Alone

19 Tormento


Notas iniciais
Me desculpem a demora pra atualizar, estava com problemas de saúde, então quando arrumei tempo vim correndo terminar esse capítulo qq (confesso que já pensei que havia perdido o jeito pra escrever hahah). Bom, essa história toda da Lauren/Rebecca talvez fique confusa agora, mas no próximo capítulo irá mostrar melhor e talvez vocês entendam esse processo psicológico na vida da personagem. Boa leitura.

Logo, a mente de Lauren foi tomada pela desordem e inúmeros pensamentos sem sentido. O cheiro de tinta havia adentrado suas narinas tão mais forte do que quando havia chegado ao local. Uma tontura verteu sua visão, fazendo com que cada parede ou objeto antes parado naquela sala começasse a girar a cada passo que dava se distanciando da escada onde Rebecca ainda se mantinha petrificada.

Tudo girava, e nem ao menos se arriscaria a fechar seus olhos para tentar despistar tal desconforto. O enjoo que surgia a fazia tampar sua boca enquanto seu corpo completamente bambo tentava ser guiado sem sucesso até a porta de saída. Com os pés desajeitados tropeçou em uma tela caindo sobre o chão, a pintura ainda não acabada passou a ser o alvo de sua atenção quando resolveu se sentar antes de voltar ao planejamento inicial de sair daquela casa perturbada.

Suas mãos com agilidade foram em direção à tela de pintura, onde a ergueu exatamente na altura de seu rosto a aproximando para que sua visão embaçada fosse capaz de reconhecer os traços ali feitos. Era um rosto feminino, com a boca aberta e tão embaçada como o resto da face ainda não concluída. O que havia dentro dos olhos eram similares à ruídos de tv, preenchendo toda a área sem deixar amostra nem ao menos a órbita dos olhos. Não sabia se por estar enjoada e com mal estar não estava vendo a pintura preta e branca com bom grado, mas aquilo era bem estranho até pra ela que não possuía dotes artísticos.

Os pensamentos confusos voltaram, e suas mãos suadas lentamente tentavam trazem a tela pra baixo para que pudesse mirar seu olhar na direção da escada onde, anteriormente, Rebecca estava. Antes de sua visão sair da tela, as mãos de Rebecca a seguraram obrigando-a a continuar olhando para a pintura, e em questão de segundos a cabeça de Rebecca atravessou o rosto que era estampado na tela e se jogou em cima de Lauren. Quando suas costas atingiram brutalmente o chão seus braços e pernas imediatamente se prepararam para atacar Rebecca tirando-a de cima de si. Mas algo ainda mais estranho aconteceu: ela não estava lá, foi como...se tivesse entrado em seu corpo quando atravessou a tela.

Assustada, ergueu seu tronco e divisou a tela de pintura que agora estava branca, mas nem um pouco perfurada como se tivesse acabado de ser transpassada. Aquilo, definitivamente, era loucura. Mas a pergunta era: de qual parte? A loucura estava na mulher que, possivelmente, entrou em seu corpo. Ou em si mesma julgando o que acabou de vivenciar? O que Rebecca era? E o que ela tinha a ver com isso?

— O que está acontecendo? — Murmurou em meio à aquela respiração acelerada e assimétrica, sua voz era dividida entre a preocupação e a irritação, aos poucos estava perdendo o controle de suas ações e agindo impulsivamente.

Impaciente, mesmo ainda não tendo voltado ao normal, ultrapassou a porta correndo para o lado de fora sem se preocupar com quem a visse pela frente. Corria. Corria exaustivamente torcendo para não vomitar ali mesmo. Precisava encontrar Jeff urgentemente. Ele era anormal o suficiente para explicar outra anormalidade, não que isso fizesse pleno sentido, mas em seu estado isso não vinha ao caso, queria uma explicação urgentemente para aquele acontecimento.

"Que sorte eu tenho!" gritava em sua mente a cada passo em falso que dava, apoiando-se nas árvores durante o caminho inteiro, até por fim chegar ao seu local de treino, onde nunca ficou tão feliz ao ver o "demônio" em pessoa, Jeff The Killer.

— Jeff! — Gritou acelerando os passos até ele, extremamente agitada.

— Você se atrasou novamente para o treino. Não que eu adore te ensinar essas coisas, mas se não aprender irá acabar morta quando for atacar. E se isso não acontecer mas você falhar e por meu plano em risco, então eu mesmo te matarei. Basicamente, seu destino será miserável se não começar a me ouvir daqui em diante. — Zombou sentado com a perna sobre a mesa onde ficava suas armas, brincando com uma faca simples que passava entre seus dedos na mão direita.

— Cala boca Jeff! — Continuava a gritar.

— Olha só, alguém acordou de mau humor. — Soltou uma risada fraca entre um sorriso entreaberto. — Posso saber o motivo desse alvoroço?

Sem paciência para continuar a aturar o sarcasmo de Jeff e, tentando buscar sua atenção, tirou a faca que ele mantinha em mãos a jogando para longe no meio de arbustos. Ele olhou o objeto sendo arremessado com o mesmo tédio de sempre, mas finalmente olhou em seus olhos e resolveu escutar o que ela tinha a dizer.

— Jeff, algo estranho aconteceu. Eu preciso de uma explicação pra isso porque eu sinto que estou cada vez mais aflita e isso está me sufocando. — Colocou as mãos sobre a cabeça, com os olhos arregalados e a boca aberta ajudando-a a respirar melhor.

— Pare de rodeios e fale logo. — Disse cerando o cenho.

— É a Rebecca, tem algo muito, muito​ estranho com ela!

— Desde quando tenho algo a ver com a vida de sua amiguinha imaginária?

Ao ouvir aquilo, ela simplesmente parou e encarou Jeff ainda mais desentendida.

— O que disse?

— Não vou repetir não. — Sorriu mostrando falsa simpatia.

— Hoje eu fui até a casa onde ela me disse que morava, lá tinha umas pinturas, coisas estranhas e teve um momento em que ela...pareceu entrar no meu corpo. Se você sabe de algo me diga! Fale porque eu estou agoniada com isso tudo! O que ela é?!

— Quer mesmo saber o que ela é? — Perguntou rindo divertidamente.

— Quero!

— Você.

— Jeff para de brincadeira e fala logo. — Voltou a alterar seu tom de voz, exaltada.

— Embora eu adore zoar sua cara de sonsa, dessa vez estou dizendo a verdade.

— O que quer dizer?

Ele se levantou andando até ela e dando sem delicadeza, um peteleco em sua testa.

— Tudo estava bem aí em sua mente.

— Está inventando!

— Não seja tola. Se fosse para inventar algo eu diria alvo mais realista, como afirmar a existência dos unicórnios. — Ironizou, sorrindo cinicamente.

— Para de tentar me enganar! Você é tão confiável quanto uma serpente. Por que eu acreditaria nisso? Não faz o menor sentido.

— Ela entrou no seu corpo e você acredita mesmo que afirmar que ela seja um demônio ou espírito faz mais sentido do que admitir que é tudo obra de sua mente?

— Mas...eu salvei ela de ser estuprada.

— Você se salvou de ser estuprada.

— E quando eu a encontrei no cemitério perto dos túmulos dos meus pais?!

— Você falou sozinha o tempo inteiro. Bem, não tão sozinha...mas não entendo a cabeça de gente louca né?

Não, magina!

Antes que pudesse dar conta, estava chorando. Era um péssimo hábito chorar de raiva, era algo impulsivo pelo qual ela detestava demonstrar, mas sua ira era bem maior do que a demonstração de fraqueza estampada em suas lágrimas, mas a verdade é que nem sabia mais o que sentir. Não acreditava em momento algum que isso fosse verídico. Ela...não estava tão louca assim. Definitivamente não chegou a esse nível, não era possível...

— Sabe Lauren — Continuou Jeff. — fico um pouco desapontado por você não ter aprendido nada que te ensinei até aqui. — Mostrou uma falsa expressão decepcionada.

— D-do que está se referindo?

— A mente é capaz de coisas absurdas. Por isso eu me transformei no que você vê diante de seus olhos. E você também está se transformando em algo desconhecido, não acha? Só está se negando à isso. Rebecca foi você esse tempo inteiro. Enquanto sua mente adormecia, outro lado despertava e você se tornava ela. Ela sempre estará em todos os lugares, você não pode fugir de si mesma então aprenda a conviver com isso. Não há como dizer quantas personalidades diferentes habitam em uma única pessoa, pois o ser humano vive de aparências, nunca saberá como alguém realmente é. Nem si mesma.

— Cala boca, Jeff! — Gritou, correndo até a cabana e o deixando parado e pensativo. Aquilo estava sendo interessante. Interessante e divertido para Woods, muito divertido. Era engraçado pra ele ver as pessoas daquele jeito...beirando a insanidade. Sempre soube causar esse tipo de reação, mas vê-la se fluindo assim tão naturalmente, diante de seus olhos, era algo belo. Era como uma autodestruição. Quando se beira à histeria, está destruindo a si mesmo. Não há nada pior do que não ter mais salvação, mas Jeff adorava isso, orgulhava-se de corpo e alma, se é que possuía uma.

Depois de invadir a cabana correndo pelos corredores e chutando tudo o que visse pela frente, ela abriu a porta de seu quarto se jogando na cama. Sua cabeça estava afundada no travesseiro soltando urros raivosos, mesmo não aliviando sua raiva por completo. Raiva, que ao mesmo tempo abria espaço à aflição. Muitos tem medo de demônios, espíritos, relatos sobrenaturais...o maior perigo para a garota no momento, era a própria mente. Onde seu cérebro podia chegar? Quantas personalidades podiam assumir seu corpo sem que percebesse? Jeff era real? O que mais podia ser fruto de sua imaginação? Eram perguntas que ecoavam por sua mente, sem respostas e sem fim. Nada do mundo pode ser mais assustador do que o que você mesmo é capaz de criar. Cada cenário em sua mente pode ser de beleza ou horror. A vida de Lauren tornou-se sombria, sua mente também se corrompeu. Aquele tempo no manicômio, os gritos dos pacientes, o quarto sufocante, a solitária, os medicamentos...tudo isso é capaz de corromper alguém. Ela sabia de quem pertencia a culpa por tudo de podre que rodeava sua vida. Não era mais só questão de se vingar, estava bem além disso...

— Quando isso acabar...eu também devo morrer. — Exclamou em seu quarto, desejando dar um fim à isso tudo.

— Não se preocupe, posso fazer isso pra você. — Rebateu Jeff, abrindo a porta sem aviso. Isso a assustou por um momento, mas logo bufou irritada pelos hábitos desagradáveis do rapaz.

— O que faz aqui?! E por que não bate nessa maldita porta, desgraçado?

— Por que estou em minha casa, irritadinha. Mas não é disso que vim falar.

— Então o que é? Fala logo e vaza.

— Seu titio está na cidade. Não é uma notícia ótima, Cresswell?

Continua...