Alvorada

13 Onde Juram Poder


Notas iniciais
Oiee, eu sei, eu sumi. Mas aqui está! Boa leitura.

Dois dias se passaram, e nesses dois dias Haru não conseguiu pensar em outra coisa que não fosse tirar Elodie de Jaspe.

No pátio, dez homens. Os melhores do exército de Aya. E Jun, seu guarda real.

Do segundo andar, o rei observava o campo de treinamento. De braços cruzados.

— O rei não parece muito satisfeito com a sua decisão — Jun falou baixo, sem olhar para Haru.

Haru olhou para cima. O pai estava inexpressivo. E Haru sabia exatamente o que aquilo significava.

— Eu não gosto de mentir para o meu pai. Mas se ele souber a verdade, vai queimar Jaspe inteira.

— Isso se chama estratégia, senhor Tetsuro.

Haru cerrou o punho. Pensou em Jaspe. Pensou em Elodie.

— O plano é simples. Vou acusá-lo de conspirar contra a coroa real e de maus-tratos contra a futura rainha de Aya. Meu pai concordou em apoiar se eu entregar Jaspe para ele.

— E a senhorita Whritemore? — Jun perguntou.

— Ela quer destituir o imperador. Está disposta a dar a vida por isso.

Jun finalmente o olhou. Sério.

— Muito corajoso da parte dela. Disposta a morrer para pôr fim a um ciclo de tirania, mas não pela maldição. É bem o seu estilo se apaixonar por uma dama assim.

Haru o encarou.

Jun percebeu o rubor subindo no rosto do príncipe. Rápido demais para qualquer outro ver. Mas não para ele.

— Eu não estou apaixonado — Haru desviou o olhar. — Eu aceitei o casamento. Não posso deixar que ela morra.

Jun sorriu, enfim.

— Claro que não, senhor.

...

Os olhos de Ryus estavam fixos na porta da sala da coroa. Ele não conseguia parar de pensar no plano de Elodie. Dúvidas surgiam em sua mente.

Se Haru não vier.

Se o rei não concordar.

Se Jasper fizer algo contra Elodie ou Ruby.

Se as coisas piorarem, o que ele poderia fazer?

Não.

Ryus decidiu não esperar mais. Era a vida de duas pessoas que ele amava que estava em jogo. O futuro de Jaspe e o fim da maldição dos Whritemore que por séculos ceifava meninas jovens demais para morrer em troca de terras férteis.

Na madrugada ele desceu até a cela. A pedido dele, Alba tinha deixado a bebida com sonífero mais forte que o habitual, então os guardas do corredor já estavam dormindo quando ele passou.

— Tio? — Elodie se levantou e correu até as grades. — Era para você esperar por Haru lá em cima.

— Não vamos esperar — disse ele, girando a chave na fechadura. O rangido da cela ecoou alto demais.

Elodie sorriu, mas Ruby ficou para trás, preocupada.

Elodie percebeu e segurou as mãos dela.

— Vai dar tudo certo, mamãe. Vamos acabar com isso.

Ruby respirou fundo e assentiu.

Os três subiram as escadas liderados por Ryus. No topo, ele levantou a mão e as fez parar. O corredor estava vazio. No canto, um guarda dormia encostado na parede, a caneca ainda na mão.

Ele se virou para as duas, falando baixo.

— Alba colocou erva sonífera na bebida hoje. A maioria está assim. Sonolentos. Mas temos que ser rápidos. Sem barulho.

Elodie assentiu.

Eles seguiram até a sala da coroa. Dois guardas na porta, cabeças pendendo de sono. Ryus não esperou. Se aproximou sozinho e os derrubou com dois golpes secos, segurando os corpos antes que batessem no chão.

Ele olhou para trás e chamou as duas com um aceno.

Eles entraram na sala da coroa.

O cetro e as coroas estavam sobre uma mesa, com a base almofadada envolvida por um tecido azul aveludado.

Elodie olhou para o par de coroas, as duas com pedras de jaspes cravejadas em ouro, brilhantes, imponentes por si só. A jovem correu os olhos para o cetro. A base era de carvalho polido, escuro, na ponta um cristal envolvendo uma pedra verde. O coração da maldição Whritemore.

Trum.

Trum.

Elodie sentiu aquela pontada no coração. Ela levou a mão ao peito e sentiu suas pernas falharem. Ryus a amparou preocupado. Ruby segurou o rosto de sua filha sentindo o medo lhe tomar.

“Morpheus exige o seu sangue.”

O sussurro veio mais alto do que os outros.

— Morpheus... — repetiu Elodie tentando se estabilizar.

— Filha...

— Morpheus é a pedra — disse Ryus vendo o cetro brilhar.

“Sete dias... Elodie... Você será minha.”

— Aah...

Elodie sentiu o sono lhe puxar. O rosto de Haru apareceu vívido em sua mente, a primeira vez que o viu, seus olhos escuros e a sensação do beijo dele.

— NÃO!

Arrancando força de dentro de si, ela correu até o cetro e o pegou. Uma onda de eletricidade tentou repelir o toque dela, a madeira queimou as palmas das mãos, mas ela resistiu. Com as duas mãos, Elodie virou o cetro de ponta-cabeça e bateu no chão com toda a sua força.

O cristal estalou. Se partiu.

A pedra verde deslizou até os pés de Ryus.

No mesmo instante, o peso do sono deixou Elodie por completo.

— Elodie!

Uma fraqueza a tomou e ela ameaçou cair ao chão. Ryus correu e a pegou antes que batesse no chão.

— Elodie.

Elodie respirou fundo se recuperando.

— Eu não tenho tempo... — disse ela olhando para a pedra no chão. — Ela sabe que estou indo e adiantou o sono. Eu preciso ir agora.

— Eu vou! — disse Ruby indo até a pedra e a pegando.

— Ruby, só pode ser devolvido pelas mãos da linhagem Whritemore. Ela não vai aceitar você — explicou Ryus.

Elodie se recompôs e se pôs de pé. Os três já estavam indo em direção à porta quando ela se abriu repentinamente.

Elodie e Ruby deram um passo atrás, mas Ryus se manteve firme diante do imperador.

Seis guardas entraram na sala e cercaram Ryus, Ruby e Elodie.

— Você achou que eu não levei em consideração a possibilidade de você me trair, Ryus?

Ryus desembainhou sua espada encarando Jasper convicto do que precisava fazer agora. Os seis guardas apontaram suas espadas na direção deles.

— Você é meu general Ryus, vai mesmo me trair? Eu poderia fazer de você um governador depois de tomar Aya. Basta me entregar a pedra e a Elodie.

— Governador... — as palavras saíram baixas.

Ruby apertou a pedra em sua mão e colocou Elodie atrás dela.

— Elodie — chamou Ryus. — Eu vou abrir passagem. Você corre. A Aelia já está te esperando no mesmo lugar onde você sempre é pega.

Elodie entendeu o código de Ryus e aguardou preparada.

Ruby se virou para a filha com lágrimas nos olhos.

— Só você pode fazer isso. Eu amo você e temos orgulho de quem você se tornou.

Elodie sabia o que significava. Seu peito se apertou assim que ela pegou a pequena pedra na mão.

— Mamãe...

— Ah, deixem de drama. É simples. Me entrega a pedra e a Elodie e vocês não morrem aqui.

Os guardas avançaram um passo, o metal raspando sobre o piso.

Ryus sorriu confiante.

— Eu treinei a maioria aqui. Não pense que será fácil.

Jasper se irritou.

— Peguem a pedra.

Os guardas avançaram.

O primeiro veio pela direita. Ryus desviou e cortou. O segundo tentou por trás, ele girou e derrubou.

No espaço que se abriu, ele olhou para Elodie.

— AGORA!

Elodie correu. Jasper esticou a mão para agarrá-la.

Ryus levantou a espada entre os dois.

— Você não vai encostar nela!

O som das espadas se chocando ficou para trás enquanto Elodie corria pelo corredor, com a pedra queimando na mão.

— AAHH!

Aquele grito fez Elodie chorar enquanto se afastava.

— RYUS!

A voz de sua mãe gritando o nome dele já era o bastante para ela saber o preço de quebrar a maldição.