Along The Way
13 Capítulo XII
Notas iniciais
O sol começava a despontar no horizonte por detrás das árvores quando Tony Stark acordou. Relutante em deixar o pacífico sono, ele tentou virar-se para o lado contrário ao sol que batia em seu rosto, apenas para se descobrir impedido. Abriu os olhos e piscou algumas vezes até clarear a visão, então focalizou o garoto adormecido deitado de costas diante de si, e com um olhar mais atento reparou no motivo pelo qual havia tido seu movimento interrompido há pouco; tinha seu braço direito jogado por cima do peito de Peter, e este em meio ao sono agarrava sua mão firmemente, com seu próprio braço por cima do de Stark, lhe restringindo ainda mais os movimentos.
Tony deixou-se apreciar inconscientemente o calor morno e o sutil subir e descer ritmado do peito de Peter, percorrendo com o olhar os traços harmoniosos do seu rosto tranquilo emoldurado pelas revoltas ondas castanhas de seus cabelos. Tony teve sua atenção atraída novamente para sua mão, onde, depois de um longo e profundo suspiro, Peter deixou um último apertão antes de afrouxar o agarre, permitindo que enfim o homem pudesse recolher o braço, cuidadosamente o deslizando de sob o outro até se ver totalmente livre.
Mesmo livre para ir, Tony não conseguiu – ou sequer tentou – deixar o lado de Peter, pois apreciar sua graça tão livremente sem medo de ser pego em tal situação constrangedora era no mínimo tentador. Enquanto pôde, permitiu-se apreciar cada detalhe, cada curva e cada forma da expressão serena, reparando naquela pele lisa que muito provavelmente não via o sol com frequência, partindo então aos cabelos bagunçados com algumas folhas e pequenos galhos presos, não percebendo realmente quando instintivamente esticou sua mão a fim de os livrar da sujeira, a deixando arrastar suavemente até o rosto de Peter, com apenas as pontas de seus dedos tocando a pele quente quase imperceptivelmente.
Tony censurou-se e recolheu a mão, a apertando em um punho firme, quando Peter deu indícios de que acordaria, apertando os olhos e virando a face para a direção contrária dos dedos que lhe causaram cócegas. Onde estava com a cabeça? Peter era um garoto com menos da metade de sua idade, com ênfase na parte do "garoto", não deveria se sentir ou sequer se comportar assim absolutamente sob hipótese alguma. Tony apertou ainda mais o punho e trincou os dentes, irritado consigo mesmo. Por que estava agindo assim? Por que se sentia estranhamente atraído por Peter? Pelos céus, ele era um garoto, assim como ele próprio já fora um dia, e na flor de seus 18 anos logo se tornaria um homem! Logo se tornaria um padre! E mesmo que não, isso não anulava o fato de que nutrir quaisquer sentimentos ou desejos por alguém de seu mesmo sexo era extremamente errado.
Irritado por seus próprios interesses impróprios e indecentes, Tony se levantou e sacudiu sua capa para em seguida a vestir, dispensando um último olhar em direção ao garoto que ao que tudo indicava estava perto de acordar, então foi lavar seu rosto no rio e preparar os cavalos para a partida, pois a viagem não podia atrasar.
— Bom dia, Senhor Stark — Peter murmurou depois de um longo bocejo, olhando o homem que escovava um dos cavalos.
— Dia — respondeu sem tirar sua atenção do que fazia.
Peter bocejou e coçou os olhos, sem dar realmente importância à falta de calor da resposta do outro. Sentou-se e olhou para seus pés, movimentando levemente em círculos o machucado, tentando decidir se tentaria ou não calçar a bota. A torção já não estava mais inchada, mas ainda doía um pouco, portanto concluiu que era melhor não forçar se queria que ela melhorasse logo.
Tony, meio entretido com sua tarefa, lançou apenas um olhar de esguelha ao garoto que no momento se assustava com um inseto andando em seu braço, antes de rir quase imperceptivelmente e balançar a cabeça divertido, com a certeza de não estar sendo observado.
Depois de terminada a tarefa, ele buscou as bolsas que iam presas à sela e caçou dentro de uma um pedaço de pão, jogando este para Peter que o pegou no ar a fim de o comer juntamente com o que sobrara da carne do jantar. Como Tony já havia desjejuado antes de Peter acordar propriamente, foi então terminar o serviço com os cavalos, selando e os aprontando para saírem assim que o garoto terminasse sua refeição.
— Senhor Stark, pode me ajudar a subir? — Peter perguntou indicando o cavalo, pois não queria repetir o episódio do dia anterior.
— Pensei que não era mais criança para aceitar minha ajuda — provocou sorrindo ladino, mas mesmo assim se aproximou.
Peter, com as bochechas corando, nada disse.
Parando ao lado do garoto, o Stark se abaixou um pouco e entrelaçou os dedos das mãos, formando um apoio ao pé bom de Peter, que, colocando uma mão no ombro de Tony se içou para cima com facilidade, feliz por não ter forçado seus machucados como da última vez que tentara montar sozinho.
Tony então se afastou em direção ao seu próprio cavalo, tentando ignorar o arrepio – irracional, na sua opinião – que sentira quando os dedos de Peter roçaram a pele exposta pela camisa semiaberta, na curva onde o ombro encontrava o pescoço. Montou em seu cavalo e o pôs a trotar, ainda se sentindo irritado consigo mesmo.
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Peter sorriu satisfeito quando finalmente conseguiu deslizar seu pé para dentro da bota sem sentir qualquer dor realmente significante. Foram longos quatro dias de dor, que gradativamente fora amenizando, até ser quase imperceptível, se fazendo presente somente quando Peter forçava demais o tornozelo. Sua ferida na coxa já estava bem melhor também, assim como seu resfriado, o que deixava Peter num ótimo humor por finalmente estar se sentindo totalmente bem.
Essa felicidade não passava despercebida por Stark, é claro, que por sua vez se sentia satisfeito com toda a evolução de Peter.
Dirigiu um olhar de adoração mal disfarçada ao menor, que ainda sustentava seu sorriso e balançava os pés no ar, pois se encontrava sentado sobre uma alta pedra, e não pôde se impedir de curvar seus próprios lábios em um pequeno sorriso em resposta.
— Vou ir buscar lenha — declarou Tony, terminando de soltar a sela de seu cavalo.
Decidiu que seria bom se afastar um pouco de Peter, pois cada vez mais se via imerso e totalmente perdido em qualquer ato do mais novo, desde seus pequenos e doces sorrisos até mesmo em suas expressões emburradas, estas bastante frequentes quando Peter, frustrado por não conseguir algo que queria, formava um pequeno bico nos lábios e cruzava os braços franzindo o cenho, deixando-o adorável aos olhos do Stark em um primeiro momento, pois logo em seguida ele iria se censurar por se deixar levar desse jeito tão errado.
Se pôs então a caminhar a esmo pela floresta, deixando para trás um Peter entretido em suas funções. Gastou um bom tempo picando com sua machadinha a lenha que encontrou, e se irritou consigo mesmo por ter esquecido seu arco no acampamento, o fazendo andar com uma aljava de flechas atoa, quando se deu conta disso ao ver passar perto de si um pequeno veado que ele poderia ter abatido para o jantar. Tinha se afastando demais de onde haviam parado, e quando finalmente retornou o sol já estava um tanto baixo, deixando o céu com tons rosados.
Tony franziu o cenho ao se aproximar do acampamento, pois ouviu uma voz estranha perguntando algo que não pôde entender. Então em silêncio largou a lenha do chão e retirou a espada da bainha, se aproximando lentamente e a todo custo tentando não pisar em galhos secos que delatassem sua posição.
— Por favor — ouviu a voz chorosa de Peter e seu peito se apertou. — Podem levar qualquer coisa, mas isso não, por favor.
— Cale a boca!
Tony trincou os dentes ao ouvir um som estalado seguido de um gemido de Peter. Pôde presumir pelo que ouviu que provavelmente se tratava de ladrões, então, estando suficientemente perto, espiou por entre as árvores, contando pelo menos três homens estranhos, dentre os quais dois reviravam as bolsas de seus pertences e um revistava Peter, analisando em sua mão o punhal de prata pertencente ao garoto.
Olhou mais atentamente e percebeu que o Parker se encontrava com as mãos atadas para trás e a lateral do rosto vermelha, com um filete de sangue escorrendo de uma pequena ferida recém aberta. Sentindo a raiva apoderar-se de si, Tony trincou os dentes e apertou mais firmemente o cabo da espada, lamentando ainda mais o fato de estar sem seu arco. Avançou então, decidido a fazer alguma coisa, mas no momento em que deu um passo, um galho seco quebrou-se sob seu pé, traindo sua intenção.
Rapidamente a atenção dos homens estranhos fora atraída para si, e Tony praguejou mentalmente, lançando um olhar de desculpas para Peter que o olhava esperançosamente.
— Você demorou, hein — um dos homens comentou. — Eu sabia que a bonequinha aqui não estava sozinha.
O Stark sentiu a cólera em si aumentar quando assistiu o homem passar levemente sua faca pelo rosto de Peter, que fechou os olhos fortemente, amedrontado pela ameaça em sua pele. Então levantou sua espada, indicando que não iria se render tão fácil.
— Largue essa espada, espertinho — outro homem falou, apontando para si um arco munido de uma flecha já posicionada —, ou vai estar morto antes mesmo de tentar qualquer coisa.
Olhando uma última vez para o homem que ameaçava Peter com a faca agora em seu pescoço, Tony decidiu agir prudentemente, largando a espada ao seus pés e levantando as mãos, rendendo-se.
— Escolheu bem.
Rapidamente o terceiro homem se aproximou e o virou de costas, amarrando suas mãos com uma corda e o empurrando para que se sentasse junto a Peter, para então voltar a sua tarefa de revirar os pertences alheios em busca de algo de valor.
Tony analisou a situação, assistindo atentamente os atos dos homens, vendo aquele com o arco o soltar para voltar a procurar em suas coisas juntamente com o outro, e o que revistava Peter soltar do cinto do garoto sua bolsa de moedas, desafivelando a correia da espada e a atirando longe. O Stark então olhou em volta, notando que seu arco não estava muito longe de si, poderia o alcançar rapidamente se precisasse.
— Olhem só o que eu achei aqui — um dos homens comentou, tirando alguma coisa de uma das bolsas de Peter.
Tony agradeceu mentalmente a oportunidade, pois os três estranhos se reuniram juntos, deixando ele e Peter sem supervisão. Rápida e agilmente Tony sacou da parte de trás de seu cinto uma de suas facas, sentindo-se muito orgulhoso de si mesmo por ter estrategicamente escondido muitas armas pelo seu corpo, e também agradecido pelos ladrões serem burros o suficiente para se contentar em apenas retirar as armas mais óbvias antes de o amarrar.
Cortou então rapidamente a corda que lhe restringia e logo alcançou seu arco, tendo somente seus atos percebidos pelos outros homens quando, de maneira planejada, acertou o arqueiro dentre eles com uma flecha em sua nuca, o fazendo tombar morto para frente.
Os dois ladrões restantes então olharam horrorizados para Tony que já preparava outra flecha, mas errando o alvo dessa vez, pois o homem havia desviado habilmente e avançado sobre si. Tony se viu obrigado a largar o arco, pois este era inútil em combate corpo a corpo, e sacou novamente sua faca, desviando do primeiro golpe e revidando, tendo sua pequena lâmina desviada pelo que ele reconheceu ser o punhal de Peter.
Atacou de novo, agarrando o homem pela camisa no processo e tentando o desestabilizar lhe passando uma rasteira, mas nada conseguiu a não ser um corte fino no braço. Mesmo com dor e prestando atenção ao homem a sua frente, Tony pôde perceber o segundo se aproximando com sua espada em mãos, então, mesmo sabendo que ficaria vulnerável, agarrou aquele com quem duelava e o girou, no mesmo instante em que a espada descia em um golpe contra si, a vendo afundar no ombro do outro, o fazendo urrar em dor e largar sua faca com uma expressão horrorizada enquanto o que desferira o golpe puxava de volta a lâmina com os olhos arregalados pelo que acabara de fazer.
Aproveitando a oportunidade do deslize nada inteligente de seus agressores, Stark chutou o punhal derrubado em direção a Peter, que o puxou para mais perto com o pé para enfim se virar e o pegar com as mãos, cortando sua corda e indo em busca de sua espada.
Ainda com sua faca, Tony golpeou ligeiro o pescoço do homem que inutilmente tentava estancar o sangramento de seu ombro com uma das mãos, acertando certeiro uma artéria, fazendo o sangue jorrar abundante e respingar em si. Mas infelizmente não notou o homem restante se aproximar, tendo somente por puro reflexo bloqueado a lâmina da espada com a faca, entrando assim em duelo com o encolerizado ladrão.
Em desvantagem com sua pequena arma, tudo o que Tony podia fazer era desviar a lâmina e recuar tentando não ser atingido, e estava se saindo muito bem até que por um descuido seu acabou levando uma rasteira e caindo para trás, com sua cabeça diretamente sobre uma pedra. Sentindo uma dor absurda, Tony olhou com sua visão turva Peter se mover em direção ao homem, mas não conseguiu distinguir mais nada antes do mundo girar, sua vista escurecer e ele cair na inconsciência.
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