Alvorecer.
1 Abraçando a dor.
Notas iniciais

Prológo
A garoa pingava em meu rosto trazendo um alívio que eu não soube explicar, inclinei meu pescoço o máximo que pude apenas para obter mais. Era como tomar um pouco de ar quando se está no meio do deserto do Saara.
Abrindo os olhos, eu conseguia ver com perfeição as nuvens cinzentas de Forks, não havia nenhum raio de sol por cerca de quinze quilômetros, mas ainda assim, havia aquele ar morno que batia nos meus braços nus, fazendo meus pelos se arrepiarem agradavelmente.
Pelos céus! Eu estava mesmo com saudade daquele ar, daquela chuva, daquele cheiro de terra molhada. Do barulho das folhas das árvores quando a chuva batia nelas. Até mesmo da falta dos carros na rua.
— É nessas horas.
Ouvir a voz dele causou um loop no meu estomago, como mil borboletas de veludo pinicando deliciosamente minhas entranhas.
Sorrir abaixando o pescoço e girando ao mesmo tempo para encará-lo. Seus braços estavam cruzados, seu ombro encostado em uma pilastra da madeira, ele usava uma camisa apertada branca que fazia maravilhas com seu cabelo loiro e, seu sorriso era diferente dos outros, era contemplativo, como se de alguma forma ele quisesse está do meu lado no meio da entrada de carros comigo, e não embaixo da varanda da entrada da minha casa comercial de margarina, como o mesmo havia dito assim que chegamos.
— Como? — Indaguei girando em meus calcanhares, sentindo que meus cabelos estavam começando a ficar molhado.
— Você me perguntou se eu queria ser humano... Se eu pensava nisso... — Ele falou de modo rápido, como se tirasse um curativo, seus olhos evitando me encarar quando continuou quase nervosamente. — É nessas horas, aqui, agora, vendo você no meio da garoa, nessa casa tão descente... Ouvindo o ronco do seu pai... — Brincou encarando os pés coberto com suas botas marrons surradas que o fazia parecer tão humano. — Que eu gostaria de sentir o que você sente.
Seus olhos se voltaram para mim, e ele descruzou os braços, ficou ereto e apareceu na minha frente naquela velocidade que aprendi a amar.
— É nessa hora, que eu sou tão imortal, que mesmo encará-la me dói, por saber que algum dia sua mortalidade a tirará de mim.
Engoli seco quando sua mão se ergueu, seu polegar tocando minha bochecha como se eu fosse de porcelana. Seus olhos piscinas azul cheias de um fogo de ira que sua bipolaridade que eu tão bem conhecia durante aqueles quatro meses, desde que o vir pela primeira vez.
— Não sou exatamente... — Comecei encarando meus dedos, me lembrando daqueles feitiços que Bonnie me ensinou, e que nem mesmo eles me faziam uma bruxa de verdade. — O que me oferece Niklaus Mikaelson? — Indaguei finalmente.
Esquecendo todo o sangue da nossa curta, todavia, intensa jornada de obsessão, ódio, paixão, amizade, amor...
Klaus se aproximou, seu corpo quente criando faíscas de pura eletricidade em cada poro do meu. Era como se duas peças se encaixarem, e quando prendi a respiração sentindo seu rosto se aproximar, seus lábios roçarem meu nariz, eu prendi a respiração em pura antecipação. Sentindo que ele fazia o mesmo.
Agora
O pulso de Charlie bateu na mesa, eu mal me mexi.
— É isso, Bella! Eu vou te mandar embora.
Eu olhei pra cima desviando meus olhos do cereal, que eu estava mais cutucando do que comendo, e olhei pra Charlie chocada.
Eu não estava acompanhando a conversa, na verdade eu nem tinha reparado que estávamos tendo uma conversa me fazendo imaginar o que ele queria dizer.
— Eu estou em casa — eu murmurei confusa.
— Eu recebi isso. — ele esclareceu me empurrando o que parecia um grande envelope pardo. — É da família da sua mãe.
Aquilo me tirou um pouco do rumo, da melancolia, da depressão, porque claramente tudo que era relacionado à minha falecida mãe me tirava minimamente da escuridão que ele havia me colocado, na verdade, me jogado. A pura lembrança era coberta de tanta agonia que eu apertei minha mão na minha coxa com tanta força que soube que ficaria arroxeada em breve.
Meu comportamento esteve acima de qualquer reprimenda nesses últimos quatro meses desde á “Partida dos Cullen”, que era como meus amigos de escola sussurravam quando achavam que eu não ouvia. Depois daquela primeira semana, que nenhum de nós mencionou o fato de eu ser encontrada em choque no meio da floresta por Sam Uley, eu não perdi nem um dia de aula ou de trabalho. Minhas notas estavam perfeitas. Eu nunca desrespeitei o toque de recolher, eu nunca ia pra lugar nenhum pra quebrar o toque de recolher em primeiro lugar. Eu era uma adolescente perfeita que todo pai deveria querer. Principalmente quando não procurei encrenca naquelas férias.
— É uma procuração para a abertura do testamento da sua mãe e da sua avó, Amélia Fell, não falo muito sobre isso... — Ele evitou me encarar, sua voz dolorida. — Mas Amélia, sua avó, não gostava muito do fato da sua mãe sair de Mystic Falls... Enfim — Ele voltou a me encarar. — Você precisa deixar Forks, ao menos que por um tempo... Precisa parar com essas lamentações o tempo inteiro!
Isso me deixou com um pouco de remorso. Eu fui tão cuidadosa pra evitar todas as formas de mau humor, inclusive resmungar.
— Eu não estou me lamentando de nada.
— Palavra errada — ele concordou mal humorado. — Lamentar seria melhor, isso seria agir. Você só está... Sem vida, Bella. Eu acho que essa é a palavra que eu quero. Quero que saiba que respeitei esse luto, até li algumas matérias de alguns psicólogos... — Me encolhi e ele se encolheu em completa vergonha, e eu, em vergonha e pânico. — Mas você está abraçando o luto, está abraçando a dor, e isso não é saudável.
— Ou talvez eu só esteja com raiva. — Resmunguei baixo, mas não o suficiente para ele não ouvir.
Charlie relaxou pelo menos.
— Isso é bom, porque eu também estou, e Deus sabe se eu o vise... — Ele esmurrou novamente a mesa, dessa vez me assustando. — Enfim, as aulas começam semana que vem, e você mal aproveitou as férias... — papai coçou o nariz em completo horror, talvez por eu começar a perder minha adolescência, por eu estar perdendo meu tempo, me sentir na pele dele, e não gostei de me encaixar naquele horror. — Mystic Falls é ensolarada, e eu irei com você para fazer sua matricula... Sem mais.
Sem mais Charlie ficou de pé e saiu da cozinha, eu, apenas peguei o envelope sobre a abertura do testamento da minha mãe, e suspirando me rendi a verdade que papai jogou na minha cara. Eu estava abraçando minha dor. E iria parar.
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