Alvorecer.
2 Olá Mystic Falls.
Notas iniciais
— A cidade continua a mesma. — Charlie falou contemplativo ao meu lado quando descemos do carro alugado, observando desde que havíamos passado da placa de “Bem vindo á Mystic Falls” como era estranho, e ao mesmo tempo empolgante, estar de volta. — Lembra-se de alguma coisa?
Franzi o cenho. Eu só tinha vindo a Mystic Falls duas vezes no ano o máximo, e se não me engano, a última vez foi quando eu tinha 16 anos. Minha mãe morreu quando eu nasci, e mesmo que Charlie não fosse muito chegado às três irmãs dela, a minha avó, minha tia-avó, e minha madrinha, era necessário acrescentar que elas me queriam ali pelo menos uma vez por ano.
Mas do que não me lembrava, era que o outono era tão quente ali. Ou simplesmente eu tinha me acostumado ao frio. Girando o pescoço, ao mesmo tempo em que tirava minha blusa de xadrez vermelho e a jogava no banco de trás prestei atenção a tudo.
E uma das coisas que com certeza eu me lembrava era da torre do relógio que no inverno certa vez me fazia imaginar está em Londres. Das ruas bem cuidadas, da praça enorme no meio do que seria o centro da cidade aonde eu me lembrava de brincar na caixa de areia com algumas crianças na parte do parquinho infantil. Das pessoas andando com roupas amenas a torto e a direito, dos carros parando em sinais vermelhos – mesmo que ninguém fosse atravessar – e do cheiro de carvalho e capim recém cortado que rondava o ambiente. Deveria ser o mesmo que visitar o condado em O Hobbit e entrar em uma terra encantada banhada com luz solar e pessoas que davam bom dia com sorrisos educados.
— Um pouco. — Respondi notando que papai realmente esperava uma resposta.
Eu não estava muito contente de está ali, talvez ansiosa, como todas as vezes que estive quando vinha fazer uma visita de uma semana, porque já que mamãe havia crescido ali e minha avó que havia sido uma senhora de modos sérios, mas simpática o suficiente para eu ter sentido sua perda no ano passado, era ali que minha linhagem materna tinha como base um lar.
Ou, talvez a verdade era que depois daquele 1 ano, 4 meses e 7 dias dele tudo tenha se tornado estranhamente cinza.
Balancei a cabeça espantando o pensamento vendo Charlie colocar as mãos na cintura e encarar a placa do restaurante que ele decidiu parar antes de irmos para Mansão Fell. Ele riu baixinho pelo nome em letras garrafais amarela em uma placa preta. Mystic Grill.
Achei que ele talvez tivesse alguma historia para contar, mas antes de eu perguntar caminhou entrando comigo em seu encalço.
O local não estava tão cheio, e notei que talvez fosse pela hora. 11:40 a.m. Não era ainda o almoço. Papai como se já tivesse feito aquilo mil vezes nos encontrou um lugar afastado e perto da janela que dava para as mesas do lado de fora, e por onde entrava uma luz fresca.
— O que vão querer? — Um garçom loiro, atlético, e com certeza ainda um estudante se aproximou perguntando, parecia sério, mas ao mesmo tempo com a mente longe, eu podia ver pelo vinco apertado entre suas sobrancelhas.
Charlie ainda encarava o cardápio, mas eu não titubeei ao declarar.
— Café preto, com duas colheres de açúcar, e torradas... — Pedi apenas desejando com afinco o café antes que minha cabeça explodisse pelo vício que eu havia me enterrado nos últimos meses naquela bebida preta e energética.
O garçom se virou finalmente para mim e seus olhos, completamente azuis pareceram surpreso ao me encarar. Ele tinha os olhos estranhamente familiares.
— Sinto muito, mas o café para de ser servido as onze.
— E sinceramente você está tomando muito café. — Charlie apontou sem tirar os olhos do cardápio.
— Então uma coca... — Emendei rapidamente querendo não parecer irritada, mesmo que falhando miseravelmente.
— Bella. — Repreendeu o chefe me encarando sério.
Quase fiz bico, mas o garçom sorriu.
— Pera aí, você é Bella Swan, tipo, a Bella Swan? — Indagou animado, fazendo covinhas infantis brotarem em suas bochechas de homem, sorrindo sem mostrar o dentes apertando minha mão que automaticamente se elevou quando ele ofereceu a sua. — Sou Matthew... Matt Donovan... — Aponto para seu crachá na camisa azul marinho que combinava muito com ele. — Irmão da Vic, lembra? Sempre brincávamos juntos nas férias, no terreno Fell, na pedreira. No riacho nos Lockwood.
Imagens na minha cabeça brotavam de crianças correndo pelo bosque, não só de Matt Donovan, mas de sua irmã, assim de uma garota loira que sinceramente sempre me irritava por reclamar de se sujar.
Caroline Forbes se eu não me enganava. E Bonnie Bennett uma garota de pele escura que adorava encontrar animais perdidos e feridos para a avó dela cuidar. Também havia uma que diziam que se parecia muito comigo.
Elena Gilbert, cujo pai era divertidíssimo e um grande médico que havia me instigado a pensar em fazer medicina. A última lembrança de informações sobre o grupo fora de quase há dois anos atrás quando papai havia comentado que os matriarcas Gilbert haviam sofrido um acidente e só a filha escapado, me lembro que papai havia ficado um mês sem sair direito, nem mesmo para pescar, já que eu ficava nervosa de passar pela mesma coisa. Não foi uma semana nada agradável até ele me convencer que sempre estaria ali para mim.
— Ai meu Deus! — Fui uma completa adolescente nessa hora, mas valeu a pena pelo sorriso de Matt e pela alegria que papai não conseguia disfarçar a me ver reconhecer um amigo de infância. — Matt, como vai? E sua irmã, Vic, está aqui? — Girei o pescoço tentando ver se reconhecia mais alguém.
Matt murchou e eu senti antes mesmo dele dizer.
— Vic sofreu um acidente á dois anos atrás. — Disse baixinho fazendo eu e Charlie nos remexemos em completo desconforto como se fossemos um. O que acontecia muito já que como o povo de Forks dizia; eu era a cópia feminina do Chefe de policia. — Mas eu estou bem... — Deixou claro também muito desconfortável. Depois mostrando que estava acostumado sorriu e declarou. — Jogo como zagueiro no colégio, lembra o que dizia?...
—... “Você é péssimo no basquete, jogue futebol americano!”. — Falamos em uníssono rindo de modo fácil como eu não fazia á muito tempo.
Charlie parecia que tinha visto o próprio Rocky – seu filme favorito – pela alegria que demonstrou. E mesmo depois de cumprimentar Matt não conseguiu disfarçar seu sorriso de ver que eu estava minimamente entusiasmada por ter reconhecido alguém da minha infância e pré-adolescência.
Depois do almoço, muita carne para Charlie, e muita salada e arroz de forno para mim, ficamos vendo o restaurante – e bar também pelo que pude reparar, se encher gradativamente.
— Preciso te contar algo. — Disse Charlie um tantinho tenso. — Lembra-se da sua tia, Cornelia Fell? — Assentir que sim, porque Cornie não era difícil de esquecer, nem Meredith, minha prima de segundo grau, então ele continuou me vendo tomar meu segundo milk-shake de morango. — O marido dela faleceu em uma explosão de gás junto com a maioria do conselho dos fundadores da cidade. — Fiquei em choque, e afastei o copo alto para possivelmente não derramá-lo se eu me pulasse de surpresa. — Cornie nunca quis ser do Conselho... Nem uma das suas tias queriam participar tão pouco, não quando elas mantem o controle dos escritórios Fell em Duke e Whitmore... Então o marido de Cornie, Simon acabou indo como representante e faleceu. — Charlie murchou visivelmente, e eu também, parecia uma coisa horrível de acontecer. — Você saberá que amanha tem uma homenagem na igreja, e deveremos ir com sua tia.
Assentir sem me incomodar muito, sinceramente era muita informação ainda para processar.
Charlie, que não havia bebido nada, me pediu para pegar uma soda de latinha para ele enquanto ia tirar o carro já que o mesmo só havia colocado cinco moedas no parquímetro e faltava cinco minutos para vencer.
Assentir o vendo discretamente pagar a conta e acrescentar mais alguns dólares como gorjeta. Fui até o bar já que Matt estava do outro lado do salão, e me aproximei tentando chamar atenção do bartender.
— O lugar está ocupado. — Avisou um sujeito de cabelo preto com voz rouca de bebida.
Sentir o cheiro de uísque que me atingiu como um soco assim que olhei para o lado, notando que eu só estava perto do banco que claramente não tinha nenhum objeto o guardando.
— Eu não ia sentar. — Falei tolamente me afastando mesmo assim.
Ele bufou revirando os olhos azuis acinzentados, parecendo não tão bêbado como o cheiro alegava. Na verdade seu rosto, completamente bonito e másculo, parecia uma estatua pela expressão severa que marcava cada linha de suas feições.
— Indiferente. — Murmurou tomando outro gole, me encarando agora, suas grossas, e bem desenhadas, sobrancelhas se ajuntando em curiosidade. — Aurora....
— Como? — Indaguei achando que ele tinha falado algo baixo para mim, ou me chamado de Aurora.
Balançando a cabeça negativamente, como se espantasse um pensamento, ele se voltou para sua bebida, encerrando qualquer contato comigo.
Felizmente o bartender se aproximou e fiz meu pedido retirando cinco dólares da minha calça jeans.
— Fell — O sujeito falou me fazendo virar novamente para encará-lo, seus lábios apertados em reflexão quando me analisou. — Você é uma Fell. — Não era uma pergunta.
— Como você sabe? — Indaguei confusa piscando lentamente.
Ele sorriu minimamente, o que foi irritante, porque era o tipo de sorriso que se dava para uma resposta estupida.
— Cabelo castanho-ruivo, olhos de chocolate esverdeado, pele translucida e esse jeitinho de garota bem educada — Apontou quase para si mesmo, me rendendo um sorrisinho estranho de lado. — É como olhar para uma versão mais nova de Meredith... — Riu sem humor, não parecendo realmente achar graça de nada. — Ou Aurora... — Agora falou mais firme, engolindo em seco, girando seu corpo no banco alto para se virar para mim e estender sua mão em um cumprimento. — Sou Damon Salvatore.
— Bella Swan... — Dei de ombro quando ele levantou uma sobrancelha. — Não tenho o Fell no meu nome de batismo, meu pai não quis. — Troquei o peso de cada perna me sentindo nervosa com o olhar que ele me deu, parecia ser um pouco cético.
Ele apertou mais uma vez minha mão antes de se afastar.
— Sorte sua. — Sorriu de lado mostrando uma faixa branca de dentes perfeitos e foi tudo que disse antes de voltar para sua bebida encerrando a conversa.
A achando muito estranha, me movi para trás apertando a latinha de soda, e fui ao encontro do meu pai.
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