Além da vida

6 Renesmee- Seth Clearwater


A vida é um mistério que eu, sinceramente, não sei se um dia serei capaz de desvendar completamente. E a morte? Talvez seja ainda mais enigmática. Eu me pergunto por que algumas pessoas voltam em outras vidas. Por que eu tenho as memórias de alguém que não sou eu? Eva, minha tia, morreu de uma maneira trágica, e desde criança precisei aprender a separar o que era a minha vida do que era a vida dela. Eu não sou Eva, eu sou Renesmee Cullen. Filha de Isabella e Edward Cullen.

Por mais que as memórias de Eva me assombrem, elas não me definem. Eu escolhi o caminho da veterinária, porque amo os animais. Mas, curiosamente, compartilho com Eva o amor pelos cavalos. Ela era uma exímia amazona, e eu sinto uma conexão inexplicável com eles. No entanto, isso não muda o fato de que eu sou eu. Não sou Eva, e eu preciso provar isso a mim mesma, de uma vez por todas.

Enquanto organizava meu novo quarto em Seattle, esses pensamentos me rondavam. As lembranças de Seattle são poucas; saímos daqui quando eu tinha apenas um ano. Agora, o cheiro úmido da cidade misturado com a brisa salgada do oceano parecia estranho e ao mesmo tempo familiar.

O quarto era espaçoso, com janelas grandes que deixavam a luz do final de tarde entrar. O piso de madeira antiga rangia de leve sob meus pés. Coloquei a caixa de livros sobre a cama, que tinha uma cabeceira estofada de linho bege. Ao redor, espalhei alguns móveis que trouxe comigo da Holanda — minha escrivaninha de carvalho, uma poltrona confortável coberta por uma manta de lã e, claro, minha coleção de quadros.

Esses quadros eram meu refúgio. Desenhos que eu fiz ao longo dos anos, principalmente de cavalos. Animais que, assim como eu, pareciam entender algo sobre força e liberdade. Pendurei três deles na parede ao lado da janela. Um retratava um cavalo correndo em um campo aberto, com a crina esvoaçando ao vento. O segundo mostrava um potro recém-nascido ao lado de sua mãe, e o terceiro... o terceiro era o Tornado, o cavalo de Claire. Desenhei aquele cavalo com precisão, mesmo sem nunca tê-lo visto pessoalmente. O que me assustava não era minha habilidade de desenhá-lo, mas o fato de eu sentir que o conhecia, como se tivesse montado nele antes.

Suspirei, parando um momento para observar o ambiente ao redor. O contraste entre minha personalidade e a de Eva era gritante. Eu sou romântica, sonhadora. Sempre fui. Gostava de finais felizes, de histórias de amor que terminam com sorrisos. Eva era o oposto. Ela era moderna, despojada, mais direta e decidida. Duas pessoas completamente diferentes dentro de um só corpo.

Deitei-me na cama por um momento, deixando meu olhar vagar pelas paredes recém-decoradas. Aqui, em Seattle, eu sabia que estaria mais perto de descobrir o que realmente aconteceu com Eva. Algo dentro de mim dizia que ela voltou à minha vida para buscar justiça, e por mais assustador que isso fosse, eu sentia que essa era a minha missão.

— Você está bem? — a voz de minha mãe soou da porta, interrompendo meus devaneios.

— Estou, mãe. Só pensando... — respondi, sentando-me na cama. — Pensando em como é estranho estar de volta aqui. Parece um novo começo, mas ao mesmo tempo, tudo está tão conectado ao passado.

Ela entrou no quarto e se sentou ao meu lado, seus olhos observando os desenhos na parede.

— Eu entendo. — Ela sorriu, me puxando para um abraço. — Mas é como você disse, Nessie. Você não é Eva. Esta é a sua vida, suas escolhas.

Eu sabia que ela estava certa. Mesmo que as memórias de Eva fossem intensas, eu precisava continuar a me lembrar disso. Eu sou Renesmee Cullen, e essa é a minha jornada, não a dela.

— Eu vou descobrir o que aconteceu com ela, mãe. — Sussurrei, com uma determinação renovada. — Eu preciso fazer isso.

Mamãe me olhou nos olhos, e eu vi a preocupação nos dela, mas também algo mais. Orgulho.

— Só tenha cuidado, Nessie. Não deixe que isso te consuma.

Eu assenti, sabendo que ela estava certa, mas também sabendo que não havia como evitar o que estava por vir.

Enquanto organizava os últimos detalhes no meu quarto, olhei ao redor, satisfeita com o resultado. Havia quadros que eu mesma desenhei, principalmente de cavalos, uma das poucas paixões que eu compartilhava com Eva. Mas, ao contrário dela, que era moderna e despojada, eu sempre fui mais romântica e sonhadora. O contraste entre quem eu sou e quem Eva foi sempre me fez pensar: por que tenho essas memórias? Por que ela está tão presente em mim?

Desci para a cozinha, onde mamãe estava terminando de preparar o jantar. Estávamos em Seattle há apenas dois dias, e meu pai já havia se jogado de cabeça no trabalho no hospital, como de costume. Quando entrei, o cheiro delicioso de macarrão tomou conta.

— Quer ajuda, mãe? — perguntei, me aproximando.

— Pode fazer o molho? — respondeu mamãe, sorrindo de leve.

Peguei os ingredientes sobre o balcão e comecei a preparar o molho. Aquecer o azeite, dourar o alho... enquanto o cheiro de alho se espalhava pela cozinha, comecei a pensar em como essas pequenas rotinas eram a única coisa que me mantinham ancorada na minha própria vida, em quem eu sou de verdade. Adicionei os tomates picados e mexi a panela devagar, deixando o molho engrossar, como mamãe sempre fazia.

Foi então que ouvi a porta da frente se abrir. Papai entrou, a voz ecoando pela sala.

— Trouxe visitas! — anunciou, animado, enquanto entrava na cozinha.

Ele beijou mamãe carinhosamente e, em seguida, veio até mim, deixando um beijo suave na minha testa. Sorri.

— Oi, pai. — Falei, sem tirar os olhos do molho. — O jantar está quase pronto. Vou levar o macarrão para a mesa.

Peguei a travessa, agora cheia do macarrão com o molho que eu havia preparado, e segui em direção à sala de jantar. Quando cheguei lá, vi um homem sentado à mesa. Ele aparentava ter mais ou menos a idade do meu pai, e sua expressão amigável rapidamente deu lugar a um olhar de surpresa ao me ver.

— Ela é igual a... — ele começou, com a voz levemente embargada.

Suspirei profundamente, já sabendo onde isso ia parar.

— Sim, sim. Igual à minha tia. — Respondi, antes que ele pudesse terminar a frase. Coloquei o macarrão na mesa com um pouco mais de força do que planejava.

Frustrada, voltei rapidamente para a cozinha, sentindo meu rosto esquentar de irritação. Mamãe logo veio atrás de mim, com um olhar compreensivo.

— Você sabia que seria assim, Nessie. — disse ela, sua voz gentil, mas firme.

Eu olhei para o chão, tentando afastar a frustração e soltei um suspiro pesado.

— Eu sei... desculpa, mãe. — respondi, forçando um sorriso tímido.

Ela se aproximou e passou a mão no meu ombro, me transmitindo aquela calma que só ela conseguia.

— Está tudo bem. Não precisa se desculpar. — Ela sorriu de leve. — Vamos jantar, certo? Não vale a pena ficar se chateando com isso.

Assenti. Ela estava certa, como sempre. Eu precisava aprender a lidar com essas comparações. Não poderia fugir delas para sempre.

Voltei para a sala, tentando deixar de lado a frustração de antes. Meu olhar pousou em Seth, que ainda parecia um pouco desconcertado pela minha semelhança com Eva. Sentei-me à mesa e olhei para ele.

— Desculpa pelo que aconteceu agora há pouco. — murmurei, tentando recuperar a compostura.

Seth sorriu, um sorriso suave e compreensivo.

— Não se preocupe, Renesmee. Eu entendo. Se fosse comigo, eu também não gostaria de ser comparado a ninguém. — Ele deu uma risadinha, quebrando a tensão.

Retribuí o sorriso, mas havia algo nele... algo que parecia familiar de uma forma que eu não conseguia definir. Era quase como uma lembrança distante. Continuei enrolando a massa no meu garfo, mas não conseguia parar de olhar para Seth.

— Você conheceu minha tia Eva? — perguntei, tentando fazer soar casual, mas havia uma curiosidade crescente em mim.

Seth assentiu.

— Sim, conheci. Nós éramos amigos desde a época da faculdade. Ela, Jake, e eu passávamos bastante tempo juntos naquela época.

Ouvir o nome de Jacob fez algo mexer dentro de mim, mas me mantive focada na conversa. Continuei a enrolar o macarrão, meus olhos pousando, por acaso, na pulseira de couro que Seth usava no pulso. Era simples, discreta, mas algo naquela pulseira me trouxe uma onda repentina de lembrança.

De repente, me vi em outro lugar... ou melhor, Eva se viu. Estávamos – ela estava – em uma praia, o vento do mar bagunçando seus cabelos. À sua frente, Seth estava mais jovem, com uma expressão séria no rosto. Eva segurava a pulseira que agora estava no pulso de Seth.

— Você sabe que eu tenho direito, Eva. — Seth disse, sua voz carregada de algo que soava como dor ou ressentimento.

Não é tão simples assim, Seth. — Eva respondeu, sua voz um sussurro tenso, quase suplicante.

Eles pareciam íntimos, próximos de uma forma que eu não esperava. Havia algo mais profundo ali, algo que a memória não estava me deixando ver por completo. Seth estendeu a mão, e Eva colocou a pulseira em seu pulso, um gesto que parecia selar alguma espécie de promessa ou pacto.

A lembrança era vaga, desconexa, e eu não conseguia entender exatamente sobre o que eles estavam falando. Mas a intensidade do momento entre eles me deixou enjoada. Senti o estômago revirar de repente, e tudo ao meu redor parecia girar.

— Com licença... — murmurei, levantando-me apressadamente da mesa.

Corri para o banheiro, mal conseguindo segurar o enjoo que me invadia. Fechei a porta atrás de mim e respirei fundo, tentando me recompor. Aquelas lembranças... por que elas sempre vinham com tanta força?