Alone
12 Pânico

– Gostoso? É sério Jeff?
Se irritou ao ver o tom sério que ele usou para compartilhar uma informação tão irrelevante.
– Se exaltou por que? Aposto que já deve ter percebido isso antes mesmo de mim. — soltou uma risada, mantendo sua atenção na estrada. — Sabe Lauren, sempre suspeitei de meus atributos, mas não imaginei que fosse agradar tanto o sexo oposto com meus modos atraentes. — ironizava.
– Olha Jeff, desculpa te interromper logo agora que está me fornecendo informações tão valiosas. — retribuiu no mesmo tom cortês — Mas creio que temos algo mais importantes pra tratar.
– Oh, é mesmo? O que poderia ser mais importante que isso?
Bufou.
– Você faz de propósito, não é? Me irritar deve ser seu passatempo preferido.
– Não, tenho outras prioridades, mas não se preocupe, sempre arranjarei tempo para isso.
– Seu sarcasmo está mais intenso hoje...deve estar orgulhoso de seu trabalho aqui fora depois que saímos do manicômio.
– Por que não estaria? — perguntou pouco interessado.
Suspirou, desviando o olhar de Jeff e mantendo-o fixo à estrada. Por um momento, as conversas geradas pelo rapaz estamos começando a atormenta-la. Fechou os olhos e balançou a cabeça negativamente, parecia hilário mas ainda assim não queria deixar aquilo ficar a atormentando.
– Enfim...podemos falar sobre algo que não seja sobre seus "dotes"? — arqueou a sobrancelha.
– Embora eu ache que não tenha um assunto que possa superar esse, prossiga.
– Me conte mais sobre Kurt Parker, Adam Cresswell, ou seja lá quem ele for...
– Quando chegarmos explicarei em mais detalhes, até lá escolha um assunto que não exija minha total concentração.
"Ele leva mesmo a sério o que faz..."
– Ok...posso fazer uma pergunta então?
– Sinto que será mais uma das muitas tolices que saem por sua boca. — sorriu — Mas o que custa conceder a uma mera mortal como você a sabedoria sobre um ser digno como eu?
– Novamente, dispenso seu sarcasmo. — bufou — Bom, eu queria saber mais sobre você, em particular, de como tudo começou...
– Nada que você já não tenha lido em alguma página da internet.
– Mas você é bem diferente do que descrevem...eu te imaginava como um louco insano que age impulsivamente o tempo inteiro.
– Achou correto, então.
– Eu sei mas...não é o Jeff que vejo.
Sorriu cinicamente, um pouco irritado.
– Sua curiosidade me irrita profundamente, mas lhe darei uma explicação a isso. Quando tudo começou eu já sentia que algo mudava em mim, não sabia o que fazer pra sensação passar, mas ela aumentava a cada instante. Eu era só um garoto normal antes do ocorrido, porém depois já estava fora de mim, agindo como se não tivesse mais controle sobre meu corpo, querendo me divertir e prolongar o efeito bom que matar as pessoas me causava. Matei minha família, e não senti remorso, foi então que percebi que já não poderia voltar a ser quem eu era. Não foi só minha aparência que mudou, tudo em mim estava diferente, como se cada sensação fosse trocada e com isso restasse a insanidade e forte desejo de possuir o que desejava, independente dos métodos utilizados. Com o tempo, novas vítimas surgiram, devo dizer que fui evoluindo no que fazia, e conforme fui crescendo passei a ter controle sobre minhas ações, era a única opção. Naquela época era fácil matar alguém, eu era jovem e imprudente, mas a evolução que tive nesse tempo me fez ter que me adequar a outro processo.
– Então seu lado mais imprudente foi começando a ser controlado por seu lado sensato?
– Não, duvido muito que exista um lado "sensato" em mim.
– Então o que houve?
– Isso me consumiu, sendo assim, me tornei o que sou hoje. Até mesmo para um assassino, ter habilidades fortes de raciocínio são uma arma valiosa, algo que muitos deveriam testar, já que boa parte da humanidade não tem conhecimento.
– Quer dizer que conforme você foi crescendo começou a agir com mais cuidado?
– Pode se dizer que sim. Não queria ser um mero assassino, minha insanidade continua, mas sei separar as coisas melhor atualmente. Me acostumei com o que me tornei, e sinceramente, eu gosto.
– Interessante...o tempo pode mesmo alterar tudo, até mesmo as ações de um psicopata.
– As ações não, quando se torna um psicopata nunca deixará de ser um. Mas os sistemas e formas de matar se tornam bem mais recreativos.
– Entendo...
– Mais alguma pergunta ou enfim me dará o prazer de manter sua boca fechada?
– É só isso...
Se acomodou no banco, olhando para fora. Mais uma vez estava ali, compondo novas ideias sobre tudo e todos. Apesar de Jeff ser insensível, e talvez não se importar com ninguém além dele mesmo, se perguntara se não faria a mesma coisa em seu lugar. A dor poderia mesmo causar danos permanentes? Afinal, não teria outra razão pra Jeff matar até mesmo sua própria família por um desejo inexplicável que lhe surgira. A maldade em volta resulta a algo pior, poderia definir isso com uma relação mútua. Tudo o que lhe dão, é devolvido em um elemento ainda mais intensivo, resultando em fins não tão agradáveis. Mas o que adiantara se os culpados sempre fossem nós? O mundo seria mesmo acusador? Essas seriam perguntas que possivelmente, nunca teriam uma resposta, então caberia a ela tentar descobrir.
–
Após um longo percurso, ele parou o carro. Lauren sentiu-se aliviada, após metade da viagem já estava ficando sonolenta, e como não confiara em Jeff, não seria muito sábio pegar no sono dadas às circunstâncias.
Saiu do automóvel, vendo Jeff ir direto ao porta-malas retirar a vítima. Fechou a porta e examinou o local, sem ter conhecimento de onde estava. Parecia estar no meio de uma floresta, em sua frente, pouco longe do veículo pôde avistar uma cabana feita de madeira, velha e aparentemente abandonada. Era simples, mas estava bem abatida. Se perguntava em sua mente onde ele havia encontrado aquela casa tão rústica. Mas a localização a agradou, precisamente levando em conta que nunca tivera visto antes.
O silêncio que ali permanecera, fez a sentir como antes muito desejara. O sol que com sua claridade atingia a copa das árvores fazendo os raios de luz atingirem sua face vagamente, sentindo a leve brisa de verão a tocar enquanto fechava seus olhos aproveitando os poucos momentos de paz que conseguia ao lado de Woods. Certamente teria que se habituar com a convivência com o malfeitor, mas parte dela ainda se questionava se deveria mesmo prosseguir com um plano tão mirabolante.
Como já esperava, não demorou muito pra Jeff atrapalhar seu sossego. Ouviu os gemidos e murmúrios de Brianna, que estava sendo jogada no chão sem qualquer delicadeza.
– Você vai vir? — perguntou Jeff, começando a arrastar a garota pelos cabelos.
– Vou dar uma olhada lá dentro... — direcionou seu olhar para a cabana.
Ele não se deu ao trabalho de responder, pegou sua faca e a continuou arrastando pela floresta, se distanciando.
– Eu é que não gostaria de estar no lugar de Brianna... — sussurrou indo até o carro e pegando sua katana.
Adentrou seu atual abrigo, ouvindo o barulho do antigo piso de madeira. Não estava muito claro por dentro, mas não pareceu incomodada. Alguns móveis estavam quebrados e jogados pela sala, quadros nas paredes estavam caídos e copos sobre o chão, quebrados. Manchas de sangue e marcas de mãos eram vistas tanto nas paredes quanto nas portas, nas partes de dentro. O cheiro era ruim, e teias de aranhas emolduravam os cantos das paredes. Alguns passos à frente, viu uma foto antiga e rasgada, sob o chão. Se aproximou, abaixando-se e a pegando. A fotografia era de uma família, prestou atenção em cada rosto com cuidado, mas um dos garotos da foto tinha o rosto riscado, e isso a deixou cismada. Aquilo era do antigo morador ou de Jeff?
Fitou uma porta que parecia levar à uma sala de jantar, e com a fotografia ainda em mãos foi até lá, a abrindo.
Entrou sem notar o que tinha dentro, mantendo sua concentração na misteriosa fotografia. Quando ergueu o olhar, vendo o que tinha no espaço, caiu pra trás, se assustando. A mesa de jantar estava ocupada, cada acento com uma pessoa cuja boca podia ver um sorriso sangrento esculpido. Eram seis pessoas, duas mulheres e quatro homens, todos vítimas de Jeff. Alguns estavam com membros faltando e seus corpos totalmente mutilados. Uma das mulheres estava sem um de seus olhos, e podia ver insetos saindo de dentro. Um senhor, aparentemente de 60 anos, tinha seu peito escrito "Go to sleep" feito por uma faca, um corte tão profundo quanto o do sorriso forçado em sua boca. Sobre a mesa estavam os órgãos, extremamente semelhante à um banquete cerimonial com todos os decorativos. O cheiro era forte, alguns corpos estavam ali a um bom tempo, pelo o que parecera.
Não aguentou ficar olhando, e tratou de sair o quanto antes. Abriu a porta correndo de forma atrapalhada, batendo de frente à Jeff. Ao sentir seu corpo bater sobre o dele, sentiu calafrios ainda mais fortes, se afastando. Encostrou-se na parede, olhando seu rosto manchado de sangue, líquido pelo qual estava saindo até mesmo por sua boca.
Ele não se movia, ou dizia algo, isso a deixava ainda mais ansiosa. Depois de um tempo o encarando, ouviu algo cair no chão, olhando para as mãos dele. Era a cabeça de Brianna, e pôde ver sangue saindo de seus olhos e boca. Não sabia o que ele tinha feito com ela durante a sessão de tortura, mas no momento estava querendo se afastar o quanto antes. Ao notar que ela olhava fixamente à cabeça da garota sujando o chão de madeira, abriu seu sorriso, deixando o sangue que estava em sua boca sair.
Jeff estava estranho. Como se estivesse desequilibrado, mais do que o normal...se é que isso é possível. Isso era agoniante, sentia-se uma das vítimas dele, mas não podia nem mesmo queria deixar isso transparecer. Viu ele retirar a faca de sua blusa, se aproximando. Ao deduzir que não teria outra forma de sair daquela situação, o chutou em sua barriga fazendo-o cair pra trás, algo que com certeza se arrependeria depois. Segurando sua katana, saiu correndo indo pela floresta, sem ao menos saber pra onde ir.
"Quando ele tortura alguém daquele jeito deve ficar tão descontrolado quanto eu fiquei hoje...se for isso, não será nada bom conviver com ele. Isso se eu conseguir sair viva!"– pensava, correndo o mais rápido que podia.
Quando se deu conta, olhou Jeff correndo rapidamente atrás de si, aumentando seu sorriso ainda mais conforme ia se aproximando.
Continua...
Fale com o autor