Alvorada
11 Antecipação
Jasper estava sozinho na biblioteca. No mapa à sua frente, Aya colada a Jaspe. Metade de Silla. Tudo dele.
Um vento frio cortou a sala, mesmo com as janelas fechadas. Trouxe um sussurro que ele não entendeu.
E então a pontada.
Atravessou o peito dele como uma faca. O mundo girou. Jasper tentou se apoiar na mesa, mas derrubou tudo — papéis, tinta, o mapa — e caiu de joelhos. Um sono violento, pesado, começou a puxá-lo para baixo. Não era cansaço. Era a maldição.
Ryus entrava na biblioteca bem nessa hora. Parou na porta.
Viu Jasper de joelhos, pálido, ofegante, tentando não apagar.
Seria melhor que ele morresse. Foi o primeiro pensamento de Ryus.
Mas não. Jasper piscou com força e pareceu voltar. E Ryus sabia que se o Imperador morresse ali, a culpa cairia sobre ele. Sobre a Ruby e a Elodie.
Mudou o rosto na hora e correu até ele.
— GUARDAS! — gritou, já amparando Jasper pelos ombros. — Imperador, o que aconteceu?
Jasper respirava fundo, com os olhos pesados.
Dois guardas entraram com a espada na mão.
— Imperador!
— E-eu estou bem... — a voz dele saiu arrastada.
— Imperador, deixe-me chamar o médico...
— JÁ DISSE QUE ESTOU BEM! SAIAM!
Ryus fez um gesto para os guardas saírem e ajudou Jasper a se levantar.
— Eu vou chamar o médico mesmo assim...
— Não! — Jasper o segurou pelo braço. — É a maldição... o sono...
Ryus franziu a testa.
— Maldição? A Elodie ainda tá longe do sono profundo.
A expressão de Jasper mudou. O medo virou fúria pura.
— Aquela maldita fez alguma coisa! Meu pai disse que eu só sentiria os sintomas dias antes dela entrar em sono profundo. Dias! Não agora!
— Imperador, o que ela poderia ter feito? Ela está trancada no quarto desde ontem.
Jasper nem ouviu. Já estava olhando para a escadaria.
— Eu sabia! Essa menina é uma maldição na minha vida!
Ele subiu correndo em direção ao quarto. Ryus foi atrás, com o coração na garganta.
Jasper abriu a porta com violência. Elodie e Ruby, que tomavam café sentadas na cama, levaram um susto.
Ruby se levantou na frente da filha.
— O que você quer? Já não basta manter sua própria filha trancada para forçar um casamento?
— Ela não é uma filha. É um problema que eu vou resolver.
Jasper passou por Ruby e puxou Elodie pelos cabelos. Ruby tentou intervir e foi jogada no chão.
— O QUE VOCÊ FEZ?!
Elodie segurou o pulso dele para aliviar a dor, mas a raiva era maior que o medo.
— Do que você tá falando?!
— SUA MALDITA! Eu estou sentindo os sintomas! Era para ser dias antes do seu aniversário, não agora! O que você fez?!
Ryus deu um passo à frente, com os punhos cerrados.
— Imperador, por favor...
— Cala a boca, Ryus! Você sabe que ela é esperta que nem você! Puxou isso da minha mãe! — Ele colou o rosto no ouvido de Elodie, cuspindo as palavras. — Igualzinha a ela! Sua avó também foi mexer onde não devia! Meu pai deixou ela olhar para o cetro e ela quase botou tudo a perder! Ele era fraco! Eu não sou!
Ele jogou Elodie no chão, ao lado de Ruby. As duas se abraçaram.
Jasper respirava descontrolado.
— Guardas!
Dois guardas entraram.
— O que vai fazer? — Ryus perguntou, tentando manter a voz firme.
Jasper nem olhou para ele.
— No calabouço. As duas. Só saem de lá para o casamento.
Ryus deu um passo à frente. Pela primeira vez, ele contestou.
— No calabouço ela não chega viva ao casamento. Você sabe disso. É úmido, é sujo. Se ela adoecer, Aya não vai aceitar. O rei de Aya...
— Que apodreça lá! — Jasper cortou. — Se for preciso, levo ela carregada para o altar! Mas aqui ela não fica mais conspirando pelas minhas costas!
— Jasper, pensa. Se o rei de Aya souber que você trancou a futura rainha no calabouço haverá consequências. Ele vai saber assim que vê-la doente.
Jasper parou. Ryus tinha acertado no único lugar que doía: o orgulho e a aliança.
Ele olhou para Elodie e para Ruby no chão. Depois para os guardas.
— ...então que seja em uma cela limpa. Sem visita. Sem comida além do pão. Quero ver quanto tempo dura a esperteza dela com fome.
Ryus olhou para Ruby. Ela, mesmo no chão, assustada, fez um sinal quase invisível com a cabeça. Não faz nada.
Ryus cerrou os punhos até as unhas cravarem na palma. Se sentindo impotente, vendo os guardas puxarem as duas.
Ruby e Elodie foram praticamente jogadas em uma cela. A sala pequena era de pedra com grades de ferro, era fria, havia apenas uma cama de palha e um banco na parede do fundo, nada além disso.
Não era uma cela suja, nem úmida, era uma das melhores celas, sem ratos e bichos peçonhentos.
— Ele ficou louco — disse Ruby indignada. — Perdeu completamente o juízo!
— Mãe, se é verdade o que ele falou, então alguma coisa está antecipando a maldição.
— E isso seria possível?
Elodie puxou sua mãe para se sentar no banco frio.
— Eu estou sentindo os sintomas. Achei que era normal.
O medo cobriu os olhos de Ruby e ela segurou as mãos de Elodie.
— Por que não me contou?
— Para te deixar mais preocupada, mãe? — Elodie olhou para a cela. — Eu preciso sair daqui e encontrar a pedra antes que o sono me tome.
Ruby não conseguiu segurar o choro. Ela entrou em desespero, com medo do destino de sua única filha.
— Mãe...
— Você é a única coisa que me mantém de pé. O que eu vou fazer sem você, Elodie? Eu também não quero que você morra. Mas o que vamos fazer agora?
Elodie a abraçou forte, não soltou até Ruby parar de tremer e de chorar.
— Eu sei que vamos dar um jeito. Porque eu ainda não desisti — ela sussurrou no ouvido da mãe. — O príncipe herdeiro volta em dois dias. Ele prometeu voltar.
Ruby ficou surpresa e olhou para sua filha, que estava com um sorriso de verdade, que ela não via há dias.
Ela respirou fundo tentando se acalmar, sentindo orgulho da força de sua filha.
— Espero que você esteja certa disso.
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