Além das Quadras

22 Arco II – 22. Um olá não tão amistoso


Notas iniciais
OLAR MEUS AMORES E MINHAS AMORAS ♥ LEIAM AQUI, POR FAVOR Chegamos ao final de mais um ano e eu queria agradecer imensamente a todos que estiveram esse ano comigo, acompanhando AdQ, comentando, recomendando, me enchendo o saco por capítulos novos... Enfim, agradeço por tudo isso e que em 2018 vocês continuem comigo, me incentivando, me motivando, me tirando sorrisos e me ajudando a crescer como autora. Cada um de vocês têm um significado muito importante para mim e mesmo que eu seja uma péssima autora que não responde os comentários direito (2018 estamos ai pra melhorar isso, amém), quero que todos saibam que estão no meu coraçãozinho ♥ Amo todos os meus leitores, mesmo aqueles que ainda não têm coragem de dar as caras (inclusive, ano novo, vida nova! Prometo que não mordo se vocês aparecerem ♥). Foi um ano puxado, complicado e meio conflituoso, mas eu estou muito feliz por Além das Quadras ter avançado tanto. É uma minha primeira história original que eu posto aqui no site e o reconhecimento que ela teve foi uma baita de uma surpresa para mim. Eu não tenho nem palavras pra mostrar minha gratidão por tudo o que vocês têm me dado. Que em 2018 podemos crescer mais ainda, podemos avançar mais nessa história que eu amo demais escrever. Que as coisas para vocês corram bem, que seja um ano maravilhoso para cada um e que possamos estar sempre tentando ser pessoas melhores ♥ Que em 2018 consigamos chegar ao desfecho dessa história, pois tenho milhares de projetos para serem postados aqui e espero que todos gostem tanto quanto gostam de AdQ. Muito obrigada a todos vocês, mais uma vez. Um obrigado hiper especial para a Lethy, que é minha beta maravilhosa, que me atura tanto quanto as betagens, quanto nos surtos pessoais. Para o Vitor, que é meu melhor amigo e está sempre ma ajudando em todas as histórias, me dando ideias e solucionando alguns probleminhas. Para a Raquel, diva autora de Júpiter e Vênus que foi uma pessoa mega especial para mim em 2017 e que continue sendo em 2018 e por todos os anos que estão por vir. E também para toda a galera que se interessou em entrar para o grupo do WhatsApp e têm sido uns fofos e lindos, me enchendo de amor e motivação. Vocês são demais! Acho que já falei demais xD Fiquem com o último capítulo do ano ♥ Boa leitura Ghost Kisses ~Marceline

Henry não teria pregado o olho durante a noite se não fosse o remédio para ansiedade que passara a tomar. Com certeza ficaria remoendo como seria seu primeiro dia de aula se não fosse pelo remédio, mas a noite de sono não o impediu de acordar completamente exausto.

Já estava em processo de trote, para o qual ele estava se preparando psicologicamente já havia um tempinho. Seus veteranos já tinham feito um grupo no WhatsApp e outro no Facebook, comunicando aos calouros onde era para se encontrarem, fazendo-os colocar as suas fotos da identidade em seus perfis de Facebook e os incentivando a postar fotos no grupo respondendo algumas perguntas para se conhecerem mais.

Estranhamente, Henry não estava animado com o primeiro dia de aula.

Pelo grupo, ele tinha percebido que o povo de seu período era meio chatinho e metido, então isso iria lhe dificultar completamente a interação. Detestava gente chata e metida, se ainda por cima forem falsas, era um combo perfeito para Henry ter um ranço sem fim.

Acordou alguns minutos mais cedo e, sabendo que não iria conseguir dormir de novo, levantou-se para tomar um banho. Foi nesse momento que a história de Emerson sobre Erick lhe veio à mente. Ele não teve um tempo hábil para pensar sobre isso, uma vez que precisou dar atenção a Jules, que tinha sentido muito a sua falta durante o carnaval. Sem contar que teve que passar um tempo grande contando para Chris como tinha sido a viagem.

Mas agora ele tinha um pouquinho de tempo para pensar sobre aquilo.

Entendia porque Erick estava com raiva. Entendia que era muito provável que seu pai tivesse lhe machucado. Entendia que ele podia ter sofrido bullying na escola por causa disso. Porém, não entendia o motivo de Erick culpá-lo por tal coisa. Henry lembrava-se muito bem que Erick o culpava por alguma coisa durante os Jogos em Resende.

Ele queria muito saber o motivo daquilo.

Teve uma vontade de ligar para o outro. Perguntar o que tinha acontecido. Jogar a informação na cara de Erick pra ver o que ele falaria. Porém, estava determinado a esquecer o outro, mesmo que essa nova informação lhe enchesse ainda mais de dúvidas a respeito do que aconteceu com Erick. Eram duas partes dele que estavam em conflito. Uma queria falar com Erick. A outra queria mantê-lo em seu passado.

— A madame quer chegar atrasada no primeiro dia de aula? – a voz de sua mãe soou abafada pela porta. – Sai logo dessa merda, Henrique.

Aquilo foi o suficiente para Henry sair de seus devaneios, percebendo que tinha ficado um tempo absurdo debaixo do chuveiro. Saiu rapidamente, secando-se de maneira desajeitada e indo para seu quarto. Colocou uma roupa qualquer, arrumou suas coisas e saiu do quarto tentando pentear os cabelos rebeldes.

O café da manhã se passou como todos os outros: Fábio preparando a comida enquanto Cassandra se arrumava e tentava acalmar os gêmeos, que ficavam bastante agitados logo de manhã. Henry brincava com Jules para ajudar a mãe.

— Você quer carona, querido? – perguntou Cassie penteando os cabelos negros de Rach.

— Vai te dar mais trabalho?

— Vai não, é caminho para a escolinha deles.

— Então beleza.

Em poucos minutos todos estavam prontos e embarcando no carro de Cassandra. O caminho até a Universidade Federal de Minas Gerais não era tão longo de carro, porém Henry sabia que não seria sempre que teria essa mordomia de ir para a faculdade de carro. Tinha que se preparar psicologicamente para pegar ônibus.

Sua mãe lhe deixou em um dos portões da faculdade, desejando-lhe boa sorte e que tomasse cuidado. Henry despediu-se deles mandando beijo e entrou na universidade. Não fazia ideia de aonde teria que ir.

Ele olhou ao redor, vendo que as pessoas pareciam saber para onde iam. Então seus olhos pousaram em um garoto parado, mexendo no celular. Henry conteve os pensamentos de como ele era bonito e como era a única pessoa que estava parada e as outras pareciam apressadas demais para parar e lhe dar informação, Henry respirou fundo, tomando coragem para falar com o garoto. Como aquilo era difícil quando não estava querendo flertar.

— Ei – Henry cumprimentou quando chegou perto do indivíduo.

O garoto alto ou estava ignorando Henry, ou não sabia que estava sendo chamado. Ele teclava no celular rapidamente, fazendo com que Henry pensasse que ele estava concentrado no que quer que fosse que estava fazendo no celular. Então chegou um pouco mais perto, tocando-lhe o braço sobre a camisa de botões jeans.

— Oi – Henry forçou um sorriso quando o garoto levantou os olhos castanhos escuros, numa expressão indecifrável. – Tudo bem? Você sabe onde fica o prédio de Educação Física?

Ele ficou olhando para Henry por alguns segundos, deixando-o desconfortável. Não sabia muito bem o que dizer, estava quase indo embora quando o garoto finalmente respondeu:

— Também to querendo saber onde fica.

Henry sentiu-se subitamente aliviado, pois isso significava que era bem provável que aquele menino fosse calouro também. Sem contar que era bom não estar sozinho numa situação daquelas.

— Bom, estamos perdidos juntos, podemos nos ajudar – comentou Henry.

O garoto lhe encarou rapidamente, como se pensasse o que falaria a seguir.

— Tudo bem.

Henry assentiu e ficaram alguns segundos em silêncio.

— Você sabe onde é? – perguntou Henry.

— Sei que é do outro lado do campus. – respondeu o garoto.

— Sabe como chegar?

O garoto lhe estendeu um mapa da universidade, que Henry não tinha reparado. Analisou o papel durante uns segundos, notando que a EEFFTO, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, era realmente do outro lado do campus.

— Só dá pra chegar lá de ônibus se não quisermos nos atrasar.

— Onde pegamos esse ônibus?

— Isso eu não sei.

Henry já estava ficando nervoso, tanto por não saber para onde ir quanto pela personalidade meio reclusa do garoto. Henry nunca fora muito comunicativo ou sociável, deixava isso para Marge ou Erick, então era um pouco difícil lidar com alguém ainda mais recluso que ele. O garoto tinha até um ar um pouco metido, mas Henry não estava em posição de escolher quem se juntaria para ajudá-lo a chegar a seu destino.

Ele já tinha estado lá, para realizar sua matrícula, porém tinha ido de carro com seus pais e claramente sua mãe não tinha reparado que o tinha deixado no portão errado naquele dia. Henry sabia que possivelmente seria trote, que não teria aula, mas mesmo assim, não queria chegar atrasado.

— Bom, vamos dar um jeito então. – disse Henry finalmente depois de um tempo.

O garoto assentiu, então Henry começou a andar na direção do fluxo, vendo de canto de olho que o outro o seguiu, ficando rapidamente ao seu lado depois de alguns passos.

— A propósito, meu nome é Henrique.

— Bruno.

[…]

Erick não sabia se se sentia animado, ansioso, preocupado ou apreensivo.

Talvez estivesse sentindo uma mistura de tudo isso, fazendo com que acordasse mais cedo do que pretendia.

Aquele dia seria seu primeiro dia de aula se não tivesse desistido de entrar para a UEMG. Colocara seu nome na lista de chamada da UFMG e, se tudo desse certo, iria para lá no período que vem. Bom, ele estava contando mesmo com isso, pois sua nota não tinha sido tão ruim assim.

Mas ele estava ansioso por ser o seu primeiro treino no novo time de vôlei. Seu plano era dormir até mais tarde e acordar perto da hora do treino, mas falhou miseravelmente quando acordou 10 horas da manhã, sendo que o treino só seria lá pras 16 horas. Preferindo não dormir de novo, Erick ficou vendo série por tanto tempo que perdeu a hora.

Ele tinha que está no clube dali a 20 minutos, sendo que era basicamente o tempo que levaria para chegar lá a pé.

Caindo da cama, Erick saiu correndo pela casa de Nathália para se arrumar. As suas coisas estavam uma bagunça, então ele não conseguia achar suas joelheiras ou seu inseparável esparadrapo. Não tinha opção de ligar para Nathy para perguntar, então ele estava tirando tudo do lugar para conseguir achar seus pertences.

Estava fazendo tudo ao mesmo tempo, procurando suas coisas, se vestindo e jogando o que achava necessário em sua mochila.

— Ai que inferno – xingou quando topou seu dedinho do pé em um dos móveis da casa.

Não estava com tempo para parar e ficar caído no chão como se tivesse levado um tiro, até porque a dor era bem semelhante. Então saiu pulando em um pé só atrás de suas coisas, enquanto tentava escovar o dente com a mochila nas costas.

Nathália o mataria pela bagunça que tinha deixado na casa.

Tinha achado o que procurava, encontrando as coisas ironicamente em seu devido lugar. Mas quando a gente está com pressa, as coisas simplesmente parecem desaparecer e mudar de lugar. Com uma bufada irritada, Erick calçou os tênis, pegou o dinheiro da passagem de volta e a chaves de casa e saiu correndo pela porta.

Tinha 10 minutos para chegar lá.

Se fosse correndo, talvez chegasse. Se o ônibus passasse naquele exato segundo, talvez também chegasse a tempo.

Mas como o mundo parecia contra ele naquele dia, o ônibus que deveria pegar estava acabando de sair do ponto assim que ele pisou para fora do prédio. Erick estava gritando por dentro, querendo morrer naquele exato segundo.

Para a sua sorte, possivelmente a única do dia, ele sabia como chegar lá a pé, então tratou de sair correndo na direção do clube, como se não houvesse um amanhã. Precisava chegar na hora. Que tipo de pessoa eles iriam pensar que ele era se chegasse atrasado?

Maldito seja seu vício em Teen Wolf.

Já no meio do caminho, ele queria morrer. Poderia ser um atleta, mas sua resistência para uma corrida daquele jeito era péssima. Vez ou outra parava de correr e começava a caminhar rápido. Para seu azar, não tinha conseguido encher a garrafinha de água.

Ele tinha 2 minutos para chegar ao clube.

E graças a todos os bons deuses, ele avistou a entrada no clube, fazendo com que corresse mais rápido ainda e… Tropeçasse em uma elevação da rua e ralasse todo o joelho no chão. A dor veio rapidamente, mas como estava com muita adrenalina no corpo, ignorou as pontadas de dor e levantou-se, voltando a correr até a entrada do clube, passando a carteirinha de acesso com um pouco de violência pela pressa.

— A catraca não tá funcionando, garoto – disse o porteiro. – Me passe ela pra eu liberar para você.

Contendo um grunhido de raiva, Erick se apressou para o balcão, entregando a carteirinha para o homem, que demorou alguns minutos a mais que o necessário para conseguir fazer a liberação de Erick. Ele estava quase pulando a catraca e tacando o foda-se, mas obviamente não podia fazer aquilo.

— Pode passar.

Ele não precisou falar mais nada, Erick praticamente arrancou a carteirinha das mãos do porteiro e correu até o ginásio, quase caindo de novo. Quando chegou, estava mais de 5 minutos atrasado. Os atletas e o técnico já estavam reunidos perto dos bancos da quadra e todos o olharam quando ele entrou, pois a porta para abrir o ginásio fazia um puta barulho.

Tentou conter a vergonha de ter todos os olhares virados para si, sem contar o atraso.

— Finalmente chegou, rapaz – comentou o técnico um tanto debochado.

— Problemas técnicos no caminho, senhor – comentou Erick ofegante.

Ele estava completamente suado e o calor que estava naquele dia não estava ajudando nem um pouco. Para completar sua desgraça, não tinha água por perto e ele não podia sair dali para buscar.

— Percebi – falou o técnico apontando para a perna sangrando de Erick. – Quero que saiba que não tolero atrasos, mas como é o primeiro dia, vou deixar passar.

Erick apenas assentiu, fazendo menção de se sentar atrás dos seus colegas de equipe, mas o técnico o impediu prontamente.

— As apresentações já foram feitas, mas pode se apresentar para a equipe.

— Meu nome é Erick, tenho 17 anos e jogo como levantador.

— Obrigado, Erick. Agora vai lavar esse machucado. O banheiro é por ali. – disse o técnico apontando e assim Erick o fez.

Andou rapidamente até o local indicado, percebendo que o machucado estava realmente feio. Sangrava bastante e sua meia já estava um pouco manchada de vermelho. Erick tentou ser rápido, mas aquilo estava doendo de uma maneira horrível agora que o seu sangue tinha esfriado.

— Merda – resmungou. Com certeza ia ficar uma marca feia.

— Se passar papel é pior. – uma voz masculina soou atrás de si.

Erick deu um pulo tão grande de susto que quase caiu pra trás no chão molhado do banheiro, se não fosse pelo garoto que lhe segurou pelo braço na última hora.

— Tsc – resmungou o cara familiar – Você é desastrado assim mesmo ou fez cursinho?

Erick recuperou o equilíbrio, já com uma resposta mal criada na ponta da língua, mas parou assim que reconheceu quem era aquele garoto. A pele branca fazia contraste com os cabelos negros presos para trás, os olhos castanhos claros lhe encaravam com certa irritação. Não imaginou que Gabriel, o capitão da seleção brasileira sub 20 estaria ali.

Ele lembrava que, de cara, não tinha gostado muito de Gabriel. Ele tinha um jeito inexpressivo e sério, que irritava Erick, sem contar que em quadra era a pessoa mais autoritária e reclamona. Nada para ele estava bom. Para a sorte de Erick, ele não precisou jogar muito com o outro, mas agora que estavam no mesmo time de um clube, não teria como escapar.

— O que você tá fazendo aqui? – devolveu Erick com um pouco de irritação.

— O técnico pediu para te trazer isso – Gabriel disse levantando a caixa branca de primeiro socorros. – E para dizer para não demorar muito.

— Eu demoro o tempo que quiser – resmungou Erick revirando os olhos, voltando-os para seu machucado.

O movimento que Gabriel fez foi tão rápido que Erick não percebeu o que tinha acontecido até estar cara a cara com aquele rosto de traços fortes. Gabriel lhe segurava pela gola da camisa, levantando Erick um pouco por ser mais alto. A expressão dele era de pura raiva.

— Olha aqui, novato – começou Gabriel, a voz baixa contendo raiva – Eu não sou muito conhecido por ser paciente. Muito pelo o contrário. Então você baixa sua bola, porque tu não é ninguém dentro da minha quadra. Do meu time, ouviu bem?

Erick olhou para o banheiro, depois olhou para os seus braços e pernas, voltando o olhar para Gabriel com um tom provocativo e debochado.

— Não vi seu nome escrito em nenhum lugar – ele deu de ombros e abriu um sorrisinho debochado.

Erick viu os olhos castanhos claros de Gabriel tomar um brilho de ódio. Viu a irritação na expressão facial do outro e também na expressão corporal quando o aperto em sua blusa ficou mais forte. Internamente, Erick sentiu-se vitorioso pela provocação ter dado certo.

— Não se ache tanto. Você pode sair desse time com a mesma facilidade que entrou. – rebateu Gabriel. – Se eu fosse você, respeitaria mais o seu capitão.

Outra coisa que Erick tinha detestado em Gabriel era que ele se achava o foda por ser capitão do time. E vivia reforçando sua posição para o restante da equipe. Pelo visto, ali não iria ser tão diferente assim.

Erick não sabia se Gabriel esperava que ele ficasse surpreso pela revelação da posição “de poder” do outro, mas era óbvio que Erick não iria se deixar intimidar apenas por aquilo. Precisava de muito para ele deixar seu lado debochado e provocativo de lado quando não gostava de alguém.

Ele queria dar mais uma resposta afiada, mas antes que pudesse abrir a boca, Gabriel tinha lhe largado e saído do banheiro. Erick revirou os olhos. Pelo visto, não estava a salvo de qualquer tipo de aporrinhação.

[…]

Henry estava se recuperando de uma crise de ansiedade quando Marge chegou ao seu apartamento.

O remédio que estava tomando era eficiente, não tinha crises com tanta frequência, mas, mesmo assim, elas ainda vinham. Às vezes Henry só queria que aquilo simplesmente parasse, para que ele não tivesse que sofrer mais ainda.

Já tinha sofrido o suficiente antes por conta do primeiro dia de aula e ele não esperava sofrer de novo, horas mais tarde, por conta do primeiro treino de 2017 no time do Arsenal. Ele não entendia porque estava tão ansioso. Já conhecia as pessoas, já estava acostumado aos treinos. Talvez a ideia de terem um técnico novo estava deixando a cabeça de Henry mais neurada do que de costume.

Ele tinha ligado para Marge quando sentiu a crise vindo. Ela ficara no celular com ele até aquele momento, mesmo que estivesse dirigindo até sua casa. Ela dizia palavras acolhedoras, para que Henry se acalmasse. Deixou a música do rádio do carro tocando alto para que ele pudesse ouvir e se acalmasse ainda mais.

Ele odiava ter crises quando estava sozinho.

A porta estava aberta, então Marge não se preocupou em tocar a campainha, apenas entrou no apartamento de Henry, o encontrando no chão da sala com as pernas juntas ao tronco, a cabeça afundada nos joelhos.

Henry sentiu os dedos de Marge em seus cabelos, mas ele não levantou a cabeça e ela também não falou nada, apenas sentou-se ao seu lado e começou a acariciar sua nuca. Eles ficaram em silêncio, a respiração de Henry voltando ao normal pouco a pouco, enquanto Marge apenas estava ali, sabendo que sua presença de certa forma o acalmava.

Afinal, já tinha mais de 8 anos que passavam por isso. Estavam acostumados.

Ele sentiu quando ela saiu de seu lado, mas também estava ciente de sua presença no apartamento. Logo voltou, cutucando-o com o cotovelo levemente, fazendo com que ele levantasse a cabeça. Ela estava com um copo de água e um sanduíche de queijo para ele. Henry forçou um sorriso para a melhor amiga, aceitando a água primeiro.

— Tá melhor? – ela finalmente falou.

— Sim, obrigado, miga – ele respondeu, soltando um suspiro. – Não esperava por isso.

— Você nunca sabe quando vai acontecer, bebê. Você tem muita sorte de me ter.

Henry soltou uma risadinha abafada.

— Tenho mesmo.

Então ficaram lá, apenas apreciando a companhia um do outro enquanto Henry comia e ficava mais calmo. Conversaram um pouco, vez ou outra, mas parecia que naquele momento o silêncio era mais confortável do que qualquer palavra. Eles tinham intimidade suficiente para que o silêncio nunca fosse desconfortável.

O tempo foi passando, ficaram na sala assistindo TV, Henry deitado com a cabeça no colo de Marge enquanto ela acariciava seus cabelos. Iriam sair dali a pouco para o treino, então estavam apenas matando o tempo.

Quando deu 15h30, Marge mandou Henry se arrumar para eles irem. Ele não demorou muito para ficar pronto, colocando a mochila em seus ombros assim que caminhava para a sala.

— Calma que vai dar tudo certo, okay? – ela disse sorrindo para ele. – É quase impossível te odiar.

Ela sabia sobre a substituição do técnico, então deveria ter deduzido o motivo da crise de Henry, mesmo que às vezes ela viesse sem motivo algum.

— Esse quase que me preocupa – ele resmungou pegando as chaves e seguindo para a porta.

— Fica quieto e aceita que você só é 99% anjo, perfeito – ela brincou, fazendo Henry soltar uma risada.

— Você é doida.

— A doida que você ama.

Logo estavam no carro do pai de Marge, indo em direção ao Arsenal ao som de um funk qualquer que estava tocando na rádio. Não demoraram muito para chegar ao local, identificaram-se e Marge estacionou o carro dentro do clube. Saíram do veículo, Henry respirando fundo.

— Obrigado, miga – ele disse antes de dar um abraço nela.

— De nada, amore. Só tenha calma e mostra o hominho da porra que você é – ela lhe deu tapinhas nas costas, sorrindo com um pouco de deboche.

— Idiota. – ele revirou os olhos sorrindo – Bom treino, troço.

— Pra ti também – ela respondeu – Quando acabar, vem pra cá. Vou te deixar em casa.

Henry concordou com a cabeça e eles se separam, visto que os treinos eram em quadras diferentes. Ele caminhou a passos largos até a quadra, tentando manter-se calmo durante o trajeto. Quando chegou ao seu destino, viu que o novo técnico ainda não havia chegado, mas alguns dos seus colegas de time sim e estavam brincando com uma bola.

— Hey, Henry! – cumprimentou Ivan antes de receber uma bolada na cara de Diego – Seu filho da puta!

Henry riu, acenando para seus colegas depois de um tempinho sem vê-los. Foi para o banco, colocar suas coisas e, quando menos esperava, praticamente todos os jogadores estavam a seu redor.

— E ae? Como foi estar na seleção? Meus parabéns pelo título!– perguntou Diego animado. – Saquarema deve ser muito linda.

— Vocês mereceram, jogaram demais! – exclamou Felipe.

— Obrigado – Henry sorriu de leve e foi inundado de perguntas sobre como tinha sido.

Então ele contou como foi a experiência de jogar na seleção e de ter jogado fora. Eles comentaram que o jogo foi transmitido ao vivo pelo Facebook e eles puderam ver a semifinal e a final. Henry contou tudo o que podia, respondendo as perguntas de seus colegas e rindo vez ou outra de algum comentário engraçado.

Com isso ele ficou mais tranquilo, mesmo que sua mente tenha vagado vez ou outra para Erick. Mesmo que a sintonia entre eles dentro de quadra não saísse de sua cabeça sempre que a imagem de Erick vinha em sua mente. Tentou a todo momento afastar aqueles sentimentos confusos e pensamentos repentinos, concentrando-se nos seus colegas.

— Muito bem, rapazes! Vamos começar o trabalho – uma voz masculina soou pela quadra, fazendo todos se virarem para a entrada dela.

Um homem calvo com um sorriso simpático se aproximava deles. Henry ficou logo apreensivo, pois ele claramente era o novo técnico.

— É um prazer conhecer todos vocês. Me chamo Vicente e serei o novo técnico de vocês. – ele começou assim que todos ficaram em silêncio. – Podem se sentar, vou dar uma palavra antes de começarmos mesmo.

Todos se sentaram ao redor de Vicente, todos parecendo animados com o ano que começava. Henry focou seus olhos no novo técnico, enquanto ele falava sobre como seriam os treinos, o que ele exigiria de cada um deles e falou um pouco sobre um amistoso contra o Argos Belo Horizonte Clube que fariam no próximo mês.

— Com as coisas básicas ditas, quero que vocês se apresentem. Nome, idade e posição, por favor. – disse Vicente. – Pode começar com o rapaz que chegou atrasado ai no fundo.

Henry virou-se para trás, arqueando as duas sobrancelhas quando identificou quem era o indivíduo atrasado. O cabelo loiro escuro estava maior, mais enrolado desde a última vez que o vira. Os olhos azuis, mesmo expressando um pouco de culpa, ainda tinham um tom malicioso. Agora dava para ver melhor as tatuagens que cobriam seus braços, uma vez que estava com uma regata.

— Leonardo, 18 anos, ponteiro passador. – disse o garçom da cafeteria que Marge e Henry costumavam frequentar.

Ele lembrava-se da vez que Leonardo tinha se intrometido em uma conversa entre ele e Marge. Lembrava-se que ele achava líberos metidos. Henry soltou uma risada interna. O que Leonardo iria pensar quando visse que estavam no mesmo time? Isso é, se o outro se lembrasse de Henry.

Os outros foram se apresentando, até chegar a vez de Henry, que se levantou e deu uma olhada para Leonardo antes de falar:

— Henrique, 18 anos, líbero.

Henry olhou para Leonardo antes de se sentar, vendo a expressão surpresa dele. Ele lhe lançou um sorrisinho de lado e um aceno, fazendo com que Henry soubesse que o tinha reconhecido.

Os outros terminaram de se apresentar e Vicente já os colocou para dar algumas voltas ao redor da quadra para aquecerem. Todos se levantaram, começando a correr em um ritmo mediano.

— Ora, ora, não é que caímos no mesmo time? – a voz de Leonardo soou ao seu lado. Henry virou a cabeça para o garoto, ainda correndo.

— Coincidência, não? – sorriu Henry.

— Eu chamaria de destino – retrucou Leonardo com um leve tom de flerte. Henry não se oporia em ficar com aquele garoto, obviamente. – Será que você entrou na minha vida pra me provar que nem todos os líberos são metidos?

Henry soltou uma risada.

— Isso vai depender de você.

— Você tem uma carinha de metido mesmo, mas aparentemente é só carinha mesmo. – Leonardo deu de ombros.

— Puxa vida, muito obrigado. As pessoas falam muito isso, já to acostumado.

Leonardo ia falar mais alguma coisa, porém Vicente os mandou parar com a corrida para fazerem outra sessão de aquecimento. Então eles se separaram, sem falar mais nada.

Henry ficou curioso quanto àquele garoto. Queria saber como ele jogava. Para estar ali, ele tinha que ser no mínimo bom. Além disso, ele era ponteiro passador, uma posição que exigia uma defesa e um passe muito bons, sem contar que o ataque também tinha que ser bom. Henry sempre achou a posição de ponteiro muito interessante, pois a pessoa tinha que ter todos os fundamentos bem treinados para ser considerado um bom ponteiro.

Ele estava ansioso para jogar com e até contra Leonardo e sentia que os dois iam se dar muito bem.

Esperava estar certo sobre isso.

[…]

Levou exatamente um mês para Erick finalmente se acostumar com seu novo oposto.

Quando estavam na seleção, Erick e Gabriel não jogavam muito juntos, dando sempre preferência para o levantador titular, então ele não teve muita experiência em jogar com o garoto.

E ele tinha que dizer que foram dias sofríveis. Gabriel era bem do tipo mandão, para quem nunca nada estava bom e que sempre ficava exigindo tudo de todo mundo. E parecia que Erick era seu alvo favorito quando se tratava de encher o saco. Os levantamentos de Erick nunca estavam bons o suficiente para ele, mesmo que o técnico falasse que Erick estava se saindo muito bem.

Eles brigavam. Muito. Praticamente todos os treinos eram uma batalha diferente de uma guerra que não parecia ter fim. Gabriel evitava cair no soco com Erick, dava para perceber nitidamente. Mas Erick também não ajudava, sendo debochado com o outro sempre que ele começava a querer arrumar encrenca.

Porém, mesmo diante dessa situação toda, eles estavam começando a se dar bem. Pelo menos dentro de quadra. Gabriel ainda exigia muito de Erick, mas ele estava tentando levar isso como algo positivo para melhorar dentro de quadra. E foi exatamente assim que eles começaram a receber milhares de elogios do técnico, dizendo que os dois tinham uma harmonia dentro de quadra muito boa, mesmo quando brigavam.

Isso deixou Erick completamente feliz. Faltava uma semana para o tão aguardado amistoso contra seus arquinimigos, os garotos do Arsenal Esporte Clube. Erick lembrava-se de quando jogava no Arsenal quando tinha por volta dos 9/10 anos. Lembrava-se da rixa enorme entre o Argos e o Arsenal. E quem diria que ele estaria no outro lado da quadra naquele momento.

Entretanto, ele sabia quem encontraria do outro lado da quadra. Sabia, a partir das várias conversas com Marge, que Henry estava jogando pelo Arsenal. Erick sabia que mais cedo ou mais tarde eles iriam se encontrar, que Henry iria saber que ele estava de volta a BH. Mas não queria que fosse tão cedo assim.

— Erick, porra! – gritou Gabriel. – Presta atenção no jogo, caralho.

Erick suspirou. Aquele era o último treino antes do amistoso e ele tinha que admitir que o fato de jogar contra Henry novamente estava o deixando apreensivo.

A bola veio, o líbero conseguiu ao menos colocar a bola no ar, fazendo com que Erick tivesse que se deslocar rapidamente até a bola mal recepcionada. Porém ele conseguiu fazer o levantamento para Gabriel, que cravou a bola do outro lado, marcando o fim do set e a vitória do time deles no treino.

— Isso aí, porra! – comemorou Gabriel indo na direção de Erick e o erguendo no ar com um abraço.

Quando ele percebeu o que tinha feito, colocou Erick no chão, fingiu que estava tossindo e olhou para o lado, como se tivesse envergonhado, tomando novamente a pose de machão.

— Quero dizer, você mandou bem – disse num tom de voz mais grosso. – Mas você precisa se concentrar mais. Quero esmagar aqueles desgraçados com tudo o que nós temos.

Erick limitou-se a dar uma risada, concordando com a cabeça.

— Vou dar meu melhor, Gabriel – ele disse. Iam fazer um intervalo para o próximo set. – A propósito, você deveria sorrir mais. Seu sorriso é muito bonito pra ficar guardado atrás dessa carranca toda.

— Cala a boca e vai pro banco – disse Gabriel e Erick fingiu que não viu o leve rubor de vergonha nas suas bochechas.

Erick escondeu o sorriso. Tinha descoberto o ponto fraco de Gabriel. Ele detestava que falassem coisas que o deixassem com vergonha. Então ele fazia isso com uma grande frequência para que o outro não ficasse lhe enchendo tanto o saco. Pelo visto, estava funcionando.

— Ei, Gabriel – Erick chamou – O que aconteceu com suas mãos?

Erick tinha reparado que as mãos de Gabriel estavam machucadas, como se tivesse socado a parede várias vezes ou tivesse batido em alguém. Ele ficou um pouco receoso de perguntar, mas como sabia que o outro tinha baixado a guarda, resolveu tentar uma abordagem.

Gabriel olhou os nós dos dedos rapidamente, escondendo as mãos numa toalha que havia pegado no banco.

— Não é da sua conta. – respondeu, voltando a ser o Gabriel de sempre.

Erick iria teimar e encher o saco do outro até que ele falasse o que tinha acontecido, mas não pode fazer isso, pois o técnico chegou perto deles, fazendo com que os atletas se juntassem ao seu redor para que ele pudesse falar.

— Antes de vocês voltarem para a quadra, vou falar um pouco mais sobre o jogo que será daqui a dois dias. Nós vamos jogar fora de casa nesse primeiro jogo, então quero que vocês se preparem psicologicamente para isso. O pessoal do Arsenal é muito competitivo e os torcedores não ajudam muito.

Ele continuou falando mais um pouco. Disse que o técnico do Arsenal era novo e que isso poderia ser uma vantagem ou uma desvantagem para eles. Então tinham que dar tudo de si no jogo se quisessem realmente ganhar.

— Já adiantando, vou passar a lista dos titulares desse primeiro amistoso. – continuou o técnico pegando uma prancheta com os nomes. – Vamos por ordem. Levantador: Erick Schneider.

Erick estagnou por alguns segundos ao ouvir aquilo. Só não ficou mais tempo parado porque Gabriel tinha lhe dado um tapinha no ombro como parabenização. Ele piscou algumas vezes na direção do oposto, que também seria titular, e murmurou um “isso é sério?” para Gabriel. Sabia que ele ajudava o técnico a escolher os titulares e Erick estava realmente surpreso por ter conseguido a posição no time principal.

Gabriel apenas acenou com a cabeça, sem um sorriso nem nada. Erick ainda estava meio em choque quando o técnico os liberou para o próximo set do jogo. Agora ele tinha que usar essa confiança de técnico a seu favor. Jogaria como se estivesse valendo sua vida. Se dedicaria com tudo o que tinha e acabaria com o outro time sem nem pensar duas vezes.

Ele finalmente sentia que as coisas podiam dar certo para ele.

[…]

— Hey, Cap. Quando a gente vai poder treinar de novo? – Leo disse animado no final do treino.

— Meu Deus, menino – riu Henry – A gente mal terminou um treino e você já quer outro?

— To falando daqueles particulares, você sabe né? – Leo disse num tom malicioso e depois riu. – Eu to muito animado com esse jogo. Quero derrotar o Argos com tudo. Então vamos treinar mais uma vez defesa antes do jogo?

— Vamos com calma. A gente precisa descansar também – comentou Henry guardando suas coisas.

— Descansar é para os fracos.

Henry balançou a cabeça negativamente, com um sorriso no rosto.

Não foi muito difícil gostar ainda mais de Leonardo.

Ele era uma pessoa bem alto astral e por mais que tivesse um tom malicioso quando se dirigia a Henry, eles nunca avançaram. Ficavam apenas nas brincadeiras e flertes maliciosos, o que era até divertido. Henry super ficaria com o outro, mas aparentemente a única relação que eles teriam era de amizade.

Henry se impressionou com as habilidades de Leo. Ele era um excelente atacante, conseguia atacar praticamente todas as bolas do levantador. Sua defesa também era boa, mas tinha algumas coisas para melhorar.

Em um dos treinos, quando Leo já tinha percebido que Henry não fazia do tipo metido, ele lhe perguntou como estava sua defesa. Henry foi super sincero e falou o que podia ser melhorado no melhor tom de crítica construtiva.

— Hmmm… – soltara Leo pensativo – Bom, então podemos treinar fora do horário. Pra você me ajudar a melhorar, né?

De início, Henry ficou meio receoso com a ideia. Sempre fora do tipo de dava dicas a respeito de defesa e recepção, mas nunca treinara com alguém para o outro melhorar esses fundamentos. Henry sentiu o peso da responsabilidade sobre seus ombros e tentou negar nas primeiras vezes.

Porém, Leo fazia a linha do insistente e teimoso. Passou duas semanas perturbando Henry até que ele cedesse. E ele cedeu, pois ficou pensando que precisaria desse tipo de experiência caso quisesse trabalhar na área de Educação Física, como pretendia. Então aceitou o desafio, chamando Marge para ajudá-lo, já que ela também era ponteira.

Os três passaram vários dias treinando. Leo sendo atencioso e determinado em melhorar sempre. E era bem notável a evolução do garoto com os treinos particulares entre Henry e ele. Henry ficara levemente orgulhoso de si por conseguir algo assim, deixando-o ainda mais animado com o curso de Educação Física. Ele passou a querer dar aulas, a treinar outras pessoas e as aulas na faculdade eram tão maravilhosas que ele passou a não se imagina fazendo qualquer outra coisa.

E pensar que, quando mais novo, ele odiava praticar esportes.

— Se líberos pudessem ser capitães de times, eu com certeza iria querer que você fosse meu capitão. – dissera Leo quando terminaram um treino na quadra do prédio de Henry.

Henry levantou uma sobrancelha, surpreso com a declaração de Leo.

— Não levaria jeito para isso. – Henry deu de ombros.

— Tá de brincadeira, né? Você é ótimo! Tá sempre nos motivando e exigindo o nosso melhor. Eu acabo tendo a necessidade de melhorar só pra ser o suficiente pra você.

Henry ficou meio em choque com aquela afirmação. Era certo que ele gostava de incentivar seus colegas de time. Que estava sempre ajudando quem precisasse e dando conselhos e dicas para os outros jogadores. Mas nunca ninguém tinha falado nada do tipo para ele. Henry sentiu-se verdadeiramente honrado com aquelas palavras.

— Você tá exagerando… – falara Henry meio tímido.

— Não estou, Cap – brincou Leo e levantou-se do chão estendendo a mão para ajudar Henry.

— Cap? – perguntara Henry rindo.

— Sim, aceita que dói menos.

Henry limitou-se a rir e assentir com a cabeça. Leo passou a chamá-lo assim pelo resto dos treinos. Tinha virado algo natural para ele e Henry aceitava numa boa, já que era basicamente um puta de um elogio.

— Então? Pode chamar a gata da sua amiga pra treinar com a gente. Não me oponho – disse Leo tirando Henry de seus devaneios.

— Acho melhor a gente sossegar um pouco. O jogo é daqui a dois dias.

— Se a gente perder, eu vou te culpar! – exclamou Leo de brincadeira.

— Sossega.

Incrivelmente, os dias se passaram rápido e o grande dia chegou.

O jogo seria no Arsenal mesmo e seria num sábado, então grande parte dos familiares das duas equipes poderiam assistir ao jogo deles. Henry ficou um pouco triste por saber que Chris não iria por conta de alguma coisa na Igreja, mas tinha ficado super feliz em saber que seus pais levariam os gêmeos para assisti-lo. Seria o primeiro jogo a que eles iriam assistir e Henry estava entre sentir-se imensamente feliz e imensamente preocupado, pois não queria decepcionar seus irmãos.

Graças ao seu remédio, conseguiu dormir tranquilamente no dia anterior ao jogo. Mas, mesmo assim, ele sentia-se ansioso e um tanto apreensivo, então não deixou de lado seu inseparável cubo mágico e seus fones de ouvido.

Tinha já dado mil abraços em Jules e Rach, o garoto super empolgado com o jogo e falando para Henry marcar vários pontos para ele. Henry sentiu-se um pouco mal por isso, mas explicou rapidamente que a posição dele não podia marcar pontos. Jules pareceu chateado, mas mesmo assim o motivou a dar o seu melhor.

Já estava sentado no banco fazendo sua sessãozinha antiestresse, fazendo e desfazendo o cubo mágico com rapidez enquanto escutava uma música alta nos fones de ouvido. O técnico já tinha dito que ele seria o líbero titular, então estava se preparando psicologicamente para entrar em quadra.

O outro time já tinha chegado, mas Henry não se deu o trabalho de desviar sua atenção do cubo para observar o time do Argos. Gostava de analisar os seus adversários, mas só o faria quando estivessem dentro de quadra.

Além disso, estava com um pressentimento estranho. O lugar estava tão agitado e barulhento que Henry não conseguia ouvir seus próprios pensamentos nem se tivesse sem os fones de ouvido. Mas seu cérebro teimava em dizer a ele que alguma coisa estranha estava para acontecer. Henry sempre teve o pressentimento aguçado, raramente ele estava errado, então isso o deixava nervoso de uma forma totalmente desconcertante.

Não podia pensar naquilo. Não podia ter uma crise no meio de mais um jogo.

Henry sentiu uma movimentação ao seu lado e virou o rosto, vendo que Leo estava falando algo consigo, porém não o escutava por conta dos fones de ouvido. Henry tirou um dos lados do objeto de sua orelha, falando para Leo repetir o que tinha dito.

— Você fica tão nervoso assim antes dos jogos? — perguntou.

Henry ainda não tinha falado sobre o seu problema de ansiedade para Leo. Esperava não precisar, mas se viu numa situação que tinha que explicar levemente. Então falou de maneira resumida sobre a ansiedade, as crises e os remédios que tomava para ficar bem.

— Sem contar que to com um pressentimento de que algo grande vai acontecer. – finalizou ele olhando para os seus tênis azul, branco e vermelho de cano médio. Mexia as mãos no cubo nervosamente.

— Que barra, cara… – comentou Leo, com um tom realmente triste. – Mas você vai superar isso e nós vamos derrotar esses caras. Esse pressentimento seu é um alerta da nossa vitória.

Henry sorriu de leve para o amigo, mas sabia que o pressentimento não era sobre uma derrota, nem nada relacionado diretamente com o jogo. Sentia que alguma coisa em sua vida mudaria após a entrada em quadra.

— Vamos sim, Leo – disse sorrindo sem os dentes para o amigo.

— É isso ai! — disse ele animado, batendo nas costas de Henry e levantando do banco. — Vamos acabar com eles!

Henry limitou-se a rir e levantar-se também. O técnico chamou todos para dar as últimas instruções e já iam entrar em quadra.

— Deem o melhor de vocês – disse Vicente. – E acima de tudo, divirtam-se.

Juntaram as mãos e gritaram animados, os titulares indo na direção da quadra e os reservas indo para o banco. Seu time tinha perdido no cara ou coroa, fazendo com que perdessem a posse de bola inicial.

As posições em quadra foram tomadas e Henry encarou os jogadores do outro lado da rede, porém arrependeu-se imediatamente quando bateu os olhos em quem estava no final da quadra, com a bola nas mãos.

Ele não tinha mudado nem um pouquinho. Talvez apenas os cabelos dourados enrolados que estavam um pouco maiores, mas de resto… Os olhos castanhos continuavam os mesmos, com aquele brilho apagado e um pouco de apreensão. Não conseguia decifrar sua expressão, mas não notou nenhuma surpresa ou choque quando seus olhos pousaram em Henry. Como se ele já soubesse que se encontrariam.

Não sabia que o outro tinha voltado para Belo Horizonte. Estava surpreso e levemente irritado, pois toda a sua determinação para esquecê-lo poderia ir por água abaixo caso Erick tivesse realmente voltado a morar em Belo Horizonte.

Mais uma vez seu pressentimento não falhara.

Então, subitamente, Henry voltou para aquela vez que tinham jogado um contra o outro nos Jogos da Amizade em Resende. Sentiu novamente a confusão, a agonia, a raiva e a tristeza que sentira quando tinha reencontrado o ex-melhor amigo. Naquela mesma situação. Sendo rivais.

As palavras de Erick voltaram a ecoar bem vivas na cabeça de Henry.

Você nunca vai ser um bom jogador. Desista do vôlei assim como de tudo o que você desiste na sua vida medíocre.”

Henry se pegou querendo dar o troco em Erick por conta daquele encontro entre os dois, ainda mais por ter sido derrotado por ele. Queria uma revanche, a irritação tomando conta de si tão rapidamente que ele nem se reconheceu.

Pousou as duas mãos nos joelhos, flexionando o corpo para ter melhor movimento na hora de recepcionar a bola, e esperou o apito para o início do jogo, que veio segundos depois. Henry acompanhou os movimentos de Erick, que bateu a bola no chão três vezes e a girou uma vez na mão para finalmente jogá-la para o alto e realizar o saque.

Ainda sem quebrar o contato visual com Erick, a bola veio, porém não foi em sua direção, então apenas assistiu seus companheiros de time fazerem os três toques e mandarem a bola para o outro lado.

Um dos jogadores da zona de defesa recepcionou a bola que tinha sido bloqueada pelos jogadores da zona de ataque e a direcionou para as mãos de Erick. Sem deixar de olhar a bola, Henry viu o levantamento do outro. A bola tocou seus dedos em um toque e foi lançada para trás, fazendo o jogador a esquerda cortar a bola perfeita e fazer um ponto.

Henry cerrou os punhos. Erick tinha melhorado seu maldito levantamento. Henry tentava não ficar feliz pelo outro por estar melhorando e caminhando para o seu sonho de ser jogador profissional. Tentava não pensar no passado que tiveram juntos, pois aquilo atrapalharia o jogo inteiro. Tentava não pensar em nada relacionado a Erick.

Mas estava difícil. Ainda mais quando Erick lhe lançou aquele olhar inexpressivo, como se nem o conhecesse. Como se nem tivessem tido uma vida juntos. Como ele conseguia ser tão frio? Como conseguia fingir que estava tudo bem?

Henry achou que tinham avançado na seleção, mas parecia que não tinha adiantado de nada aquele entrosamento que tiveram dentro de quadra.

Na cabeça de Henry, Erick parecia querer guerra. E ele não seria o primeiro a levantar a bandeira branca.

Notas finais
FELIZ NATAL ATRASADO PARA VOCÊS E UM FELIZ ANO NOVO. QUE TODOS ENCHAM O BUCHO DE COMIDA ♥ Até ano que vem, seus lindos ♥ Ghost Kisses ~Marceline