Alvorada

12 Aurora


Ryus teve a certeza de Jasper estar dormindo. Já era tarde da noite. Ele foi até a cozinha e ficou surpreso quando viu a cozinheira, senhora Alba, sentada com um cesto na mão.

— Alba? Ainda acordada?

— Senhor Ryus, eu estava esperando o senhor. Preparei uma cesta para a Imperatriz e para a Elodie.

Ryus não conseguiu esconder a surpresa em seus olhos e esboçou um sorriso. Mas o sorriso logo desapareceu, dando lugar a uma vergonha.

— Eu não consegui protegê-las da fúria do imperador. Eu falhei com elas.

Alba se aproximou e entregou a cesta para Ryus.

— Elas confiam no senhor.

Alba se virou para sair, mas parou na porta da cozinha.

— Eu devo ter colocado uma erva do sono na bebida dos guardas da ala leste.

Ryus sorriu vendo Alba indo embora.

Com muito cuidado e discrição, Ryus tentou chegar à cela sem ser visto.

...

Elodie e Ruby ajeitaram o feno no chão e tentaram dormir um pouco. Elas já estavam se sentindo fracas, o dia todo beberam pouca água e apenas um pedaço de pão.

O sono da jovem começou a ficar agitado.

Um barulho fora da cela a acordou, ela abriu os olhos, encarando as grades com expectativa.

Elodie suspirou constatando que não era nada. Ela olhou para sua mãe e a viu dormindo profundamente.

Outro barulho fora da cela, mais alto, chamou sua atenção.

Corrente arrastando, no corredor.

Ela se levantou. O chão não era mais pedra. Era musgo. As grades eram raízes.

A cela era a floresta. Antes.

Um velho de coroa segurava uma luz verde-dourada nas mãos. Ajoelhado aos pés de uma mulher feita de folhas. Ele oferecia. Pedia perdão.

Atrás dele, uma sombra. Um príncipe. Espada em punho.

Um corte seco. O velho caiu. A luz caiu na terra.

O príncipe pegou a luz e fugiu.

A mulher de folhas olhou para o sangue no musgo.

A floresta prendeu a respiração.

E então ela gritou sem boca.

As raízes subiram. Engoliram ela. O corpo dela virou tronco. Tronco virou Carvalho.

“Sono... sete dias... oitavo... morte...”

O sussurro vinha da casca. De todas as folhas ao mesmo tempo.

A clareira girou.

Quando parou, havia mulheres ao redor do Carvalho. Quinze. Cabelos pretos. Olhos iguais aos de Elodie. Nenhuma falava alto. Só sussurravam.

“Devolva... devolva...”

Uma se adiantou. Coroa de ramos. Cetro escuro. Na ponta, a luz. Pulsando.

Ela olhou para Elodie e Elodie soube o nome sem nunca ter ouvido.

Aurora.

Aurora encostou o cetro no peito de Elodie. A luz queimou frio.

“Onde eles juram poder... onde eles juram poder...”

Olhando nos olhos de Aurora ela sentiu a dor dela não ter tido tempo, os sete dias lhe foram negados pois ela era a primeira.

Elodie acordou. Cela. Pedra fria. Mãe dormindo.

E a palma da mão dela ainda quente, marcada com luz.

— Elodie?

A voz de Ryus do lado de fora tirou Elodie de sua imersão. Ela respirou fundo se levantando.

— Tio? O que faz aqui? Se o Imperador souber...

Ryus pôs sua mão sobre a mão de Elodie, que segurava a grade. Ele sorriu triste.

— Me perdoa...

— Não há o que perdoar. Por favor, fique firme até Haru voltar.

A conversa, mesmo baixa, acordou Ruby, que se levantou e foi até eles.

Ryus a olhou preocupado.

— Como você es

— Eu estou bem — respondeu Ruby tentando ser firme.

Ryus pegou a cesta com comida e abriu.

— A Alba preparou para vocês.

As duas sorriram.

— Você se arriscou muito — Ruby sorriu. — Obrigada.

— Não façam sujeira. E comam rápido. Preciso levar a cesta de volta.

Elodie pegou e agradeceu mentalmente a cesta passar pela fresta das grades. Ryus observou as duas comerem, sem muita etiqueta, o que se tornou dispensável naquela situação.

O sonho não saía da cabeça de Elodie, ela pensava na última conversa com Jasper e no sonho.

— Tio, por que eu nunca pude entrar na sala da coroa?

Ryus ficou surpreso com a pergunta.

— A sala... da coroa...? Eu não sei ao certo...

Elodie o olhou. Ryus não tinha uma resposta para aquela pergunta.

— O imperador sempre manteve aquela sala trancada. Ele me disse que ninguém podia ver ou tocar o cetro e as coroas até o momento da coroação. Eu usei a coroa uma vez, depois ela voltou para a sala — explicou Ruby.

Elodie teve um momento de clareza.

— O cetro!

Ryus e Ruby a olharam meio confusos.

— O cetro. A pedra mágica está dentro dele.

— Como pode ter tanta certeza? — pergunta Ryus.

— Ele disse: Sua avó olhou para o cetro e quase pôs tudo a perder. E eu tive um sonho, a Aurora me contou.

— Onde ouviu esse nome? — Ryus ficou pálido.

Elodie entendeu na hora. Ele sabia.

— A primeira filha. Aquela que não teve os sete dias.

Ryus olhou para o corredor, para ter certeza que ninguém estava ouvindo, e abaixou a voz.

— Aurora era a filha do primeiro imperador. Whritemore não era o nome dele. Ela se casou com um Whritemore. Todos contam que o príncipe que matou a guardiã era filho do imperador... mentira, ele era o genro. E ela já tinha 21 anos na época.

Silêncio na cela.

— Ela não teve os sete dias — Elodie sussurrou. — Porque ela já tinha 21. A maldição caiu na hora.

— Então a maldição não vem da linhagem real? — perguntou Ruby, com a voz tremendo.

— Não — disse Ryus. — Vem da linhagem dele. Por isso é proibido falar. Essa história só é contada para o sucessor. Há algumas décadas alguém descobriu e o boato se espalhou. Pessoas morreram por causa desse boato Elodie.

— Por que nunca me contou? — Elodie perguntou.

— Porque eu achei que era mentira — Ryus respondeu, sincero. — Eu não queria te dar uma falsa esperança.

Elodie segurou as grades. A palma da mão ainda queimando do sonho.

— Mentira ou verdade, não importa mais. Eu sei onde está a pedra. Está dentro do cetro. Na sala da coroa. Onde eles juram poder.

Ruby e Ryus se olharam.

— E como vamos pegar? — perguntou Ruby.

Elodie olhou para a porta da cela, depois para o corredor escuro.

— A gente não vai. Ele vai trazer até nós.

— Quem?

Elodie deu um meio sorriso.

— O Haru. Ele volta em dois dias para destronar o Imperador.