado mais atrás das duas
– Se o Guy está acidentado... Quem é que vai dar aula no lugar dele ? — as duas jovens se olharam de forma curiosa
***
A última aula havia chegado, Kurenai acabara de se retirar da sala e os alunos já começavam à arrumar suas coisas. Souberam através de Kiba o que havia acontecido com Guy, e como ninguém os avisou sob algum possível substituto, os alunos imaginaram que seria uma aula vaga. Aquela seria a aula do professor com eles, mas até agora ninguém havia chegado. Alguns alunos mudaram de lugar e outros começaram a conversar na sala, o local havia se tornado uma verdadeira algazarra.
O Inuzuka se aproximou da carteira da amiga e os dois passaram a falar de amenidades. Embora muitos quisessem ir logo para casa, precisavam da autorização do coordenador e naquele momento aguardava a vinda do mesmo para liberá-los.
Alguns minutos depois e a porta se abriu. Toda a sala se silenciou e os olhos cheios de curiosidade se arregalavam com expectativa. Todavia, diferente do esperado, um rapaz de longos cabelos castanhos adentrou o local com uma pasta em mãos e alguns livros. Sem falar nada ele caminhou até o local reservado aos professores e depositou seu material lá. Alguns alunos o olhavam com curiosidade, enquanto outros se olhavam com desconfiança.
– Tenten... — a morena tomou um susto ao ouvir seu nome ser sussurrado pelo amigo que tentava ao máximo não chamar a atenção do homem misterioso. A Mitsashi olhou para o lado com os olhos arregalados e viu que o Inuzuka tinha sua atenção voltada na mesma direção que o resto da sala — Tá tudo bem ? — indagou no mesmo tom sem desviar a atenção do moreno em frente à turma que no momento separava alguns papéis. Ela apenas assentiu e voltou a observa-lo. Ele era tão... lindo, tão misterioso, tão sedutor... e perigoso. O pensamento a fez respira fundo e morder o lábio inferior para conter um gemido de horror. Não entendia as reações do seu corpo em relação ao rapaz, mas algo lhe dizia que o que ele tinha de bom, também tinha de ruim. Era uma combinação perfeita.
– Bom dia — disse com sua voz grave. Os olhos perolados passaram por cada aluno ali presente até que se encontraram com os castanhos que desejava ver. Ele tinha conhecimento do medo que impunha nela e de certa forma aquilo o agradava, mas também o fazia se sentir mal. Só não entendia porque — Antes de qualquer coisa, até mesmo de apresentar-me, irei falar de algumas regras que durante a minha aula devem ser seguidas à risca — comunicou e começou a andar pelas filas com as mãos dadas para trás do corpo e fixando seu olhar frio em cada rosto daquele recinto — É bom que se lembrem disso... — falou — Primeiramente eu sou do tipo de educador que assim que entra na aula, permite que os alunos façam o que bem entenderem durante cinco minutos — aquilo deixou os estudantes perplexos — Claro que, caso façam algo que inflija os direitos humanos ou vá contra as regras da escola, terão que arcar com as consequências. Mas ninguém aqui é criança para não saber disso — seu tom de voz continha uma entonação de deboche — Continuando... Após o término desses cinco minutos, qualquer aluno que ousar falar, atrapalhar, conversar ou até mesmo pedir para ir ao banheiro ou beber água, terá que uma passagem só de ida para a sala do coordenador. Se desejam fazer qualquer uma dessas coisas, façam no tempo em que disponibilizei anteriormente. Eu não admito sequer que algum de vocês olhem para o colega ao lado para pedir uma borracha. Só haverá exceções em casos de extrema necessidade. Fui claro? — indagou assim que chegou novamente na sua mesa e olhando com uma expressão nada agradável para os presentes que assentiram assustados — Falo sério quando digo que não admito que quebrem minhas regras, caso contrário nem menos os filhinhos de papai– sua face indiferente ganhou uma expressão enojada — Irão ser exceções. Não adianta chamar papai, mamãe ou vovó. Se eu retirar algum aluno de sala, ele não assistirá mais nenhuma outra aula minha — apoiou seus braços na mesa enquanto seu corpo se inclinava para frente e ele voltava a analisar cada um deles mais uma vez, pôde ver alguns engolirem em seco com o aviso — Se insistirem em me desafiar, então será definitivo... Ou vocês, ou eu — falou — Não estou sendo pago para pegar na mão de vocês e ajudá-los a escrever o alfabeto. Aqui vocês estão encaminhados para o mercado de trabalho, Medicina! — exclamou — Não é um curso ao qual vocês podem pintar e bordar como costumavam fazer no Ensino Médio. Quando estiverem formados, se conseguirem, o que eu duvido muito. A não ser é claro que paguem pra isso, mas isso não vem ao caso... Como eu estava dizendo, quando se formarem e estiverem em uma sala de cirurgia, terão que ter consciência que a vida daquela pessoa está em suas mãos. Uma decisão errada poderá lhe custar muito. E nessa hora, para os que se apoiam nas costas dos pais, eu sinto informá-los que eles não poderão fazer nada por vocês. E aí seu paciente morrerá, e você ? Viverá o resto de sua vida inútil com a culpa e o pesar de não ter feito diferente porque quando teve a chance de aprender, preferiu fazer coisas banais — seus olhos enluarados pousaram sob os castanhos da jovem Mitsashi, a respiração da mesma estava descompassada e ela parecia que ia chorar à qualquer momento. Logo se lembrou do que Jiraya havia lhe dito " Ela perdeu recentemente à mãe e nunca soube da existência do pai ". E muito embora gostasse de ver o horror estampado na cara de suas vítimas, sentiu certo remorso por fazer a garota ficar naquele estado. Não entendeu porque, mas por um momento quis abraça-la e aninha-la em seu colo, dizer que tudo ia ficar bem. Meneou com a cabeça ao se dar conta dos pensamentos e então decidiu mudar um pouco o clima pesado que havia se instaurado no local — Olá, eu sou Hyuuga Neji e sou o professor substituto de Histologia. Estou aqui temporariamente no lugar de Might Guy. Sintam-se à vontade durante os próximos cinco minutos — falou sem retirar sua máscara fria e simplesmente pondo uma mão no bolso e se retirando do local.
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