Alvorada

7 Peças soltas


Elodie andava pelos corredores do palácio fazendo o mínimo de barulho possível. Usava apenas um vestido simples para não chamar atenção.

Ao chegar à cozinha, olhou em volta e não viu ninguém. No canto da mesa, havia um bolo. O seu bolo favorito.

Ela foi até ele e sorriu, lembrando de seus aniversários.

— Elodie!

A voz da cozinheira assustou a jovem, que se virou e viu Alba parada com as mãos na cintura.

— Senhora Alba... Ainda está acordada?

— Você demorou.

Elodie ficou confusa, mas tentou disfarçar.

— É... eu...

Alba sorriu.

— Ah, deixa pra lá. O Ryus me disse que você queria muito comer esse bolo hoje. Então eu fiz para você.

Elodie se perguntou qual era o objetivo disso.

Alba pegou o bolo e o pôs sobre a mesa. Pegou um prato, um garfo e puxou uma cadeira para Elodie.

— Fiz um chá para você. Imagino que tenha sido cansativo conhecer o seu noivo hoje.

Elodie se sentou, um pouco desanimada.

— É...

Alba lhe serviu o bolo e se sentou de frente para Elodie.

— Você não parece muito animada. Ouvi dizer que o príncipe é um homem muito bonito. E que foi gentil com você.

— Foi. Mas...

Elodie suspirou. Esperava encontrar uma pista ali.

— Mas seu aniversário está chegando, não é?

Elodie olhou para Alba tentando entender se ela estava falando da maldição.

— Senhora Alba, talvez esse seja meu último aniversário aqui. E talvez eu já esteja casada quando isso acontecer.

— E o que está te preocupando, mocinha?

Elodie olhou para Alba e decidiu falar mais abertamente.

— Essa maldição... deveria haver um jeito de quebrar.

Alba respirou fundo, desviando o olhar por alguns segundos. Então tornou a olhar para a jovem.

— Sempre há um jeito.

— Eu ouvi dizer que há um objeto encantado. A senhora sabe alguma coisa sobre isso?

Alba ficou surpresa.

— Onde ouviu isso?

— A senhora sabe ou não?

— Elodie, isso pode te trazer problemas com o imperador.

— O que ele poderia fazer?

— Descontar na sua mãe. Todos aqui sabem que ela é seu ponto fraco.

— Não se eu resolver isso antes — Elodie segurou a mão calejada de Alba. — Me ajude, por favor.

Alba olhou em volta. Hesitou por um instante, levantou-se, olhou pelo corredor e voltou a se sentar perto de Elodie.

— Você não ouviu isso de mim. Mas há boatos entre os funcionários de que um objeto encantado ligado à maldição dos Whritemore está escondido aqui no Palácio. Mas ninguém sabe o que é ou onde está. Eu não sei o que isso tem a ver com a maldição. Mas é só um boato proibido no Palácio.

Elodie sorriu e abraçou Alba.

— Obrigada.

— Por favor, Elodie, não faça algo que possa te machucar. Você conhece o imperador — disse Alba, com semblante preocupado.

— Não se preocupe, eu não vou ser pega.

Alba sorriu.

— Tá, agora come o bolo.

...

Haru não conseguia dormir pensando na conversa com Elodie. Foi incomum. As princesas de Jaspe que lhe descreveram eram bonecas de ouro obedientes. Elodie tinha respondido como se estivesse negociando território, não casamento.

Ele se levantou, ainda com as roupas do banquete, foi até a janela e viu a lua dourada. Isso o fez lembrar dos olhos de Elodie.

Haru sorriu.

Olhos mais preciosos do que o ouro de Aya.

Haru ficou curioso sobre a jovem misteriosa do império de Jaspe.

— Coração livre...

Era diferente de quando conheceu sua primeira esposa. Os dois eram jovens demais, casamento arranjado pelos pais, e estavam muito nervosos. A princesa Luria era doce, gentil, meiga e delicada. Totalmente o oposto de Elodie.

Não que ele não tenha amado Luria, sua primeira esposa. Com o tempo isso foi inevitável. Mas com Elodie estava sendo diferente.

Haru não estava apaixonado, não ainda. Mas estava fascinado pela jovem dama.

Ele prendeu o cabelo com uma cordão trançado feito de fios de ouro, a franja teimosa ainda enfeitando seu rosto. Saiu do quarto, precisava andar para pensar um pouco. Os candelabros e as piras ainda estavam acesos, os corredores bem iluminados.

Haru se pegou sorrindo demais por uma jovem que acabara de conhecer. E isso causou um sentimento de traição. As memórias de Luria ainda estavam lá, em seu coração.

Mesmo que já tivesse se passado três anos, se casar novamente era inevitável, mas nunca pensou em sentir algo logo no primeiro encontro.

Seus pensamentos foram totalmente interrompidos por uma cena, no mínimo, inusitada.

Ele parou ao ver Elodie andando com todo cuidado do mundo pelo corredor, como se estivesse se escondendo de um inimigo. Achou estranho, mas até viu graça nisso.

Haru se aproximou devagar da jovem, que estava de costas.

— Elodie?

Elodie se assustou e se vira em um salto.

— Príncipe!

— O que está fazendo?

— Eu?... é...

Haru notou uma gota de chocolate na bochecha da jovem e sorriu. Levantou a mão e passou o polegar na bochecha dela.

Os dedos frios surpreenderam Elodie, mas ela não recusou o toque.

— Chocolate?

Ela sorriu, um pouco sem graça.

— É... A cozinheira me fez o meu bolo favorito... eu não resisti.

— Ah...

— E você? Não dorme?

— Não quando estou em guerra.

Elodie esboçou um sorriso de lado.

— Sendo assim, então vou dormir com uma espada debaixo do meu travesseiro.

Haru deu um passo à frente, ficando bem próximo de Elodie. Ela não recuou. Ergueu a cabeça e o encarou nos olhos.

— Só que na arte da guerra, jovem dama, nem sempre uma espada resolve.

Elodie ia dizer algo, mas avistou um guarda fazendo ronda. Saiu correndo antes que o guarda a visse e isso deixou Haru confuso. Ele olhou para trás e depois para a direção onde Elodie correu.

— Vossa Alteza, precisa de algo? — perguntou o guarda se aproximando.

Haru suspirou e o olhou.

— Talvez um chá seria ótimo.

— Mandarei providenciar agora mesmo.

Haru sorriu, achando graça na situação, e voltou para o seu quarto.