Além da psicologia
8 Você gosta de Harry Potter?
Notas iniciais
Anote aí: Ciclotimia. Mais um pra minha lista de transtornos. Se bem que ciclotimia não é tanto um transtorno, é só um probleminha chato de personalidade. E lá vai eu explicar novamente o que é ciclotimia. É muito confundido com Transtorno Bipolar. Eu odeio quando a pessoa xinga a outra de bipolar só porque muda de humor de repente. escuto muito isso na escola: Nossa, de manhã você estava feliz, agora está com raiva e mais tarde ficará triste, você é muito bipolar! Acredite em mim, depois que você tem uma noção a mais que todos sobre o que são transtornos, você se estressa quando escuta o conceito errado.
Transtorno Bipolar é a variação entre dois estados: ansiedade e depressão. Entenda bem que eu disse DOIS estados. Por isso, Bipolar. Pessoas bipolares ficam agitadas e ansiosas ao extremo, mas depois entram em uma depressão profunda. Aí você se pergunta: Karine, você não é assim?
Deixe-me responder: eu não vivo em uma clínica para loucos (pelo menos até agora não). Pessoas de bipolaridade devem ter tratamento, mas podem ficar em casa, mas em bipolaridade extrema, é super necessário que seja internada. Uma pessoa bipolar pode quebrar sua casa e no dia seguinte chorar arrependida.
Não estou confundido você, estou? Mas o que eu tenho é ciclotimia. Vou separar as palavras para você: ciclo-timia. Ciclo: é um ciclo, e você sabe o que é um ciclo; e timia: é temperamento, ou seja, ciclotimia é o ciclo do temperamento. De manhã feliz, de tarde com raiva, depois estressada, depois ansiosa, depois triste, ou até, às vezes, todas as emoções juntas!
Mas eu não fiquei surpresa quando descobri. Podem me revelar qualquer problema agora que eu nem ligo mais.
E eu já estava voltando a estudar! Pessoas me odiando porque fiz Tamires ser expulsa e ninguém falando comigo, mas tudo bem. Eu já me sentia melhor. Já que as probabilidades indicam que eu teria cerca de dois ataques de síndrome do pânico em toda a minha vida, agora só me resta um, já que tive o primeiro há um mês. Sim, aquele que me levou ao coma. Acho que se eu tiver outro vou morrer.
Mas tinha um ser que insistia em falar comigo na escola:
– Por que você ligou pra mim naquela noite? — o nerd perguntava.
– Foi engano — respondia friamente.
– Você parecia desesperada.
– Eu sempre estou desesperada.
Apressei o passo para entrar na sala, mas ele me puxou.
– E meu livro?
–
Que livro?
– Harry Potter.
– Ah, a culpa não foi minha se você me emprestou.
E o deixei sozinho.
Três semanas se passaram depois que sai do coma. Minha mãe me prometeu uma viagem nesse fim de semana. Vamos à praia. Estava feliz. Estava bem. Ainda falava com meus amigos drogados, mas eu não usava mais as drogas.
Era sexta-feira, arrumei umas poucas coisas pra levar. Seria quatro horas de ônibus. Baixei uma lista de reprodução nova e peguei Cidades de papel para ler.
No sábado, acordei super animada. Iria ser um momento apenas para mim e minha mãe. A probabilidade de eu ter qualquer crise lá era quase zero e eu tinha que admitir que eu estava indo bem com o tratamento nas últimas semanas.
– Vamos, Karine, em quatro horas estaremos em um lugar totalmente diferente — chamou minha mãe.
– Já vai!
Tirei Cidades de papel da bolsa. Já havia lido aquele livro duas vezes, não precisava de uma terceira. Pensei em levar de última hora Deixe a neve cair, mas acabei pegando o último provável livro que leria na vida: Harry Potter. Joguei o livro na bolsa e segui até minha mãe.
Quando estávamos no ônibus, coloquei o fone de ouvido e abri A pedra filosofal. Eu não queria nem um pouco ler aquele livro, mas seria uma uma ótima disculpa dizer ao nerd que perdi o livro dele na praia. Aí ele não me perturbaria mais.
Ok, eu me enganei. Li o primeiro capítulo, segundo, terceiro, quarto... Cara, esse livro é demais! Cheguei ao hotel onde ficaríamos e almocei. Minha mãe me chamou para ir à praia, mas quando se tem um belo livro para ler, a praia pode esperar.
Já no domingo, tinha terminado o livro e como eu não tenho uma sanidade tão perfeita (não me diga!), liguei para o nerd. Ele atendeu imediatamente.
– Alô?
– O que eu sou?- perguntei.
– Quem tá falando?-
– Karine Amaral.
– Karine? Dá escola?
– Sim, mas diz logo o que eu sou!
– Como assim, o que você é? Agora você parece louca!
– Ah, seu nerd idiota! Fãs de Jogos Vorazes são tributos, de Divergente são iniciandos e fãs de Harry Potter?
– Potterheads? Bruxos?
– Não pergunte a mim! — E do nada comecei a rir.
– Você está bem?
–Ótima! Acabei de ler o livro que você me emprestou.
– Já era tempo.
– Leve a continuação da saga amanhã, quero ler todos.
E eu desliguei na cara dele. Típico de alguém com ansiedade.
O dia seguinte foi o meu melhor dia na escola.
– Oi, Karine — o nerd veio falar comigo, mas não fiquei com raiva. Sentei até ao lado dele na sala.
– Trouxe os outros livro? — perguntei animada.
– Sim.
Ele os tirou da mochila.
– Ah, obrigada, lhe devolvo em uma semana.
Ele franziu as sobrancelhas.
– Uma semana? Se for ler na mesma velocidade que leu o primeiro livro...
– Ei, ei! — o cortei rindo. Estava tão bem naquele dia... Sentia-me até mais bonita. Tinha me olhado no espelho de manhã; meus cabelos pretos e lisos estavam À altura dos ombros e estavam brilhantes. Meus olhos cinzentos transmitiam um brilho diferente. — Eu amo ler. — Ele me encarou. — É sério. Na primeira vez que conversamos eu disse que não gostava, pois estava com raiva. Mas a verdade é que eu sou apaixonada por livros.
– Então por que demorou a ler o que eu lhe emprestei?
– Ah, longa história... Desculpa por isso.
– Tudo bem.
Ele soltou um suspiro. Ele estava sendo tão compreensivo comigo e eu nem ao menos sabia o nome dele.
– Qual seu nome? — perguntei, por fim.
– Filipe.
Sorri.
E sabe por que aquele foi meu melhor dia na escola? Por que passei o recreio e a saída conversando com Filipe. Tínhamos tanta coisa em comum... E quando ele tirou os óculos no refeitório, não foi estranho. Ele tinha olhos muito lindos... Azuis.
– Você está lindo — deixei escapulir.
– O quê?
– Nada. Por que tirou os óculos?
– Não preciso muito deles. Só pra ler.
– Então por que vive com eles?
– Sei lá. Fico melhor sem eles?
Assenti.
– Então não vou mais usá-los — ele disse.
– Só porque eu disse? E desde quando minha opinião importa?
– Ah, Karine. As pessoas não sabem como você é até terem contato com você.
– E como eu sou?
– Não acho que você seja uma garota problemática.
– Sério?
–
Todos nós temos problemas. É injustiça só notá-los em você.
Senti meus olhos marejarem com a sensibilidade dele.
– Eu... Tenho que ir.
– Já?
– Tenho que ir ao consultório de garotas problemáticas depois do almoço — falei rindo.
– Então tchau.
Dei um beijo em seu rosto e sai da escola, por algum motivo, com uma felicidade inabalável.
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