Alone
9 Sensações

A partir de hoje, torna-se livre. Para Jeff, era uma sensação vaga e passageira. Mas para Lauren, seria um recomeço, ou dependendo de como as coisas sucedessem, um fim. Não estava se preocupando em como as coisas fossem sair, ou com seu desejo de vingança. Passou a ver seu alvo com sede de justiça, se vingar não mudaria o que aconteceu, mas daria um fim a todo o sofrimento causado não só em sua família quanto em outras que sofreram os mesmos ataques de seu tio.
Corriam pela passagem buscando por seu fim. Respirava com dificuldade, acelerando mesmo com seu corpo implorando por uma interrupção. Em alguns momentos, se viam tendo que escolher uma direção, contando com a sorte pra não se esforçarem em vão. Nos túneis escuros e imundos, os únicos barulhos que ecoavam eram de seus passos apressados e suas respirações pausadas. O suor em seus corpos escorria, anunciando que suas forças estavam a se diminuir brevemente. Até mesmo Jeff, que fugia inúmeras vezes, estava desejando uma pausa ligeira para recuperar as energias que seu corpo tanto pedia. A ação estava sendo efetuada com tanta rapidez e impulso, que desde que começaram a fugir, não trocaram uma única palavra. Parecia mais um labirinto, e a falta de luz só dificultava a escolha dos caminhos sugeridos.
Depois de um tempo alterando atalhos, conseguiram ver uma luz de longe, vindo ela de uma janela em uma altura aceitável. Sorriu indo até em direção o mais rápido que podia, se enchendo de esperanças. Ele ainda com a faca em mãos, corria rápido, chegando em frente e finalmente podendo pausar por um segundo. Lauren o alcançou, parando de correr exausta. Descaiu seu corpo pra frente colocando as mãos em seus joelhos servindo de apoio pra sustentar seu peso, respirando com dificuldade.
– Conseguimos... — comentou com a voz fraca.
Ao se recuperar minimamente, Jeff a olhou finalmente se pronunciando.
– Pode ir primeiro. — lançou seu braço em direção à janela.
Ela sorriu, pensando que seria talvez a única atitude nobre de Jeff desde que o conheceu. Se aproximou da parede pronta para subir passando pela abertura, quando foi puxada pra trás sem a dar tempo de protestar.
– Você é idiota ou o quê?
– Mas você acabou de me dizer pra eu ir primeiro.
– Eu menti.
– Qual é o teu problema? — lançou um olhar furioso.
– Nenhum, só não quero que uma pirralha como você me impeça de fugir como planejei.
O sarcasmo de Jeff sempre a aborreceu, mas ele parecia se divertir com isso.
– Vai logo... — sussurrou — Versão mau feita do Coringa...
– O que disse?
– Ahn...nada. Pode ir primeiro.
A ignorou erguendo seus braços, segurava a janela enquanto pressionava seus pés na parede erguendo seu corpo pra alcançar. A brecha era grande o suficiente pra passar por ela sem muita dificuldade. Jogou sua faca pra fora enquanto terminava de sair, vendo um matagal não muito alto à frente.
– Jeff? Você conseguiu?
– Claro que sim, ficou cega?
Revirou os olhos repetindo o mesmo procedimento, apesar de ter um pouco a mais de complicação em seus movimentos. Saiu observando Jeff sentado olhando pra sua faca, perto do mato.
Era isso...eles haviam conseguido. Tornaram-se livres, apesar de foragidos.
Pelo barulho vindo de fora, pareciam estar perto de alguma rodovia, algo arriscado pra quem acabou de fugir e provavelmente está sendo procurado pela região. Se seus cálculos estivessem corretos, teriam que dar a volta pra chegar até a cidade, isso é, se for isso que eles decidirem.
– Jeff...pra onde nós iremos?
– Nós? — riu.
– Sim...algo errado?
– Lembra-se de nosso trato passado?
– Sim, mas...
– A fuga. Só tínhamos alguma ligação por causa da fuga. Não estou interessado em saber o que pretende fazer agora que saiu daquele lugar, mas certamente não será comigo envolvido.
– Jeff, eu preciso de sua ajuda.
– Mais do que eu já ajudei? Acha que pretendo bancar o bom samaritano?
– Olha, nesse tempo em que me ajudou, ajuda pela qual sou muito grata, percebi toda sua capacidade, sei que é o único capaz de me ensinar o que sabe.
– Acha que eu vou parar minha vida pra te ensinar a se tornar uma assassina? Pelo o que me lembro, você tem nojo de pessoas como eu, estou errado em pensar isso?
– Eu tinha, até me tornar uma. Quando eu ataquei aquele médico...quando eu vi aquelas pessoas morrerem...eu fiz parte daquilo. Eu estava lá. Me tornei algo como eles, algo que nunca desejei me tornar, mas que farei o sacrifício de ser pra poder efetuar minhas metas.
– Metas? Se quer saber, vingança é uma perda de tempo.
– Pode até ser, mas sei que até mesmo você pretende se vingar de quem o deixou naquele lugar. Estou errada em pensar isso? — ironizou.
Ele se irritou com seu tom zombador.
– Cale a boca. São situações diferentes. Não estou atento aos motivos de querer mata-lo, e sim pelo prazer que sua dor irá me proporcionar.
– Pois eu também, apesar de ser involuntariamente. Quando eu ataquei...não era eu mesma, era uma parte de mim que eu não conhecia.
– É sempre assim que um monstro se revela.
– Não me importo mais com títulos do tipo, eu preciso que me ajude...estou lhe pedindo Jeff.
– Já disse que não. Agora deixe-me em paz. — disse andando pela mata.
– Jeff! — correu tocando seu ombro.
A persistência dela estava esgotando sua paciência, e quando viu, já tinha fechado seus punhos e acertado a boca da garota. Não se arrependeu do ato, ela não era diferente de suas outras vítimas, tanto faz o que teria a causado. Se virou andando pelo mato, satisfeito. A noite voltaria a fazer o que tanto lhe excitava...matar.
Sem forças suficientes pra ir atrás, fitou Jeff desaparecendo de sua vista. O sangue escorria em seu queixo manchando suas vestes enquanto tocava delicadamente o local dolorido. Ele era de fato rude, mas ela não desistiria tão facilmente, mesmo que pra isso acabasse machucada como estava. Se levantou, decidindo escolher um rumo. A primeira coisa a fazer seria conseguir uma roupa, ser vista com os trajes do hospital psiquiátrico não daria uma boa impressão a quem passasse. Refletia sobre o que fazer agora que estava solta, mesmo que conquistar a liberdade tenha sido a parte mais trabalhosa, saber como utilizada ainda era um desafio. Continuou andando, quase chegando até a cidade, mantendo uma distância pra passar despercebida. Estava chegando perto à um ponto de ônibus, quando ouviu alguns gritos, procurando um jeito de espionar.
– Não, por favor... — a mulher gritava, chorando desesperada. O homem próximo a seu corpo, forçava a tirar sua roupa contra sua vontade. Com uma jaqueta de couro, e uma moto não muito longe de onde estava, o rapaz procurava uma maneira de estupra-la.
Em momentos como esse nunca terá alguém pra nos ajudar...– pensou assistindo a cena.
Rasgou a blusa da mulher enquanto ela tentava o afastar com golpes não tão bem sucedidos. Lauren pensou por um tempo, e começou a agir antes que não pudesse impedir a tragédia. Rasgou parte de sua camisa formando uma tira com o tecido, e se aproximou sorrateira. Assistia ele beijar o corpo da moça sentindo o cheiro de bebidas e cigarros de longe, enquanto as lágrimas da vítima não paravam de descer pelo seu rosto. Se aproximou ficando atrás do homem, que logo sentiu sua presença, se virando.
– Ora, olha o que temos aqui... — sorriu malicioso olhando suas curvas.
– Se afaste dela.
A mulher a olhou assustada, tentando manda-la fugir imediatamente.
– E por que eu faria isso? — riu exageradamente de sua demonstração de coragem.
– Eu não irei falar duas vezes.
O homem sorriu indo em sua direção.
– Se é isso que quer, você será a primeira então.
Estava com suas mãos indo em direção ao corpo da jovem, quando ela o chutou com força em suas partes íntimas.
– Vadia... — urrou de dor.
Ela aproveitou a brecha, passando a tira em seu pescoço e pressionando com força. Com a dor que sentiu, não conseguiu afasta-la a tempo, vendo-a pressionar com ainda mais potência. Lauren observava sua falta de pulso, cuidando pra que não houvesse mais nenhuma, vendo o homem se ajoelhar forçado.
E então aconteceu...ele morreu de asfixia. Tirou a tira vendo a marca que causou na região afetada, e o corpo caiu no chão sujo.
Olhou pra mulher que estava chocada com o que passou minutos atrás. Virou-se, pronta pra voltar a seguir o caminho.
– Espera.
– O que é?
– V-você...me salvou...
– Não foi nada...
– Foi sim...você foi muito corajosa, eu queria ter sido capaz de...você sabe... — dizia ainda abalada.
– Você está bem? — se aproximou.
– Eu... — a abraçou controlando o choro — Muito obrigada...
Lauren não esperava aquele abraço de gratidão, mas isso a fez se orgulhar ainda mais do que aconteceu.
– Já passou. — deu meio sorriso.
– V-você está machucada? — perguntou olhando sua boca.
– Isso não é nada, não se preocupe.
– Como se chama?
– Lauren e você?
– Rebecca...como posso te agradecer pelo o que fez, Lauren?
– Não preocupe-se com isso, é melhor você ir pra casa agora.
– Mas...
– Vá. Você precisa disso.
– O-obrigada...por tudo...
Correu enquanto Lauren olhava pra moto do estuprador.
Eu tenho que sair logo daqui...
Olhou os bolsos da jaqueta do homem encontrando cigarros, um isqueiro e as chaves da moto, pegando cada item. Tirou a jaqueta a vestindo, e ao se cobrir foi pegar a tira que usou para enforca-lo. Colocou a tira em suas costas, e a caixa de cigarros em cima do tecido. Usou o isqueiro pra inflamar a caixa, e se afastou pegando a chave e indo até a moto. Subiu a ligando, e olhou pra trás vendo o fogo se espalhar pelo corpo, sorrindo por sua vitória.
– É Jeff, você não será o único a se divertir por aqui. — falou dando partida.
–
Já era noite quando ela parou de perambular pela cidade, estando em frente à sua casa. Se é que continua sendo sua casa, dada as circunstâncias. Saiu da moto com a chave e foi até a garagem, onde sempre escondia uma chave reserva pra entrar na casa quando chegava tarde. Entrou vendo o local bem mais vazio do que se lembrava, muitos móveis haviam sido retirados. Olhou em volta da sala se lembrando de cada momento vivido ali, não era pra ter acabado assim...
Foi até a estante encontrando uma fotografia de sua família. Deixou uma lágrima cair enquanto a olhava, pegando-a pra levar com si. Sua vontade era visitar cada quarto da modesta casa em que viveu momentos tão satisfatórios, mas seria facilmente pega se os vizinhos notassem sua presença.
Foi até seu quarto, que tinha vários detalhes que mostravam que ali foi focado boa parte da investigação sobre a morte de seus familiares. Encontrou poucas roupas deixadas em seu armário quase oco, mas trocou de vestimenta rapidamente, pegando uma blusa preta com uma touca que cobrisse seu rosto. Desceu rápido fazendo sua última parada pelo local, chegando até a cozinha e pegando uma faca onde sua mãe costumava guardar. A colocou entre sua meia, fazendo com que o tênis firme a deixasse justa à seu corpo, sendo facilmente transportada. Saiu trancando o lugar e partiu com sua moto novamente.
Estava indo até o local em que Jeff a deixou, torcendo pra que ele saísse de lá com o intuito de fazer novas vítimas. Abandonou a moto e se escondeu atrás de uma árvore do outro lado da rua.
Passando-se um tempo e ela já estava desistindo, achando sua espera uma perda de tempo. Sua fome também não ajudava, mas estava aguentando firme.
Ouviu um barulho vindo do lado oposto, se levantando urgentemente. Olhou na direção e viu Jeff arrastando uma mulher pelos cabelos. Ele parou por um instante, sentindo-se observado. Fitou o corpo vendo que seu divertimento com essa vítima já tinha passado, era hora de caçar novamente. Pegou a faca cortando a cabeleira junto com a pele da mulher, carregando o escalpo com si.
Ao ver que ele estava indo embora, ela correu atrás quase anunciando sua chegada, de modo atrapalhado.
– Jeff. — o chamou.
Ele ficou surpreso, parando de andar e se virando pra ver a garota se aproximando. Lançou um olhar sombrio, tentando demonstrar toda a raiva que sentia.
– O que faz aqui?
– Eu não desisto facilmente.
– Você é louca?! Se afaste de mim antes que eu a mate aqui mesmo.
– Não, eu não me afastarei. Irei atrás de você até conseguir o que quero.
– Eu já disse pra se afastar. — gritou.
– Não Jeff.
Ele voltou a andar a deixando falar sozinha. Mas Lauren, por sua vez, foi atrás.
– Estou perdendo a paciência, garota. — apontou a faca para seu rosto.
Sorriu meigamente, o irritando de proposito.
– E então? Pra onde vamos Jeff?
Continua...
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