Alone

27 Nova vida?


Abriu as pálpebras em lentidão, tentando obter um foco por mais que a claridade quase a cegasse. Seu corpo não se movia, e pelo desconforto que sentiu, já estava nessa mesma posição há muito tempo; deitada, com o tronco reto. Um barulho inquietante chamou sua atenção, que, ao reparar em volta, notou que vinha de um monitor cardíaco ao lado da cama. Nem parou pra pensar onde estava, embora a resposta mais lógica fosse em um hospital. Seu rosto ruborizava, sentindo náuseas com a boca extremamente seca. Precisava tomar água o quanto antes, levantando-se e tentando retirar o tubo saindo de seu braço, que fornecendo soro diretamente em sua veia.

Com a visão ainda embaçada, teve um pouco de dificuldade em chegar até a mesa mais próxima, onde tinha um jarro com água acompanhado de um copo ao lado, quase tropeçando e derrubando o vidro.

— Uou, calma garota. — alertou a voz masculina e arrastada. — Eu pego a água pra você. — ajudou-a a se deitar novamente na cama. Com certeza não era uma atitude de Jeffrey, e na verdade, não reconhecia aquela voz de lugar algum.

— Quem...?

Forçou sua vista, vendo uma cabeleira preta e encaracolada completamente bagunçada atingindo os ombros do rapaz. Que pelas vestes brancas, parecia trabalhar no hospital.

— Dylan. Dylan King. — apresentou-se, virando-se pra ela com um sorriso leve. Suas orbes brilhavam; por possuir heterocromia, tinha o olho esquerdo azul, e o direito verde, que destacavam-se ainda mais com a pele branca. Ela abria a boca para responder, quando ele contornou: — Eu sei você se chama Lauren. Você já está aqui no hospital há um bom tempo. — sentou-se na beirada na cama, ajudando-a a beber água e finalmente umedecer sua boca, chegando a engasgar de tão rápido que deglutia.

— Há quanto tempo estou aqui? — perguntou crispando os lábios enquanto tomava o segundo copo de água, aliviando aos poucos sua sede.

— Quatro anos. — respondeu naturalmente.

Engasgando, ela começou a tossir sendo pega de surpresa.

— QUATRO ANOS?

Ele assentiu.

— Você ficou em coma por um bom tempo. Mas foi um milagre ter sobrevivido.

Só aí que foi tentar se lembrar do que havia acontecido. Adam contando uma história... Jeff e Liu invadindo uma sala... Um disparo... Tudo estava bem em branco.

— Não se esforce muito. — Dylan voltou a falar. — Sua memória estará normal com o tempo, mas você acabou de acordar, é melhor que não exija muito de si mesma. — deu uma piscadinha.

Revirou os olhos.

— Você não é meio jovem pra ser meu médico?

— Quem disse que sou seu médico? — levantou a sobrancelha esquerda.

— Então o que está fazendo no meu quarto?

— Estava olhando você dormir.

Mas que garoto cínico. Como admitiu isso tão tranquilamente?

— Pervertido! O que estava fazendo aqui?

— Admirando sua aparência que transborda feromônios, baby. — seu timbre era inegavelmente malicioso, mas quando ele dizia algo assim, na maioria das vezes, era uma mera brincadeira. Apesar de a maioria levar isso para um lado pessoal, Dylan nunca chegou a se importar, e particularmente adorava provocar as pessoas.

Aquele tarado trabalhava mesmo em um hospital? Como o deixaram entrar? Ele estava tornando a situação ainda mais constrangedora!

— CALE A BOCA!

— Que mau humor... — ele resmungou, cruzando os braços como uma criancinha birrenta. — Vou acabar me desapegando de você.

— Não ligo. — deu de ombros. — Você nem deveria estar aqui. Isso é assédio, sabia?! — seus olhos queimavam de raiva, fazendo com que Dylan, quase imperceptível, viesse a rir. — Pare de brincar comigo.

— Não posso. — defendeu-se, ainda sorrindo. — Brincar com você é divertido.

O que havia de errado com ele? Que individuo estranho.

— Saia daqui!

— O que foi Dona Encrenca? Estou te aborrecendo? — encarou-a nos olhos, com um ar de divertimento.

— Está! — ele obviamente já havia percebido. Mas parece que ele tinha uma personalidade difícil e extremamente irritante. Droga. Como se já não bastasse agüentar Jeff (apesar dos dois não terem nada a ver).

Ele suspirou, erguendo os braços e despreguiçando após bocejar.

— Já que insiste... — levantou, indo até a porta escancarada do quarto limpo. — Sabe, estou no hospital há um bom tempo, não é de hoje que te observo. — sorriu para ela, novamente piscando. — Não pense que irá se livrar de mim tão facilmente, Dona Encrenca.

Dona Encrenca? Sério que ele ficaria a chamando por esse apelido ridículo?

•••

Quando seu médico o verdadeiro médico soube que havia acordado, correu desesperadamente para ver se estava tudo bem. Passou por alguns exames de rotina, e outros mais específicos para ver se tudo estava de acordo.

Quatro anos... Ficou quatro anos em coma. O que aconteceu durante esse período? O que aconteceu com Adam, Jeff, Liu? Nem pro filho da mãe das notícias. Se bem que não seria a cara do Jeff fazer isso. Mas ainda assim esperava, com uma ponta de esperança, que Adam ainda estivesse vivo, pois, ainda tinham algo para tratar. Aquele homem, seu pai, não só impediu que tivesse uma vida normal com sua família adotiva, como fez ser punida por crimes que não cometeu. E o pior de tudo, é que perdeu QUATRO ANOS de sua vida pelo tiro que levou. Se ele tivesse morrido anos atrás, seria um desperdício, ele merecia uma morte bem mais lenta.

Ainda não se lembrava de detalhes sobre tudo o que ocorreu, e ela mesma presumiu que não sobreviveria quando viu Adam apontar aquela arma para sua cabeça. Jeff e Liu, por mais que tivessem chegado em um momento apropriado, não foram capazes de impedir. Ao menos, Liu, que era o único que considerava ainda possuir um lado bom, foi quem a trouxe para o hospital (já que as chances do Jeff ter feito isso eram completamente descartadas). Contudo, Jeffrey havia prometido. Por mais que ele desfizesse acordos a todo instante, vivenciaram poucas e boas, e se ele falhou ao protegê-la como gostaria, provavelmente tinha a intenção de cumprir com sua palavra na hora certa. Só esperava que essa hora chegasse logo...

O médico, responsável por toda sua recuperação, avisou que deveria ficar no hospital pelos próximos oito dias, para ter certeza que não teria que seguir nenhum tratamento para se recuperar, já que parte do seu corpo precisaria fazer exercícios para voltar com a boca forma (ou ao menos chegar perto disso). Todavia, permitiu que ela desse uma volta pelo hospital, apesar de ter algumas condições para permitir que fizesse isso, achou que seria bom, pois, ela estava reclamando freqüentemente por ficar muito parada naquele quarto abafado.

Descobriu mais sobre Dylan, o qual a maioria das enfermeiras, médicas, e até mesmo pacientes, pareciam ter uma queda por seu jeito “sedutor”. Ele fazia um estágio no hospital, voltado à ala infantil. Sua irmã passava por quimioterapia, e para acompanhar o tratamento da mesma, Dylan começou o estágio há seis anos, desde que perdeu sua mãe e teve que cuidar sozinho da irmã mais nova, de nove anos. Tinha que admitir, ele a impressionou. Era tão esforçado. Pela distância do apartamento medíocre em que morava, todos os dias tinha que acordar às 04h00 para conseguir chegar a tempo no hospital, sem dormir praticamente nada. E apesar de tanto cansaço, ele era muito bem humorado.

— Talvez essa criatura não seja tão ruim assim. — apesar de admitir isso consigo mesma, não mudava o fato dele ser irritante, e fazer isso de propósito para aborrecê-la. E além do mais, depois do que passou, não sabia se voltaria a confiar em alguém novamente. Nunca soube se realmente viveu com alguém confiável durante todo esse tempo, isso só aumentava ainda mais o rancor e a dor que carregara.

A única vantagem em toda essa situação, é que ela mudou muito. Talvez não tão positivamente, mas iria encarar dessa forma. Tentaria mudar sua vida quanto saísse do hospital. Recomeçar do começo como se nada tivesse acontecido. Não. Sua intenção não era viver normalmente, porque depois do que passou isso não seria possível. Mas tentaria se resolver melhor. Estudaria algo que se interessasse, arrumaria um emprego, quem sabe envolve-se em um relacionamento... Tudo isso, com outro nome. Para começar uma nova fase, nada melhor que uma nova identidade e um país diferente (isto é, assim que terminasse o que tinha por aqui). Será que isso adiantaria? Ou seria só mais tentativa falha?

•••

— Até amanhã! — Dylan despedia-se de um amigo, passando pelo corredor em direção à porta de saída hospital.

Lauren, encostada na parede, observou sua aproximação de soslaio, o que não passou despercebido pelo rapaz, lançando-lhe um sorriso cheio de malicia.

— Me esperando, senhorita?

Bufou nervosamente, desviando o olhar. Já estava louca para socar a cara dele.

— Claro que não!

— Sem estresse, Dona Encrenca.

Ele mantinha aquele sorriso insuportavelmente irritante e atraente.

— Pare de me chamar assim! Não sei de onde tirou isso!

Colocou o dedo na boca, parecendo pensativo enquanto soltava uma exclamação de incerteza.

— Ninguém levaria um tiro e chegaria aqui no estado em que você chegou se não fosse alguém que adorasse se meter em encrenca.

Lauren franziu o cenho, azeda.

— ORA, CALE A BOCA SEU PERVERTIDO DE MERDA! — levantou o tom de voz. — Não é nada disso! Eu só...

— Foi metida em muitos problemas. É eu imaginei que fosse isso. Não esquenta com isso, Dona Encrenca. — bagunçou seu cabelo, provocativo, recebendo um tapa em sua mão, que o fez se afastar um pouco da garota. — Como você é arisca, querida. — sorriu calmamente, vendo-a rolar os olhos. — Por que não vem comigo? Poderíamos jantar aqui perto antes de eu ir pro trabalho.

Ele também trabalha? O tempo dele deve ser muito corrido...

— Não. — negou orgulhosa.

— Não seja tão orgulhosa, vai. Será divertido. Melhor do que ficar aqui sozinha, não acha? — ironizou, colocando a mão contra a parede enquanto seu braço se mantinha à cima da cabeça dela, olhando nos olhos bem de perto (o que, pela primeira vez, a deixou em graça).

— A-Afaste-se! Idiota!

— Só se você aceitar vir comigo. — rebateu sustentando o sorriso cretino em seu rosto.

Suspirou fundo, empurrando-o. Como odeio esse infeliz, pensava.

— Vamos logo então. — a garota aborrecida disse simplesmente, com a expressão fechada.

— É melhor não continuar fazendo essa cara. — mostrou-se confusa, motivando-o a completar: — Está me deixando excitado. — riu, caminhando para fora do hospital.

Naquele momento, todos os xingamentos vieram em sua mente. Como aquele pervertido conseguia ser tão cara de pau? E o pior de tudo, é que ainda assim, conseguia enxergar algumas qualidades nele. Mas não mudava nada! Ele era... Repugnante. Apenas.

•••

Estava acompanhada de Dylan na mesa de uma lanchonete qualquer, que ficava quase na esquina do hospital. Ele mesmo quis pagar a conta, embora acabassem discutindo muito. Não queria de jeito algum dar a ele essa vantagem. Cavalheiro é a última coisa que ele seria.

Comia um lanche aleatório que escolheu no cardápio, enquanto via ele se sujar todo, com a mesa ocupada por vários pratos que ele mesmo comia. Para alguém magro, e aparentemente atlético, nunca viu alguém comer tanto. Nem parecia que tinha a intenção de ser médico, já que não comia nada saudável.

— Então, Dona Encrenca, o que aconteceu antes de parar no hospital? — indagou curiosamente, ainda com a boca cheia.

— Isso não lhe diz respeito. — rebateu.

— Sempre na defensiva... Tá bem, se não quer dizer, não irei te obrigar.

Ignorou. De modo algum iria dizer a verdade pra ele. Mas pensando nos últimos acontecimentos, percebia que não sacrificou só a si mesma e tudo o que poderia ter vivido por sua vingança, mas também, muitas pessoas foram afetadas por suas escolhas. Dylan pode não ser um exemplo de simpatia, mas no geral, era uma pessoa trabalhadora, uma pessoa... Que arriscaria considerar boa. Será que algumas pessoas valem à pena? Não necessariamente no caso dele, mas... E se nem todos forem assim?

Droga Lauren, pare com isso! Depois de tudo o que viu, acredita mesmo nessa ideia?

A resposta não era tão facilmente obtida. Mas, com uma ideia absurda que surgiu em sua mente como um raio, eis que teve uma nova percepção: Se pessoas boas existem, só se tornam ruins pelas mãos de outras. Não poderia negar, nem em todo o caso isso se aplicava. Mas no seu caso. No caso de Jeff. Tudo se aplicava perfeitamente.

Se um dia voltasse a ferir alguém como feriu no passado, só seriam pessoas que merecessem. Estupradores, pedófilos, serial killers, traficantes, homens bombas... Todo tipo de coisa ruim que, embora não pudesse eliminar sozinha, estaria fazendo um favor à humanidade se resolvesse limpar esses lixos do mundo.

— Você está calada. — comentou observador. — O que é?

— Só estou acumulando ódio pela humanidade. — respondeu rudemente, um tanto sarcástica.

Ele riu baixo.

— Sua idiota.

Como disse? — sua voz tornou-se amarga.

— Não precisa me tratar assim. — aproximou. — Sei que se sente magoada, enganada, e provavelmente está alimentando um grande ódio até agora. — falou praticamente tirando as palavras de sua boca, o que a fez ficar perplexa tentando negar a todo custo. Algo que, infelizmente, não deu certo. — Você não é a única. — sorriu amigavelmente pela primeira vez. — Essa vida é cheia de sofrimento, quando não funciona, basta conhecer um mundo que possa compreender.

— Mas... — podia esconder tudo o que passou, mas não podia esconder esse tipo de sentimento dele. Ele parecia compreender melhor do que ninguém. — Prefiro ter ódio a não ter nada. — encarou rispidamente.

— Então irei te esperar. — levantou, colocando o dinheiro dos lanches em cima da mesa para a garçonete pegar quando passasse.

— Esperar? — do que ele estava falando agora?

— Sim. — sorriu, conforme se afastava, dando às costas. — Irei esperar você encontrar algo para substituir esse ódio. — foi tudo o que falou. E nem precisava acrescentar mais nada.

Depois que ele se retirou, ficou um tempo absorvendo o que acabou de ouvir.

— Droga... — murmurou sozinha. — Esse imbecil consegue me deixar mais perdida do que já estou. — suspirou com a mão sobre a testa.

Do outro lado da rua, observando-a pela janela da lanchonete barata, Jeffrey encarava sem a intenção de se aproximar. Então ela realmente sobreviveu? Por essa não esperava. Adam ainda sofria em suas mãos, algo que no momento certo iria mostrá-la. Mas será que aquela mulher é a mesma que conheceu? Ou algo nela mudou extremamente ao ponto de se tornar outra pessoa?