Além Do Bem E Do Mal

12 Capítulo 12 - DICOTOMIA


Notas iniciais
Oi gente!!
Tudo bem com vcs?
Resolvi antecipar um pouquinho a postagem desse capítulo para ter mais tempo de responder os reviews (que eu espero que sejam muuuuuitos kkkkkkkkkkk).
Vamos começar uma parte mais tensa da história, mas sempre que der colocarei umas ceninhas quentes dos dois para estimular nossas fantasias. kkkkkkkkkkk
Beijão enorme pra vcs e obrigada pelos comentários fofos que me mandaram.
Espero que gostem.
A quem possa interessar, Dicotomia é (entre outras definições): "Ideias com dois pólos distintos aos quais não se consegue dar primazia a nenhuma delas."

CAPÍTULO 12 – DICOTOMIA

“Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
depende de quando e como você me vê passar.”

(Clarice Lispector)

Bella ignorou o frio e a ventania que castigava as árvores e abriu a janela do carro, colocando o rosto para fora.

- Bella, levante esse vidro ou você vai acabar congelando! – Edward falou bravo.

- Só levanto se me contar onde estamos indo. – Bella o desafiou, já quase não agüentando mais a dor e queimação que as rajadas geladas de vento lhe causavam.

- Deixa de ser teimosa, Bella! Vai ficar doente!

- Então me conte. – Falou rindo, tentando esconder que estava em seu limite.

Edward a puxou como se manuseasse uma pena e fechou a janela com o controle que ficava do seu lado.

- Se fizer mais uma gracinha dessas, te prendo neste banco até chegarmos lá em casa. – Naquele momento Bella não tinha nenhuma dúvida de que Edward era um velho com mais de cem anos.

Ele disse lá em casa?”

- Casa? Estamos indo pra sua casa?? – Bella sentiu seu coração parar de bater. Não podia ter ouvido certo, pensou.

Edward rolou os olhos e deu um leve soco no volante, provavelmente irritado por ter falado mais do que devia.

- Sim. – Ele se limitou a dizer, mantendo os olhos na estrada.

- Eu não quero ir lá! Pare esse carro agora, Edward! Não vamos a lugar nenhum! – Bella estava apavorada. Não conseguia imaginar uma única razão para Edward a levar no covil dos Cullen.

Depois de fazerem amor e ter almoçado a deliciosa lasanha pronta que Edward lhe levou na bandeja, Bella tinha sido convidada por ele para um passeio. O que jamais suspeitou era que o destino era aquele.

Edward estacionou no acostamento e se virou para ela. Seu rosto tinha uma expressão preocupada.

- Está com medo que eles te façam algum mal, Bella? Minha família nunca faria isso e nem eu permitiria. Acha que te levaria lá se houvesse algum risco para você?

- Edward, acredita mesmo que a única forma de sua família me fazer mal é enterrando as presas na minha jugular? Não te passa pela cabeça que existem outras formas de se machucar alguém? – Bella nem mediu suas palavras, pouco se importando em estar sendo agressiva. – Eles não gostam de mim sem ao menos me conhecerem... Acha que isso não me magoa, que isso não me fere? O que foi que eu fiz para eles? Que mal lhes causei? – Bella perguntou cheia de ressentimento. — Não quero ir lá! Por favor, me leve de volta para o apartamento. – Sua voz já saiu embargada pelo choro que se aproximava.

- Bella, por favor, não fique assim! – Edward a puxou para junto dele, encostando o rosto dela em seu peito silencioso. – Tudo bem, amor! Se não quer ir, não iremos, mas não vejo nenhum motivo para se comportar assim.

- É que eu já cansei de ser rejeitada! – Bella agora soluçava descontroladamente. – Não imagina quantas vezes eu me senti assim quando outras crianças do abrigo eram adotadas e eu não. Não preciso mais me expor a isso, Edward. Não vou deixar mais ninguém fazer eu me sentir um verme... Mais ninguém!!!! – Desabafou, chorando copiosamente.

Edward a abraçou e se desculpou.

- Desculpe-me, meu amor. Não imaginei que estava tão magoada com eles. Foi uma péssima idéia querer te levar lá. Perdoe-me, Bella. Por favor, me perdoe.

Quanto mais ele falava, mais ela se descontrolava.

- Não chore assim, amor. – Edward parecia não saber o que fazer.

Bella não respondeu nada. Não conseguia falar. Apenas deixou que o choro a esvaziasse, até que um grande buraco se formasse em seu peito, aliviando a pressão que a sufocava minutos atrás.

Quando se acalmou, Edward segurou seu rosto e a fez encará-lo.

- Não me conformo de ter sido tão insensível. Estou me sentindo horrível por tê-la feito passar por isso.

Bella respirou profundamente, fazendo um último esforço para se recompor. Estava envergonhada por ter se mostrado tão frágil.

- Já passou, Edward. Não tenho mais idade para me descontrolar assim. Desculpe-me também.

- Você é só uma menina assustada, Bella. Apenas me deixe cuidar e proteger você dessas verdades doloridas... É tudo o que eu mais quero.

Bella gostou do que ouviu, embora discordasse da sua forma protecionista de tomar decisões por ela.

- Quer que eu a leve ao apartamento? – Edward perguntou cheio de ternura, enchendo-a de carinhos e beijos em seus cabelos.

- Não, quero ir à campina. Importa-se de me levar lá novamente? – Bella pediu, querendo reviver aqueles momentos de paz que tiveram lá.

- Claro que sim! É uma ótima idéia. É o mínimo que posso fazer para merecer seu perdão.

Enquanto Edward acelerava o carro, Bella abriu a bolsa e começou a retocar a maquiagem, toda borrada pelas lágrimas derramadas, sentindo-se cada vez mais aliviada. Apesar do surto ter passado, ainda estava brava por ele não ter pedido sua opinião sobre visitar sua família.

Refeita do susto, resolver entender o que tinha se passado.

- Por que quis me levar na sua casa, Edward? – Perguntou cautelosamente.

Ele pareceu meio preocupado em retomar o assunto, mas respondeu.

- Queria que os conhecesse melhor. E que eles te conhecessem também. – Ele se explicou. — Bella, eu te amo loucamente. Minha vida não tem mais sentido sem você ao meu lado, porém minha família também é muito importante para mim... Queria apenas que eles entendessem o quanto você é uma pessoa especial. Sei que quando te conhecerem melhor perceberão porque a escolhi e aceitarão que não tem mais volta. Que nossas vidas estão definitivamente entrelaçadas, mesmo que tudo isso seja uma grande ironia do destino.

- Como assim, “ironia do destino”?

Edward mordeu os lábios. Repetindo a expressão de quando tinha falado sobre onde estavam indo.

- Um dia eu te explico.

Bella sentiu seu sangue ferver. Tinha todos os motivos para estar irritada, mas desconfiava que a aproximação do seu período menstrual potencializasse, e muito, sua raiva.

- CHEGA, EDWARD!! – Se exasperou. – Não agüento mais tantos segredos, tantas frases evasivas, tantos mistérios! Você quer que eu faça parte da sua vida, mas sempre que pode me deixa fora dela. Estou cansada das suas protelações. Ou você me conta quem realmente você é ou paramos por aqui! Para começo de história quero saber o que aconteceu com os Gordon! Você me prometeu que me explicaria se eu ficasse aqui em Forks e eu cumpri a minha parte. Se não vai cumprir a sua me avisa que eu vou embora hoje mesmo!

Bella não sabia de onde havia tirado tanta obstinação. Tinha imposto uma condição para continuarem juntos e temia que Edward optasse pelo silêncio. Se ele se calasse teria de tomar uma atitude firme. Por mais que o amasse desesperadamente, não ia se subjugar a uma relação cheia de mentiras e segredos. Viver sem o amor de Edward poderia significar sua morte, mas tê-lo pela metade não lhe parecia algo com o que pudesse conviver. No verdadeiro amor não cabiam meia pessoas nem meias verdades... O verdadeiro amor era formado de duas metades inteiras, pensou.

Edward parou o carro e só então Bella percebeu que estavam no fim da estrada que levava à campina.

- Bella, eu vou te contar o que quer saber, mas espere só até chegarmos à campina. Eu juro que não adiarei mais nossa conversa.

- Está bem, também prefiro que conversemos lá. Aquele lugar tem uma paz e uma energia que me fará muito bem. Não estou muito controlada hoje.

- É, eu já percebi... – Edward falou, tentando em vão disfarçar o sorriso cínico que quase fez Bella começar a brigar de novo.

A corrida foi rápida e relaxante. Bella afundou seu rosto no pescoço dele e tentou se desligar dos problemas, nem que fosse por alguns segundos. Deixou que as lembranças da manhã de amor que tiveram acalentassem seu coração amedrontado.

Eles tinham fugido da realidade, mas parecia que ela os tinha encontrado...

Sentaram-se sobre a relva, já que desta vez Edward não tinha se preparado para o passeio.

- O que quer saber, Bella? – Ele perguntou sério.

- Se não foi você que matou a família Gordon, quem foi? – Bella foi direto ao assunto.

Edward pensou por alguns segundos, respirou fundo e finalmente falou:

- Foi um grupo de nômades. Vampiros que se alimentam de sangue humano. – Ele explicou melhor. — Eu e minha família guardamos essa região, tentando evitar esse tipo de ataque, mas infelizmente não é sempre que conseguimos interceptá-los.

- Mas você foi pego na casa deles, com as roupas sujas de sangue. O que estava fazendo lá? Por que não fugiu? Você poderia simplesmente correr que ninguém o alcançaria.

- Bella, para mantermos a paz entre vampiros e humanos é primordial que nossa existência fique em segredo. Muitos de nós trabalhamos arduamente para manter esse anonimato. Um dos trabalhos que eu e minha família fazemos é limpar a sujeira que nossa espécie espalha por aí. Sempre que há algum risco de que o assassinato nos deixe em evidência, temos de esconder as provas, mesmo que às vezes essas provas sejam os corpos.

- Então fo-foi você que escondeu os corpos? – Bella começou a sentir-se tonta. Já não sabia mais se queria realmente saber a verdade.

- Fui eu sim, Bella. Os vampiros que os atacaram eram insaciáveis. Eles praticamente os transformaram em múmias, bebendo todo o sangue que tinham no corpo. Tínhamos que fazer alguma coisa. Assim que um médico legista os examinasse ele perceberia que algo estava errado. Apesar de ninguém assumir publicamente, muitos profissionais da polícia técnica americana desconfiam da nossa existência. Foi necessário.

- E o que você fez com eles? Meu Deus, Edward, dois deles eram crianças! Como teve coragem? – Não havia ar suficiente naquele lugar. Bella começou a ter dificuldades para respirar.

- Bella, você não está bem. Vamos para com essa conversa. Vou te levar embora. – Edward falou preocupado, fazendo menção de se levantar.

- NÃO! Agora vamos até o fim. Eu estou bem. – Mentiu.

- Eu sei que não está. Posso medir sua pressão apenas ouvindo o som de suas artérias. Ela está muito baixa. Você está a ponto de desmaiar. Sem falar que está praticamente hiperventilando.

- Edward, se continuar mudando de assunto eu não respondo por mim. Fala logo... O QUE VOCÊ FEZ COM OS CORPOS? – Bella se desesperou, perdendo totalmente a paciência.

- Eu os enterrei na floresta! – Ele desabafou, acuado. — Eles tiveram um enterro decente, Bella. Foram colocados em caixões e fizemos orações, mesmo não sabendo se nossas preces foram aceitas.

- Acha mesmo que ter usado caixões e feito orações dignifica o que fizeram? – Bella se levantou e colocou as mãos na cabeça. Estava fora de si. – Esconder cadáver é crime, Edward! É conivência. Isso te iguala ao assassino!

- Eu não me orgulho de ser um “faxineiro”, Bella, mas pode ter certeza que o que fiz, ou melhor, o que eu e minha família fizemos evita muitas outras mortes. Não ia querer ver uma guerra entre sua espécie e a minha, pode ter certeza disso.

- Se têm tanto medo de serem descobertos, por que se deixou ser preso? Agora sua família está sendo investigada.

- Sabíamos que seria assim. Precisávamos desviar a atenção do FBI e da polícia. Os vampiros nômades deixaram um rastro muito evidente. Voltei lá, mesmo sabendo que minha família se tornaria um alvo das investigações porque decidimos que assim correríamos menos riscos. Apesar de tudo, nossa documentação e nosso disfarce são muito bem forjados. Carlisle cuida disso com muito afinco e experiência. Nem mesmo o FBI vai achar nada que nos comprometa. O tempo que fiquei preso foi suficiente para meus irmãos acharem os carniceiros e acabarem com eles.

- Você atrapalhou uma investigação do FBI.

- Queria mesmo que Preston chegasse perto dos verdadeiros assassinos? O que acha que aconteceria com ele, Bella? Se seu amigo está vivo hoje, deve isso a mim e ao meu trabalho sujo! – Ironizou, claramente magoado com as insinuações dela.

Bella ficou olhando para ele sem saber o que dizer. A parte “cor-de-rosa” da história, onde os vampiros eram bonzinhos e se alimentavam de bichos tinha terminado. Estava conhecendo a versão adulta da biografia dos vampiros, espécie de seu namorado. E não era nada agradável...

- Você fala como se fosse o herói, como se nós, os humanos, tivéssemos uma dívida de gratidão com você – falou por fim.

- Não discordo dessa forma de ver as coisas. – Edward concordou.

- Pois saiba que esta é a forma que “você” vê as coisas, Edward! O que fez foi muito cruel. Você impediu a família daquelas pobres pessoas de velar os seus corpos, de enterrá-los, de seguirem o ritual do luto. Eles estão sofrendo!

- Eu sei, Bella! Acha que eu gosto do que faço? Acha que não senti nada quando coloquei aquelas crianças na cova? Foi horrível! É sempre detestável e dilacerante termos de conviver com esse lado “assassino” da nossa espécie. Tentamos fugir dele com um esforço hercúleo. Não imagina o quanto nos custa viver sem o sangue humano. Dói, Bella, dói muito! Nossa garganta queima dia e noite. O som do fluxo sanguíneo dos humanos que nos rodeiam gritam em nossos ouvidos, convidando-nos para um banquete que nos é proibido. O cheiro de sangue que vocês exalam faz o veneno fluir em nossas bocas, como se fosse ácido nos corroendo. Por mais que tentemos esquecer, está ali, na nossa frente, estampados na pele dos mortos a nossa verdadeira essência e as conseqüências de sermos quem somos. Eu não queria fazer o que eu faço! Deus sabe que eu não queria ser o que eu sou! Eu não tive escolhas, Bella. Eu apenas tento fazer o melhor que posso, mesmo que esse “melhor” se pareça com o “pior” para você.

Edward tinha se colocado explicitamente na defensiva, expondo um lado de sua vida que Bella desconhecia.

Naquela hora ela sentiu pena de Edward. Seus sentimentos estavam tão contraditórios que não sabia mais o que pensar. Queria colocá-lo no colo e dizer que estava tudo bem, que reconhecia o esforço dele. Que o amava mesmo assim... Mas também precisava convencê-lo de que o que ele fazia era vil e detestável. Que a seu ver ele era tão culpado quanto os assassinos, pois fora assim que aprendeu no FBI. “Se você não faz parte da solução, é parte do problema”, diziam seus colegas da Agência. Restava saber de que lado Edward estava... Ele era bom ou mau, era o problema ou a solução? Poderia alguém ser as duas coisas ao mesmo tempo? Edward era jovem e velho, vivo e morto... Por que não ser também herói e vilão? — – Bella se perguntava.

A resposta para suas dúvidas estava dentro dela, mas sua mente dizia uma coisa, enquanto seu coração insistia em dizer outra.

- Bella, pelo amor Deus, me diga o que está pensando. – Edward falou, fazendo-a voltar à realidade.

- Eu não sei mais nada, Edward. Minha cabeça parece que vai explodir.

- O que você queria ter ouvido de mim, Bella? Que história pensou que eu contaria? Não cogitou em nenhum momento que eu poderia estar envolvido de alguma forma nesse assassinato? Afinal você me conheceu em uma prisão.

A Expressão de Edward era de surpresa e indignação.

Bella foi pega de surpresa por aquelas palavras.

“A quem eu estou tentando enganar?”

Era cômodo se colocar no lugar da mocinha ingênua e enganada, constatou Bella. Mas o fato era que Edward estava certo em lhe fazer aquela pergunta. Ela tinha entrado naquela situação sabendo que ele era um dos suspeitos, ou melhor, o único. Mesmo antes de descobrir que ele era um vampiro, mesmo com todos os avisos e conselhos de Will e Preston, mesmo ciente do perigo que corria, foi irresponsavelmente até Forks atrás dele, se atirando em seus braços na primeira oportunidade.

Quem era ela para ficar acusando-o agora? Estava tão atolada naquela sujeira toda quanto Edward. Ele, pelo menos, tinha uma justificativa para o que fazia. Ela, não... Havia escolhido trocar de lado por livre e espontânea vontade.

- Bella, se continuar nesse silêncio eu vou enlouquecer. Por tudo que é sagrado, me diz o que está se passando nessa cabeça. – Edward implorou, visivelmente angustiado.

- Estou tentando entender qual o meu papel nesse drama, Edward. Ainda não sei se sou a mocinha ou o bandido.

- Evite polarizar, Bella. Não existe apenas o certo e o errado, o bom e o ruim, o bem e o mal... Podemos fazer o bem, mesmo estando do lado errado, ou mesmo fazermos o mal, ainda que estando do lado certo. Além do mais, não precisa ficar se enquadrando em categoria nenhuma. Você não tem nada a ver com essa história! Quem está envolvido sou eu.

- Eu escolhi você, Edward. Posicionei-me quando fiz isso.

- Está arrependida da sua escolha? – Edward perguntou com os olhos cheios de tristeza.

Estou?”

A dúvida durou apenas o segundo que Edward levou para envolvê-las em seus braços. Bella o beijou apaixonadamente. Aquela era a única resposta que podia dar para ele naquele momento. Era a única que seu coração conhecia... Era a única que a mantinha viva, ainda que o peso da culpa empurrasse seu corpo para as profundezas do desconhecido.

Quando seus corpos já despidos se deitaram na grama fria e se uniram com precisão, se tornando apenas um, Bella não se importou mais com o lado em que estava. Ser feliz era a melhor opção que fizera em toda a sua vida...