Alone

3 Embate


Lauren levantou seu rosto ao ver alguém abrindo a porta. Estranhou o fato de Rachel ter voltado ali, nesse horário o único barulho que ouvia pelo corredor é vindo de outras salas. As piores coisas pareciam acontecer por aquele corredor, mas nem se lembrava a última vez que saiu pra conferir.

– Rachel? Estou surpresa em te ver aqui...

– Acabei de sair do quarto do Jeff.

– Jeff? Já estão com essa intimidade toda?

– Nem brinque com isso, o cara é sinistro.

– O que falou com ele?

– Só falei sobre a fuga, ele não me deu a oportunidade de perguntar mais nada. Mas ele quer te encontrar.

– Me encontrar?

– Sim, pra discutir sobre a fuga.

– Entendo...mas como faremos isso? Perceberão algo estranho se virem nós conversando.

– Eu sei, mas acho que posso ajudar com isso.

– O que é?

– O refeitório...

– Aqui tem um refeitório? — cortou Lauren.

– Tem, Lauren.

– Caramba, nunca me deixaram ir lá.

– Mas acho que posso dar um jeito de você e Jeff se encontrarem na hora do almoço amanhã, mas eu terei que ficar por perto, pra aparentemente supervisionar vocês dois.

– Certo, mas vão deixar eu sair daqui?

– Sim, se você apresentar uma melhora. Se aceitar passar por algumas consultas psiquiátricas é possível que eles comecem a autorizar sua saída desse quarto mais vezes, você precisa se alimentar melhor e talvez pegar um sol...

– Consultas psiquiátricas? Parece um saco...mas tudo bem, é necessário.

– Ok, eu vou tentar convencer um dos médicos a deixar que você possa se alimentar fora do quarto. Quanto ao Jeff, sendo seu primeiro dia vivendo aqui, eles vão autorizar obviamente, mas ficarão de olho em seu comportamento, se ele fizer algo peculiar vai pra solitária por um bom tempo.

– Entendi, eles vão avaliar a personalidade dele.

– Exato.

– Rachel...por que ele veio parar aqui? Faz tanto tempo que ele é assassino e o pegaram agora?

– Como sabe que ele é um assassino?

– Na época de escola eu lia algumas coisas sobre ele na internet, mas não tinha muitas informações.

– Bom, ninguém sabe o que aconteceu quando o encontraram, os policiais que conseguiram o levar até a delegacia foram mortos repentinamente, então não tem nenhum depoimento que explique sua aparição. Também saiu várias notícias pela internet, a maioria fofocas. Mas a verdade ninguém sabe, ele não fala nada, e nem parece se incomodar em ficar um tempo por aqui. Quando o trouxeram até aqui ele já estava sobre uma camisa de força e com uma mascara cobrindo sua boca, fora isso, não sei de mais nada que seja útil pra nós.

– Tudo bem...acho que saber disso já é relevante. Pode preparar tudo, estarei pronta pra conversar com ele.

Viu a loira sorrir simpaticamente saindo do local. Era estranho saber que sairia mesmo daquele quarto, não que tivesse se acostumado, mas saber que iria dividir o mesmo espaço com pessoas com transtornos mentais era inquietante para alguém que não tinha nenhuma problema relacionado. O pior era ter que lidar com Jeff, não sabia como ele era mas pelo o que sua amiga contou, parecia ter uma personalidade difícil.

Fechou os olhos relaxando, deixou que sua mente mais uma vez a levasse para outro ambiente, longe de crimes e sentimentos insensatos, simplesmente apagando seus conflitos internos e aquietando seu desespero. Aquela sensação de culpa, dos julgamentos distantes...tudo estava sendo sufocado por seu silêncio tranquilizador. O silêncio era seu aliado quando fugia de sua realidade sombria, muitas vezes tornava-se um sentimento viciante, fazendo-a buscar por ele em cada um de seus momentos de desordem.

No dia seguinte Lauren esperava Rachel a buscar levando-a para o refeitório. Estava faminta, e como não tinha uma forma de ver o horário, só sabia que estava na hora das refeições por ouvir a movimentação no lado de fora. Ouvia uma pessoa gritando no quarto ao lado, pela voz uma mulher. Parecia estar sendo arrastada pelos enfermeiros, mas aos poucos se aquietou, provavelmente sendo sedada. Só quem passava por isso todos os dias sabia o quanto era desconfortante, até mesmo para alguém que continha uma doença.

Rachel abriu a porta para leva-la, pelo seu sorriso o plano estava dando certo. Um enfermeiro ficou na porta esperando que ela livra-se Lauren de qualquer coisa presa ao seu corpo, deixando-a livre por curto prazo.

Saíram do quarto andando pelo grande corredor, parecia ter mínimas mudanças desde que Lauren chegou ao hospital. Observava as pessoas perambulando por ali, a maioria médicos e enfermeiros que as vezes a perguntavam como estava e outras vezes, simplesmente lançavam um olhar cansado, como se estivessem em seus trabalhos por obrigação e sem qualquer estímulo. As paredes claras, os pacientes, os enfermeiros...parecia a fotografia de um filme antigo e melancólico, os corredores assemelhavam uma imagem distorcida e cinzenta. Cada rosto exausto que caminhava pausadamente pelo corredor que parecia infinito mostrava uma realidade diferente, almas sofridas repletas de dores desnecessárias. Só quando se passa a viver em um lugar como esse, você descobre a realidade sobre as pessoas à sua volta.

Quando finalmente chegaram ao refeitório, pode ouvir um barulho alto de conversas acumuladas pelo lugar. As mesas e cadeiras eram organizadamente distribuídas, algumas quebradas e rabiscadas com desenhos feitos pelos pacientes. O enfermeiro que acompanhou-as se retirou indo pro lado oposto delas. Era de fato um refeitório muito grande, a divisão do local foi adequadamente feita para que alguns pacientes que gostassem de se isolar pudessem se sentir a vontade distante dos outros grupos. Todos os pacientes usavam as tipicas roupas brancas ou de algum outro tom claro com tecidos baratos e comuns.

– E então, onde está Jeff? — sussurrou.

– Está logo ali. — indicou Rachel a guiando.

O lugar que Jeff escolheu pra se sentar era totalmente afastado, ele parecia desprezar a companhia de qualquer um ali presente. Quando se aproximou vendo seu rosto ficou se perguntando o porquê dos cortes e queimaduras, a principio se assustou um pouco, não só por sua aparência mas pela sua limitada expressão de desgosto. Ele virou seu rosto ao ver a garota ficar frente à mesa em que ele se sentara. Ela não demorou pra entender o porquê do local, no refeitório tinha câmeras pelos cantos mas na cadeira que Jeff se sentava ninguém conseguiria fazer uma leitura labial, assim podendo ter certa liberdade pra se comunicar. Também ficava distante o suficiente pra que ninguém pudesse ouvir o que dizia, além de ter uma enfermeira por perto que ajudaria ainda mais a manter a fachada.

– Jeffrey, essa é Lauren Cresswell. Lauren, esse é Jeffrey Woods.

– É um prazer conhece-lo, Woods.

– Eu imagino que sim.

Continua...