Peter contorcia os dedos em apreensão, e mordiscava os lábios na tentativa de descontar um pouco da frustração que sentia por não saber o que estava acontecendo.

O sol já ia alto no céu e o Stark ainda não havia retornado de seu turno de vigia ao acampamento inimigo. A possibilidade de ele ter sido capturado e morto eram altíssimas, mas o garoto contava com a experiência do homem em ser furtivo e no combate, caso fosse necessário. Porém nada aliviaria a tensão do não saber, de não ter certeza de qual era sua situação no momento.

― Abrir um buraco no chão andado de um lado ao outro não vai ajudar em nada ― Clint comentou, nervoso com o nervosismo do garoto. ― Daqui a pouco ele estará aqui.

― Mas e se não voltar? ― Questionou, tornando a andar ainda mais rápido. ― E se ele foi descoberto?

Naquele momento Peter sentiu seu coração falhar no peito ao ouvir o farfalhar de passos se aproximando. Levou uma das mãos ao cabo de sua espada e a outra ao punhal, pondo-se alerta, pronto para atacar.

Relaxou somente ao avistar a figura conhecida de Tony andando na direção deles com um sorrisinho presunçoso no rosto. Peter não baixou somente sua guarda, mas seu peito também se encontrava mais leve ao ver que o homem estava visivelmente bem.

― É bom saber que ao menos alguém aqui se preocupa comigo ― Tony comentou risonho. ― Eles estão em 5 vigias e mais um sobrando para a mudança de turnos ― começou enquanto se abaixava, pegando um graveto do chão. ― Tem duas tendas, uma maior, de onde os vigias entram e saem entre turnos, e uma menor, onde a movimentação é quase inexistente.

A medida em que ia explicando, Tony riscava no chão a localização dos homens e tendas, traçando seus movimentos padronizados de vigilância.

― Não dá para ter certeza de qual das tendas a princesa está ― continuou ―, nem se está realmente ali. Mas eu arriscaria dizer que está na menor. Ela é vigiada pelos fundos e periodicamente um homem vigia a entrada, nunca deixando o lugar em si ― concluiu, olhando para os outros. ― Torçamos que este seja o lugar certo.

― Se é assim como fala ― Clint começou ―, então não será difícil o ataque.

― Mas não temos o principal, que seria o fator surpresa ― Tony adicionou com seriedade. ― Tenho certeza de que eles esperam nossa chegada. Os guardas estão armados, mas não acho que sejam muito experientes, pois há somente três arqueiros. O restante só vi trajando espadas comuns.

― Não devemos subestimar o inimigo ― disse Clint. ― Mas daremos conta de meia dúzia de bastardos.

Peter se manteve em silêncio, olhando para a disposição do acampamento inimigo traçado no chão, pensando em como eles fariam para obter vantagem sobre homens que além de estarem em maior número, também os esperavam.

― Eu sei ― respondeu Tony. ― Não chegaremos de qualquer jeito, precisamos traçar um plano de ataque.

Sendo esta a decisão mais coerente para o momento, os três posicionaram-se entorno do desenho de Stark, memorizando a disposição daquilo que teriam de enfrentar mais tarde.

― Devemos atacar ao mesmo tempo ― Tony falou, indicando os X que marcavam os postos dos vigias no chão. ― Eu dou a volta e ataco por aqui ― mostrou, apontando para um X solitário na extremidade norte do acampamento, ― enquanto você, Barton, ataca pela frente.

― E eu, senhor Stark? ― Peter perguntou timidamente. Podia estar tremendo em seus joelhos de medo, entretanto isso não seria suficiente para impedir sua vontade de ajudar. ― O que eu faço?

― Você, depois que eu cuidar do guarda dos fundos das tendas, irá procurar pela princesa.

O garoto assentiu e voltou a observar em silêncio as instruções desenhadas do homem.

― Não podemos chamar atenção, mas isso é inevitável em uma acampamento pequeno como aquele ― Tony avisou. ― Portanto devemos começar eliminando os três arqueiros, pegando-os de surpresa antes que eles o façam. Depois partimos para os outros. Não são muitos, daremos conta, eu espero.

― Podemos acabar com alguns a distância ― Clint se pronunciou. ― Somos ambos arqueiros, acertamos de longe e o risco é menor.

― Não podemos contar somente com isso, as árvores dificultam a mira a distância, portanto em algum momento seremos obrigados a nos aproximar ― Tony pontuou, circulando seu desenho. ― É uma clareira não muito grande, não temos um raio de tiro muito bom. E também temos que garantir que Peter chegue à princesa sem problemas, proteger sua retaguarda é minha prioridade.

Peter engoliu em seco. Estaria em meio a um combate real não muito tempo depois do anoitecer daquele mesmo dia. Um combate que ele não poderia contar com a sorte, um que fora previamente planejado, aparentemente, não só por eles. Dessa vez seria obrigado a se envolver, tendo coisas demais em risco. Não poderia hesitar, nem dar espaço para o medo ou ideologias pessoais. Seus amigos poderiam morrer. Tony poderia morrer. Ele mesmo poderia morrer. E isso tudo era assustador demais para si.

― Ajam com cuidado ― continuou Tony. ― Não hesitem em dar cabo de algumas vidas ― falou firme, focando seus olhos em Peter por um momento. ― E o mais importante: mão morram.

Peter olhou para o chão ao mesmo tempo em que suas entranhas se contorciam em ansiedade e temor. Concordou timidamente com a cabeça, mesmo sabendo que aquilo não fora uma ordem ou instrução, mas sim um desejo do Stark em assegurar a segurança de todos, como ele mesmo o havia prometido na noite anterior.

Com a tarde se aproximando, as barrigas roncavam com a necessidade de alimento, dando ao grupo a deixa mais que necessária de uma parada, um pequeno tempo dedicado unicamente ao almoço, deixando as várias preocupações de lado.

Obviamente este tempo não duraria muito, obrigando Clint a abandonar os companheiros para assumir seu posto de espionagem às ações inimigas.

― Agora tudo o que nos resta é esperar até anoitecer ― Tony murmurou assim que o Barton sumiu entre as árvores. ― Talvez eu deva afiar as espadas.

Peter assentiu, e assistiu, de seu lugar sentado ao lado do fogo que lentamente se apagava, Tony se levantar e ir buscar em suas coisas sua pedra de amolar, voltando a se sentar no tronco caído onde antes estivera.

Pacientemente, tentando ocupar seu nervosismo com a tarefa, Tony afiou cada pedacinho de toda e qualquer arma que tivesse, assim como as de Peter e as que encontrara nas coisas de Natasha – que não eram poucas.

Clint retornou ao acampamento junto com os últimos raios de sol que se extinguiam no horizonte, anunciando que o momento de agir se aproximava.

― A movimentação deles não foi muito diferente do que Stark mencionou pela manhã ― Clint relatou ao chegar. ― Entretanto ninguém entrou ou saiu da tenda menor, na outra somente os vigias frequentaram.

― Acho melhor irmos nos preparando ― Tony disse com seriedade. ― Conte suas flechas, Barton, irá precisar delas.

Os joelhos de Peter tremiam em nervosismo, mas ele bravamente tentava não se levar por isso. Tinham um plano, e sua parte nele era relativamente simples, não? Como poderia dar errado?

A escuridão já tomava seu lugar na floresta, e os insetos noturnos iniciavam seus sons e movimentos. Enquanto isso Peter observava os dois homens tensos contarem suas flechas e apertarem os cintos de suas espadas; parado ali, sem saber o que fazer, tornando sua mente um vazio branco estando tão perto de seu ataque suicida.

― Você está bem, Peter? ― Tony perguntou em tom brando, se aproximando de onde o garoto estava parado, colocando então uma mão em seu ombro, chamando-lhe a atenção. ― Preciso que se concentre hoje. Não quero ser o pessimista aqui, mas qualquer distração hoje pode custar sua vida.

― Eu sei, senhor Stark...

― Tudo bem estar nervoso ― Tony baixou a voz, dando uma olhadela rápida na direção de Clint. ― Todos estamos.

Peter somente balançou a cabeça, desviando o olhar para o chão, evitando os olhos preocupados de Tony.

― Espere aqui ― disse o Stark, o soltando ―, você precisa de mais algumas armas.

Indo até onde deixara as facas que amolara mais cedo, Tony pegou um estojo de couro amarrado em um rolo, para então voltar para junto do garoto. Soltou a corda que o prendia e o deixou desenrolar, mostrando a variedade de facas, adagas e punhais que ele continha.

― Ainda bem que a princesa é uma garota prevenida ― falou, tirando um par de facas do estojo. ― Encontrei nas coisas dela. Espero que ela não se importe.

Tony parou por um instante e olhou analítico para Peter, antes de continuar:

― Tire a capa ― falou ―, ela pode limitar seus movimentos hoje.

Tendo feito como mandado, Peter assistiu sem ação enquanto o outro aproximava-se perigosamente de si, colocando uma mão em seu ombro e o virando de costas com certa facilidade. Soltou um som surpreso ao sentir Star prender a bainha de uma das facas por dentro do cós de sua calça, para então o virar de frente e fazer o mesmo com a outra.

Tony buscou mais um par de facas no estojo, repetindo o processo em seguida.

Peter prendeu a respiração quando o homem enfiou dois dedos entre o cinto de sua espada e sua cintura, dando um puxão firme, fazendo-o avançar um passo à frente, como reflexo por ter sido pego desprevenido.

― Oh ― exclamou o garoto, surpreso ao se chocar contra o corpo alheio.

― Seu cinto está frouxo ― Tony murmurou, levantando o olhar para o rosto de Peter, só então notando o rosado nas bochechas deste. ― Me deixe só apertá-lo.

Tony não queria abandonar seu olhar daquele rosto desconcertado, porém fora necessário. Não fora, entretanto, proposital trazer o menor para tão junto de si, sua intenção sempre fora a de testar seu cinto, a fim de que ele não deslizasse em qualquer momento que fosse crucial, mas Peter parecia tão alheio que tornou inevitável o passo que dera. O qual agora Tony se obrigava a afastar, tendo que afivelar devidamente seu cinto.

Os dedos firmes de Tony trabalhando em sua cintura lhe trazia uma sensação típica de embaraço, a qual já estava se habituando a associar ao homem. O toque, mesmo que sobre suas roupas, provocava arrepios em seu corpo, assim como a estranha sensação em sua barriga e o bater acelerado de seu coração.

Terminando de apertar o cinto, Tony deu um último puxão a fim de verificar a firmeza, para então levar seus olhos para os do outro novamente. Encontrou o que julgou ser incerteza no olhar alheio, e o conjunto de suas expressões evidenciava seu nervosismo.

― Vai tudo ficar bem ― prometeu para o garoto, colocando sua mão em seu ombro. ― Concentre-se no que temos que fazer, mas tente não pensar demais.

Peter assentiu timidamente, e respirou fundo olhando nos olhos castanhos do Stark, semiescondidos pelos cílios grossos no olhar baixo. A noite que avançava quase escondia suas expressões, mas Peter ainda podia ver preocupação ali, mesmo que o outro quisesse esconder.

― Eu não vou deixar que te aconteça nada essa noite ― segredou Tony, em voz baixa. ― Não seu eu puder evitar, nem que seja com a minha própria vida.

― Senhor Stark... ― sussurrou Peter, deixando que as palavras baixas saíssem sopradas por seus lábios, como um ofego. ― Não quero que morra.

― Eu também não.

Tony deixou um breve riso soprado escapar de seus lábios, sabendo que se sacrificar por aquele que depois de tantos anos despertara sentimentos em si, não seria nenhum sacrifício. O faria com prazer se necessário fosse.

Tony deixou sua palma apertar brevemente o ombro alheio, o sentindo tenso sob si, antes de a deslizar minimamente em um carinho inconsciente. Seu olhar então percorreu todo o rosto a sua frente, desde os cabelos bagunçados na testa, passando pelas sobrancelhas, indo para os olhos baixos e em fim a boca, rodeada por pele lisa que mal se via sinal de barba. Tony sentiu-se sujo por desejar aquela boca jovem, porém tal pensamento se foi mais rápido que veio, quando viu a língua de Peter umedecer os lábios lentamente, sem se dar conta de que seu gesto estava sendo inconscientemente copiado.

― Sem distrações... ― Tony sussurrou, ainda olhando aqueles lábios.

Na sua cabeça ainda reinava o pensamento de que podiam morrer todos naquela noite, porém naquele momento, a boca convidativa de Peter soprava para longe qualquer preocupação, como uma brisa suave de fim de tarde no verão.

Subiu lentamente seu olhar para o de Peter, e o que encontrou lhe deu mais certeza do que queria fazer, mesmo que no momento isso não tivesse lhe passado pela cabeça como um pensamento fixo, mas como algo impulsivo, pois Peter olhava para seus lábios com a mesma devoção com que era observado. Sem pensar realmente em nada, como se sua mente fosse um imenso espaço vazio dedicado ao desejo, Tony deixou sua mão deslizar lentamente até o pescoço do garoto, onde seus dedos encontraram os cabelos ralos da nuca alheia.

Dirigindo um último e rápido olhar aos olhos de Peter, Tony fechou os seus e se permitiu inclinar para frente, até finalmente realizar aquilo com que sonhava há dias. Tocou suavemente seus lábios nos de Peter, lhe dando espaço, entretanto, para se afastar, se assim desejasse.

Quando sentiu a boca de Tony encostar na sua, Peter só conseguiu arregalar os olhos, assustado, sem saber como reagir. Não tinha como sua mente estar lhe pregando peças, não ali quando o calor e toque alheios eram tão reais. Estava sendo beijado por Tony Stark, e não sabia o que fazer. Não se afastou, nem se mexeu, e só teve qualquer reação além do choque, quando, alguns instantes imóveis depois, sentiu a outra mão de Tony segurar a lateral de seu rosto e o puxar mais para perto.

Se permitiu então fechar os olhos, e corresponder ao beijo como podia.

Os lábios de Tony começaram a mover-se sobre os seus em uma carícia singela, enquanto Peter finalmente fechava os olhos e se rendia às sensações do momento. Tentou, timidamente, copiar os movimentos alheios, sentindo-se um tanto quanto perdido por jamais ter se encontrado em situação semelhante. Nunca havia beijado ninguém, tampouco sentido vontade de tal antes de conhecer o Stark e se ver apaixonado por ele, podendo enfim dar nome aos sentimentos e sensações conturbadas que lhe arrebatava toda vez que este estava por perto, pois, afinal, não havia muitas opções quando se morava em um seminário.

Decidido a tomar alguma atitude, porém sem saber realmente o que fazer com as mãos, Peter as levou a cintura de Tony, primeiramente só segurando o tecido de seu casaco entre os dedos, mas a medida em que se entregava ao beijo, as deixou espalmar por ali, segurando firme e o puxando para mais perto, colando seus corpos até o limite.

Tony não queria se afastar, poderia passar a noite toda beijando aqueles lábios tão convidativos, porém o ar sempre se fazia necessário, o obrigando a separar suas bocas com um profundo suspiro, dando breves selinhos em Peter, enquanto puxava o ar para seus pulmões.

Peter não queria abrir os olhos, a sensação dos pequenos beijos depositados em sua boca servia como bálsamo para acalmar seus lábios que pareciam formigar sentindo o fantasma do toque firme dos de Stark. A pele ao redor de sua boca estava sensível e arranhada pelo encontro com a barba áspera por fazer do outro, porém Peter queria mais daquilo. Mais dos lábios macios massageando os seu. Mais da mão firme em seu rosto. Mais da respiração ofegante que resultava do beijo intenso. E muito mais do contato quente do corpo alheio contra o seu, então apertou seus braços ao redor da cintura de Tony, e talvez pudesse sentir até mesmo os batimentos de seu coração em seus peitos colados.

Um pigarrear alto soando ao lado deles foi o que bastou para estourar a bolha de sensações que os cercava. Então, a contragosto, Peter e Tony soltaram-se, temerosos em abrir os olhos e serem obrigados a voltar ao mundo real.

― Temos uma princesa para salvar ― Clint começou, com um tom sério. ― E eu agradeceria se ambos se focassem nisso agora, pois logo precisaremos atacar.

― Eu sei o que precisamos fazer ― falou Tony dirigindo um olhar duro ao outro. ― E se tiver algum problema com isso fale agora.

― Não dou a mínima para o que vocês dois fazem ou deixam de fazer ― desdenhou, dando de ombros. ― Mas agora, como você mesmo disse, precisamos nos concentrar na tarefa principal.

― Certo ― rosnou Tony, dando um último olhar ao Barton. ― Melhor terminarmos de nos preparar.

Peter ainda estava com os pensamentos bastante perdidos. Seu corpo se encontrava um tanto dormente, e no momento não confiava em suas pernas para dar um passo sequer, mas se obrigou a voltar ao agora, onde em poucos instantes sairiam para talvez não mais voltar.

Despertou de seus pensamentos ao ouvir a voz preocupada de Tony lhe chamar, perguntando se estava tudo bem. E vendo o sorrisinho preocupado e estranhamente confortante no rosto do outro, Peter soube que não precisava se preocupar quanto ao beijo, pois Stark sentia o mesmo que si, seus sentimentos eram recíprocos.

― Sim, senhor Stark.

― Ótimo ― sorriu. ― Vamos então.

Estando escuro o suficiente para uma aproximação furtiva, os três se puseram a andar cautelosamente pela floresta, com destino ao acampamento inimigo, finalmente indo resgatar Natasha.

Caminharam em silêncio até avistar a clareira parcamente iluminada por uma fogueira diante das duas barracas, onde cada canto continha um homem armado vigiando as árvores atentamente. Recuaram então alguns passos, movendo-se para fora de seu possível campo de visão.

― Clint, você cuida desse lado aqui ― Tony começou, sussurrando. ― O garoto e eu daremos a volta, então espere um pouco antes de atacar, para que possamos agir sem muito alarde.

Com um aceno firme de cabeça, o Barton concordou, voltando a se aproximar do ponto de onde atacaria, se mantendo oculto pelo escuro e pelas árvores, já preparando uma flecha em seu arco.

Tony e Peter também avançaram, contornando o acampamento com o máximo de cuidado que puderam, até alcançar os fundos das tendas, onde um guarda solitário fazia a ronda.

Posicionando uma flecha em seu arco, Tony mirou no peito do desconhecido, antes de a soltar, dando assim início ao ataque. O homem caiu com um baque surdo no chão, sem poder fazer nada.

― Tenha cuidado ― Tony sussurrou à Peter, que assentiu. ― Agora vá.

Peter olhou para trás uma vez, a tempo de avistar Tony sumir entre as árvores novamente, antes de silenciosamente se aproximar da maior das tendas, tentando ignorar o homem morto caído perto de seus pés.

Clint aguardou um tempo que lhe pareceu infinito, ali no escuro com a flecha mirando constantemente o coração do vigia que fora incumbido de matar. Era um alvo fácil, tão distraído e imóvel que poderia acertá-lo até mesmo de olhos fechados. A espera era excruciante, então quando julgou ter dado tempo suficiente para Tony e Peter se posicionarem, soltou seus dedos e assistiu a flecha fazer seu rumo até o inimigo, matando-o sem esforço.

Infelizmente, o segundo vigia estava atento à movimentação, e antes que o Barton pudesse recarregar seu arco, ele corria em sua direção desembainhando uma espada, a segurando com as duas mãos.

Sem alternativa, Clint desembainhou a sua própria com uma mão, mantendo o arco na outra enquanto avançava de encontro ao homem.

― ELES ESTÃO AQUI! ― gritou o homem enquanto corria, pouco antes de atacar Clint com sua espada, sendo facilmente interceptado.

O inimigo não tinha muita prática no combate – se é que possuía alguma – Clint notou. Ele parecia nervoso enquanto atacava, sempre tentando empregar força demais segurando a espada curta com as duas mãos. Seus ataques eram vigorosos, entretanto inexperientes, tornando o contra-ataque do Barton bastante fácil.

Ele era insistente, para compensar, agarrando-se a vontade de vencer com unhas e dentes, sem se deixar abalar pelos diversos ferimentos que o adversário lhe infringia, contente por poder revidar vez ou outra, enchendo-se de esperança a cada corte, por menor que fosse, que abria em Clint.

Quando o homem, movido pela coragem, atacou por cima numa tentativa ousada de golpear o ombro alheio, acabou por deixar a guarda baixa na parte inferior do corpo, dando a deixa que Clint precisava para chutar sua perna, o derrubando facilmente no chão, enterrando, por fim, sua espada em seu peito sem hesitar.

Clint não se importou com a lâmina suja de sangue quando a retirou do corpo sem vida de seu oponente, somente a enfiou de qualquer jeito na bainha e correu para recuperar seu arco que fora esquecido no chão há alguns passos de distância. Curvou-se e rapidamente o pôs a postos, já posicionado uma nova flecha antes de virar-se para o meio da clareira, onde muito movimento se desenrolava enquanto estava alheio em sua própria batalha. Entretanto, antes que pudesse mirar em qualquer inimigo reconhecido, sentiu uma presença atrás de si, pouco antes de uma lâmina fria encostar em seu pescoço.

― É melhor não tentar nenhuma gracinha ― falou uma voz grossa em seu ouvido.

Pouco depois de deixar Peter em sua tarefa, Tony avançou rapidamente entre as árvores, sabendo que era questão de tempo, pouquíssimo tempo, antes de serem notados, portanto em seu percurso já posicionava mais uma flecha, para então a soltar assim que avistou seu novo alvo. Dois vigias cuidavam daquela extremidade do acampamento, estando bastante próximos um do outro e de onde Tony estava, não dando opções ao Stark senão escolher um dos dois para atacar ali.

Vendo que somente um deles portava um arco, o tomou como alvo, acertando-lhe uma flecha certeira, alertando seu companheiro por consequência. Tony até tentou dar cabo do segundo com uma flecha, mas tendo a mira curta com o imigo em movimento, tudo o que conseguiu foi atingi-lo num dos ombros, alto demais para ser fatal. Sem alternativas, Tony sacou sua espada e foi à luta, avançando de encontro ao outro até ter suas lâminas cruzadas.

Detido em um impasse de força bruta em ver qual dos dois cederia primeiro, Tony tentou acertar seu inimigo com um soco no estômago, infelizmente abrindo uma brecha no processo para que esse deslizasse sua espada até seu braço, abrindo um corte não muito profundo no local, mas que rapidamente ensopou sua manga de sangue.

Tony cerrou os dentes em dor e segurou com ambas as mãos sua espada, atacando lateralmente, conseguindo um corte de raspão no abdômen de seu oponente, que igualmente não tardou em sangrar.

Investindo novamente eles cruzaram suas espadas, movendo seus pés pelo chão de terra enquanto davam tudo de si, analisando os pontos fracos e investindo neles, abrindo cortes ardidos um no outro e criando contusões, até que aproveitando a oportunidade criada ao acertar um corte profundo na coxa do outro, Tony girou sua espada para cima e a baixou diagonalmente, abrindo um severo ferimento no punho direito de seu inimigo, o forçando a largar a espada.

O homem encarou o Stark, horrorizado e desarmado, segurando involuntariamente o pulso sangrento contra o peito, sabendo o destino que o aguardava.

Tony girou uma última vez sua espada em direção ao seu inimigo, acertando seu pescoço na horizontal, abrindo sua garganta e o que mais a lâmina alcançasse, o derrubando para trás enquanto gorgolejava se afogando em sangue nos instantes antes de finalmente ter sua vida esvaída completamente.

Peter olhou mais uma vez por sobre seus ombros e não viu mais sequer sinal de Tony entre as árvores, e em meio ao receio do que o aguardava dentro da primeira tenda que deveria revistar, decidiu que já protelara o bastante parado ali nos fundos dela. Havia ficado algum tempo tentando ouvir qualquer som que denunciasse ter alguém ali, mais como uma desculpa para seu nervosismo, que o impedia de avançar em sua tarefa, porém deveria cumprir o que fora incumbido de fazer. Tocou a beirada do tecido com uma mão, e sentiu seu coração quase saltar de seu peito ao ouvir um grito de uma voz desconhecida avisar que estavam sob ataque.

― ELES ESTÃO AQUI!

A voz tinha dito, e tudo depois disso que Peter pode ouvir foi a típica movimentação de duelos. Ouvia exclamações raivosas e o baque de espadas. Seu coração apertou-se no peito, sabendo que agora não teria como voltar atrás nem ficar ali paralisado pelo medo. Temia por seus companheiros, e sobretudo por Tony, mas precisava agir.

Puxou sua espada da bainha e, mesmo trêmulo, afastou o tecido da beirada da tenda, espiando seu interior rapidamente antes de entrar. O local estava um tanto bagunçado com roupas e camas malfeitas, porém, excetuando os objetos, estava vazia.

Soltando um suspiro aliviado, Peter dispensou mais um olhar demorado pelo local, então saiu pelo mesmo lugar por onde entrou, avançando cuidadosamente até a segunda e última tenda. Rezou silenciosamente para que Natasha estivesse ali, e estivesse bem. De preferência sozinha, acrescentou na prece.

Assim como na anterior, Peter afastou o tecido dos fundos da barraca e espiou, sentindo seu sangue gelar ao reconhecer a figura da princesa de joelhos no chão e as mãos presas para trás, com um homem de meia idade e expressão colérica a segurando pela trança enrolada em sua mão, tendo na outra uma adaga firmemente segura no pescoço da moça.

― Entre ― o homem rosnou, notando a presença de Peter. ― E vá largando essa espada aqui no chão.

Ameaçando apertar ainda mais a lâmina no pescoço da princesa, o homem fez com que Peter obedecesse sem questionar, adentrando o local com as mãos para cima, evidenciando estar desarmado.

― Solta ela ― Peter murmurou entredentes.

O homem riu e puxou o cabelo de Natasha para cima, a erguendo do chão, usando-a como um escudo para seu corpo.

― Sou eu quem dá as ordens aqui ― respondeu. ― Agora ande lá para fora, antes que eu corte esse pescocinho lindo aqui mesmo.

Natasha contorceu suas feições em puro nojo quando sentiu o homem passar o nariz por sua nuca, antes de ser obrigada a caminhar para fora da tenda seguindo Peter, que ainda mantinha as mãos levantadas em rendição.

Quando Peter finalmente saiu, tendo a certeza de que os outros dois o seguiam, deu uma boa olhada ao seu redor, notando que Tony ainda se encontrava em meio a um caloroso duelo. Seu coração doeu em seu peito ao notar as várias manchas de sangue em sua roupa, nítidas mesmo a pouca luz. Olhou então para o outro extremo do local, bem a tempo de ver Clint ser interceptado por outro homem sem que pudesse avisar. Desviou o olhar, não querendo saber se ali seria o fim do Barton, voltando a atenção para onde Tony encerrava sua luta com um impiedoso golpe de espada.

O Stark respirou em alívio ao finalmente se ver vencedor daquele duelo, então olhou ao redor, finalmente notando a presença de Peter, assim como a de Natasha e do homem que a rendia. Tentou se aproximar, mas tudo o que conseguiu foram alguns passos, antes de ser detido pela voz do homem que segurava a princesa.

― Fique bem aí ― alertou. ― E largue a espada.

O homem ameaçava a garota com uma adaga no pescoço, em uma promessa muda do que aconteceria se Tony não o obedecesse. Sem escolha, largou sua espada aos seus pés, levantando as mãos assim como Peter.

― Me desculpe, senhor Stark ― o garoto começou, falando rapidamente. ― Eu não pude fazer nada...

― CALE A BOCA ― rugiu o homem, calando o garoto. ― Agora acredito que nós temos um assunto a acertar.

― Solte ela, ou eu te mato.

Mesmo tendo uma faca firmemente segura em seu pescoço, Clint jamais abandonou seu arco armado com a flecha. Era seu único trunfo, que agora mirava na cabeça do homem que segurava sua amiga.

― Você não vai fazer nada ― murmurou aquele que segurava o Barton. ― Ou sua garganta será feita em duas.

Clint apertou os dentes, porém não relaxou suas armas em nenhum instante sequer.

― Agora você, Stark, não é mesmo? ― Tornou a falar aquele com a princesa. ― Temos um assunto pendente.

― Nunca o vi em toda minha vida ― praticamente cuspiu Tony, não entendendo onde o homem queria chegar. ― Nem o conheço.

― Capitão Erick, de Sever ― apresentou-se. ― Realmente não nos conhecemos, mas vocês conheceram meus irmãos ― falou, para então aumentar perigosamente seu tom de voz a ponto de gritar: ― QUANDO VOCÊS OS MATARAM VINTE DIAS ATRÁS!

Tony pensou por um momento, então se recordou de quando, nos primeiros dias de sua viagem, foram atacados por dois bandidos.

― Eles nos atacaram primeiro ― falou. ― Somente nos defendemos.

― Isso é o que você diz ― retrucou Erick. ― Você sabe como é aguardar o retorno de seus únicos dois irmãos de sangue e depois sair em busca deles para encontrar seus corpos fedendo descartados de qualquer jeito no meio do mato? Pois foi isso que aconteceu. Então mandei que seguissem seu rastro. Meu subordinado aqui, Joseph os alcançou quando chegaram em Zahod.

“E qual não foi minha surpresa ao descobrir que vocês não só retornavam pelo mesmo caminho como também vinham acompanhados de ninguém menos do que a princesinha de Timur? Claro que eu só fui saber disso poucos dias atrás, quando Joseph retornou após uma vergonhosa tentativa de trazer a princesa consigo”.

O homem balançou a cabeça e olhou para seu subordinado, que não se deixou abalar diante do olhar reprovador.

― Mas não importa, de qualquer forma estamos todos aqui conforme o planejado ― Erick olhou então ao seu redor, notando os corpos de seus outros capangas espalhados por ali. ― Confesso que eu não esperava que esse bando de inúteis não conseguisse vigiar nem seu próprio traseiro, mas não posso fazer nada quanto a isso. Agora me pergunto o que deveria fazer com vocês.

Peter sentiu seu interior se contorcer em desespero e medo do que poderia lhes acontecer, então dispensou um olhar aterrorizado para Tony, ficando mais apreensivo ao ver seu receio espelhado no rosto do outro.

Não podiam arriscar qualquer manobra desesperada que fosse, não enquanto aquele homem ainda tivesse uma arma no pescoço de Natasha, era arriscado demais, não valia a pena tentar pois as chances estavam completamente contra eles agora, sendo mais provável que acabassem os quatro mortos.

― Será que eu deveria me divertir com ela um pouquinho na frente de vocês antes de acabar com cada um bem devagar? ― Divagou Erick, puxando o cabelo de Natasha para o lado, passando o nariz em seu pescoço. ― Não. Acho que vou terminar logo com isso. Tenho certeza que cobrar da coroa uma recompensa pela garota seria mais rentável, porém fazê-los assistir sua morte será mais prazeroso, e então eu terei o prazer de findar a vida de vocês como fizeram com meus irmãos. Sem misericórdia. Pra ninguém.

― SOLTE ELA! ― Gritou Clint, se debatendo no agarre de Joseph, fazendo-o apertar a lâmina em seu pescoço, causando um fino corte no local.

O homem riu e forçou a princesa a se virar até ficar com o corpo de frente ao Barton, cuja face estampava o desespero, ainda determinado com o arco em mãos, recusando-se a o abandonar, mesmo sob ameaça.

― Clint! ― Exclamou Natasha, olhando para o amigo se debater com sangue escorrendo até o colarinho da camisa. ― Não!

― Não sei por que o idiota do Joseph ainda não te matou, mas será bom que assista de perto enquanto eu abro um sorriso nesse pescocinho aqui ― indicou a lâmina na pele da princesa.

― Me desculpe, Nat.

Foi tudo o que Clint disse antes de relaxar seus dedos da corda de seu arco, fazendo a flecha voar até cravar-se diretamente no olho esquerdo do homem que ameaçava a melhor amiga e companheira que já tivera na vida. Não podia deixá-lo cumprir sua ameaça, nem que isso custasse sua vida.

― ORA SEU MALDITO! ― Joseph gritou irado, assistindo o corpo de seu capitão cair sem vida para trás. ― Não devia ter feito isso.

Então simplesmente puxou a faca com força pelo pescoço do arqueiro, sem se importar com o sangue quente jorrando em sua mão abundantemente.

― CLINT! ― Gritou Natasha desesperada, horrorizada com a visão da garganta alheia sendo aberta pelo inimigo. ― NÃO!

Sem se importar em estar ou não se colocando na mira do homem, Natasha avançou rapidamente até o corpo inerte de Clint, caído aos pés de Joseph que ainda tinha a faca sangrenta em mãos, pronto para arremessá-la na direção da princesa que se aproximava.

Joseph não contava, porém, que sua mira não saísse exatamente como planejado, mas sorriu de lado ao ver sua faca voar e atingir o corpo que se encontrava atrás do da garota.

― Peter! ― Tony exclamou ao ver o garoto retroceder um passo, enquanto agarrava com uma mão o cabo da faca que acabava de acertar seu corpo.