O 18º dia de viagem passou do mesmo modo que amanheceu: em meio a uma paz tensa. O dia seguinte e seu sucessor foram tal qual seu antecessor.

Os viajantes se mantinham tão cautelosos quanto possível, atentos a tudo o que pudesse ser suspeito à sua volta. Entretanto tais medidas mostraram-se desnecessárias, tendo em vista que todo o perigo que tiveram contato foram os animais venenosos ou peçonhentos habituais, sem sinal ou rastro de qualquer outro ser humano, a pé ou montado.

Além de todos irem gradualmente se acostumando a calmaria, o que mais estava se tornando rotineiro para Peter era a proximidade com Stark.

A aproximação forçada ia aos poucos desinibindo o garoto de seu acanhamento inicial. Estar próximo ao homem há dias causava sensações estranhas em si, as quais, depois do episódio do quase beijo, ele percebera se tratar de sintomas de uma espécie de extrema afeição, a qual não deveria nem ser dirigida a outro homem, quem dirá a seu colega de missão. E a cada frio na barriga, descompasso do coração, gaguejar e embaraço, Peter ia se sentindo mais culpado e envergonhado.

Entretanto, estando a viajar colado ao alvo de suas perturbações durante a maior parte do dia, as sensações constantes a cada ato ou palavra deste sopradas perto de seus ouvidos, iam se tornando corriqueiras. Não estranhava mais o ato de ter Tony se acomodando com os quadris junto ao seus ao montar no cavalo, nem de seus braços presentes nos lados de sua cintura para alcançar as rédeas, e sequer se incomodava ao ter a voz rouca a ecoar ao pé de seus ouvidos quando conversavam; o roçar de corpos e seu calor enquanto balançavam ao trote da montaria pela floresta se tornava tão familiar que Peter muitas vezes se pegava sentindo sua falta ao pararem para acampar.

A reação era imediata: assim que saltava do lombo do cavalo ao fim do dia, o ar frio a bater em suas costas quentes chegava a ser incômodo, tal como o estranhamento que a falta da presença de Tony às suas costas trazia. Ele se encontrava cada vez mais nesse tipo de situação, e a cada vez demorava mais para perceber e censurar tais vontades e sensações.

Porém, tal proximidade não era de todo ruim. Se acostumar com ela serviu para amenizar as reações mais vergonhosas, tal como a falta de jeito e a vergonha em estar sozinho com o homem, tendo suas conversas e interações mais fluidas, sem precisar inventar desculpas para se afastar.

Tony, por sua vez, tinha sentimentos contraditórios em si. Por um lado estava gostando mais do que devia de dividir a sela com o garoto, ter ele entre seus braços e recostado ao seu corpo fazia seu coração palpitar, porém na mesma medida sentia-se culpado por, de certa forma, se aproveitar da situação. Peter era um garoto tímido e inocente, enquanto que ele próprio era um homem adulto que deveria ser mais responsável.

Depois que quase cometeu o erro atroz que seria beijar o garoto tendo seus companheiros como plateia, Tony havia caído em si e repensado sobre suas atitudes. Sentia-se sujo por desejar o garoto, por querer a afeição de um jovem homenzinho que em breve formaria-se como padre, que iria embora para outro reino, de volta ao seio da família, deixando-o ali, imoral e sozinho, refletindo sobre o desejo de macular ou não aquela inocência adorável.

Foi tendo pensado longamente sobre isso que ele tomou a decisão de se afastar. Afastar os pensamentos e desejos, a compulsão de estar próximo e desfrutar da presença doce do garoto, mas a grande questão era como evitar uma das três únicas pessoas que veria durante tantos dias?

Ele até tentara, tendo como principal motivador a clara recusa de Peter de três dias atrás, quando ele claramente o evitava com desculpas esfarrapadas, mas ao tê-lo viajando junto a si todas as suas motivações caíram por terra. Já não lhe importava o que ele era, o que seria, ou o que fosse, se irremediavelmente teriam de se afastar para, muito provavelmente, nunca mais se ver ao fim da missão, aproveitaria o tempo que lhe restava para ficar junto, se fazer presente.

Mas claro que ele estabelecera seus limites. Não forçaria uma aproximação com Peter, pois temia que isso o afastasse novamente, então deixava as coisas fluírem naturalmente, como quando iniciaram a jornada, onde eram somente colegas de missão convivendo juntos.

No momento o grupo havia acabado de parar para montar acampamento. O sol já estava baixo no céu, Clint e Natasha conversavam amigavelmente enquanto cuidavam dos cavalos e começavam o fogo em seguida. A busca por lenha ficara a cargo de Peter e Tony, que se embrenhavam por entre as árvores, juntando galhos secos para alimentar e manter o fogo.

— Ei senhor Stark — começou Peter, enquanto recebia mais um feixe de lenha do outro. — Como o senhor aprendeu o caminho pela floresta?

Tony parou por um momento, pensando na pergunta repentina, então respondeu:

— Com a minha mãe — disse e pensou mais um pouco, recordando-se do passado. — Ela era a curandeira da vila, eu já te contei, e constantemente precisava de ervas e afins, tinha algumas que só cresciam por aqui na floresta, então ela precisava viajar, e me trazia junto.

— Ah — murmurou o garoto. — E não era perigoso vocês andando por aí sozinhos?

— Isso já faz muitos anos, quando a situação entre os reinos era mais tranquila. Não havia muito perigo por aqui além dos bichos — esclareceu, recolhendo mais alguns gravetos antes de os passar para Peter. — Isso quando eu era criança. Mas aí meus pais morreram e eu continuei o negócio da ferraria do meu pai. Não venho muito pra cá ultimamente, mas ainda me lembro bem dos caminhos.

Eles caminharam mais um pouco em um silêncio confortável. Eram só os dois, apreciando a leveza do momento na companhia do outro, respeitando seus espaços ao mesmo tempo em que inconscientemente se mantinham perto. E Tony apreciava esses momentos.

— Deve ser legal crescer aprendendo coisas legais assim com os pais — murmurou baixinho Peter, fazendo com que Tony não ouvisse nada mais que um sussurro.

Tony estava prestes a abrir a boca para perguntar ao garoto o que ele havia dito, quando subitamente parou e olhou para frente, colocando uma mão no peito de Peter que vinha atrás, e fazendo sinal para que ficasse em silêncio.

O garoto então olhou para a direção que olhava Tony, tentando ver o que o fez entrar em alerta, avistando nada mais que o mato alto em uma pequena clareira entre as árvores. Já abria a boca para questionar quando Tony sinalizou para que ficasse em silêncio no lugar, apontando discretamente para a borda da clareira, onde finalmente viu o capim alto chacoalhar levemente antes de uma pequena cabeça animal se erguer acima dele, revelando uma corça, ou um cervo ainda não adulto, era difícil dizer a distância, que movia as orelhas e olhava em volta, desconfiado.

Tony não perdeu a oportunidade: com movimentos comedidos, ele pegou seu arco, pescando da aljava um flecha, a posicionando e mirando, sem piscar nenhuma vez, sempre mantendo contato visual e lendo os movimentos do bicho, que voltara a pastar o capim, então esperou com a arma a postos o animal levantar outra vez a cabeça, para então soltar a corda do arco, deixando a flecha voar certeira e ligeira, atingindo direto no olho do alvo, não dando a ele chance alguma.

— Uau, isso foi muito legal senhor Stark — deixou escapar Peter, antes que percebesse.

— O quê? — Perguntou Stark, andando em direção à sua caça. — Matar o bicho?

— Sim, quer dizer, não. Matar não exatamente, mas acertar tão certinho de longe — falou enquanto seguia o homem. — Deve ser difícil. Já é difícil com o meu punhal, de arco e flecha deve ser mais ainda.

Tony ponderou por um momento. A arquearia já lhe era natural depois de tanto tempo, e nunca realmente parou para pensar nisso como algo "legal" ou mesmo "muito difícil". Achou graça então, na reação do mais novo.

— Eu posso te ensinar, se quiser — ofereceu.

— Sério senhor Stark? — Exclamou animado. — Eu quero sim!

O Stark não se considerava o melhor tutor do mundo. Sequer achava que suas habilidades de ensino fossem boas, mas aquele garoto demonstrar tanto entusiasmo em aprender as coisas que tentava ensinar lhe dava vontade de transmitir suas técnicas e conhecimentos.

— Mas primeiro vamos levar essa corça pro jantar — falou pegando o bicho nos braços, logo fazendo o caminho de volta com Peter em seu encalço.

Ao chegarem no local onde o pequeno fogo já ardia, os cavalos pastavam e Natasha e Clint conversavam, Tony largou o animal morto no chão, atraindo a atenção dos dois.

— Carne fresca para uns dois ou três dias — Tony falou orgulhoso. — Eu já cacei, agora um de vocês que limpe.

— Não quer que a princesa faça o serviço pesado, quer? — Começou o Barton, sem se conter.

— Não estava falando com ela — retrucou Tony, dirigindo um olhar ferino a ele.

— Quer que eu limpe, senhor Stark? — Ofereceu-se Peter, notando a animosidade entre os homens.

— Não — falou. — Deixe o folgado aí trabalhar um pouco. Você não queria aprender arco e flecha?

— E eu quero!

— Então vamos que eu vou ensinar agora.

Então Tony se afastou sem um segundo olhar ao homem que se levantava para pegar a corça morta, indo para um pequeno amontoado de árvores, riscando em uma delas com uma faca um alvo. Voltou-se então para Peter, que o esperava ansioso.

— Vou mostrar a postura uma vez, preste atenção — disse.

Pegou das costas uma flecha com a mão direita, já tendo na esquerda o arco, então se posicionou e pôs a flecha em posição também, estendendo a corda até onde dava, para então a soltar e acertar o alvo diretamente no centro. Peter deixou escapar uma exclamação, animado em tentar por si mesmo.

— Agora você — Tony falou, estendendo o arco para o garoto. — Fique aqui, não tão longe pra não acabar perdendo minhas flechas no mato.

Peter pegou hesitante o belo arco de madeira, reparando em alguns detalhes entalhados nas extremidades, na corda firmemente presa às pontas e em seu peso em suas mãos. Pegou também a flecha oferecida pelo homem, e com as instruções deste, posicionou-a no arco.

— Agora fique assim — falou o Stark, posicionado o garoto meio de lado em relação ao alvo. — Você vai puxar a corda com três dedos, junto com a flecha — instruiu.

Peter fez como mandado, esticando com dificuldade a corda, sentindo sua resistência.

— Não, a força não está no braço! — Tony ralhou, ao ver o garoto meio trêmulo. — Use os músculos das costas e ombro. Levante esse cotovelo!

E a medida que ia instruindo, Tony ia o posicionando, mostrando com as mãos onde o Parker deveria impor a força, corrigindo sua postura e mostrando a que altura elevar o braço.

— Afaste um pouco os pés — ditou. — Agora puxe mais a corda, até ela alcançar a bochecha. Certo, agora mire bem a ponta da flecha no alvo.

— A-assim, senhor Stark? — Peter perguntou um tanto trêmulo, tentando se manter imóvel esperando estar na posição correta.

— Tá ótimo. Agora solte a corda dos dedos, mas tente não mover a mão.

E Peter soltou. A flecha voou, porém passou longe do alvo, indo fixar-se duas árvores de distância do esperado.

— Bem — começou Tony. — Não foi tão ruim. É só ir treinando mais um pouco.

E Peter treinou. Repetiu e repetiu o ensinado, até seus músculos começarem a doer, mas só parou quando já não era capaz de enxergar o alvo em meio a escuridão noturna, então deu-se por vencido e devolveu a Stark seu arco e sua flecha – a terceira, pois perdera em meio às árvores duas delas.

— Você foi bem. Ainda me lembro de quando eu comecei...

E a frase surpreendeu Peter. Não porque nela havia um elogio, mas porque havia vindo de Clint. Aquele que só abria a boca para discutir e soltar comentários maldosos.

— Hm, obrigado, senhor Barton — agradeceu o garoto, sem realmente saber o que dizer.

Peter então, um pouco sem jeito, foi se sentar próximo ao fogo que assava um generoso pedaço de carne, para logo em seguida jantar junto aos outros. Carne fresca era muito bem-vinda durante uma viagem longa como aquela, pois tal alimento estragava fácil e caça nunca era algo garantido.

Na hora de ir dormir, Peter estendeu sua capa e puxou seu cobertor, sentindo seus músculos cansados protestarem enquanto se sentava, principalmente os do ombro direito, onde forçou demais, muito além de seu costume, resultando em uma dor incômoda, o preço da dedicação.

— Está tudo bem? — Tony perguntou, também se acomodando para dormir, vendo o jovem mover o ombro fazendo uma careta no processo.

— Acho que exagerei na força aqui — murmurou, massageando o local dolorido.

— Não precisava exigir tanto de você hoje — falou se levantando.

Peter o observou ficar de pé, e um tanto confuso viu o homem se aproximar, até estar ajoelhado às suas costas.

— Onde dói? — Perguntou.

Franzindo o cenho em confusão, Peter apontou a parte de trás de seu ombro dolorido.

Não sabia o que o homem pretendia, então o sobressalto foi inevitável quando sentiu uma das mãos de Tony tocar o local indicado. Seu corpo tencionou-se involuntariamente, mas assim que o homem começou a apertar e massagear nos lugares certos, Peter relaxou, sentindo um pouco da dor ir embora.

— Isso é muito bom, senhor Stark — praticamente ronronou, fechando seus olhos e inclinado a cabeça para o lado, dando mais espaço para as palmas do mais velho agir.

Tony sabia alguma coisa sobre relaxar músculos tencionados e lesionados, pois aprendera muita coisa com a mãe, e usar seus conhecimentos em Peter estava se saindo bastante gratificante em sua opinião.

A intenção inicial, é claro, não havia sido se aproveitar do garoto, de jeito nenhum, apenas queria ajudar com a dor, mas ouvir seus murmúrios e sons de aprovação, juntamente com sentir seu corpo amolecer sob seu toque era deveras interessante.

Perdidos em seu próprio mundo, os dois sequer perceberam a atenção que estavam recebendo do par de espectadores, que assistiam a cena com graus diferentes de conclusões acerca da interação tão atípica.

Mas se Tony tivesse reparado que recebia tanta atenção, daria graças a quaisquer divindades pelo escuro noturno da floresta ocultar de olhos alheios a vergonhosa reação de seu próprio corpo aos prazerosos murmúrios de apreciação do mais novo. Não que ele se orgulhasse disso, é claro.