Alvorada

8 Fardo dividido


Haru estava esperando Elodie para o passeio a cavalo. Jun e Ryus também estavam de guarda, pois estariam fora do palácio.

O cocheiro trouxe o cavalo de Elodie. A égua chamava a atenção de tão linda que era.

— Eu nunca vi uma raça como essa. — disse Haru, admirando o espécime.

— É uma Akhal-Teke de Jaspe, a “Pérola de Jaspe” — disse Ryus, orgulhoso, enquanto passava a mão no animal.

As Pérolas de Jaspe têm pelo que brilha como metal polido, como se fosse feito de ouro branco. É exatamente o cavalo que um império que produz pedras preciosas produziria.

Ela não é branca opaca, ela é branca perolada com reflexo dourado quando o sol bate.

A égua ficou um pouco agitada.

— Me parece um pouco arisca.

Ryus sorriu, segurando firme as rédeas.

— Os estábulos de Jaspe falam que as Pérolas de Jaspe só escolhem uma amazona na vida toda. Se a amazona morre, a égua nunca mais deixa ninguém montar. E ela escolheu a Elodie quando ela tinha 7 anos. Antes disso, tentou fugir do estábulo três vezes. O imperador quase a sacrificou.

Elodie se aproximou com Ruby a acompanhando. Ela parou ao lado da égua e o animal passou a cabeça no rosto dela. Elodie sorriu e Haru notou o quanto ela estava à vontade pela primeira vez desde que chegou.

Elodie o olhou.

— Bom dia, Vossa Alteza.

Haru sorriu.

— Bom dia, Elodie.

Elodie sorriu para Ryus, que lhe entregou as rédeas. Ela montou e Haru montou em seu cavalo preto. Os dois andaram lado a lado, enquanto Jun e Ryus estavam logo atrás em seus cavalos.

— É um espécime lindo. — comentou Haru.

— A Aelia é única. As Pérolas de Jaspe são raras porque são muito ariscas. O imperador sacrificou a maioria.

— Aelia?

Elodie sorriu.

— Não se doma uma tempestade, Alteza. Você só não pode ter medo dela. Precisa respeitar a sua força.

Haru se manteve em silêncio por um minuto a mais.

— Você se sente muito à vontade com o seu cavalo, porém, quando fala do imperador, seu ombro ficou tenso. Igual a de um soldado antes de uma batalha.

Elodie ficou séria.

— O que está dizendo? Eu não tenho medo dele. Ele é meu pai, e imperador de Jaspe.

— Eu já lutei em muitas batalhas, princesa. Sei reconhecer o medo nos olhos de um soldado.

— Eu não sou um soldado! — A irritação era evidente na voz de Elodie.

— Não. Você é uma sobrevivente.

Elodie o olhou sem responder. Impulsionou seu cavalo e cavalgou em direção às colinas. Haru fez o mesmo, indo atrás dela.

Jun e Ryus apenas observaram os dois se afastarem.

— Ouvimos dizer que as damas de Jaspe, da linhagem direta dos imperadores, não vivem além dos 21 anos. Por isso nenhuma se casa. — disse Jun sem tirar os olhos do horizonte.

Ryus olhou para Jun, desconfiado. Jun não demonstrava nada.

— Isso é lenda antiga. Como pode ver, a princesa é cheia de vida.

— Você parece mais apegado a ela do que o próprio pai.

Ryus cerrou o punho na rédea.

— Se quer perguntar algo, pergunte. Jaspe não tem nada a esconder.

Jun finalmente o encarou.

— Nós não precisamos perguntar, senhor Ryus.

Jun impulsionou o cavalo na direção de Haru e Elodie. Ryus ficou para trás por um segundo, tenso, se perguntando quanto Aya realmente sabia.

Haru alcançou Elodie no topo da colina. Ela amarrou Aelia em uma árvore retorcida.

A manhã ainda estava fria, mas a vista lá de cima tirava o fôlego. O castelo, parte da cidade, a borda escura da Floresta Proibida. E lá longe, tão pequeno que parecia mentira, o reino de Aya apontando no horizonte. Como se fosse só uma vila.

Haru se aproximou, ficando um passo atrás.

Elodie não se virou.

— Você deve achar que eu sou apenas um problema que Jaspe quer se livrar.

— Impérios têm medo de princesas que são convictas de seus ideais. O patriarcado nos ensina a não aceitar as mulheres como força, mas como alguém que irá gerar um sucessor para o trono.

Elodie finalmente o olhou.

— Me parece que alguém já te alertou sobre isso.

Haru sorriu. Um sorriso que não chegava nos olhos.

— A minha mãe. A rainha de Aya era assim. Meu pai ficou bastante incomodado quando soube que ela sabia manusear uma espada com maestria. Mas eu admirava sua força.

O ar entre eles ficou mais leve por um segundo.

— Eu prefiro arco e flecha. — disse Elodie, voltando a olhar para o horizonte.

Ela se sentou na grama. Ele fez o mesmo ao lado dela. Sem se tocar.

Haru olhou para ela, tentando entender.

— Elodie, eu tenho a sua confiança?

— Depende. Você vai me dizer por que realmente está aqui?

Ele desviou o olhar para o horizonte. Ela suspirou pesado.

— Meu aniversário é em sete semanas. Faço 21 anos.

Haru voltou a olhar para ela. O silêncio pesou.

— O imperador quer que o casamento seja antes do seu aniversário.

A desconfiança era palpável na voz dele. Não era uma pergunta.

— E então? — ela perguntou, mas era mais para si mesma. Num conflito interno. Ela não sabia se queria que ele soubesse.

— E então ficarei viúvo novamente. O imperador terá uma aliança com Aya e eu uma dívida com Jaspe.

Elodie não afirmou e não negou. Brincou com a grama.

— Você sabia que Jaspe, originalmente, era uma floresta que diziam ser encantada? Por isso as terras são férteis...

— Elodie.

Ela respirou fundo. Olhou pra ele. E escolheu não mentir.

— Vá embora. Você tem o poder de escolher, Haru. Esse casamento foi arranjado pelo meu pai, não por nós. Meu pai quer que eu te manipule, que eu te faça ficar. — A voz falhou. — Se eu conseguir quebrar a maldição, aí eu poderia escolher ficar com você. Mas agora, eu só estaria te usando. E eu não vou fazer isso.

Haru se virou e se inclinou, passando a mão no rosto dela. Ela apenas fechou os olhos, sentindo aquele toque gentil.

— Se eu for embora, tenho a impressão de que nunca mais nos veremos. E eu não quero isso.

Ela abriu os olhos. Cheios d’água, mas firmes.

— Se ficar, você terá que escolher entre o imperador e eu. E eu não pretendo deixá-lo no poder. Mesmo que custe a minha vida.

Haru ponderou em seu coração, mas não respondeu.

Após o passeio, Elodie voltou ao seu quarto e Haru chamou Ryus para uma conversa.

Os dois estavam na biblioteca. Haru teve o cuidado de chamar Ryus quando Jasper estivesse ocupado com assuntos do império.

— Vossa Alteza.

Haru, que estava debruçado sobre um mapa, ergueu o olhar e deixou o papel de lado.

— Ryus, como Elodie pretende quebrar a maldição?

Ryus ficou estático. Por um segundo, Haru percebeu a rigidez no rosto dele. Ele forçou um sorriso sem perceber que prendeu a própria respiração.

— Maldição? Vossa Alteza, como eu já expliquei ao seu guarda pessoal, isso é uma lenda antiga de Jaspe.

— Você é o conselheiro do imperador, mas protege Elodie.

Haru manteve a postura firme, o olhar afiado. Ryus tentou entender por que o príncipe herdeiro aceitou os termos do casamento tão facilmente.

— É natural. Ela é a princesa herdeira de Jaspe. Mesmo quando seu irmão receber o título, ela ainda será a Imperatriz deste império.

— Não é por isso que a protege. Você tem sentimentos por ela.

Ryus sentiu a irritação subir.

— Mas que conversa é essa? Eu a protejo porque é meu dever!

Haru sorriu.

— É como eu imaginei. Você nutre um sentimento por ela. Mas não de um homem por uma mulher. É de um pai para uma filha. Você a protege do imperador.

— Vossa Alteza...

— Será no vigésimo primeiro aniversário dela?

— Senhor Tetsuro!

Um silêncio se instalou. Pesado, palpável. Barulhento demais.

Haru respirou fundo, se aproximando.

— Se eu levar essa maldição pra Aya, meu pai queima Jaspe até não sobrar terra fértil pra contar história.

Ryus cerrou os punhos, mas se manteve firme.

— Então por que não relatou isso ao rei? O que está esperando, Vossa Alteza?

— Eu não sou como o meu pai. E estou aqui agora para proteger a Elodie.

Ryus desviou o olhar, nervoso. Haru segurou seu ombro e sorriu, mais leve agora.

— Não precisa dizer nada, conselheiro. Aya nunca esteve no escuro quanto a Jaspe.

Haru caminhou em direção à porta. Os ombros de Ryus caíram. Era um fardo pesado demais.

— Eu tinha 10 anos quando enterraram uma delas. Depois vieram mais quatro antes da Elodie.

Ryus se virou, olhos de luto.

— Você sabe como é enterrar cada uma delas sabendo que talvez haja uma chance, mas não podendo fazer nada?

Os olhos de Haru não vacilaram.

— Eu sei bem como é enterrar alguém que você ama.

Haru deixou a sala com aquela conversa no ar. Ryus sabia que as coisas não estavam mais sob controle de ninguém. Elodie e Jasper. Agora resta saber quem ficará de pé ao final desse embate.