Alone

7 Vingança


Caminharam até o jardim que surpreendentemente não ficara muito longe do quarto de Jeff. Não havia como saber o quanto isso seria útil, mas ao menos pouparia planejamento. O tempo em que Lauren estava no manicômio tinha afetando sua aparência devido ao tratamento hórrido e a todos os medicamentos desnecessários. Seus olhos estavam opacos e seus cabelos sem vida, os lábios estavam esbranquiçados e seu corpo cansado. Mas algo diferente aconteceu naquele dia, depois de ferir o doutor parecia aliviada, toda a tensão que carregava em seu itinerário monótono e maçante parecia ter sido aplacado. Foi como descarregar sua dor causando o sofrimento de outra pessoa...era certo? Não, mas ao mesmo tempo se perguntava se machucar alguém como ele era de fato errado, ela podia não ter sido a primeira a sofrer em suas mãos, seria um tributo à todas as pacientes agredidas?

Pensar em dor ao lado de Jeff a fazia ter conceitos bem dissemelhantes, como se ele transmitisse um ideal túrbido e desordenado sobre a morte. Para ser capaz de matar ou agredir uma pessoa ao ponto de alegrar-se com sua agonia precisaria ter um pretexto pra causas tão irrelevantes. Ninguém se torna um assassino, não é uma transformação é uma meta ou objetivo, e se não tiver um porquê pra isso, então fracassará. O tempo todo as pessoas em volta criarão seus próprios objetivos, metas a serem alcançadas que por alguma razão nem sempre são utilizadas de maneira correta. Qual o objetivo de alguém que estudará sua vida inteira apenas pra se tornar um individuo narcisista centrado em suas próprias vontades? Se uma pessoa assim diz que um assassino é pobre, estaria se atacando verbalmente? Se pararmos pra pensar, todos somos assassinos, pelo menos uma vez na vida tiramos a vida de um ser, nem que seja uma mera mosca, ainda assim não a torna uma vida mais insignificante. A arrogância tem cegado as pessoas fazendo-as pararem de se importar com o próximo, a importância talvez seja o primeiro passo pra mudança. Importância. Só algo que importe de verdade pode fazer com que nossa zona de repugnância não possa se estender.

Estavam em frente ao portão que levava ao jardim, mal entraram no local e Jeff já vasculhava com o olhar cada canto que tinha entendimento. Rachel parecia não gostar de ir ao jardim, já estava acostumada em trabalhar nessas condições, mas o ambiente transmitia algo ruim. Alguns internos os olharam adentrar o local, Lauren estava andando logo atrás olhando pro céu. Fazia tempo que não tinha aquela visão, quando se vive normalmente sem se envolver em situações como as dela talvez nunca se valorize um ambiente como esse, mas no momento não tinha sensação melhor do que aquela. Imaginou que sentiria a mesma coisa ao conquistar sua liberdade.

– Venham, vamos se sentar ali. — disse Rachel apontando pra uma mesa de concreto com quatro acentos. Isso a lembrou as mesas de parques onde costumava fazer um piquenique com sua família.

Jeff continuava olhando todo o local, parecia concentrado, e por vez até empolgado por ter descobrido algo.

Foi andando até a mesa quando sentiu uma mão em seu tornozelo, o que a fez se assustar caindo pra trás em cima de Jeff.

– O que pensa que está fazendo, Cresswell?! — falou irritado a empurrando pra frente.

– D-d-desculpa...

Ela se virou vendo quem tinha a assustado e viu uma mulher de aproximadamente 40 anos, ou no mínimo estava desgastada demais pra aparentar ter essa idade. Era loira e seus cabelos eram totalmente bagunçados, sua pele era clara e amarelada, seus braços tinham arranhões e curativos por toda parte, e carregava com si uma boneca suja e maltratada, sem seu braço esquerdo e com o rosto manchado de tinta.

– Rachel...quem ela é? — perguntou voltando a andar depois do susto.

– O nome dela é Anastasia, está aqui a uns 8 anos.

– Nossa...é muito tempo. O que aconteceu?

– Não sabemos sua história, mas ela veio pra cá após matar sua filha recém-nascida por acidente. Talvez seja o motivo de ter ficado assim...

– Ela parece perturbada...

– Ela só é louca. — disse Jeff.

"Olha quem fala..."

Se sentaram e Jeff já tratou de ir direto ao ponto.

– Enfermeira, já realizaram uma fuga antes de nós por aqui?

– Não que eu saiba...

– Mas eu sei, digo com certeza que já realizaram uma fuga.

– O que está tentando dizer Jeff? — perguntou Lauren curiosa.

– Primeiro: tem vigias nos quatro cantos do manicômio, todos em locais altos que deem a visão de toda a região, impedindo que alguém entre ou saia sem ser notado. Eles não tomariam medidas como essa se já não tivesse ocorrido algo no passado, mas não é só isso. Tem muitos pontos por aqui que me fazem achar que possa ter uma passagem subterrânea, feita pelos próprios internos que realizaram uma fuga a anos atrás.

– Agora que você falou eu reparei algo parecido mesmo...

– E o que é?

– Tem algumas portas isoladas que dão a entender que levam a um porão ou algo assim...

– E quem tem acesso?

– Só os vigias que você citou.

– Bingo!

– O que foi? Percebeu alguma coisa Jeff?

– Enfermeira, és de fato burra.

Por um momento Lauren sentiu vontade de rir pelo tom de voz que ele usou, mas continuou quieta.

– Fala logo! — disse aborrecida.

– Antes eu disse que acreditava que no passado alguns internos realizaram uma fuga, agora posso dizer que algumas fugas podem ser realizadas até hoje.

– Como assim?

– Pelo mesmo motivo que mantém a sensatez de todos os fracassados que trabalham por aqui: o dinheiro.

– Está se referindo a suborno?

– Sim, são subornados.

– Seria fácil fugir se o problema fosse só o dinheiro.

– Mas não é. A quantia deve ser muito alta, nem trabalhando a vida inteira em seu emprego mesquinho conseguiria chegar perto do que eles recebem.

– Como sabe disso Jeff? — perguntou Lauren, curiosa.

– Já estive em outros hospitais psiquiátricos e usei vários métodos para sair de lá. Mas esse é de longe o hospital mais divertido... — falou rindo cinicamente.

– Como assim divertido?

– Conheci uma pessoa que come mãos, tem algo mais grandioso que isso?

Para de tentar fazer piadinhas.– protestava em seus pensamentos.

– Mas como veio parar nesse?

– Vingança.

– Quer se vingar de alguém?

– Não, mas alguém se vingou de mim.

Irônico, ambos conheciam a vingança mas estavam em lados diferentes sobre ela.

– Quem?

– É uma longa história, não temos tempo pra isso. E nem lhe diz respeito.

– Tá bem...

– Enfermeira, prepare-se.

– Como assim?

– Invadiremos o suposto porão hoje à noite.

Continua...