Alvorecer.
4 A fera se aproxima.
Notas iniciais

Uma das melhores coisas que eu vivia aqueles meses era entrar em um estado de estupor, ou simplesmente, ser capaz de divagar por horas á fio. Mas ali, eu estava sendo uma boa espectadora, como se estivesse usando um binóculo.
Lembro-me que a prefeita Lockwood havia começado com os discursos ao Pastor Young, me lembro de sentir o perfume de Alex – amadeirado e suave – que havia se sentado do meu lado, ajudando uma tia Cornie muito pálida a se sentar do seu. Lembro-me do meu pai parecer verdadeiramente triste de estamos ali.
Então, Elena subiu ao pódio, e foi tirada quando parecia que iria desmaiar, e depois do coral começar a cantar, veio Tyler Lockwood, o garotinho franzino de pele de caramelo e sorriso doce, dando lugar agora a um homem forte de olhos profundos.
E aconteceu, veio o barulho, um tiro alto fazendo Tyler ser jogado no chão, os gritos, papai me mandando abaixar, Alex me puxando com força para baixo do banco quando minhas pernas subitamente não obedeceram a logica do meu pai e se encaminharam para as portas, queriam seguir as pessoas para a saída, eu cair, minha cabeça bateu no mármore do chão, e doeu, latejou. E claramente fechei os olhos lentamente como se estivesse afundando em lama fria, não sabia se era reação ao medo, ao barulho ensurdecedor, ou simplesmente ao fato de minha cabeça latejar muito. Era como se afogar em algo escuro e denso.
— Bell... — Ouvir a voz de Charlie me chamar brevemente se aproximando, mas eu preferia dormir um pouco, só um pouco.
....xxx.....
Eu sabia que estava em um hospital antes mesmo de abrir os olhos, era o cheiro. De alvejante e medicamentos, e também o ar, denso como manteiga que se corta com faca quente. Era algo que mesmo Carlisle já havia dito que apenas humanos com sensibilidade podia sentir, e todos os Cullen entravam em concessão ao admitir que eu era diferente.
E para mim, estar em um hospital era como se houvesse, algum tipo de véu que era a porta entre a vida e a morte, rondando e tremeluzindo sob a fachada de saúde.
Minha mãe morreu ao me dar a luz, diz os médicos que eu ainda estava dentro dela quando sua vida a deixou, talvez, algo intenso, quase sobrenatural tivesse acontecido e me capacitado com um sexto sentindo mais apurado, eu não saberia dizer realmente.
— Bella?
Meu estomago revirava bruscamente, sabia que estava no soro pela picada de dor que sentir em minha mão, assim como ao fato de ter ficado apagada por pelo menos seis á doze horas, porque minha cabeça estava pesada.
— Sede.
Resmunguei sentindo minha boca parecer cheia de areia, Charlie, rapidamente atendeu meu pedido, e sentir um canudinho nos meus lábios. O alívio do longo gole me fez abrir os olhos, e encarar o que seria um quarto de hospital.
— O que houve? — Conseguir perguntar me sentando mais reta na cama enquanto Charlie colocava mais travesseiros nas minhas costas.
— Você bateu a cabeça, mas felizmente não teve nenhuma concussão...
— Não... — Balancei a cabeça, sentindo meu pescoço estalar, vendo por uma das janelas que o céu estava escuro. — Na igreja.
Charlie engoliu em seco e me contou como havia um atirador que estava sendo caçado naquele exato momento. Havia um vinco preocupado entre suas sobrancelhas como se tivesse acontecido uma guerra, e eu não tivesse caído vezes demais na vida para não ser logicamente a primeira vez que havíamos passado por aquela cena.
— A prefeita, uma mulher muito sabia, irá deixar a cidade em toque de recolher. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu, ou, aonde esse atirador está, mas o Pronto Socorro está cheio, algumas pessoas foram pisoteadas, outras caíram feio como você, mas de alguma forma, ninguém morreu.
— Tyler?
— Vivo graças a Deus! A bala passou de raspão. — Charlie apontou para a porta, e eu logicamente imaginei outro quarto, soltarei a respiração que não sabia que prendia. — Tem seguranças no corredor, e fico feliz por isso, o garoto é que parece irritado por está sendo mantido aqui. — Confessou com um sorriso balançando a cabeça levemente, como um bom chefe de policia, com certeza já havia ido falar com a vitima principal.
Assentir voltando a relaxar imaginando se não estaria mais segura em Forks, todavia, só de pensar em voltar para as sombras, à chuva sem fim, o frio cortante, me dava a sensação de voltar para um sarcófago. Aquilo me deixou chocada.
Ouvindo papai falar como meus tios estavam preocupados, principalmente com tia Cornie que tinha tido uma sincope e estava em um dos quartos com Alex – que se sentia muito culpado por me puxar para o chão me fazendo cair – decidir que também não queria ficar ali.
— Infelizmente o doutor quer fazer uma ressonância antes de te liberar, mas pela manhã.
Fiz bico fazendo Charlie como sempre ignorar qualquer reclamação que eu poderia ter.
— Pelo menos pode trazer uma roupa para mim? — Pedir cruzando os braços fazendo Charlie rir aliviado de eu demonstrar um pouco de normalidade depois de bater a cabeça de novo.
— Irei, e voltarei em breve. — Avisou ficando de pé, estalando suas costas quando se alongou, me fazendo ficar sentida de lhe dar aquela noite em um sofá. quando passamos a noite anterior toda viajando. — Quer mais alguma coisa?
— Não, mas você pode tomar um banho também né pai, e dormir um pouco em uma cama, não é como se eu fosse imprudente de fugir em uma cidade que eu mal conheço. — Resmunguei o vendo colocar seu terno, seu rosto abatido fez meu coração pesar. — Qual é pai, eu vou ficar bem.
Charlie me encarou receoso, mas como eu o conhecia tão bem, tentado.
— Tudo bem, eu volto ás... — Ele encarou o relógio no pulso. — Às seis da manhã, seu jantar será servido daqui a pouco.
Assentir menos culpada, porque só eu mesma estaria em observação por uma simples queda!
Bastou Charlie sair para eu tirar aquela agulha da minha mão. Nada me deixava mais lerda do que soro na veia. Fiquei de pé me sentindo muito dura e entrei no banheiro tomando um banho rápido – em hospitais sempre aparece enfermeiras quando você está tomando banho, parece uma sina – e fiquei feliz de encontrar um roupão e uma escova de plástico para me deixar ligeiramente menos abatida. Não deu outra, sair do banheiro a e enfermeira já estava ali pronta para um sermão, mas eu, as conhecendo, e lidando minha vida toda com o pessoal do PS de Forks, soube reverter à bronca para um pedido mudo de ajuda já que não pretendia mesmo dormir com aquele camisola quase de papel.
— Foi tudo que eu achei que parece que vai caber em você. — Nancy, uma senhora de idade, avisou acolhedora me dando uma leggin e um blusão masculino e preto vindo direto da sessão de doação do hospital.
Fiquei tão feliz que a abracei a fazendo sorrir.
— Nancy, será que eu posso ir falar com Tyler Lockwood? Só para saber se ele está bem. — Pedir muito mansa depois de me trocar.
— Mas o garoto nem parece que foi baleado! — Contou estupefata e minimamente irritada. — Não nos deixa em paz alegando que precisa ir embora, mas o segurança da mãe dele não deixa, e não temos nada haver com isso, e ainda ficou chateado quando falamos que não tinha HBO na tv dele, ora se pode!
Segurei-me para não rir, mas fiquei feliz dela ir até Tyler para pedir autorização de uma visita.
— Ora, ora, Belinha Swan como você cresceu! — Tyler zombou com um sorriso enorme assim que seu segurança halterofilista me deixou passar. — Nem parece aquela menina que parecia um menino.
— E você o menino que parece uma menina. — Lancei divertida o vendo rir também, como Matt que já havia aceitado meu retorno, como se eles ansiassem que as coisas voltassem a ser como era quando éramos crianças, tranquilas e familiares. — E não me chame de Belinha, sabe que eu odeio. — Levantei as sobrancelhas de forma dura o fazendo rir e abrir os braços para um abraço saudoso. — Como você está? — Indaguei me sentando aos seus pés vendo que ele usava uma daquelas camisolas, mas felizmente estava bem coberto do peito para baixo, e parecia apenas impaciente.
— Passou de raspão, nem precisei de pontos. — Bufou voltando a zapear a tv que zumbia baixinho. — Você já comeu? — Perguntou de supetão, parecendo ter tido uma ideia que o tirou do foco de procurar algo para assistir. Fiz um gesto negativo sabendo que me arrependeria, mas Tyler alegou que eu poderia buscar um Hambúrguer para nós, até que eu contei que também estava ali como paciente, o fazendo gargalhar. — Oh por Deus! Você sempre foi tão desastrada! Lembra quando caiu daquela arvore em cima do Porshe do meu pai? Ele ficou tão puto, mas você o fez ficar com remorso dos gritos que ele te deu quando fez bico, foi sensacional a cara dele de pavor.
— Ora Tyler. — Dei um leve soco em seu estomago fazendo uma careta ao me lembrar daquela cena. . — Eu salvei o Pink. O seu gato! Que me odiava, devemos lembrar. — Apontei um dedo para seu rosto o fazendo parar de rir, mas não perder o sorriso.
— Primeiro o nome dele era Blue, você e Elena que colocaram o nome dele de Pink, apenas porque as patas dele era rosa. — Jogou os braços para o alto em exasperação, como se realmente não tivesse nenhum ferimento. — E ele era branco, com olhos azuis, olhos azuis!
Revirei os olhos relaxando mais aos pés do garoto, me sentindo muito á vontade com Tyler, até que alguém abriu a porta e ele perdeu o sorriso, eu girei a cabeça, colocando o queixo no ombro para ver quem era quando uma rachada de ar-condicionado tocou meu rosto arrastando meu cabeço.
— Tyler Lockwood, o vaso ruim que não quebra...
O sujeito que falava ao abrir a porta travou, e depois encarou-me fixamente, e eu o encarei de volta. Porque era o mesmo que estar presa em um túnel apenas aonde aqueles olhos azuis eram tudo que se podia ver, era tudo que se podia tentar ver.
Seus cabelos eram claros, e provavelmente ele não era um garoto de colégio, devia ter no máximo uns 26 anos, entre 22 no mínimo. E suas feições eram meio britânicas, se não meio romanas, ou mesmo era como ver uma obra de arte Viking se tornando carne, se tornando em um guerreiro de um mundo distante.
Ele prendeu a respiração, e depois soltou parecendo surpreso, seus olhos ficaram maiores, arregalados, como se me reconhecesse mesmo eu tendo certeza de nunca o ter visto, porque era impossível não recordar do rosto perfeito dele, ou tipo todo o porte atlético e ereto de sobriedade que dele emanava. Seus olhos me rondavam, seus dentes pareciam segurar um grito de dor, ou mesmo pavor, e era um absurdo eu sentir tudo aquilo vindo de alguém que eu não conhecia.
— Klaus, o que está fazendo aqui? — Indagou Tyler em um rosnado me fazendo ficar de pé e virar meu corpo totalmente para o loiro.
Klaus... Um nome antigo, um nome poderoso, um nome intenso como seus olhos ainda em mim.
— Quem é você? — Perguntou em um rosnado gutural que me fez cambalear pelo susto da voz rouca cheia de sotaque, dei passos para trás que não pareceram suficientes até sentir a mão de Tyler na minha me puxando mais para si quase protetoramente.
Klaus não perdeu o movimento e entrou mais no quarto, parecendo um tipo de fera que iria atacar á qualquer momento, o pensamento não me trouxe paz, nenhum pouco.
— Bella Swan, sou amiga do Tyler. — Sussurrei molhando os lábios estranhamente secos com a ponta da língua. — E... Espero que melhore. — Engoli em seco afastando a mão de Tyler da minha que parecia confuso olhando entre o amigo e de mim como em um jogo de pingue-pongue. — Preciso voltar para o meu quarto. — ele assentiu e andei de cabeça baixa para a porta, não foi surpresa ser barrada pelo loiro que mal se movera, então ergui a cabeça e encontrei seus olhos ainda nos meus, seu perfume me fez salivar, porque era forte, como margarida e vinho branco, ou rosas e chocolate, algo sedutor e extremamente calórico. — Com licença. — Pedir tão baixo que achei que ele não ouviu, mas ali estava ele, andando alguns passos, três passos pequenos para o lado, me dando um leve espaço para me esgueirar para fora.
Já no meu quarto, vir que minhas mãos tremiam, e que eu suava frio.
— Oi prima, vim ver se está bem.
Coloquei as mãos na boca evitando um grito quando Alex entrou trazendo uma bandeja do que claramente era meu jantar.
— Tudo bem? — Alex indagou visivelmente preocupado se aproximando. — Está com dor?
Fiz um gesto negativo e me deitei jogando aquelas pantufas para o lado, me cobrindo o máximo que podia para evitar tremer, para evitar ignorar a sensação dos olhos azuis cravados em mim como fogo vivo me marcando.
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