Along The Way
4 Capítulo III
Notas iniciais
Prendendo a respiração Tony se esgueirou por trás da árvore, oculto também por uma grande moita frondosa, e com cuidado pegou uma flecha da aljava que levava nas costas, a posicionando no arco em sua mão. Lentamente puxou a corda junto a flecha, a esticando o máximo possível para logo então a soltar, vendo a delicada peça de madeira que ele mesmo confeccionara atingir ligeira e precisamente seu alvo, não dando chance alguma ao pequeno animal ao atravessá-lo no pescoço.
Com um sorriso modesto e satisfeito, Tony saiu detrás da folhagem e andou até a lebre já morta, a recolhendo do chão. Pegou também os gravetos e a lenha que fora buscar, para enfim retornar ao acampamento.
Se aproximando do local, pôde ouvir o som de algo que parecia ser de um impacto de alguma coisa contra madeira, seguido do farfalhar de passos ligeiros sobre o chão coberto de folhas secas. Apressou seu próprio passo a fim de averiguar o que se passava, encontrando um Peter se esticando nas pontas dos pés para alcançar seu punhal que estava fincado firmemente em uma árvore.
— Por que demorou tanto, senhor Stark? — Quis saber o garoto, já com sua pequena arma em mãos.
— Acabei me afastando um pouco ao perseguir essa lebre — explicou. — O que estava fazendo?
— Bem, eu gosto de arremessar o punhal, treinando minha pontaria, sabe? — Parecia um tanto envergonhado ao explicar. — Eu gosto de fazer isso às vezes…
Tony assentiu e olhou para a árvore, vendo alguns furos em lugares distintos, assim como nas outras árvores mais próximas, o que indicava que o garoto não era muito bom em sua pontaria, ou simplesmente não estava mirando em nada específico. Talvez os dois.
Deu de ombros e entregou a lebre morta ainda espetada pela flecha ao garoto, que a olhou com uma expressão de desagrado e interrogação.
— Esfole o bicho enquanto eu acendo o fogo — falou em explicação.
— Mas eu não sei como… quer dizer, eu nunca… — tentou se explicar, olhando do cadáver do animal para Tony que deixava os ombros caírem com um suspiro.
— É só cortar um anel em volta de cada pata e puxar a pele — indicou os locais. — Não é difícil. Depois é só cortar fora a cabeça. [1]
Dito isso o mais velho se virou, indo para um local mais limpo para fazer o fogo. Fez um pequeno círculo de pedras e reuniu alguns pequenos gravetos e folhas secas no centro, então pegou em seu bolso duas pedras menores, sendo uma de sílex e a outra uma pequena haste de ferro, pouco maior que a anterior, começado a chocar uma contra a outra, produzindo faíscas que algum tempo depois davam início a uma pequena chama. [2]
Enquanto isso Peter se sentava com sua lebre, pegando seu punhal e cortando onde Tony mostrara, e com uma careta de desagrado se pôs a puxar a pele, tentando ignorar o sangue que lhe manchava um pouco a roupa. Feito o serviço, o fogo já estava alto também, com a panela já posicionada acima, somente esperando a carne.
— Não vai fazer seus desenhos hoje? — Tony perguntou enquanto separava as patas e a cabeça do restante do corpo da lebre, descartando também suas vísceras e a limpando, para então cortar o bicho em pedaços pequenos e os colocar na panela com água já temperada.
— Já fiz — respondeu Peter, cutucando o fogo despreocupadamente com um graveto. — Fiz enquanto o senhor se entretia com o coelho.
— Era uma lebre.
— E qual a diferença?
— Lebres são maiores — explicou. — E mais orelhudas.
Deixaram novamente o silêncio se instalar, cortado apenas pelo barulho dos animais e insetos na floresta e pelo crepitar do fogo.
Sem ter muito o que fazer e sem saber o que dizer, Peter pegou seu punhal, limpou o sangue da lebre na bainha de sua capa e se pôs em pé, caminhando para a frente de uma árvore. Calculou a distância em passos e segurou sua faca pela lâmina, mirando no centro do tronco antes de a arremessar.
Soltou um muxoxo quando errou o alvo, e deixando os ombros se curvar para baixo, ele caminhou até onde caíra o punhal, o recolheu do chão para então retornar a posição inicial. Repetiu o procedimento, sem se incomodar em estar sendo atentamente observado pelo Stark. Conseguiu acertar próximo ao alvo pelo menos três vezes antes do mais velho intervir.
— Você faz isso há muito tempo? — Perguntou, ainda sentado próximo ao fogo, como quem não quer nada.
— Mais ou menos — respondeu enquanto arremessava outra vez o punhal. — Droga — praguejou ao errar o alvo.
— Deixe o pulso reto quando soltar.
— O que?
— Quando soltar o punhal, deixe o pulso reto, vai ser mais fácil acertar o alvo — instruiu.
— Como assim? — Questionou, o cenho franzido e olhando para a arma em mãos.
Tony então deu uma última mexida no cozido e se levantou, caminhando até onde o garoto estava.
— Me dê ele aqui — indicou o punhal, estendendo a mão.
Peter o entregou, e observou Tony o analisar, equilibrando o punhal com o dedo, para então o segurar pelo cabo e o arremessar contra a árvore, acertando exatamente no centro dela.
— Segure pelo cabo — falou, enquanto buscava a faca. — Como ele possui dois gumes, e é bem balanceado, é melhor pegar pelo cabo quando for o atirar, agora que está bem afiado é melhor para prevenir cortes — explicou, devolvendo o punhal a Peter. — Agora tente você.
Pegando pelo cabo dessa vez, Peter o segurou, estranhando um pouco no começo, pois o receio em se cortar era menor e a arma escapava de sua mão com mais fluidez, mas mesmo assim passando longe do alvo.
— Não, garoto, você solta o punhal cedo demais — falou, sua voz denotando alguma impaciência. — Solte quando o pulso estiver reto!
— Assim? — Atirou a pequena arma mais uma vez.
— Não!
Então, um tanto impaciente, Tony se posicionou por trás do garoto, mas meio ao seu lado, e pegou sua mão, a forçando a abrir o punho, e posicionando o punhal do modo correto, então o fez fechar os dedos entorno dele. Pegou em seu pulso fechado e simulou o movimento que deveria ser feito, dobrando ligeiramente o pulso para trás e indicando com deveria ser atirada a arma.
Peter inconscientemente prendeu a respiração com a aproximação do outro, e se deixou posicionar como ele indicava, colocando seus pés de maneira estratégia e depositando seu peso na perna direita, ajustando sua postura.
— Mantenha a pegada firme — falou baixo, ainda segurando o garoto pelo pulso —, porém delicada. Não precisa forçar, e quando o pulso estiver nessa posição — indicou, deixando o pulso do garoto reto —, você solta, não joga, simplesmente deixe o cabo deslizar da mão. [3]
Dito isso, o Stark simplesmente se afastou, e Peter se sentiu meio desconcertado com o fim repentino da proximidade, mas logo recuperou-se, e experimentou fazer como indicado.
Posicionou os pés, e segurou o punhal, visualizou bem o alvo e fez o movimento com o punho, tentando o realizar o mais exatamente possível como o Stark lhe ensinou, e isso realmente deu resultado, pois a arma fincou bastante próxima do ponto planejado.
Com um pequeno sorriso orgulhoso ele se voltou para Tony, que já estava sentado junto ao fogo novamente.
— Só precisa de algum treino — o mais velho falou simplesmente.
Peter então voltou a treinar, e fez isso até que se tornou difícil enxergar a árvore em meio ao escuro da noite, então embainhou seu punhal e se sentou junto ao Stark para que enfim ceassem a lebre antes de deitarem para dormir.
— Senhor Stark — Peter chamou.
Ambos já estavam deitados sobre suas capas no chão aos pés de uma árvore, o clima quente e um tanto abafado dispensava o uso de cobertor. Tony tentava dormir, e estava quase conseguindo, porém Peter, bastante acordado enquanto observava as estrelas no céu, parecia não compartilhar de sua ideia.
— O que é? — Perguntou, ainda de olhos fechados e meio relutante em incentivar o diálogo.
— Quantos dias vai levar para chegarmos a Zahod? [4]
— Por quê? Já está com saudade de casa? — Caçoou.
— Não, estou somente curioso — deu de ombros, depois lembrou-se que o Stark não poderia ver o gesto, já que estavam em meio ao breu noturno.
— Uns quinze dias, talvez mais, talvez menos — murmurou. — Agora me deixe dormir.
— E o que tem de tão perigoso nessa floresta? — Tornou a perguntar. — Sabe, estive pensando sobre isso, e não entendo porquê ninguém mapeou o caminho ainda, ele não me pareceu complicado até agora.
Tony bufou alto e pensou em ignorar a pergunta do garoto, mas algo lhe dizia que o menor não sossegaria se não fosse respondido.
— Geralmente não é muito perigoso aqui — respondeu, um tanto a contra gosto. — O maior perigo é se perder. Talvez os animais, também. Mas agora, por causa da guerra, e toda essa inimizade entre os reinos, não é difícil encontrar rebeldes ou ladrões por entre a floresta. E também, quem escolheria se arriscar assim quando se tem uma estrada boa e segura contornando todo o perigo?
— Então por que não fomos por essa estrada?
— Porque levaria pelo menos uns dez dias a mais para ir e mais dez para voltar, e não temos tempo a perder — explicou. — O quanto antes a princesa casar com o príncipe de Haravum, melhor, pois mais cedo evitaremos uma guerra. [5]
— E por que estamos em guerra?
— Garoto você fala demais — exclamou, irritado. — Você vive no castelo e não sabe? É por todo aquele negócio de tomar terras, conquistar territórios, e essas coisas. Não me envolvo muito na política, mas pelo que parece, unir as famílias que governam os reinos é um meio de evitar toda essa briga.
— Ah entendi — murmurou. — Mas e se-
— Chega! — Disse mais alto dessa vez. — Pergunta amanhã, eu preciso dormir.
— Desculpa, senhor Stark.
— Shiiii.
Se virando de lado, Tony acomodou sua cabeça sobre o braço e fechou os olhos, tentando conter sua irritação e retomar o sono, enquanto Peter continuou a olhar as estrelas.
O garoto acabou por pegar no sono enquanto tentava contar os milhares pontinhos que iluminava o céu, e em pouco tempo estava em meio a um sono pesado e sem sonhos.
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