Tony suspirou olhando de um corpo para o outro caídos no chão, pensando no que faria com eles, então decidiu que por ora somente os arrastaria para um canto mais afastado, deixando para o dia seguinte a tarefa de livrar-se deles direito, já que não queria deixar Peter sozinho à noite.

Empilhou um sobre o outro depois de recuperar sua flecha do primeiro homem, para em seguida recolher sua faca e o punhal de Peter do chão, os limpando superficialmente do sangue que lhes manchava, então embainhou sua espada e finalmente foi se deitar para dormir.

Esticou sua capa e deitou-se próximo de onde o garoto estava, então virou-se para olhá-lo, constatando que este ainda estava acordado.

— Senhor Stark — começou Peter. — E se houver mais homens por perto?

— Aí estamos fodidos — Stark disse, na esperança de quebrar um pouco o clima tenso, mas reassumiu o tom sério ao ver que isso não teve efeito algum em Peter. — Bem, podemos alternar turnos de vigília, se isso o fizer sentir-se melhor.

— Acho que fará, senhor Stark — concordou, então sentou-se, apoiando as costas na árvore sob a qual estivera deitado. — Eu posso começar vigiando.

— Tudo bem. Eu vou dormir um pouco então, mas me acorde caso ouça qualquer coisa, entendeu? — Tony instruiu com sua voz soando séria. — Qualquer coisa mesmo.

Peter assentiu, então o Stark virou-se para o outro lado e fechou os olhos, deixando o cansaço do dia tomar conta de si e lhe conduzir gradativamente a um sono pesado e sem sonhos.

Enquanto isso Peter se mantinha alerta a qualquer mínimo ruído ou movimento por entre as árvores. Sentia-se inquieto e sem sono, e fora justamente por causa disso que se oferecera para vigiar primeiro, sabia que não ia conseguir dormir tão cedo de qualquer modo, pois toda vez que fechava os olhos, as imagens do homem morrendo lhe tomavam conta como se gravadas a fogo em suas pálpebras, lhe fazendo sentir horrível por ter findado sua vida daquele jeito, e pior ainda pela possibilidade de que Tony tivesse morrido no lugar dele.

Olhou então para o Stark, ao seu lado ele ressonava em meio ao sono, e parecia tão calmo que isso incomodou Peter, pois como ele podia dormir assim depois de tudo o que aconteceu? Depois de ter matado um homem, quase ser morto e ver outro morrer em sua frente, como ele podia parecer tão tranquilo?

Peter não sabia, mas gostaria de saber. Estava cansado e gostaria de dormir, mas tinha medo de fechar os olhos e se ver matando um homem novamente.

Céus! O que os padres pensariam de si quando lhes contasse o que aconteceu? Porque é claro que contaria, seria a primeira coisa que faria ao chegar: ir se confessar e torcer para ser perdoado.

Olhou então para o céu escuro e soltou um longo bocejo. Abraçou a si mesmo e buscou por uma posição confortável contra a árvore para se acomodar durante sua vigília, então, sem perceber, logo seus olhos começaram gradativamente a pesar e sua mente a ficar nublada, não tardando em adormecer.

Quando Tony acordou, já na manhã seguinte, o sol mal havia começado a nascer. Então ele levantou e esticou as juntas, as ouvindo estalar. Bocejou e passou a mão pelo cabelo, tirando as folhas e sujeira do chão presos a ele. Parou por um momento e pensou no que faria com os cadáveres da noite anterior, então decidiu que apenas os arrastaria para dentro da floresta e deixaria a natureza se encarregar do resto.

Já estava se encaminhando para junto dos corpos quando um leve gemido de Peter lhe chamou a atenção, então franziu o cenho e se aproximou do garoto, notando que este possuía a testa brilhando em suor e os cabelos úmidos grudados, e se remexia inquieto em meio ao sono. Não demorou muito para que percebesse que o mais novo estava tendo um pesadelo.

Se ajoelhou ao seu lado e pôs uma mão em seu ombro, o sacudindo com força enquanto chamava por seu nome.

Peter, em meio ao seu sonho, sentia seu peito apertar e um nó se formar em sua garganta, o impedindo de respirar direito, não aguentava sequer olhar a cena que se passava diante de si, mas algo o forçava a ver, a olhar para o Stark de joelhos na sua frente, a garganta aberta com seu sangue escorrendo abundantemente e lhe ensopando a roupa, então olhava para o homem parado atrás dele, sorrindo para si com escárnio e sadismo, mas quando Peter olhava para suas mãos, eram elas que empunhavam a faca e estavam vermelhas em sangue, com o sangue de Tony, e ele apenas sabia que tudo fora culpa sua, que ele havia feito isso.

Então em um pulo ele se via sentado sobre sua capa no meio da floresta, e olhando por entre as lágrimas que nublavam seus olhos ele via suas mãos limpas, sem qualquer vestígio de sangue, para só então perceber Tony ajoelhado ao seu lado, lhe olhando com feições preocupadas. Sem conseguir se conter ou ao menos pensar, Peter atirava seus braços ao redor do pescoço do homem, que deixou um som escapar de sua garganta em surpresa e estranhamento.

Peter então deixou algumas lágrimas de alívio rolarem de seus olhos, e quando as mãos hesitantes de Tony lhe tocaram as costas foi que ele percebeu o que fazia. Tão repentino quanto começou, o abraço teve seu fim, e Peter, com o rosto tão vermelho quanto possível, voltou a sua posição inicial sentado, esfregando os olhos e secando precariamente suas lágrimas.

— Pesadelos? — Tony começou, hesitante.

Peter somente assentiu em resposta.

— Quer falar sobre isso?

Peter negou.

O Stark decidiu não o pressionar sobre isso, então apenas se levantou e olhou para Peter, vendo que este já aparentava estar mais calmo. Estava um pouco surpreso com as atitudes do garoto, mas também não iria comentar nada sobre, e se Peter resolvesse que queria conversar, Tony estaria ali para ele, afinal o garoto salvara sua vida.

— Quando estiver melhor pode ir arrumando as coisas para sairmos — Tony falou. — Enquanto isso eu vou dar um jeito nesses infelizes aqui.

Mesmo temendo ficar sozinho, Peter não contestou, e logo se pôs de pé, indo reunir suas coisas e as organizar em suas bolsas.

Pouco tempo depois os dois selavam os cavalos, decidindo por fazer isso antes de passarem no rio, pois, segundo Stark, eles agora se desviariam um pouco do caminho que o ladeava, a fim de seguirem até a ponte para que pudessem atravessar o grande rio principal, Nadee.

Chegando ao rio, Tony deixou os cavalos com Peter e se pôs a lavar o sangue seco de seus ferimentos e armas, dedicando uma atenção especial ao punhal de Peter, tirando qualquer mínimo vestígio de sangue, para logo então o devolver para o garoto.

— Senhor Stark, está sangrando de novo — Peter falou ao notar o sangue escorrendo da ferida que se abrira novamente nas costas da mão de Tony. — Acho melhor enfaixar.

— Não precisa — Tony falou, inutilmente pois Peter já remexia em uma de suas bolsas e retirava de lá um rolinho de tecido para bandagem.

Mesmo sob protesto, Peter fez com que Tony aceitasse o curativo, então o tomou pela mão e limpou o sangue para enfim enrolar a faixa, a amarrando firmemente ao final.

— Pronto — Peter falou com um pequeno sorriso. — Agora não sangrará mais.

Tony olhou para o mais novo, satisfeito em vê-lo sorrir. Estivera o tempo todo desde a noite passada preocupado com o mais novo e em como a morte daquele homem impactaria na vida dele, ainda mais depois do pesadelo que tivera, o qual ele ainda não se sentira confortável em falar, mas Stark sabia com certeza que tinha a ver com o ocorrido, então vê-lo parecer bem lhe fazia estranhamente se sentir bem. Lhe fazia sentir bem também as vezes em que o garoto agia atrapalhadamente, como agora, quando finalmente havia se dado conta de que ainda tinha a mão de Tony entre as suas, então delicada mas rapidamente a soltou, desviando o olhar desconcertado para seu cavalo, que já havia terminado de beber água e pastava despreocupadamente na beira do rio.

— Vamos indo — Tony falou, tentando quebrar o silêncio estranho que se interpôs entre eles. — Encheu bem as bolsas de água?

— Sim, senhor Stark.

— Ótimo, então vamos.

Os dois montaram em seus respectivos cavalos e se puseram a andar, saindo aos poucos da mata fechada, com as árvores espaçando à medida em que avançavam para perto do rio, até que ao fim da tarde o par de viajantes se viam em um amplo espaço aberto às margens do grande Rio Nadee.

— Vamos parar por aqui mesmo hoje — Tony falou apeando do cavalo na borda da floresta. — Melhor não acamparmos muito à vista.

— Vou ir dar água aos cavalos então — Peter falou, pegando das mãos de Tony as rédeas de seu animal —, antes que anoiteça.

Livrando rapidamente os bichos do peso extra, Peter os encaminhou para a borda mais baixa do rio, aproveitando também para pegar um pouco de água para o jantar. Enquanto esperava pelos animais, Peter pegou suas anotações do dia, fazendo um pequeno esboço da área do rio, corrigindo uma coisa ou outra para depois as adicionar ao rascunho do mapa.

Suspirando o jovem Parker olhou ao redor. Já haviam se passado quase cinco dias desde que saíram, mas lhe parecia que havia sido há uma eternidade atrás, ainda mais ao contemplar tão diferente paisagem. Estar em meio a natureza era tão estranho em comparação às centenas de livros que usualmente lhe ocupava os dias, mas estranhamente lhe fazia lembrar de sua infância, de antes de ser resgatado pelo padre, lhe lembrava de casa, de sua antiga vida. Talvez essa viagem lhe trouxesse tantas lembranças por ser sua melhor oportunidade de finalmente voltar para casa e rever seus familiares, pois isso é o que vinha lhe motivando todos esses anos.

Notas finais
E então? Estão gostando? Espero que não estejam achando lenta demais a evolução da história :/ Juro que o próximo capítulo está melhor XD tá divertido (na minha opinião) e tem mais amorzinho ♥ Comentem o que acharam, o que querem que melhore e se estão gostando :) gosto de saber suas opiniões