Along The Way
14 Capítulo XIII
Aflito, Peter assistia ao Stark brigar contra os ladrões, enquanto desesperadamente forçava as amarras que o prendia pelas mãos. Sentia a corda áspera lhe provocar cortes em toda a volta do pulso que ardia conforme ele lutava para se soltar, e não ficaria surpreso se surgissem marcas arroxeadas no local. Isso, é claro, se sobrevivessem até o dia seguinte. Quando Tony finalmente desarmou o ladrão e lhe chutou seu punhal, Peter pôde finalmente se ver livre das restrições e se adiantar em direção à sua espada, que anteriormente havia sido jogada para longe de si após a revista.
A luta entre Stark e o ladrão continuava enquanto Peter desembainhava sua espada e se colocava em posição de combate, não sabendo muito bem como intervir no duelo, entretanto. Porém, quando viu Tony ser derrubado, Peter soube imediatamente que deveria agir.
O ladrão já se preparava para o golpe final quando o garoto segurou firmemente sua espada com as duas mãos tendo a ponta da lâmina virada para baixo, avançando em direção ao homem e levantando a arma o máximo que podia, pegando impulso e força na descida com destino às costas do outro, a fazendo atravessar seu tórax, a ponta da arma aparecendo através de seu peito.
O homem nada pôde fazer pois fora acertado diretamente no coração, então Peter somente o empurrou para fora do caminho, o deixando tombar de qualquer jeito para o lado, já morto. No momento nem se incomodou por ter assassinado outra pessoa, sua prioridade era verificar a condição de Tony.
Se ajoelhou rapidamente perto do companheiro caído e ainda desacordado, pousando a mão trêmula em seu peito para em seguida soltar o ar aliviado ao sentir as batidas constantes de seu coração sob sua palma. Passou então a mão em seu rosto e a subiu até a testa, afastando os cabelos suados de seu rosto, enquanto chamava por seu nome em busca de alguma reação.
Sentou-se então mais próximo a cabeça do homem e passou seus dedos por entre os fios de cabelo no local onde ele batera a cabeça na pedra, se assustando ao ver sangue os manchar de vermelho. Alarmado, Peter correu em direção a sua bolsa e tirou de lá uma toalha, molhando a ponta dela na água do rio para em seguida retornar para junto do Stark, se sentando novamente próximo e puxando sua cabeça delicadamente para cima de seu colo, começando enfim a limpar o ferimento e verificar sua gravidade. Ficou aliviado ao notar que o corte não era profundo, mas isso não lhe tirava a preocupação do fato do homem ainda estar inconsciente.
Depois de limpo o ferimento, o Parker achou melhor enfaixar para o caso do corte voltar a sangrar, então cuidadosamente começou a enrolar entorno da cabeça de Tony uma faixa, tendo em sua mente a todo instante a questão do que faria caso o homem não acordasse mais. Peter balançou a cabeça, querendo de alguma forma afastar tais pensamentos mórbidos de sua mente, enquanto deixava a cabeça de Tony repousar em seu colo, rezando mentalmente para que ele ficasse bem.
Não notou quando nem como, mas quando deu por si já estava com os dedos embrenhados em meio ao rebelde cabelo escuro, realizando movimentos suaves enquanto encarava o nada, tentando não pensar no número de vidas ceifadas por suas mãos, que só aumentava. Tentava mudar também o rumo de seus pensamentos, que volta e meia iam para o que faria se perdesse Tony. Será que conseguiria terminar a missão? Teria força de vontade suficiente para isso? Poderia ao menos se virar sozinho na floresta? Não sabia. E queria poder não pensar nisso também, mas o pessimismo nessa hora era inevitável.
A atenção do garoto fora subitamente atraída para um gemido dolorido vindo do Stark, que aparentava recobrar a consciência. Com um outro gemido, dessa vez mais alto, Stark apertou os olhos e levou lentamente uma mão à face, esfregando as têmporas com o polegar e o dedo médio, para enfim abrir os olhos, olhando diretamente para o rosto aliviado de Peter que lhe encarava de cima.
— O que houve? — Perguntou confuso, sua cabeça latejava como o inferno, mal deixando espaço para se dar conta de que Peter ainda tinha os dedos por entre seus cabelos. — Minha cabeça está me matando.
— Não se lembra de nada, Senhor Stark?
— Não muito — murmurou, fechando os olhos novamente.
Peter então resumiu os acontecimentos, destacando o fato de que Tony havia caído com a cabeça sobre uma pedra, explicando assim a dor e a falta de memória recente.
Tony assentiu em entendimento, mas isso só fez a dor piorar. Parecia que seu cérebro havia sido revirado. Levou novamente as mãos à cabeça, pressionando suas têmporas, querendo fazer a dor ir embora. Abriu então os olhos e fitou de baixo novamente o rosto preocupado de Peter, somente agora notando a linha de sangue ainda um tanto úmido que havia em sua bochecha, formando um "T" a partir de um corte horizontal dois dedos abaixo do olho direito. Levou automaticamente sua mão até lá, a apoiando na lateral do rosto de Peter e passando o polegar pelo sangue, tentando precariamente o limpar.
— Você está machucado — murmurou sem tirar os olhos do que fazia.
Peter sibilou e se encolheu um pouco quando seu polegar passou de raspão pelo corte, então virou o rosto para o lado contrário, pegando em sua mão e a afastando de si lentamente.
— Não é nada, Senhor Stark — falou Peter. — Um dos homens me deu um tapa enquanto usava um anel.
Stark não falou nada, mas sentiu a irritação crescer em seu interior, para em seguida amenizar ao lembrar que agora tal homem já estava morto.
Levou ainda alguns instantes perdido em seus pensamentos para notar que Peter ainda segurava em sua mão, e alguns outros para se dar conta de onde estava deitado. Não que quisesse se afastar de Peter, mas seria bastante estranho continuar deitado em seu colo mesmo depois de acordado, então tratou de rapidamente se sentar. Arrependeu-se do ato logo em seguida, pois a ação repentina fez com que uma intensa tontura se abatesse sobre si, quase o fazendo cair para trás novamente, sendo salvo de tal pelos braços de Peter, que o segurou pelos ombros firmemente.
— Calma, Senhor Stark — murmurou, ainda o segurando. — Não faça movimentos bruscos assim, ou sua dor de cabeça vai acabar piorando.
Sem escolha, Tony se deixou acomodar deitado novamente, dessa vez com a cabeça apoiada sobre a toalha dobrada de Peter no chão.
— Descanse. Enquanto isso eu vou buscar lenha e fazer o jantar.
Um pouco surpreso pela iniciativa e animação do garoto, Stark o assistiu entrar na floresta, não tardando muito em voltar carregando um feixe de lenha, que se não estivesse errado, ele mesmo havia abandonado próximo ao acampamento. Sua memória recente estava um tanto confusa.
Como o fogo já havia sido iniciado anteriormente, Peter somente o alimentou com mais lenha e, auxiliado por Tony, adicionou à água quente ingredientes e temperos, os deixando ferver e cozinhar sem pressa, entretendo-se com seu mapa enquanto isso, e vez por outra lançando olhares preocupados ao Stark, que ainda parecia meio aéreo deitado no chão olhando as árvores acima.
Na hora do jantar Tony já parecia um pouco melhor, então comeram e foram dormir, sem se incomodar realmente com os corpos espalhados pelo acampamento.
Na manhã seguinte, em seu 10° dia de viagem, quando Peter acordou depois de um sono agitado, Tony já se encontrava de pé, empenhado na tarefa de arrastar os corpos para longe da trilha próxima ao rio, os largando de qualquer jeito na floresta.
Sua cabeça ainda doía, mas não tanto quanto na noite anterior, e também não se sentia mais tonto nem tão alheio às coisas a sua volta.
— Você está bem? — Perguntou ao retornar ao acampamento, olhando preocupado para Peter que ainda se encontrava sentado onde antes dormia, a fronte ensopada de suor e parecendo meio perturbado.
— Quando os pesadelos irão acabar, Senhor Stark? — Perguntou em um fio de voz, parecendo frágil e desamparado.
— Quando você parar de se culpar por algo que não teve escolha.
Tony sabia dos princípios morais e religiosos do garoto, os quais o fazia sofrer por ter matado aquele homem há uma semana atrás, e que só piorou depois da segunda morte por suas mãos na noite passada. Tinha certeza que Peter não se arrependia de o ter feito, mas isso não fazia amenizar a culpa.
— Olha, garoto — começou, usando um tom compreensivo —, não é culpa sua a morte daqueles homens, eles escolheram isso quando resolveram atacar. Você estava só se defendendo… Não, estava ME defendendo, salvou minha vida duas vezes, e eu sou grato por isso.
Peter assentiu, e pelo resto do dia não se permitiu pensar a respeito, pois percebia que quanto mais se martirizava, pior se sentia, então simplesmente parou de pensar para não se culpar depois. Tentava, toda vez que lhe vinha tais pensamentos, os direcionar para o lado bom, o lado que dizia que se não o tivesse feito Tony agora estaria morto, assim como ele próprio. Fora um mal necessário, não teve escolha senão agir.
Já era do meio para o fim da tarde quando Peter percebeu que a medida que avançavam, as árvores iam ficando cada vez mais esparsas e menores, parecendo mais jovens. Constatou então que deviam estar se aproximando de onde ela acabava. Questionou Tony sobre isso, quando finalmente pararam em uma espaçosa clareira ao fim do dia.
— Sim, já estamos chegando — respondeu o Stark. — Mais dois dias de viagem e estaremos finalmente em Zahod. Depois de deixarmos a floresta amanhã, há ainda algum trajeto de planície para então alcançarmos a cidade.
— Mais dois dias e metade da viagem estará cumprida. — Concluiu Peter. — Parece que foi ontem que saímos!
Tony o acompanhou no sentimento de saudosa nostalgia, recordando-se do tempo em que jamais iria pensar que no futuro se encontraria tão irremediavelmente encantado pelo garoto ingênuo e atrapalhado, ainda mais em um espaço tão insanamente pequeno de tempo.
— Mal posso esperar para chegar! Nunca estive em Zahod — continuou o garoto, entusiasmado. — Quero rever logo a Nat!
— "Nat"? — exprimiu Tony, sem se dar conta do tom áspero em sua voz. — Refere-se à Princesa Natasha? Você conhece a Princesa?
— Sim! — Peter exclamou animado, sem perceber o desagrado mal disfarçado de Tony. — Costumávamos brincar juntos quando crianças — em seu olhar Tony pôde discernir um brilho nostálgico de saudade, o que só fez seu incômodo aumentar. — Mas aí ela foi mandada para outro reino a fim de estudar e eu mesmo também me pus a dedicar aos meus próprios estudos, depois disso nunca mais a vi. Claro que trocamos cartas algumas vezes, mas com o tempo até isso deixamos de fazer.
Tony assentiu, não querendo dizer nada no momento, apenas se dirigiu ao cavalo a fim de lhe soltar o peso desnecessário no momento.
— Senhor Stark — Peter chamou, depois de algum tempo de silêncio. — O que vai fazer quando a viagem acabar?
— Voltar a minha vida normal — respondeu um tanto desanimado, sem se virar para o garoto, que continuava a tagarelar. — E você?
— Eu vou voltar pra casa!
— Vai abandonar o seminário? Mas de onde você é, afinal?
— Minha família é de uma pequena ilha à sudeste de Haravum.
— Você não tem sotaque de fora — pontuou Tony, confuso.
— É que já tem muitos anos que fui forçado a vir para Timur, e com o passar do tempo fui perdendo o sotaque — deu de ombros. — Mas o que importa é que eu finalmente terei dinheiro suficiente para voltar.
— Vai deixar o reino então? Assim que tudo acabar?
Peter sorriu radiante, animado com a perspectiva e respondeu afirmativamente. Diante disso Tony sentiu seu peito apertar, ao mesmo tempo em que censurava seu egoísmo em querer que o jovem ficasse.
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