Alvorada
14 Alvorada
Haru cavalgava rápido com seu pequeno exército. O vento da noite cortava seu rosto, mas ele não se importava. Precisava chegar em Jaspe o mais rápido possível.
Após meio dia cavalgando ele chegou à porta do palácio. O barulho que vinha de dentro chamou sua atenção.
— Tem algo errado — concluiu Jun descendo do cavalo.
“ACHEM ELA!”
“PROCUREM NO ESTÁBULO!”
“ELA NÃO PODE TER IDO LONGE!”
Os gritos foram suficientes para Haru entender.
— Elodie... — sussurrou ele. — Vamos entrar agora.
Os homens se prepararam, dois com arco e flecha, dois com lança e escudo e seis com espada e escudo. Todos em formação, ao redor do príncipe e Jun liderando.
Ao se aproximarem, os guardas se assustaram com a presença do príncipe usando roupas de combate.
— Vossa Alteza Real! O que... por que...
— Onde está a Elodie?
A voz firme fez o guarda recuar. Na lateral, um cavalo correndo chamou a atenção. Era Jasper galopando em direção à floresta.
Jun apontou a espada para o pescoço do guarda. Outro guarda que estava no alto mirou uma flecha contra um dos homens de Haru, ele levantou o escudo e o arqueiro de Haru o acertou com uma flecha certeira.
— Vocês declaram guerra a Aya. O imperador Jasper é acusado de conspirar contra a coroa! Eu exijo falar com Ryus.
Os guardas se entreolharam sem saber o que fazer. Haru avançou e um dos guardas apontou a espada para ele.
Haru se irritou, não queria perder tempo.
— Abram caminho — ordenou ele.
Seus guardas começaram um embate com os guardas do palácio. Mesmo sendo apenas dez, eles eram os melhores do reino de Aya. Treinados por um estrategista considerado o melhor de toda a Silla.
Haru não lutou. Ele passou no meio do embate junto com Jun, procurando pelos corredores, nas salas, atrás de cada porta até encontrar a sala da coroa.
Haru viu Ryus no chão, sendo amparado por Ruby, que pressionava um ferimento de espada no abdômen dele.
— Vossa Alteza... — chamou Ryus com dificuldade.
Jun ficou de guarda na porta. Haru percebeu o desespero no olhar de Ruby.
— Elodie?
— Ela não tem mais tempo. Foi para a floresta devolver a pedra — havia tristeza na voz de Ruby.
— Você precisa ajudá-la...
Ryus tentou se levantar, mas conseguiu apenas se sentar escorado na parede.
— Ryus, o que aconteceu?
— O imperador ficou louco — a raiva na voz de Ruby era evidente. — Ele nos prendeu no calabouço quando percebeu que a Elodie descobriu como quebrar a maldição. Ryus tentou nos ajudar... mas...
— Vossa Alteza, ele foi atrás dela. Ele vai matar a própria filha... Você precisa impedi-lo.
— JUN! — ele se aproximou. — Proteja eles. Eu vou atrás da Elodie.
— Tenha o cuidado de não matar o Jasper. Ou isso vai parecer traição.
Haru entendeu o aviso de Ryus, ele correu para seu cavalo e cavalgou em direção à floresta.
...
Aelia corria rápido entre as árvores da floresta proibida. Os galhos arranhavam as mãos e o rosto de Elodie. Seu vestido já estava com rasgos por todo ele.
O caminho se estreitava, como nunca havia acontecido. Era como se a floresta soubesse que ela devolveria o que era deles por direito. Quanto mais Elodie se aproximava do Carvalho, mais a pedra queimava em sua mão.
“Elodie”
O sussurro veio alto, junto com um sono muito pesado que a fez cair do cavalo.
Aelia se assustou, ficou agitada mas não correu. Ela ficou batendo as patas dianteiras perto de Elodie caída no chão.
Elodie tentou se levantar. O mundo girou, ela caiu de joelhos.
Jasper apareceu atrás dela e a segurou pelos cabelos.
— Você vai se arrepender de ter me desafiado!
Elodie segurou seu pulso tentando se soltar.
— NÃO! NÃO!
Ele a jogou no chão e apontou sua espada para o pescoço dela.
Um raio atravessou o céu seguido de um barulho grave que ecoou em Jaspe, um vento fez a floresta chiar com o barulho das folhas.
— Esse é o seu destino, Elodie! Um sacrifício pelo bem do império. Se devolver a pedra tudo isso acaba.
— NÃO ME VENHA COM JUSTIFICATIVAS EGOÍSTAS! EU SOU SUA FILHA! EU DEVERIA SER SUA PRIORIDADE! NÃO AS TERRAS FÉRTEIS!
O silêncio entre os dois pesou, por um segundo Elodie pensou que Jasper poderia reconsiderar.
Se enganou.
— Os Whritemore não têm filhas.
A ira tomou Elodie, Jasper estava pronto para golpeá-la. Elodie assoviou e sua égua levantou as patas dianteiras acertando Jasper nas costas.
Ele caiu, Elodie se levantou, pegou a pedra e correu em direção ao carvalho, não estava longe, ela podia sentir.
Tum.
Tum.
Tum.
Não era o seu coração. Era o Carvalho. Pulsando dentro de cada árvore ao redor.
Elodie avistou o carvalho, o vento levantando as folhas secas, e entre elas as filhas Whritemore. Esperando. Em volta do Carvalho, que pulsava dentro de cada uma. Era como se Elodie pudesse sentir a guardiã a cada passo que dava em direção ao carvalho.
— Elodie, a Alvorada de Morpheus.
A voz veio de Aurora, a primeira. Ela olhou para a figura que brilhava enquanto apontava para os pés do Carvalho.
Elodie correu, mas o sono pesou mais a fazendo cair no chão ainda segurando a pedra que queimava sua mão.
— ELODIE!
Haru desceu de seu cavalo e correu até Elodie, a segurando em seus braços. Ele a examinou e não viu ferimento aparente. Haru segurou o rosto da jovem preocupado demais com seu estado.
— Elodie, acorda. Fica comigo.
Elodie abriu os olhos devagar e sorriu ao ver Haru.
— Elodie...
Ela levantou a mão e acariciou de leve a bochecha de Haru, que segurou sua mão contra seu rosto.
— Ela vai morrer — disse Jasper rindo de forma aterrorizante.
Haru não o olhou.
— Você está enganado. Ela é forte.
Jasper levantou sua espada contra Haru, mas Jun o golpeou por trás, não para matá-lo, apenas para imobilizá-lo.
— O Palácio está sob nosso domínio — relatou Jun.
— Tio... mamãe...
— Eles estão bem — disse Haru.
Haru a pegou no colo e a deitou aos pés do Carvalho. Elodie olhou para cima vendo que a alvorada se aproximava.
Com um pouco de dificuldade ela começou a cavar na terra, Haru a ajudou abrindo um buraco fundo o suficiente para encontrar uma raiz pequena.
Elodie pôs a pedra e cobriu com a terra.
— Eu... Elodie Whritemore, peço o seu perdão... e devolvo o que é seu.
Ela desmaiou e Haru a amparou em seus braços. Ele sentiu a pele fria de Elodie, seus batimentos fracos e sentiu um aperto no peito.
— Elodie... — sussurrou ele mais como uma oração para que ela voltasse.
A alvorada rompeu o céu, invadindo a floresta fazendo o vento cessar.
E então a luz da Alvorada tocou a terra, fazendo a árvore brilhar, uma força puxou Elodie a tirando dos braços de Haru, ele se levantou e viu a jovem flutuar alto, uma luz dourada a envolveu enquanto sussurros invadiam o silêncio do amanhecer.
“A última Alvorada... Seu perdão foi aceito... Acorde, Elodie.”
Elodie flutuou devagar até o chão, Haru foi até ela e a segurou novamente.
— Elodie.
Ela abriu os olhos e sorriu para Haru.
— Acho que agora podemos nos casar, Vossa Alteza.
Haru sorriu e depositou um beijo urgente mas gentil nos lábios dela.
Um tremor os surpreendeu, Haru ajudou Elodie a se levantar, eles olharam em volta.
— A guardiã está tomando o que é seu — disse Elodie vendo a terra rachar e árvores secarem.
— Jasper será infértil e cairá no esquecimento.
— É... — Elodie o olhou. — Ainda bem que eu vou me casar com um príncipe.
Haru encarou a mais nova sem acreditar que ela estava fazendo piadas numa hora como aquela. Mas no fim acabou rindo com ela.
— Vamos embora — disse ele segurando sua mão.
“Elodie.”
Elodie parou ao ouvir o seu nome. Haru sentiu ela parar e a olhou preocupado.
— O que foi?
— Espera.
Elodie soltou a mão de Haru e voltou até a árvore. Ela encostou a mão e depois a testa na casca fria.
— Guardiã...
— Eu não posso voltar. Mas vejo que seu coração é puro. Você redimiu a linhagem Whritemore.
— Eu apenas fiz o que era certo.
Uma luz emanou da árvore e a aura de uma mulher saiu da árvore. Elodie se afastou, mas não sentiu medo.
— Qual é o seu nome?
— O meu nome é Morgana.
Elodie estranhou e sorriu por saber o significado do nome.
— Isso não é meio contraditório para uma guardiã?
— Um nome apropriado para lendas e contos, Elodie. Às vezes é melhor manter longe do que combater a ameaça quando está aqui.
— Ainda parece nome de vilã.
— Depende de quem conta.
Elodie ficou séria.
— E agora?
— Eu concederei fertilidade a Jaspe. Com uma condição.
Elodie se aproximou preocupada.
— Você sabe que isso não deu certo da última vez, Morgana. Por que quer fazer isso de novo?
— Vou te contar um segredo. Aurora não teve os sete dias não por já ter os 21 anos. Mas porque trocou por uma condição na maldição.
— Condição?
— Aquela que quebrar a maldição se tornará a primeira de uma linhagem que protegerá a guardiã. Essa será a condição para o perdão.
— Eu devolvi a pedra, essa era a condição — disse Elodie não gostando muito da conversa.
— Não. A pedra era o teste.
— Se ela não aceitar? — perguntou Haru se aproximando.
— A maldição foi quebrada. Mas isso não garante que outros tentarão ter esse poder. Eu estou dizendo que preciso de uma guardiã. Uma de coração puro. Caso contrário, eu ficarei vulnerável e a maldição poderá voltar.
Elodie olhou para Haru, depois para Jasper desmaiado mais à frente. Ela tornou a olhar para Haru.
— A decisão é sua — disse ele com a voz gentil.
Elodie olhou para Morgana e sorriu confiante.
— Tudo bem. Eu aceito a condição.
Fale com o autor