Already Fallen
6 Conversas na enfermaria
Me envolvi em meus pensamentos ao ponto de nao prestar a minima atençao ao mundo a minha volta. Pensei em Daniel, em seus olhos de um violeta vivo, que por mais que sempre me olhassem com desprezo, me enchiam de energia. Voce o odeia luciana, repeti à mim mesma pela milésima vez .
Era verdade, eu o odiava, e odiava ainda mais o fato de sempre que o via, sentia vontade de toma-lo para mim, a cada vez que falava com aquela voz, doce e forte ao mesmo tempo, sempre que via cada traço do seu rosto, cada musculo das costas nas aulas de Ed.Fisica, cada sorriso, cada expressão, cada gargalhada, odiava querer aquilo pra mim.
De repente a voz de Cameron ecoou em minha mente, as palavras ditas no primeiro dia de detenção ressoando cada vez mais alto, e mais alto, ate que nao fui capaz de ouvir meus pensamentos. Calafrios correram meu corpo e começei a soar frio, me senti tonta. O que antes parecia um sussurro, agora era quase um grito. Cambaleei para trás em busca de ar.
Senti uma mao tocar meu ombro, prendi a respiração e estremeci, com um golpe segurei o braço da pessoa e a joguei no chao com toda a minha força, seja la quem for nao ia mexer comigo. Abri meus olhos e soltei um gemido de culpa e arrependimento, a pessoa no chao respondeu, com um gemido de dor.
–Voce é um tipo especial de retardada ou o que? Que tipo de pessoa... melhor, que tipo de garota ataca os outros assim?! — Disse Daniel Grigori enquanto eu o ajudava a ir a enfermaria. Ele estava apoiado no meu ombro e eu passei a mão pela cintura dele. Ele reclamava da minha atitude, mas se nao fosse pelos meus músculos ele nem sequer sairia do chão.
–Eu nao sabia que era voce ta? se eu soubesse, teria feito com menos força. — Disse rindo da própria piada, Daniel nao achou engraçado, ele revirou os olhos e continuou.
–Haha muito engraçado! Sera que voce nao consegue ser um pouquinho mais idiota? Sinceramente... Voce realmente nao tem nada de bom... — Ele passou a mão pelos cabelos. Nós suavamos.
–Olha como fala! Nao sou igual a tua namoradinha ta? — Eu disse bufando de raiva. Chegamos à enfermaria, mas nenhuma delas havia chegado. Joguei o Daniel na maca sem o menor cuidado, ele quase se desequilibrou, senti um pouco de culpa.
–Ai! — Ele coçou o rosto e gemeu de dor mais uma vez. — EU TO AQUI POR TUA CULPA! — cruzei os braços e revirei os olhos, ele continuou:
–E que historia é essa de namoradinha?
–Como assim? A Gabi é tua namoradinha! — Eu respondi como se nao me importasse.
–Gabriela nao é minha namorada! — Disse ele estendendo o pé para que eu fizesse o curativo, como a culpa de estarmos ali era minha, acatei.
– Voces pareciam bem proximos na detenção, e nas aulas de ed.física, e nos intervalos...
– Eu gosto da língua dela, e ela da minha, nada mais que isso. Nao tem significado nenhum pra mim. -Comecei a gargalhar.
– Gosto da lingua dela?! Que tipo de pessoa diz isso?! — Os olhos de Daniel se estreitaram em minha direção. Ignorei a sensação de familiaridade.
–Eu digo! Qual a vergonha em dizer o que se pensa? — Ele parecia a vontade, jogou os braços pra tras e se apoiou nos cotovelos.
–Ah é? e o que voce esta pensando agora? — Provoquei, esperando que ele respondesse algo como um xingamento ou provocação.
–O que eu estou pensando... Bem, que voce nao é tao inutil assim. — Sem querer apertei o machucado e ele reclamou.
–AI! O QUE HA COM VOCE?! QUER ME MATAR É ISSO?! — Ele parecia bem zangado, mas eu sabia que nao estava.
–AAh voce nao vai morrer com uma torção no tornozelo... Infelizmente.
–O QUE FOI QUE DISSE?!
–Agora dá pra parar de ser um bebe chorao?
Ele riu. Em seguida a primeira enfermeira entrou, ela pediu que eu fosse para a sala e disse que cuidaria dele. Respirei aliviada, aquele ultimo comentario havia sido inesperado, e eu sabia que havia corado e ficado vermelha como um tomate.
Depois de algum tempo, lembrei que nao havia perguntado se ele aceitaria ser meu tutor, mas nao tinha problemas, eu nao havia me decidido ainda, achei que havia sido melhor assim. Na hora do almoço resolvi sentar com as poucas meninas da sala de aula que aceitavam minha presença sem grandes problemas.
–Parece que D nao veio hoje... — Uma delas disse enquanto jogava o cabelo para o lado pela centésima vez naquela manhã.
–Ele veio sim! — Outra respondeu. — Mas foi mandado para casa.
–Tipo, ele faz matematica avançada na mesma turma que eu, e tipo é, tipo a primeira aula do dia, ele ja nao tava, tipo, em sala de aula. — Ela acabou de quebrar um numero record de "tipos" em uma única sentença.
–Ele sofreu um acidente. — Uma delas disse, ela nao tinha muita maquiagem na cara, e apesar de nao ter nada na cabeça, era uma menina bacana.
–Ouvi dizer que ele sofreu um acidente. — Respirei fundo ao perceber que eu havia sido o acidente.
Me senti pesada como uma rocha, cheia ate a boca de culpa, segui para a aula de religiao. Ao chegar la, recebi do professor um bilhete, na caligrafia feia de Daniel pude entender o que dizia, "Sim inutil, eu aceito ser seu tutor, nao precisa agradecer, Daniel." Aquele imbecil.
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