Along The Way
26 Capítulo XXV
Peter cambaleou alguns passos para trás, sem saber se o que o chocava mais fora ver seu companheiro ser morto em sua frente, ou a faca que rasgava a carne de sua barriga. Agarrou o cabo e a puxou, sentindo a lateral de seu corpo arder ainda mais quando a lâmina saiu. Estava consciente de ter ouvido Tony gritar seu nome, mas no momento tudo o que passava em sua cabeça era o rugido de seu sangue correndo por seus ouvidos.
Tudo o que podia visualizar era a figura de Clint, morta, caída no chão em frente à Natasha ajoelhada, ainda com as mãos amarradas às costas.
Abriu automaticamente seus dedos e deixou a faca cair no chão enquanto levava suas mãos ao corte, cobrindo-o na inútil tentativa de evitar que o sangue saísse em abundância.
Tony olhou horrorizado enquanto as mãos de Peter se tingiam de vermelho, mas por mais que seu corpo implorasse para que fosse o ajudar, sua mente ainda se focava no causador daquilo.
Joseph ainda sorria insanamente próximo ao corpo do Barton, pronto para correr dali o mais rápido possível, entretanto não se moveu tão ligeiro quanto a ira do Stark, que o pôs em movimento tão rápido quanto o pensamento de acabar com aquele homem passou por sua cabeça.
Em poucos instantes já estava em cima de Joseph, não se dando conta de quando realmente tinha sacado um punhal de seu cinto, mas aquilo não importava enquanto aquele homem continuasse em pé. Poucos golpes foram necessários para o derrubar, em vista de que agora ele estava completamente desarmado, e menos ainda foram precisos para findar sua vida.
Tendo finalmente terminado, Tony se levantou de cima do cadáver de seu inimigo e voltou ao presente, correndo primeiramente para a princesa, devido ao fato de que ela estava mais próxima. Cortou com um puxão firme as cordas que prendiam seus pulsos, liberando suas mãos que foram ligeiras em direção ao rosto inerte de Clint, o acolhendo gentilmente entre as palmas.
― Temos que ajudar o Peter ― Tony falou, pondo a mão ensanguentada no ombro da moça, que balançou a cabeça e fechou os olhos com força, deixando que as lágrimas grossas rolassem sem impedimento. Tony então, sabendo que não havia qualquer chance de salvação para aquele homem, tomou ambos os ombros de Natasha nas mãos, a virando bruscamente para si. ― TEMOS QUE AJUDAR O PETER ― insistiu mais alto, finalmente atraindo a atenção da garota. ― Não há mais o que fazer aqui, mas Peter ainda tem salvação!
Saindo finalmente do estupor causado pelo choque, Natasha olhou para Peter, que há alguns passos de si havia caído de joelhos e segurava firmemente a lateral de sua barriga, tendo os dedos em vermelho vivo manchados de sangue.
― Peter! ― Ela exclamou em fim. ― Calma, vamos dar um jeito nisso!
Caindo ajoelhada junto ao garoto ela levou as mãos trêmulas a barra do casaco e camisa que ele usava, os levantando e forçando as mãos do garoto para fora do caminho, para que pudesse analisar a situação.
Tentou limpar sua mente de qualquer coisa que não fosse um jeito de ajudar seu amigo, pois aquilo era o mais urgente no momento.
Olhou para o corte que sangrava, respirando um pouco mais aliviada ao perceber que não havia ido tão fundo quanto pensara, aparentemente nenhum órgão havia sido atingido. Pelo que pudera observar antes de voltar a cobrir o ferimento e exercer pressão sobre ele, a faca havia pegado de raspão no lado da barriga de Peter, provavelmente desviada pela mira ruim e pelo casaco grosso que ele usava, fazendo um comprido e fundo corte. O que fora uma sorte, é claro, pois de tivesse se enterrado meio palmo para a direita de Peter, não teria nada que ela pudesse fazer ali.
― Está muito ruim? ― Tony questionou, nervoso com a quantidade de sangue. ― Ele vai ficar bem?
― Eu não sei ― respondeu sinceramente a princesa. ― Mas precisamos fechar esse corte antes que ele sangre até morrer.
― Como vamos fazer uma coisa dessas? ― Desesperou-se o Stark, passando a mão suja pelo cabelo. ― Não há médico algum há pelo menos uns três dias de viagem!
Natasha parou para pensar por um momento. Ficava difícil raciocinar sob pressão, enquanto sentia o sangue quente de Peter em suas mãos e o ouvia gemer em dor. Assim como o desespero que lutava para tomar conta de si com a morte de seu melhor amigo.
― Eu vou ter que costurar.
― O que?! ― Exclamou Tony. ― Como?
― Espero que tenham trazido minhas coisas ― falou rapidamente a princesa, encarando o homem com seriedade. ― Tem uma caixa com artigos de costura. Há agulha e linha que devem servir no momento.
― Tem certeza de que pode fazer isso?
― Não temos outra alternativa ― respondeu, sentindo-se nervosa com a perspectiva. ― Vá, se apresse e busque! Traga uma toalha limpa e água, precisamos limpar o ferimento antes de o fechar.
Tony assentiu enquanto olhava para a figura que os dois formavam sentados no chão e apertando o corte para que o sangue estancasse, então correu. Correu como nunca antes havia corrido. Somente agarrou no fogo um galho cuja ponta estava acesa, para que tivesse ao menos o mínimo de luz quando chegasse ao acampamento e pudesse procurar pelas coisas que Natasha havia pedido.
Não demorou para que chegasse ao seu destino, infinitamente grato por não ter tropeçado em nada no caminho. Pôs-se então a revirar as bolsas da princesa, despejando seu conteúdo no chão sem se importar com a bagunça. Assim que achou uma pequena caixa de madeira, a abriu e a levou próxima a pequena chama de sua tocha, verificando seu conteúdo. Vendo se tratar da caixa desejada, Tony procurou por toalhas que estivessem razoavelmente limpas e por suas bolsas de água. Não estavam totalmente cheias, mas era o que tinham.
Correu com a mesma velocidade de antes de volta ao acampamento, onde os dois mais jovens ainda estavam na mesma posição.
― Agora, Stark, segure ele enquanto eu limpo a ferida ― instruiu a princesa, sem perder tempo. ― Aqui, segure sua camisa levantada.
Tony rapidamente se ajoelhou às costas de Peter e o segurou contra si firmemente, passando o braço direito por seu peito enquanto segurava sua roupa, e com a mão direita segurava a do garoto, apertando ali em forma de conforto e também para que o Parker descontasse um pouco da dor que sentia quando Natasha despejou água sobre a ferida, secando em seguida com a toalha.
― Segure aqui, Pete ― ela falou, indicando para que o garoto pressionasse a toalha em si.
Com as mãos trêmulas, Natasha tentava passar o fio pelo buraco da agulha, errando várias vezes antes de finalmente acertar. Cortou a linha com os dentes e respirou fundo, preparando-se mentalmente para o que teria de fazer em seguida.
― Você já fez isso antes? ― Perguntou Peter, trêmulo, enquanto via a amiga levar a agulha até sua pele.
― Ajudaria se eu dissesse que meus bordados são lindos?
Natasha riu nervosamente e respirou fundo, tomando coragem.
― Isso vai doer ― alertou. ― Aguente firme.
E Peter aguentou. Cerrou os dentes a ponto de eles também começarem a doer, e apertou a mão de Tony o quanto pode. Cada vez que a agulha perfurava sua pele, gemia alto em dor, e o tempo que levou para Natasha finalizar os pontos pareceu infinito.
― Pronto ― suspirou aliviada a garota, ao cortar com a faca a ponta restante do fio do último ponto. Despejou mais um pouco de água por cima e limpou cuidadosamente o sangue que já secava no local. ― Agora torçamos para que não inflame.
― O que?! ― Questionou Peter assustado, mas ainda um tanto entorpecido depois de tanta dor.
― Calma ― disse Tony em um tom brando e aliviado. ― Você ficará bem.
Natasha se deixou relaxar sentada no chão, passando as costas das mãos pela testa, secando o suor de puro nervosismo que se acumulara ali, sem nem se importar que suas mãos estivessem manchadas de sangue.
― Foi uma sorte a faca ter pegado de raspão ― comentou. ― Do contrário agora você poderia estar morto.
― Eu tive que arrancar ela de mim ― falou Peter, por não ter podido ver realmente a extensão de sua ferida. ― E doeu pra caramba.
― Deve ter ficado presa na roupa ― opinou Stark, às suas costas, o segurando contra seu peito.
Natasha concordou com um aceno de cabeça, então olhou em volta e pela primeira vez realmente percebeu os rastros de morte espalhados pela clareira. Contou alguns corpos dos homens que mantinham-na prisioneira, para então deixar seu olhar cair sobre o corpo de Clint. Não conseguiu manter o foco por muito tempo, logo fechando seus olhos e baixando a cabeça em direção a qualquer coisa que não fosse morte ou sangue.
― Amanhã eu dou um jeito nessa bagunça ― Tony falou, ainda sem ter soltado Peter. ― E então teremos de seguir viagem. Já perdemos tempo demais.
Natasha sabia que o tempo para eles era precioso, necessitava chegar à sua terra natal o mais rápido possível para poderem, enfim, assinar o acordo de paz, mas naquele momento tudo lhe parecia tão fútil que sequer conseguiria se importar mesmo se gastassem um mês parados no mesmo lugar.
Seu peito doía apertado, e seus olhos ardiam, implorando para deixar derramar as lágrimas do desespero que ameaça lhe tomar conta. Mas Natasha resistiu bravamente, pelo menos até todos terem se recolhido para finalmente dormir, então no silêncio da madrugada chorou silenciosamente, contendo seus soluços mordendo por vez os lábios ou a mão fechada em punho, até se deixar vencer pela exaustão.
Quando finalmente amanheceu, ninguém comentou o fato de a garota ter os olhos inchados e vermelhos, o que a deixou intimamente grata.
― Vou voltar ao nosso acampamento para buscar os cavalos ― Tony falou pela manhã. ― Tomem cuidado, eu volto já.
A princesa somente acenou com a cabeça em silêncio, para então olhar Peter, que ainda dormia deitado sobre a cama improvisada que Stark arrumara na véspera. Ele parecia visivelmente bem, mas as manchas de sangue seco em sua roupa denunciavam o contrário.
Não muito depois de Tony ter saído, Peter acordou, sentindo-se dolorido mesmo sonolento. Arfou em dor quando tentou se sentar, levando a mão sobre a atadura que cobria os pontos de seu ferimento, então decidiu permanecer deitado mais um pouco.
― Como se sente? ― Natasha perguntou, atraindo a atenção do garoto.
― Um pouco dolorido ― respondeu, fitando o teto da tenda onde estavam. ― E o senhor Stark?
― Ele está bem ― falou. ― Alguns cortes e contusões, mas nada grave. Acabou de sair para buscar as coisas no outro acampamento.
Peter assentiu em silêncio por não saber o que dizer. O clima era pesado ali, sendo quase palpável, e nenhum dos dois sabia o que fazer para corrigir isso, então permaneceram quietos.
Fechando os olhos a fim de aproveitar o pouco do conforto do sono que ainda lhe restava, Peter se permitiu pensar sobre a noite anterior. Havia tido muitos acontecimentos, e as cenas das mortes impiedosas que presenciara ainda estavam em seus pensamentos, como se tivessem sido gravadas a ferro em suas pálpebras, vívidas a cada vez que fechava os olhos.
Clint havia morrido, e ele sentia que isso perturbou mais a princesa do que ela deixava transparecer. Desde criança, quando se conheceram, Natasha tendia a ser a durona dentre os dois. Não se deixava abalar por qualquer coisa, e quando via um obstáculo, sua obstinação a levava a contorná-lo da melhor maneira possível. Mas aquele era um problema que não se resolveria com força de vontade e dedicação. Um amigo tinha morrido. Era irremediável.
― Eu sinto muito ― Peter murmurou, porque achou que devia falar alguma coisa sobre, mesmo que não tivesse certeza de que. ― Pelo Clint.
― Obrigada.
E o silêncio reinou outra vez, e Peter desconfiava que o restante da viagem seria assim.
Ao menos haviam sofrido somente uma baixa. Peter estava feliz que Natasha estava fisicamente bem. E ele também estava feliz por estar vivo. E Stark.
Stark.
Com os pensamentos voltados ao homem, Peter finalmente se lembrou do que havia ocorrido no começo da noite anterior. Com toda a ação que tiveram, sua mente havia deixado aquele acontecimento de lado, mas agora ele voltava com tudo, deixando o garoto com o rosto vermelho e aquela sensação estranha na barriga, exatamente como estava no momento em que Tony o beijara.
Ainda não acreditava que o homem havia feito aquilo, e tampouco que tivesse correspondido. Nunca imaginou que Tony também gostasse de si daquele jeito, pensava que ele o via apenas como o colega de viagem que era, mas então fora surpreendido pela ação mais que repentina.
Pensando bem, agora neste momento de calmaria, o garoto se questionava se o que Tony sentia por ele era intenso como Peter sentia. A possibilidade de ter sido simplesmente um homem querendo beijar alguém antes de uma ocasião bastante propensa a morte, era grande, mesmo que Peter tenha pensado ver reciprocidade em Tony após o beijo. Insegurança rondava seus pensamentos, mas era melhor deixar aquilo de lado, sua cabeça estava cheia demais para um período de tempo tão curto.
― Pode me ajudar a levantar? ― Peter perguntou à Natasha.
Não lhe agradava a ideia de recorrer à uma garota – e pior: uma princesa – para lhe ajudar a fazer algo tão simples como ficar em pé, mas dadas as circunstâncias, não tinha alternativa senão essa.
Com cuidado para não arrebentar nenhum ponto, Peter se apoiou na garota e se levantou, decidindo ir dar uma volta pelo lado de fora, avaliando a bagunça que deveria estar à luz do dia.
Quando saiu da tenda, pode ver o momento em que Tony chegava montado em um cavalo, puxando os outros dois já selados e carregados com suas bolsas.
― Devíamos seguir viagem logo ― Tony comentou ao desmontar. ― Não há por que ficar perdendo o tempo aqui.
― Não podemos deixá-lo aí de qualquer jeito ― Natasha falou, aparecendo na porta da tenda e indicando o corpo do Barton. ― Não vou abandoná-lo como um ladrão de estrada qualquer.
― Não podemos levá-lo conosco ― rebateu Tony em um tom compreensivo. ― Com todo o respeito, princesa, mas não podemos arrastar um corpo por três ou quatro dias até poder dá-lo um funeral decente.
― Façamos uma pira então ― concluiu a garota, disposta a não abandonar o corpo do amigo. ― O cremamos hoje, e viajamos amanhã.
Tony suspirou, mas não discordou. Balançou a cabeça afirmativamente e foi amarrar os cavalos junto dos outros, pertencentes aos bandidos.
― Certo ― falou. ― Tire então a bagagem dos cavalos enquanto eu corto a lenha.
A maior parte do dia então foi dedicada ao corte da lenha, sendo difícil de encontrar árvores que não estivessem tão verdes, e então ao preparo da pira.
Tony e Natasha montaram a estrutura de madeira a ser queimada, enquanto Peter acendia o fogo.
Em um último momento de despedida, a princesa decidiu preparar o corpo do Barton sozinha, limpando-o do sangue e então o enrolando no tecido de uma das tendas. Com a ajuda de Tony, eles deitaram o corpo sobre a pira e o embeberam em aguardente que encontraram entre as coisas dos bandidos, para então, por fim, acenderem o fogo. [1].
Já era fim de tarde, e a escuridão ia tomando seu lugar no céu, mas ali as chamas altas que envolviam o cadáver de Clint iluminavam tudo ao redor.
Parados lado a lado, os três observaram em silêncio o fogo consumir a madeira e a carne sem vida, despedindo-se de seu companheiro.
― Se quiser ― começou Stark, para a princesa ―, eu posso dizer algumas palavras.
Natasha concordou suavemente com a cabeça, então o homem pensou por um momento, antes de voltar a falar.
― Bem, eu não conhecia Clint Barton muito bem ― disse Tony, olhando para as chamas. ― Tivemos nossas diferenças no começo, mas então ele se mostrou um bom homem. Um homem decente, sem medo de se sacrificar por aquilo que julgou valer a pena ― Parou por um momento, antes de continuar: ― Mesmo não sendo exatamente amigos, sempre irei me lembrar dele, do que foi e do que representou. Você fará falta ― concluiu. ― Descanse em paz.
― Me lembro de quando nos conhecemos ― começou Natasha, em um tom embargado de quem lutava contra as lágrimas. ― Você foi meu primeiro amigo num reino estranho. Estava sempre comigo durante meus treinos, tornando-os divertidos até ― riu pequeno depois de dar uma fungada. ― Tentou me ensinar a usar o arco, mas ao menos nisso eu era um desastre, como você dizia. Mesmo que estivesse sendo pago para me ensinar a me defender, nunca senti que fosse um professor. Sempre foi o Clint, meu amigo e confidente ― respirou fundo e piscou, deixando algumas lágrimas rolarem de seus olhos, embaçando sua visão. ― Vou sentir sua falta.
― Ele tinha família? ― Perguntou Tony, em tom brando.
Natasha assentiu, secando o rosto molhado com a manga do casaco.
― Uma esposa e três filhos ― então balançou a cabeça, olhando para o céu escuro. ― Não sei nem como vou contar a eles o que aconteceu.
Vendo aquele corpo queimar, Peter silenciosamente contemplava o quanto a existência era frágil e podia esvair-se a qualquer momento. E que o mesmo chegou realmente perto de acontecer consigo na noite anterior, e contemplando agora a ideia, era realmente assustador. Poderia ser ele ali, fazendo companhia a Clint na pira.
Assustou-se quando sentiu algo tocar sua mão, tirando-o de seus pensamentos, então olhou para baixo, notando que era mão de Stark a fazer contato com a sua, timidamente encostando-se até finalmente a pegar de vez, entrelaçando seus dedos.
O garoto sentiu seu rosto quente, não tendo nenhuma ligação com o fogo que queimava intenso a sua frente. Olhou com o canto dos olhos para Tony, que olhava para si com um semblante terno.
― Vamos deixá-la sozinha um pouco ― o Stark murmurou rente a orelha de Peter. ― Ela precisa de um tempo.
O garoto concordou, então se deixou ser puxado até um pouco mais longe. Tony o ajudou a se sentar sobre um tronco caído, então ambos permaneceram em silêncio próximos a tenda que sobrara. A mão de Tony não tardou em procurar a sua, enlaçando seus dedos e fazendo um carinho suave com o polegar.
― Precisamos falar sobre ontem ― o homem começou, suavemente, olhando para o nada.
― Não precisamos, se o senhor não quiser ― Peter murmurou, sentindo seu interior se inquietar em ansiedade do que viria. ― Está tudo bem.
― Eu quero ― disse firme, mas então suavizou o tom. ― Ontem eu quase morri. E você quase morreu. E eu não sei o que vamos enfrentar até chegarmos ao reino, nem o que farão com a gente quando souberem o que aconteceu. Então eu preciso te falar isso.
Tony parou por um instante, enquanto Peter sentia seu coração batendo forte como se fosse saltar de seu peito ou subir até sair por sua boca. Ele respirou fundo e esperou em silêncio para ouvir o que o homem o queria dizer.
― Eu sei que você é um garoto com só dezoito anos, e isso é um tanto assustador para mim ― continuou, ainda sem olhar diretamente para o garoto ao seu lado. ― E também sei que depois que tudo acabar, você irá embora para longe, mas não posso deixá-lo partir assim, sem ao menos dizer como eu me sinto.
Nesse ponto Peter já tinha certeza de que seu coração queria saltar para fora de seu peito, e mesmo que não houvesse comido muito naquele dia, seu estômago se revoltava em uma estranha sensação. Suas mãos tremiam e suavam, e ele torcia com todas as forças para que Tony não sentisse isso contra a sua palma.
― Eu gosto de você ― concluiu, enfim. ― Muito. Mais do que um homem deviria gostar de outro. Mais do que alguém deveria sentir por alguém tão mais novo. Mas eu não pude evitar.
― Senhor Stark... ― Peter murmurou, mais como um sussurro em meio a um suspiro.
― Não precisa dizer nada se não quiser ― Tony completou rapidamente, finalmente olhando nos olhos do Parker.
― E-eu também... ― Peter respirou fundo, reunindo um tanto de coragem. ― Eu... Eu também gosto de você.
Stark piscou algumas vezes olhando para aquele rosto impossivelmente vermelho, então sorriu pequeno, feliz por ter seus sentimentos recíprocos.
Levou gentilmente a mão livre ao rosto de Peter, fazendo um carinho leve com o polegar no local, antes de se inclinar e diminuir lentamente a distância entre seus lábios.
Os dois se beijaram calmamente, experimentando a sensação de serem amados de volta, saboreando ao máximo a ternura e conforto que o beijo lhes dava, sendo um bálsamo após tudo o que vivenciaram ao longo do dia e da véspera.
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