Alone
2 Tratado
***
Rachel caminhava até o fim do corredor para conhecer o novo interno. O local por onde ela andava era direcionado aos pacientes com casos psiquiátricos mais graves, então já sabia o que esperar de Jeffrey. O sanatório não era um lugar muito comentado pela cidade, as coisas não eram fáceis por lá e todos os dias encontravam pacientes com os casos mais absurdos possíveis. Conforme andava conseguia ouvir gritos vindo de algumas salas, a maioria deles não dormia a muito tempo devido seus pesadelos que os perturbavam. Muitas vezes era desconfortável andar pelo local e até mesmo ajudar a medicar os pacientes, mas nunca chegou a julgar o porquê deles estarem ali. Afinal, sua amiga também estava, e no caso dela nem foi sua culpa.
Chegou em frente ao quarto vendo uma placa com o nome de Jeffrey Woods. Abriu a porta tendo a visão de um homem deitado ao chão olhando pra parede à frente. Ele também estava em uma camisa de força, mas seu corpo parecia bem mais relaxado do que de outros internos que usavam, como se já tivesse se acostumado com a situação. Ainda não tinha visto seu rosto, apenas teve a visão de seus cabelos escuros.
– Vai ficar aí parada me olhando, enfermeira? — perguntou ele, em um tom rude.
– Desculpa...sou Rachel, uma das enfermeiras que irá cuidar de você.
– Não preciso de cuidados.
– Precisa sim, senhor Woods. Estou aqui para medica-lo.
Ele começou a rir compulsivamente, a assustando. Um calafrio percorreu seu corpo no mesmo instante, mesmo fazendo de tudo para manter sua pose diante dele. Sua voz era grossa, não exageradamente, mas era assustadora, principalmente pra quem já conhecia sua reputação.
– Se eu quiser posso te matar agora, com ou sem essa camisa de força, nada me impediria. Caso ainda tenha amor por sua vida, sugiro que peça para outro enfermeiro se encarregar disso, mesmo ele tendo o mesmo destino que você. — disse parando de rir aos poucos.
– Não, não farei isso. — protestou, tentando se mostrar determinada.
Ele ficou em silêncio ao ouvir isso, o que a fazia sentir ainda mais medo do que quando ele falava. Virou seu rosto pra moça lentamente, ela não sabia o que ele faria então continuou perto da porta, caso algo acontecesse. Começou a ter uma visão completa de sua face, olhando sua pele exageradamente branca, um largo sorriso sangrento escupido em seu rosto e seus olhos tão negros quanto seus cabelos causados por queimaduras em suas pálpebras. Em sua ficha não havia nada que justifica-se o corte e as queimaduras, mas com certeza era algo que despertava a curiosidade de qualquer um que o visse, embora os espantassem na maioria das vezes.
– Como é? — perguntou de forma despreocupada, que pra Rachel soava mais como um: "Tá querendo morrer vadia?".
– E-eu tenho que te medicar, é meu trabalho, e tenho que fazer isso nem que precise do auxílio de outros profissionais. Mas podemos fazer um acordo, Woods.
Seu sorriso forçado se abriu ainda mais, de uma forma cínica.
– Um acordo? Pois bem, diga quem eu devo matar.
– N-não é isso. — respondeu nervosa — É que eu posso precisar de sua ajuda...
– E por que eu ajudaria você, mera moral?
– Não é exatamente a mim, mas sim, a minha amiga...
– E o que sua amiguinha, que também é uma mera mortal, pode estar querendo comigo?
– Pare de me interromper, fazendo o favor. — falou começando a se zangar — Minha amiga está aqui a meses, foi acusada injustamente e agora está nesse inferno passando pelos piores tratamentos que você possa imaginar. É claro que pra você isso não faz diferença alguma, mas pra mim faz, e é por isso que estou aqui...vou ajuda-la a fugir, mas não sou capaz de fazer isso sozinha, e nem ela nessas condições. Precisamos de você para nos ajudar a armar uma fuga, então pense bem no assunto, pois acho que não irá querer passar o resto de sua vida nesse lugar, ou vai?
– Por que eu confiaria em vocês? Ou melhor...por que vocês confiariam em mim?
– Ninguém confiará em ninguém aqui. Mas não tem como sair daqui sozinho, e no fundo até você sabe disso, pense bem, essa é a escolha mais inteligente...o que acha Jeffrey?
– Me chame só de Jeff.
– Ok...e então, Jeff?
Jeff sempre pensava bem antes de responder, passava uma imagem de ser ardiloso apesar da maioria das vezes agir por impulso.
– Pois bem, temos um acordo enfermeira.
– Meu nome é Rachel.
– Foda-se, enfermeira. Mas se quer mesmo que isso dê certo, terá que arrumar um jeito de me fazer encontrar pessoalmente com a maluca da sua amiga.
– Por que?
– Você é sempre burra assim? Não podemos planejar uma fuga à distância! Espero que sua amiga seja mais esperta que você, caso contrário não me impressionaria você estar aqui pedindo ajuda.
Eu só não mando esse infeliz pro inferno porque valorizo a minha vida...
– Tudo bem, Jeff. Como quiser. — disse ironicamente.
– Ah, mais uma coisa. Nem se atreva a me encher de remédios ou algo do tipo, caso contrário, te matarei na primeira oportunidade.
– O-ok...ahn...
– O que é agora?
– Não quer que eu retire a camisa de força?
– Não, está confortável aqui. — disse se virando pra parede branca..
***
Jeff...eu acho que me lembro desse nome.– pensava — Na adolescência tinha muitos boatos sobre ele pela internet, alguns o admiravam outros o temiam. Mas será que se trata do mesmo Jeff...? Não imaginei que um dia o encontraria, muito menos nesse lugar...
Lauren estava encostada sobre a parede olhando pro teto. Nem se dava ao trabalho de tentar pegar no sono, suas olheiras escuras que se destacavam em sua pele pálida mostravam que fazia tempo que não sabia o que era ter uma noite tranquila. Nas raras ocasiões em que conseguia adormecer, tinha pesadelos que faziam-a acordar aos prantos. Era horrível não possuir a paz nem mesmo em seus sonhos.
Para alguém tão falante como ela, a mudança era notável, era uma vida solitária e dolorida. Não que sua vida social fosse um sucesso, na verdade estava entre sua coleção de fracassos. Mas as vezes encarava a situação de outra forma...notava o quão vazia é sua vida e quão sem sentido era ela estar naquele lugar. Mas quem a ouviria, não?
Tentava manter sua mente forte o suficiente para não enlouquecer de verdade. Era mais fácil admitir logo que o tempo não curaria isso, e mesmo que sua vingança não mude o que aconteceu, tinha esperança que a confortasse. As vezes era irônico como ela sentia falta dela mesma, da pessoa que um dia foi e que agora parece ter abandonado seu corpo por completo. Seus pensamentos eram resumidos em caos, uma bagunça que a fazia perder o controle.
Jeff...será que você poderá me ajudar?
Continua...
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