Alone

6 Recaída


Depois de um tempo rindo aflita, foi desfazendo seu sorriso, percebendo tudo o que acabou de acontecer. "O que há de errado comigo?" perguntava-se.

Não estava orgulhosa do que fez, mas era exatamente o que pensava antes de efetuar a ação. Esse era o seu desejo, não tinha como negar. Talvez se Dominic Lawson não tentasse abusar da menina, ela nunca descobrisse o que era capaz de fazer, mas estava claro que não era hora de agradecimentos. Muito pelo contrário. Mesmo recuperando sua lucidez, sua repulsa não tinha diminuído em relação ao homem. Sua vontade era feri-lo ali mesmo, sem se importar com as consequências. Talvez essa fosse sua ação seguinte, mas algo a impedia...algo ainda era capaz de abster seu instinto assassino. O que seria? O que impede as pessoas, afinal? Poderia formular tantas perguntas a respeito, mas sempre teria um espaço sobrando, era algo que não poderia ser completado ou respondido. Se fosse ver por esse lado, não seria tão diferente de outros sentimentos humanos, pra ser mais exato, seria um dos poucos compreendidos.

– Cresswell está claro pra mim a pessoa psicótica que você é, você precisa de tratamento intensivo...mas seria fácil demais devido a dor que me causou. Você irá pagar por isso, pagar muito caro.

– Não. — disse o cortando.

– Como disse?

A raiva dele era visível, e a falta de expressão dela colaborava em sua irritação.

– Se tem uma pessoa que pagará caro, é você.

– Você sabe quem eu sou?

– Não. Mas você descobrirá quem eu sou...em breve.

– Está me ameaçando? — disse a puxando pelo cabelo, fazendo-a se ajoelhar contra sua vontade.

– Estou. — sorriu.

Levantou o braço em sua direção fazendo sua mão atingir o rosto delicado da jovem, sentindo o rosto arder com o tapa forte que recebeu. Aquilo foi o limite pra ela, não conseguiria mais se controlar, precisava demonstrar seu ódio.

– Quem está rindo agora, sua demente? — falou ele, rindo histericamente.

Ela sorriu o empurrando pra trás, enquanto o mesmo sentiu suas costas terem contato imediato com o chão.

– Eu estou.

Se aproximou ficando por cima dele, ouvindo-o murmurar furioso. Abriu ainda mais seu sorriso, fazendo o olhar do homem mudar...passou de raiva pra medo. Ver o medo no olhar das pessoas era uma sensação tão diferente, ao mesmo tempo que ela gostava ela sentia ódio por a olharem assim. Passou suas grandes unhas lentamente pelo rosto do homem, que tentava a todo custo tira-la de cima de si, e quando viu novamente seu olhar aflito, as enfiou em seus olhos. Ela aumentava sua força aprofundando, enquanto o homem aranhava seu braço e a batia tentando afasta-la. Sentia o sangue em seus dedos, o que a agoniava mas ao mesmo tempo parecia excitante e convidativo. Os gritos do homem a convidavam a continuar, até ver qual seria sua reação seguinte. Estava mentalmente instável, sem ao menos ter noção de seu comportamento psicótico, quando ouviu a porta ser aberta rudemente, vendo três médicos correndo ao seu encontro.

A tiraram de cima do homem imediatamente a afastando até a porta. Uma enfermeira que passava pelo local entrou soltando um grito ao ver o doutor com as mãos no local que foi ferido. Ele ainda gritava enquanto os médicos tentavam ver o ferimento, pedindo que os enfermeiros viessem seda-la urgentemente.

Todos a olhavam assustados. O mesmo olhar de medo que viu de perto a instantes atrás...o que fazia eles se sentirem assim?

Rachel corria pelo corredor até a sala onde Lauren estava, se intimidando ao ver a movimentação . Por um momento até esqueceu que teria que levar Jeff pra consulta, apenas se focou em descobrir o que tinha acontecido. Chegou a sala vendo a porta aberta. Direcionou seu olhar à Lauren que estava sendo segurada pelos braços por dois enfermeiros, estranhando seu rosto sujo aparentemente de sangue.

Entrou vendo que estavam prestes a seda-la, assim agindo o mais rápido possível pra impedir.

– Parem! Eu sou a responsável pela paciente, por favor não tomem medidas precipitadas.

O enfermeiro a fitou calmamente.

– Sua paciente mordeu a mão do doutor Lawson e furou seus olhos, senhorita.

– Como disse? — falou assustada, olhando pra sua amiga que evitava a encarar.

– É isso mesmo, moça. Ela demonstrou comportamento agressivo por causas ainda não descobertas durante sua consulta, terá que passar por um tratamento mais intensivo.

Pensou um tempo antes de responder, tentando assimilar melhor a situação.

– Por favor, deixe que eu me encarrego disso.

– Mas não é um tratamento pra se fazer sem ajuda médica, você precisa do auxílio de outros especialistas.

– Eu já disse que me encarrego disso, ela é minha paciente, já está acostumada com meu trabalho. Garanto que ela não se negará a seguir o tratamento...

– Se é tão importante pra você, faça como bem entender. Mas devo lembrar que Jeffrey Woods não terá consulta nesse horário, o doutor Enzo Morgan vai chegar o mais rápido possível para atende-lo, mas teremos que suspender as demais consultas até reparamos esse incidente.

– Eu compreendo. Deixem que eu cuido da Cresswell, levarei até o jardim pra se acalmar e depois irei medica-la.

Eles acenaram com a cabeça soltando os braços da garota. Rachel foi até seu lado colocando a mão sobre as costas da menina, fazendo-a se acalmar. Saíram pela porta caminhando pelo corredor. A primeira coisa que deveria fazer era se limpar, mas sabia que o que Rachel queria era discutir sobre sua conduta.

Estranhou o caminho que a mulher estava fazendo, percebendo que estavam frente ao quarto de Jeff.

– Jeffrey Woods? O que estamos fazendo no quarto dele?

– Já que ele não terá consulta agora, eu poderei leva-lo até o jardim também. — disse pegando a chave do quarto de seu bolso.

Abriu a porta entrando. Lauren não imaginou que um dia veria Jeff em uma camisa de força deitado no chão daquele jeito, e o mais curioso é que não fazia diferença pra ele, mais parecia uma diversão à ele.

E mais uma vez sentiu arrepios descendo por sua espinha ao ter a visão daqueles olhos perturbadores em sua direção. Obviamente, os olhos dele não demonstravam medo como ela tinha presenciado mais cedo, e isso era inquietante. O que havia por trás deles? O que ele escondia? Ninguém vira um assassino de uma hora pra outra, mas o que fez Jeff se tornar um?

Jeff foi liberado da camisa de força saindo com Rachel até ela. Ele olhou as mãos sujas de sangue da garota, erguendo seu olhar intacto.

– O que é isso? Período menstrual? — disse em seu tom sarcástico.

Muito engraçado... – pensou.

– Você poderia ser comediante, sabia?

– Você não me respondeu.

– Aconteceu alguns imprevistos...

– E com imprevistos ela se refere a morder a mão do Doutor e furar seus olhos. — interrompeu Rachel impaciente.

– Você fez mesmo isso?

– S-sim...

Ele começou a rir de sua forma bizarra como de costume, gostando da notícia. Já ela, não se orgulhava do que fez ou sentiu na hora...mas é claro que Jeffrey desconhecia esse sentimento de culpa.

– Talvez você não seja tão inútil quanto pensei, mas ainda assim agiu sem pensar, foi uma atitude tola de sua parte. Só não irei te punir pois sua recaída nos deu a oportunidade de ir até o jardim, e isso ajudará meu plano. Mas se extrapolar novamente, será a última coisa que fará, entendeu?

– Tanto faz. — disse revirando os olhos.

– Vamos então.

Continua...