Ouvindo um farfalhar de folhas próximo a si, Natasha abriu os olhos, alerta, percebendo que havia pego no sono durante seu turno de vigília, mas antes que sua cabeça ainda enevoada pelo sono pudesse registrar qualquer outra coisa, seus olhos captam uma forma escura diante de si, que adiantava-se para rapidamente cobrir sua boca com uma das mãos, sufocando o grito de alerta que se preparava para dar a seus companheiros ainda adormecidos.

— Shiii — ouviu o homem que a segurava falar bem próximo ao seu ouvido, baixinho. — Se der um pio, seus amiguinhos morrem antes mesmo de saber o que os atingiu.

Sem opções e temendo pela vida dos acompanhantes, ela assentiu minimamente com a cabeça, vendo as feições do invasor mudarem para satisfação.

Então, quietamente, ela se deixou amordaçar e amarrar, sentindo as cordas lhe restringir firmemente os movimentos, e o gosto do pano sujo em sua boca que enojava-a. Viu então o homem se afastar, sinalizando para si que fizesse silêncio, e apontando com uma faca para seus amigos adormecidos em sinal de ameaça. Com os passos comedidos, o invasor aproximou-se dos cavalos, escolhendo um a esmo e recolhendo do chão próximo a ele uma cela, tentando emitir o mínimo de ruído enquanto a acomodava sobre o lombo do animal, sem preparo algum, crua e simplesmente a cela, prendendo seus arreios e fivelas de maneira rápida e experiente, a fim de sair dali sem muito tardar.

Vendo seu captor imerso na tarefa de preparar o cavalo para a fuga, Natasha analisou a situação: não podia emitir som algum que alertasse o bandido, mas também não devia ficar parada sem fazer nada. Estando firmemente amarrada, pouco poderia fazer, uma vez que os nós fortes já lhe cortavam os pulsos de tanto os forçar, portanto só lhe restava recorrer aos companheiros.

Redobrando a atenção sobre o homem ocupado com o cavalo, Natasha olhou ao redor. Estava parcialmente sentada, recostada a uma árvore com os pulsos amarrados para trás e os tornozelos presos juntos, e em meio a breve neblina matinal que já se dissipava, pôde observar uma pequena pedra caída ao alcance de seus pés. Deu mais uma olhada no homem, ainda preparando o cavalo, e decidiu que era hora de agir. Precavendo-se para não fazer muito barulho, moveu seus pés juntos até a pedra, com cuidado a pegando entre eles, então parou novamente. Olhou do homem que terminava de apertar as amarras, para o companheiro adormecido mais próximo: Clint. Respirou fundo e calculou a distância e a força necessária, se concentrando ao máximo. Errar não era uma possibilidade. Errar significaria a morte de seus amigos, e provavelmente a sua própria. Errar acarretaria graves consequências. Prendeu a respiração e agiu, arremessando a pedrinha diretamente no rosto do Barton.

Sentindo ser atingido na face, Clint abriu os olhos, tendo como primeira visão o corpo amarrado da princesa, que lhe encarava com alarme nos olhos.

— Natasha! — O grito saiu involuntariamente, acabando por alertar o invasor ao mesmo tempo em que acordava os outros dois adormecidos.

Pondo-se em pé rapidamente, Clint sacou a espada curta que levava no cinto, pois seu arco ficara esquecido longe demais, onde montara guarda na noite anterior. Seguindo o exemplo deste, Tony também levantou, ainda processando as informações, piscando para clarear a visão enquanto pegava sua própria espada.

Diante do grito de Clint e da súbita movimentação, o invasor se virou, deparando-se com o par de homens armados e apostos, apontando suas espadas para si. Percebendo a clara desvantagem, olhou amargamente para a princesa ainda amarrada, e depois para o cavalo já com a cela, e rapidamente ponderou a decisão mais sábia para a situação: montou no cavalo habilmente e fugiu com rapidez por entre as árvores.

Vendo o homem se afastar ligeiro, Clint correu em auxílio da amiga, usando sua espada para cortar as cordas que a prendiam. Enquanto isso Tony disparou atrás do fugitivo, nem um pouco disposto a perder um cavalo.

Peter, por sua vez, ainda estava tentando processar toda a ação, sentado sobre sua capa e olhando ao redor, com os cabelos cheios de folhas e rosto sonolento.

— Ele te machucou? — Perguntou Clint ao tirar a mordaça da moça. — Ele tocou em você?

— Não — respondeu, massageando os pulsos vermelhos. — Ele só me amarrou e foi preparar o cavalo.

— Acha que ele pretendia te levar junto?

— É possível — ponderou. — Do contrário, ele poderia simplesmente ter matado todos nós e levado quantos cavalos quisesse.

Pouco tempo depois ouviram passos vindos do meio das árvores, então rapidamente adotaram uma postura defensiva, até perceberem que apenas se tratava de Tony retornando.

— Perdi o filho da puta — murmurou, botando sua espada de volta na bainha. — Correu para um descampado mais a frente e depois seguiu pelo rio. Seguir o miserável levaria muito tempo e esforço, então que se dane. Melhor seguir viagem com o que temos.

— Acham que esse homem é aquele que estava nos seguindo? — Peter perguntou timidamente.

— É provável — Tony respondeu.

— Se tivéssemos agido ontem como eu sugeri, nada disso teria acontecido — ralhou Clint, olhando torto para o Stark.

— Está insinuando que a culpa é minha? — Inqueriu, chegando mais perto do outro.

— Tome como quiser, eu só disse que deveríamos ter atacado aquele imbecil ontem!

— Ei, o senhor Stark estava certo em ter cautela, e se o homem não quisesse nada demais? E se só estivesse perdido? — Interpôs Peter, saindo em defesa do companheiro. — Ou pior, e se ele estivesse em um bando maior em número que nós?

— Se ele não estava acompanhado ontem, agora deve estar correndo direto para alertar os amiguinhos!

— Chega! — Gritou Natasha, encerrando a discussão. — Não importa agora o que deveria ou poderia ter sido feito ou não. O que devemos é seguir a viagem mais alertas. E se alguém aqui tem alguma culpa sou eu, que caí no sono durante meu turno de vigília.

— Ninguém culpa você, Nat — disse Peter, suavemente.

— Então ótimo! Vamos nos aprontar pra sair, já perdemos tempo demais.

— Droga — Peter murmurou com um bico, enquanto via os outros agilizarem o levantar do acampamento.

— O que foi? — Perguntou Tony, olhando de esguelha o garoto, enquanto escovava o cavalo brevemente. — Vai ficar aí parado sem ajudar?

— O cavalo que ele levou… foi justo o meu!

Tony então olhou para a expressão tristonha do garoto, e se apiedou na mesma medida em que achou graça, então soltou um risinho nasal e disse:

— Ao menos ele só levou o cavalo e a cela, suas coisas continuam todas aí.

Peter olhou para seu pequeno amontoado de bolsas junto as outras celas e demais pertences, e não teve como discordar. Seu mapa e anotações estavam a salvo, assim como a princesa e companheiros, e era isso que importava.

Com um suspiro derrotado ele se foi ajudar a reunir as coisas, pegar água e preparar os cavalos restantes para partir.

Estando tudo pronto e com os pertences de Peter divididos entre os outros, Tony, Natasha e Clint montaram em seus cavalos, enquanto o jovem Parker olhava de um para o outro sem saber o que fazer.

— Eu terei de ir a pé? — Perguntou cabisbaixo.

— Pode vir comigo — Natasha se adiantou.

— O que acha que fariam com você em Timur [1] se soubessem que seguiu viagem desse jeito com a princesa? — Tony pontuou, sem conseguir se conter.

Tony só percebeu seu evidente deslize de ciúmes quando teve os três olhares direcionados a ele, todos com um tipo diferente de expressão, Clint arqueando uma sobrancelha, Natasha com um leve repuxar de lábios, e Peter um pouco ruborizado.

— É — começou o Barton. — Stark tem razão, seria uma falta de respeito para com a princesa.

— Eu vou ter que ir andando, então? — Questionou rapidamente Peter, sequer tentando esconder o desânimo.

— Pode vir comigo, antes que comece a chorar — Tony alfinetou, por fim. — Mas é melhor distribuir a bagagem entre os outros cavalos, pra nenhum ficar sobrecarregado, pois ainda faltam alguns dias de viagem.

Então mais algum tempo foi gasto, dividindo o peso das bolsas e equipamentos entre os outros dois animais, e quando enfim puderam partir, o sol já brilhava quente no céu.

— Vem, garoto, já pode subir — Tony falou chegando um pouco mais pra frente na cela e tirando um pé do estribo, deixando Peter se içar para cima da montaria consigo.

O jovem então se acomodou, timidamente aproximando seu quadril do de Stark, buscando uma posição confortável às suas costas. Sentia-se mortalmente envergonhado estando tão próximo do homem, colado em seu corpo desse jeito, o calor de seu tronco aquecendo suas mãos onde agarrava-se às laterais de suas roupas para se segurar.

Sem tardar eles se puseram a trotar pela floresta, avançando pelo chão irregular, sempre tentando se manter atentos aos sons e movimentos ao redor, alertas para qualquer possível ataque.

— Eu estive pensando — começou Peter, virando o rosto na direção dos companheiros. — Por que aquele homem não matou a gente? Não seria mais fácil levar a Nat conosco mortos?

— Talvez não — disse Tony. — Ele estava sozinho, desse jeito poderia nos usar como moeda de troca.

— Foi o que ele fez — falou a garota. — Os ameaçou para me manter em silêncio.

— Se tivesse nos matado antes, Natasha com certeza reagiria, dificultando assim de ser levada.

— Ah — murmurou Peter. — Que bom que não matou. E também não levou a Nat. Mas o que ele poderia querer com ela?

— Ela é uma princesa, garoto — Tony disse como se fosse óbvio, o que, é claro, era. — Isso por si só já renderia uma boa recompensa pelo resgate.

— Poderia ser um comerciante de armas do norte — Clint falou, entrando na conversa. — Sem a princesa para o acordo de paz, a guerra entre os reinos seria certa, e como os nortenhos são os principais fornecedores de armas, teriam muito lucro com isso.

— Só espero que ele não tenha muitos companheiros por aí interessados no mesmo negócio.

Seguiram mais um trecho de viagem comentando sobre as possibilidades e motivações de um novo ataque, até Peter se lembrar de que precisava retomar suas anotações para o mapa em que trabalhava. Remexeu-se um pouco tentando pegar seu bloco de anotações do bolso, dificultado pela posição.

— O que foi, tem formiga aí atrás? — Tony perguntou, incomodado.

— Eu só estava tentando alcançar minhas anotações — murmurou o garoto, mostrando seu bloquinho.

— Hm.

Peter então se pôs a anotar novas informações sobre o trajeto, mas novamente se encontrou impedido diante da posição desfavorável. Tentou virar-se para a direita, sentado meio lateralmente, mas era difícil segurar o bloco com a mão presa entre o seu corpo e do mais velho. Virou-se então para o outro lado, mas escrever com o braço preso era igualmente incômodo. Bufou e tentou encontrar alguma outra posição, remexendo-se impacientemente.

— E agora, o que foi?

— Não consigo escrever aqui atrás, senhor Stark.

Tony não precisou olhar para trás para saber que o mais novo ostentava um – em sua opinião intimamente pessoal – adorável bico nos lábios, mostrando sua frustração além da voz. Tinha certeza que ele cruzaria os braços emburrado se pudesse.

— Desce — mandou o homem, puxando as rédeas e parando o cavalo.

— O quê?

— Desce — Repetiu. — Melhor você ir na frente. Vamos mudar de posição.

— Ah- é… melhor continuar assim — murmurou subitamente constrangido, lembrando-se da outra vez em que estivera com o Stark na garupa, quando ficou doente.

— Assim você não vai sossegar.

— Realmente, senhor Stark-

— Desce. Já.

Sem escolha, Peter pulou do lombo do cavalo, tendo Stark a repetir seu ato logo em seguida.

Mortalmente tímido, ele tornou a subir, dessa vez se acomodando a frente, para então ter o companheiro a sentar-se às suas costas, encaixando seus quadris sem qualquer pudor, mantendo a proximidade necessária para dividirem a cela. Tony então passou seus braços por debaixo dos de Peter, alcançando as rédeas para enfim retomarem o movimento, voltando a trotar.

— Melhor? — Perguntou Tony, o ar soprado em sua voz arrepiando os cabelos da nuca de Peter.

O garoto não se atreveu a responder. Nem poderia. Se sentia envergonhado demais para tal. Seus quadris colados lhe causava constrangimento, assim como toda a extensão do tórax do homem às suas costas, acentuados a cada respiração que lhe tocava morna a orelha e pescoço, causando arrepios nada bem-vindos. Dessa vez era bem diferente da anterior. Da última vez, ele estava doente e extremamente sonolento, tendo estado adormecido a maior parte do tempo, já agora estava consciente até demais. Cada ponto de contato parecia aquecer ao ponto de ser quase incômodo, e ficava consciente de cada mínimo movimento.

— Não ia fazer as anotações? — Tony perguntou, lhe despertando dos pensamentos.

— Ah- é… é — falou atrapalhado. — É mesmo.

Com a frente agora livre, ficava muito mais fácil realizar sua tarefa, isso, é claro, se o contato com o corpo do outro não o desconcertasse e desconcentrasse tanto.