Along The Way
8 Capítulo VII
Notas iniciais
Peter fechou os olhos e se deixou apreciar o sol morno de fim de tarde que aquecia sua pele como há dias não o fazia. Sentou-se na grama com seu bloco de anotações, alternando entre fazer seu trabalho e vigiar os cavalos, que também foram deixados ao sol para aproveitá-lo enquanto podiam, antes de terem que adentrar novamente a mata fechada no dia seguinte.
Terminando de dar os retoques finais na sua obrigação diária, Peter desviou o olhar para onde o Stark estava sentado em uma pedra também ao sol, usando outra pedra a sua frente como apoio para a ponta da espada que ele pacificamente afiava, e ao ver o que o outro fazia, uma ideia se fez na cabeça de Peter.
— Senhor Stark — chamou um tanto alto para ser ouvido.
— Hum? — Resmungou em resposta, sem deixar de fazer aquilo com que se ocupava.
— Pode me ensinar a usar a espada?
Tony dessa vez levantou seu olhar para o garoto que se colocava em pé, e franziu as sobrancelhas em estranhamento.
— Para que quer aprender? Pensei que não gostasse de ter que matar qualquer coisa — falou em um tom neutro, somente tentando entender o pedido repentino.
— E não gosto, mas… estando aqui, sabe, e passando pelo que passamos, eu vi a necessidade de ao menos saber me defender — deu de ombros e parou em frente ao homem sentado. — Pode me ajudar?
— E por que eu deveria ensiná-lo?
— Porque se eu souber me defender, o senhor não precisará ficar salvando meu traseiro se mais alguém nos atacar — deu de ombros.
Tony olhou para o rosto meio envergonhado de Peter que também sustentava um pequeno sorrisinho, provavelmente se fazendo de meigo para conseguir o que quer. E é claro que funcionou.
— Tudo bem — o Stark falou enquanto guardava no bolso sua pedra de amolar e se levantava. — Pegue sua espada e me mostre o que sabe.
Um tanto hesitante, Peter agarrou o cabo de sua espada e o puxou firmemente da bainha, a segurando devidamente pela primeira vez desde que ela havia sido entregue a si. A arma era mais pesada do que o esperado, mas nada impossível de empunhar. Segurou forte no cabo e fez movimentos circulares com o pulso, testando o equilíbrio.
— Já usou uma espada antes? — Tony perguntou, e Peter negou. — Certo, então vamos começar do zero. Isso é a lâmina, é claro — indicou em sua própria arma. — Esta é a guarda, seguida do punho e este é o pomo. Sua espada é de uma mão, então o punho é menor, nas espadas de duas mãos, ele é maior, mas isso não é importante.
Peter prestava atenção a cada mínima informação, avidamente bebendo tudo o que o Stark falava e mostrava.
— Não é importante agora porque eu não sou tão irresponsável a ponto de treiná-lo com uma espada afiada — disse enquanto guardava a sua de volta à bainha. — Vai ali no mato e corte duas varas medianas, mais ou menos do tamanho da sua espada.
E Peter o fez. Animado ele andou rapidamente até a borda da floresta e se pôs a escolher dentre as árvores jovens alguma que não fosse tão flexível e nem tão grossa. Quebrou a escolhida próxima da base, então, com uma machadinha, cortou as extremidades e dividiu o restante em duas varas medianas, como instruído por Tony.
Satisfeito com seu trabalho, Peter retornou para onde o mais velho lhe esperava, já soltando a correia que prendia sua espada e tirando das costas a aljava de flechas, os largando no chão próximo de onde estivera sentado. O Parker então parou em sua frente e lhe entregou uma das varas.
— Primeiro posicione seus pés um tanto afastados pra manter melhor o equilíbrio — o Stark começou —, deixe o pé esquerdo um pouco a frente.
Enquanto explicava, Tony assumia a mesma posição, tendo Peter copiando seus gestos, e também segurava a vara como uma espada com o braço direito flexionado e um pouco a frente de seu corpo.
— Em uma luta real, tente ficar calmo e relaxar, pois se entrar em pânico é certo que perderá — falou, e Peter assentiu. — Agora eu vou atacar, e você tenta desviar, tudo bem?
Então em um movimento suave Tony investiu, e Peter rapidamente usou sua substituta improvisada de espada de treino para desviar a de Tony, recebendo um aceno de aprovação em resposta. Então o homem voltou a repetir o gesto, dessa vez de outro ângulo e um pouco mais rápido, novamente tendo o movimento interceptado, então voltou a repeti-lo, de novo e de novo, cada vez mudando o ângulo e velocidade, até que em uma das investidas acertou o braço de Peter, que resmungou e levou a mão ao local que agora ardia.
— Ai — reclamou. — O senhor foi muito rápido.
— Em um duelo de verdade se fizer isso, você morre — falou indiferente. — Agora em guarda!
Peter reassumiu a posição, ignorando o braço dolorido. Segurou firmemente sua pseudo espada e tomou a iniciativa de atacar, dando um passo a frente no processo, mas Tony facilmente desviou sua ação enquanto deslizava um de seus pés e o passava pelo pé de apoio do garoto, que perdendo facilmente o equilíbrio, foi ao chão, caindo sentado com uma expressão surpresa no rosto.
— Se for se movimentar, nunca levante os pés, isso o faz ficar com um ponto de equilíbrio menor — falou assistindo o jovem se levantar. — Arraste os pés pelo chão em seu lugar.
Determinado, o Parker voltou a se pôr em guarda e a avançar em Tony, que habilmente desviava seus golpes e vez ou outra soltava algum comentário ou instrução.
— Em uma situação real de combate — Tony falou em meio ao ato de atacar e se defender —, fique sempre atento à sua volta, procure rotas de escape ou algo que possa o ajudar — enquanto falava, o Stark ia investindo contra Peter, o fazendo recuar e podendo somente se defender precariamente —, truques podem ser úteis também, como fazer seu oponente recuar até tropeçar em algo às suas costas, como uma pedra, por exemplo.
Peter tentava prestar atenção em tudo o que Tony falava, ao passo que dava tudo de si para desviar seus ataques, mas mesmo com toda sua concentração só foi juntar dois mais dois quando já era tarde e ele se via mais uma vez caindo de bunda no chão, dessa vez por ter tropeçado em uma pedra, como mencionado por Tony.
— E está morto — Tony disse apontando sua pseudo espada de treino para o peito de Peter. — Você deve ficar atento também às pedras e obstáculos para não tropeçar — falou entre risos por conta da expressão emburrada de Peter que levantava esfregando a mão na bunda levemente dolorida. — Forçar seu oponente a ficar contra o sol também é uma boa tática, pois a luz nos olhos atrapalha bastante. Está entendendo?
— Sim, senhor Stark — respondeu, se posicionando novamente.
Mais uma vez em ação, Tony avançou, atacando e sendo bloqueado, logo recebendo um ágil contra-ataque, murmurou alguma coisa em aprovação antes de voltar a atacar incessantemente dessa vez, acertando ocasionalmente com a vara partes do corpo de Peter, como os braços em toda sua extensão, pernas e a lateral do tronco. Usava bastante as pernas também, se movimentando agilmente e forçando Peter a se mexer também, e vez ou outra lhe dava uma rasteira ou o fazia tropeçar, e depois de algum tempo de treino o jovem já possuía traseiro e joelhos doloridos, pontos no corpo que provavelmente estariam roxos no dia seguinte e mãos raladas que ardiam contra a vara que empunhava.
— Preste sempre bastante atenção aos atos do oponente — Tony disse. — Saber ler seus movimentos pode lhe dar uma vantagem para preparar uma defesa e um contra-ataque.
Peter assentiu em entendimento, e continuou avançando, sentindo que começava a pegar o jeito. Em certo movimento, conseguiu interceptar o ataque de Tony, bloqueando o ato com sua "espada", a deslizando e girando contra a de Tony, fazendo o homem afrouxar o agarre e soltar a vara. Peter sorriu largo e radiante, se sentindo muito orgulhoso de si mesmo por ter desarmado o outro.
— Essa foi boa — Tony falou. — Mas eu deixei você me desarmar.
— Sei — Peter murmurou, sem se deixar convencer.
Mais determinado do que antes, Peter voltou a atacar depois de Tony haver retomado sua pseudo arma, e avançou incansavelmente, não se deixando abalar pelas muitas vezes em que apanhava ou caía, e para falar a verdade o garoto estava realmente se divertindo com a lição de duelo, e Tony, mesmo que não demonstrasse em seu exterior, por dentro estava gostando tanto quanto o mais novo, era divertido ver a animação de Peter, mesmo depois de algum golpe dolorido.
O sol já estava quase totalmente escondido no horizonte, Peter estava visivelmente cansado, e ambos se encontravam ofegantes pelo esforço, mas nenhum tinha a mínima vontade de parar. Continuavam naquela ação de atacar e defender, que a esta altura já havia se tornado mais uma brincadeira do que uma aula propriamente dita, e Peter ria abertamente cada vez que fazia um movimento certo, estimulado pela sensação de evolução em suas habilidades.
Se sentindo particularmente confiante, Peter atacava e avançava seus passos arrastados em direção a Tony, que sem se dar conta realmente, ia recuando para trás, até que, em um movimento que não fora planejado por Peter, acabou por tropeçar na mesma pedra em que o garoto o fizera, e igualmente cair para trás.
— E está morto — Peter falou rindo, repetindo o ato que o Stark fizera consigo, apontando sua vara de treino para o peito do homem.
— Não se eu usar um truque sujo — retrucou sorrindo ladino.
Então em um movimento rápido, Tony agarrou um punhado de terra do chão, o jogando em direção a Peter, que pego de surpresa não pôde impedir um pouco da sujeira de entrar em seus olhos, o fazendo largar a vara de qualquer jeito e instintivamente levar as mãos para a face, tentando desesperadamente tirar os ciscos incômodos.
— Assim não vale, senhor Stark — reclamou enquanto tentava limpar a vista. — Isso é trapaça.
— Em uma luta de verdade isso pode salvar sua vida — respondeu dando de ombros enquanto se levantava.
— Isso não é uma luta de verdade — murmurou, piscando freneticamente os olhos.
— Tudo bem, me desculpa — Tony disse. — Vem aqui — chamou ao perceber a dificuldade do garoto em limpar o cisco dos olhos.
Peter então se aproximou, e Tony parado em sua frente levou ambas as mãos para as laterais de seu rosto, o erguendo em sua direção, pedindo então que mantivesse os olhos abertos enquanto soprava a sujeira para fora deles. O soprar ajudou bastante, e Peter enfim piscou os olhos, aliviado ao não sentir mais nada o incomodando. Tony, por sua vez, um tanto arrependido pelo seu truque sujo que causara tal desconforto em Peter, olhava em seus olhos vermelhos e num ato totalmente sem perceber, passava os polegares por sob eles, tirando os resquícios de sujeira que ficara ali.
Os dois somente se deram conta da proximidade e contato quando, como se tivessem sido acordados de um transe, sentiram um cheiro forte de queimado, e ao mesmo tempo viraram sua atenção para a direção do fogo, onde a panela que fora deixada cozinhando o jantar desprendia uma fumaça preta. Mesmo que Tony tenha deixado seu ensopado cozinhando com água em abundância, o longo tempo em que estiveram presos em seu próprio mundo treinando fora o suficiente para a água secar completamente e queimar os ingredientes.
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