Além da vida

7 Renesmee- Decisão


Quando saí do banheiro, encontrei minha mãe do lado de fora, me esperando com uma expressão preocupada.

— Você está bem, Nessie? — perguntou, os olhos escaneando meu rosto.

— Estou, foi só um mal-estar. Acho que não comi direito — menti, escondendo a verdadeira causa do desconforto. Não queria falar sobre as memórias de Eva agora.

Minha mãe tocou minha testa com a palma da mão, franzindo a testa ao perceber o calor.

— Você está febril. Acho melhor ir para o quarto e descansar um pouco.

Suspirei, percebendo que não tinha como escapar.

— Tudo bem, vou subir.

Troquei de roupa e coloquei um pijama confortável, sentindo a mente voltar repetidamente à lembrança que tive de Seth. Quem ele tinha sido para Eva? Não podia ser apenas um amigo... Havia algo mais ali, algo profundo que eu ainda não conseguia compreender completamente. Eu sentia as emoções dela em mim, e isso me deixava desconcertada.

Logo minha mãe entrou no quarto, interrompendo meus pensamentos.

— Seth vai te examinar. Acho que é melhor ter certeza de que está tudo bem. — disse, ajeitando a coberta sobre mim.

Assenti, embora me perguntasse por que meu pai, médico como sempre, não cuidava disso.

Seth entrou logo depois, e no instante em que o vi, senti meu coração disparar. Mas não era um sentimento meu. Era de Eva, eu sabia disso. E, estranhamente, não era amor o que eu sentia... era outra coisa, algo que não conseguia decifrar completamente.

Ele se aproximou com um sorriso leve, como se quisesse quebrar o gelo.

— Pelo jeito, não trouxe muita sorte para você, já que ficou resfriada bem na minha visita. — brincou.

E, sem pensar, respondi como se fosse Eva.

— “Acho que você é o responsável por essa má sorte, Seth.”

No mesmo instante, ele me olhou, visivelmente assustado.

— O que você disse? — perguntou, a voz tensa, como se esperasse que eu repetisse.

Eu hesitei, mas acabei repetindo.

— Acho que você é o responsável por essa má sorte...

Os olhos dele ficaram arregalados.

— Eva costumava dizer isso para mim... — murmurou, quase para si mesmo.

Percebi o erro que cometi e inventei rapidamente uma desculpa.

— Deve ter sido uma coincidência... ou talvez ouvi você mencionando algo e ficou na minha cabeça sem eu perceber.

Ele pareceu aceitar, embora ainda atordoado. Se aproximou mais, pegou um termômetro e fez o exame rápido, mantendo o olhar curioso sobre mim.

Quando terminou, ele se afastou um pouco, ainda visivelmente abalado.

— É estranho... como se a Eva estivesse aqui, só que com cabelos acobreados e cacheados. — disse, a voz baixa.

Sorri timidamente.

— Tudo bem, Seth.

Ele balançou a cabeça, ainda atordoado, e então minha mãe e meu pai entraram no quarto. Edward, com sua expressão sempre atenta, olhou para Seth, que logo deu seu veredito.

— Parece ser apenas uma virose. Nada sério, ela só precisa de descanso.

Com isso, ele se despediu, mas a confusão ainda estava em seu olhar. E, enquanto ele saía, eu sabia que aquele encontro tinha despertado algo muito maior, algo que talvez estivesse prestes a ser revelado...

O sono veio de forma pesada e, assim que fechei os olhos, fui transportada para um lugar familiar. O som das ondas quebrando suavemente contra a praia encheu meus ouvidos, e quando olhei ao redor, reconheci La Push. O cheiro salgado do mar misturava-se com o vento fresco que balançava meus cabelos. No entanto, algo estava diferente; eu não estava sozinha.

Seth estava lá, caminhando em minha direção, mas não era eu. Era Eva. Eu podia sentir a diferença, como se estivesse vendo tudo pelos olhos dela. O calor do sol tocava minha pele, e os sentimentos que Eva carregava dentro de si eram intensos e confusos.

— Eva, por favor... — Seth disse, sua voz rouca e cheia de emoção. — Você não pode simplesmente me dizer que foi um erro. O que aconteceu entre nós... foi real.

Eva balançou a cabeça, claramente dividida, dando um passo para trás, como se quisesse colocar uma distância entre eles.

— Foi um erro, Seth. Nunca deveria ter acontecido. — Ela soava decidida, mas algo em sua voz entregava o quanto estava lutando contra os próprios sentimentos. — Eu amo Jacob... sempre o amei.

Seth deu um passo à frente, se recusando a aceitar suas palavras.

— Mas você me ama também, Eva. Eu sei que sente algo por mim. Não vou desistir de você sem lutar. — Seus olhos estavam intensos, cheios de determinação.

Eva suspirou, pressionando as mãos contra o peito, como se tentasse manter o controle sobre as emoções que transbordavam.

— Seth, não. Isso foi um momento de fraqueza. Não pode acontecer de novo. — Apesar de suas palavras, ela não conseguia se afastar dele.

Seth se aproximou ainda mais, seus olhos fixos nos dela, cheios de dor e desejo.

— Eu não me importo com os erros. Eu não posso te perder, Eva. — E antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ele a beijou.

Por um segundo, ela resistiu, mas logo depois cedeu. Eva retribuiu o beijo, como se toda a dor e confusão dentro dela estivessem sendo canalizadas para aquele momento. O beijo era intenso, desesperado, cheio de tudo o que ambos queriam dizer, mas não podiam.

Eu senti o coração de Eva acelerar, e uma onda de emoções invadiu meu corpo — paixão, culpa, e algo mais profundo, um laço que ela não podia cortar. Seth era muito mais do que um amigo para ela.

De repente, tudo começou a se distorcer, as imagens tremeluziram e eu me senti sendo arrancada do sonho.

Acordei de repente, o coração batendo forte no peito. As batidas eram rápidas e descompassadas, e o suor escorria pela minha testa. Respirei fundo, tentando me acalmar, mas as emoções que ainda pairavam sobre mim eram confusas e perturbadoras.

Agora eu sabia. Eva estava dividida entre Seth e Jacob. Havia muito mais entre ela e Seth do que uma simples amizade, e essa descoberta me atingiu como uma avalanche.

Na manhã seguinte, acordei com uma clareza que não havia sentido em dias. Acordei decidida. Se havia algo em Seth que poderia me ajudar a desvendar o mistério de Eva, então era hora de confrontar essas memórias e, de algum jeito, encontrar respostas. Eu precisava saber o que havia acontecido com minha tia.

Levantei-me da cama com um propósito. Escolhi uma blusa de seda verde oliva, ajustada ao corpo, e uma saia midi preta que abraçava minha cintura. Queria algo confortável, mas que me fizesse sentir confiante. Meus cabelos acobreados estavam soltos, com leves ondas, e passei uma maquiagem suave: base leve, delineador sutil nos olhos, e um batom nude. Não era uma produção extravagante, mas o suficiente para me sentir forte e preparada.

Com a bolsa em mãos, saí do quarto e desci as escadas. Senti um alívio inesperado ao ver que meu pai ainda estava em casa, sentado à mesa com minha mãe, ambos tomando café.

Assim que me viram, seus olhares denunciaram preocupação.

— Bom dia — eu disse, tentando parecer animada. — Estou ótima.

Mamãe, que ainda estava no fogão, franziu a testa, me observando de canto de olho. Papai baixou o jornal, seus olhos se estreitando levemente.

— Tem certeza, Nessie? — perguntou ele, a voz carregada de preocupação. — Ontem à noite você parecia... mal.

— Sim, foi só um mal-estar rápido. Não é nada com o que vocês precisem se preocupar. — Sentei-me à mesa, pegando uma torrada.

Mamãe se aproximou, ainda visivelmente hesitante.

— Tem certeza de que não quer descansar mais um pouco, querida? — ela disse, pousando a mão no meu ombro. — Você está passando por muita coisa... Não precisa se forçar a nada.

Suspirei, tentando não demonstrar frustração. Eu sabia que ambos estavam apenas preocupados comigo, mas precisava agir.

— Estou bem, de verdade — insisti, pegando uma xícara de café. — E, na verdade, estava pensando... queria ir com papai ao hospital hoje.

O olhar de surpresa no rosto de meu pai foi imediato.

— Ir ao hospital? — Ele me observava atentamente, provavelmente tentando ler meus pensamentos.

— Sim — continuei. — Preciso enfrentar as memórias de Eva. Eu já estou carregando isso há tanto tempo, e ficar evitando não vai me ajudar a seguir em frente. Acho que encontrar as pessoas que ela conhecia... pode ser um passo importante para eu entender o que aconteceu.

Mamãe cruzou os braços, visivelmente desconfortável com a ideia.

— Nessie, não quero que você passe mal novamente... E se as lembranças forem demais?

Eu a olhei com seriedade, tentando mostrar a confiança que sentia.

— Mãe, eu preciso que confie em mim. Eu sei o que estou fazendo. Vou estar com papai. — Lançando um olhar para ele, acrescentei: — Ele vai ficar de olho em mim, certo?

Meu pai hesitou por um momento, mas então, com um suspiro leve, assentiu.

— Claro. Vou ficar de olho nela, Bella. — Ele me lançou um olhar firme antes de voltar-se para minha mãe. — Não se preocupe. Se algo acontecer, estarei lá.

Mamãe olhou de um para o outro, claramente ainda receosa, mas finalmente cedeu.

— Tudo bem. Mas, por favor, Nessie, se sentir qualquer coisa estranha, me avise.

— Prometo. — Sorri, aliviada por ela ter concordado.

Terminamos o café em um silêncio leve, enquanto eu tentava manter a calma. O peso das lembranças de Eva ainda pairava sobre mim, mas ao mesmo tempo, havia uma sensação de urgência que eu não podia ignorar. Eu precisava saber mais. Precisava descobrir o que Seth significava para minha tia... e o que havia acontecido entre eles.

Assim que terminamos o café, peguei minha bolsa, e meu pai se levantou para pegar as chaves do carro.

— Vamos? — perguntou ele.

— Vamos. — Respondi, me sentindo preparada para o que viesse.

Com um último olhar de confiança para minha mãe, saímos juntos em direção ao hospital.