Alone

28 Instinto


Lauren ficou rabiscando em uma folha para passar o tempo. Quando acordou, parecia que tinha dormido uma noite normal, e não quatro anos seguidos. Mas agora que estava consciente, estava limitada a um mero quarto de hospital. Claro que não podia se queixar tanto, foi sorte continuar viva, mas teria que esperar sua recuperação ficar completa.

— O que está fazendo, Dona Encrenca? — Dylan indagou, murmurando perto de sua nuca. De onde esse garoto tinha surgido mesmo?

— Não te interessa. — retrucou, fechando o caderno.

— Estava escrevendo? — sorriu.

— Pare de se intrometer.

— Estava ou não estava?

— ESTAVA! Satisfeito?

— Você nem imagina o quanto. — disse malicioso. — Sobre o que escrevia?

— Sobre uma garota que presenciou a morte dos pais e acabou parando em um manicômio. — respondeu rispidamente.

— Hum... Interessante. E qual seria o final dessa história?

— Provavelmente o fim mais trágico possível. — torceu a boca. — Contudo, escrever foi uma forma que encontrei para me distrair.

— Deixe-me ver.

Sua voz estava um pouco mais séria que o normal, mesmo assim não tinha essa confiança nele.

— Não.

— Ah, que pena... — suspirou normalmente, fazendo como se fosse sair do quarto no mesmo instante, entretanto, aproveitou a brecha pra tirar o caderno dos braços dela, vendo-a irritada socando seu ombro sem piedade. Exclamou de dor. Onde ela aprendeu a bater daquele jeito? Tão delicada quanto um coice de mula. — Uh... Interessante. — comentou enquanto lia. O rosto dela queimava em fúria. — Você escreve muito bem, Lauren.

Pegou seu caderno de volta, acertando com o mesmo o rosto do intrometido.

— Nunca mais ouse fazer isso ou eu quebro essa sua carinha bonita! — ameaçou, aos poucos voltando ao normal.

Ele sorriu, voltando a sussurrar em seu ouvido:

— Então acha mesmo minha cara bonita?

Desgraçado.

— Foi modo de dizer. E não, não acho. Já vi melhores.

— Olha... Assim você pode acabar me magoando. — protestou petulante; para enfim se afastar da garota e fazer uma pergunta mais direta: — Tem a intenção de ser escritora?

— Na verdade, gostaria de ser pianista. Sempre fui boa no piano, e adorava compor músicas. — respondeu sinceramente, apesar de ainda não ter lhe dado liberdade alguma para esse tipo de pergunta. — Mas, quem sabe um dia eu publique um livro. — o meu livro, completou mentalmente. Não achava que se fosse escrever sua história iria atrair o público, afinal era tão melodramática. Todavia, seria seu legado. Seria uma prova de que tudo não passou de uma ilusão, embora para o resto do mundo, não passasse de mais uma história fictícia.

Dylan ficou em silêncio por alguns minutos, enfim pronunciando:

— Nesse caso, serei seu primeiro leitor. — sorriu de lado, lançando-lhe uma piscada que sempre a dava nos nervos. — Boa sorte, Stephen King.

•••

Estava na hora do almoço, mas não sentia fome alguma. Na verdade, sentia muito enjoo, e os medicamentos que o médico havia indicado não fizeram efeito imediato. Agradeceu aos deuses por Dylan não estar por perto, provavelmente cuidando da irmã. Ele era o típico sedutor barato que adorava provocar, não sabia como o aturou até aqui (sendo que já fazia três dias que estava no hospital após acordar, e em nenhum deles, teve sinal do Jeff).

— Será que aquele desgraçado deixou mesmo de cumprir com sua parte? Era só o que faltava mesmo.

Entrou na fila do refeitório. Detestava a comida do hospital, mas não tinha tantas opções. Ficou um tempo batendo os pés no chão impaciente, já que na sua frente havia umas oito pessoas e a maioria delas eram tão rápidas quanto caracóis.

Percebendo uma aproximação às suas costas, sentiu que estava entrando mais gente na fila. Não chegou a ver quem estava atrás de si, até que o individuo começou a importuná-la cutucando seu ombro.

— O que é? — fechou a cara, encarando-o. Não conseguia ver seu rosto, porque estava com um largo moletom que o tampava quase que por completo. Já impaciente, voltou a tentar receber uma resposta: — Posso ajudar? — novamente, recebeu dele o silêncio, rolando os olhos em resposta e virando-se para frente.

Sem explicação alguma, ele a puxou para trás segurando seus ombros. Frenética, estava prestes a levar sua mão à cara dele. O que ele estava pensando? Era um tarado ou o quê?

Seu pulso foi pressionado pela mão firme dele, evitando que bofeteasse seu rosto. O estranho, antes com a cabeça baixa, ergueu dando a visão apenas de sua boca rasgada e inigualável. Não havia dúvidas, era Jeff. Nunca achou que ficaria feliz com isso, mas ele ter aparecido aliviou e muito sua tensão.

— O que faz aqui? — sussurrou, afastando seu braço dele.

Venha comigo. — sibilou firme, dando-a uma ordem que, normalmente iria questionar, mas sua ansiedade falou mais alto, fazendo com que o seguisse em curta distância.

Subiram algumas escadas sem pressa, e ele continuou sem dizer nada durante o caminho. Lauren claramente estranhava essa atitude de Jeff, mas resolveu não falar nada para não provocá-lo. Subiram praticamente no telhado do hospital, e a garota meio atrapalhada teve dificuldade pra conseguir se equilibrar. Era bem alto, e o vento estava cortante. Mas, apesar desses detalhes, a paisagem fazia por merecer.

Desviando os olhos do horizonte, encarou Jeff com uma feição contraída.

— Você mudou. — ele comentou seriamente. Não entendeu exatamente o que ele estava querendo dizer.

— Mudei?

— Mudou. Você sempre muda, é uma mulher muito inconstante. — soltou uma risada abafada na garganta. Cinismo. Agora sim estava parecendo o Jeffrey mesmo. — Você foi a pobre garotinha que perdeu os pais, depois foi para a louca que fazia tudo o que eu mandava, e em seguida se tornou a submissa de Adam passando por todas aquelas situações dolorosas. E aí levou um tiro... E então, o que você é agora?

Ele parecia estar achando a situação divertida, mas seus questionamentos se ligavam mais à curiosidade.

— O que sou agora? — boa pergunta. Tão boa, que nem ela sabia o que responder. — Ainda estou descobrindo.

— Ah, claro. Vou ali me sentar no banco da praça. Quando descobrir, me avise. — ironizou, finalmente abaixando a touca de seu rosto. Jeff estava mudado. Ou talvez sua estranheza fosse por não vê-lo há um tempo. Os cortes de sua boca estavam bem mais avermelhados, pela pouca experiência que tinha, diria que foram refeitos recentemente. Ele havia contornado a boca de novo? Isso que é gostar de sofrer. — Presumo que queira saber sobre Adam. — voltou a falar, encarando-a do canto dos olhos estalados.

— Sim, quero! — confirmou imediatamente. — Já estava na hora de me contar, inclusive.

Jeff coçou a cabeça entediadamente.

— Ele está no centro de pesquisas, junto com as outras cobaias. Foi pra lá desde que você levou um tiro. Digamos que foi um dia... Longo. Ganhei cicatrizes por todas as minhas costas e quase perdi o movimento da mão esquerda. Liu teve alguns dedos amputados, com certeza vai tomar mais cuidado da próxima vez que se envolver com organizações criminosas. — sorriu orgulhosamente. — Mesmo assim, foi ele quem te trouxe até aqui. Eu a deixaria morrendo, mas ele insistiu. — Lauren já esperava por isso, com certeza Jeff não teria boas intenções como essas. — Foi uma disputa muito acirrada. Bem acirrada mesmo. — enfatizou.

Estava entendendo perfeitamente a explicação rápida, porém pausada do assassino, mesmo assim, ele estava deixando de falar muitas coisas as quais ainda se mantinham em mistério.

— Você está resumindo demais. Entre em detalhes.

— Não é a hora certa pra entrar em detalhes.

— O que está escondendo? — franziu o cenho, intrigada.

Jeff encarou-a calmo, antes de pesar um pouco seu semblante.

— Fiz minha parte. E mesmo não sendo obrigado, ainda vim te ver depois de tanto tempo. Se quiser saber mais, tenha paciência. Mas cale-se, antes que acabe com a minha. — elevou o tom de voz, acalmando-se em seguida como se essa mudança de comportamento fosse a coisa mais natural do mundo.

— Está bem. — fez sinal de redenção, rindo baixo. — Apesar de tudo... Tenho que te agradecer, Woods.

Ele sublevou a sobrancelha, com cara de “pouco faz, pouco importa”.

— Quanta sensibilidade, Cresswell. — comentou em sarcasmo. — Mas, antes que eu me esqueça, tem algo que devo dizer.

— Então diga.

— Já estamos na metade do ano, e até o final dele, para minha segurança, estarei saindo do país. — ok, isso a pegou de surpresa. Jeff iria mesmo deixar suas origens e começar tudo em outro lugar? — Talvez eu vá para a Eslovênia. — falou pensativo.

— Mas... Tem algum motivo pra isso?

Pode detestar Jeff em muitos aspectos, mas não negaria pra si mesma que ele, do jeito mais rude possível, acabou a ajudando nesse tempo. Seria estranho saber que ele estaria visitando outras culturas.

— Boa parte dos capangas de Adam foram mortos, alguns que sobraram se aliaram a outros negócios, e os outros sobreviventes talvez tenham a intenção de reerguer o projeto que Adam iniciou. Com isso, devem estar atrás de mim, e principalmente de você para assumir os negócios de seu pai. — assumir? Preferia levar outro tiro. — Mas não é só por isso que quero sair desse inferno. Já vi tudo o que tinha pra ver aqui, quero me surpreender em outro lugar.

— Ah...

— Sugiro que faça o mesmo, você terá tempo para decidir isso. Mas não pense que irei levá-la comigo. Cada um irá para seu lado, e espero nunca mais ver sua cara. — sorriu amigavelmente. — Mas é bom saber que sentiu minha falta. Sempre soube que despertava sentimentos tão intensos em você, Lauren. — suspirou “apaixonadamente”. Como se não bastasse Dylan transbordando cinismo, agora Jeff apareceu para fechar com chave de ouro.

•••

No dia seguinte, continuou a investir em sua escrita, anotando tudo no caderno. Se fossem inúteis tamanhas anotações, pouco importava. Estava sendo claramente uma ótima distração. Limitou-se a deixar o caderno ao seu lado, com os pés em cima do sofá em uma sala de visita — a qual, na maioria das vezes, estava vazia. Colocou o cigarro na boca, fumando enquanto encarava as paredes pálidas completamente sem rumo. Com o cigarro entre os dedos, retirou da boca liberando a fumaça que se espalhou pelo cômodo fechado.

Dylan, que trabalhava por perto, fez questão de chamar sua atenção; abrindo a janela e falando sobre os maus do cigarro, mesmo não parecendo estar tão preocupado quanto demonstrava, já que o rapaz era a simplificação do sarcasmo.

— O que será que estão fazendo com Adam agora? — resmungou, entretida nessa única linha de raciocínio. Ultimamente estava falando sozinha... Mais que o normal. Nunca mais chegou a ver Rebecca, foi como se ela tivesse mesmo morrido. Isso era mais uma contradição, por sinal.

— Falando sozinha de novo? — Jeff entrou na sala, jogando-se ao seu lado no sofá com um tom elegante de voz. — Depois o louco sou eu. — curvou um sorriso do lado direito.

Como deixavam esse sujeito entrar em um hospital? Do jeito que é, acabaria matando as criancinhas.

Parecia estar de bom humor. Ou estava irritado o suficiente pra fingir estar de bom humor... Bem, já tinha desistido de tentar entender alguém como ele, então pouco importa, ficou sem responder, voltando a aspirar fumaça.

— Que feio, Lauren. Fumando em um hospital? — fez uma falsa expressão de decepção. — Boas meninas não fazem isso, sabia? — seu sorriso estava começando a se estender. O que deu nele?

— Está reclamando por quê? Você que me deu o cigarro e o isqueiro. Fala como se ligasse pra minha saúde, Woods. — ironizou.

— Talvez eu me importe. — encarava, se divertindo com a situação.

— Deixa de ser mentiroso. — o empurrou. A aproximação dele estava começando a ficar estranha... Quais são suas intenções, Jeff?

— Lauren, Lauren. Você não consegue mesmo confiar em mim. — pressionou seu corpo contra o dela, roçando os dedos finos e ásperos por sua nuca.

— Afaste-se, Jeff. — disse calmamente, embora no fundo estivesse fervendo; e sua raiva todas as vezes que ele agia por impulso assim, só aumentava. Ele apertou seus braços com as mãos, jogando-a brutalmente contra o sofá sem nenhuma comodidade, o qual ficou por cima com um sorriso bem mais atrevido. — Jeff, me larga ou eu vou...

— O que vai fazer se eu não largar, hein, Dona Encrenca?

Droga! Ele ouviu Dylan a chamando assim? Jeffrey maldito!

— Não ouse me chamar assim.

— Você não está em posição de me dar ordem. — começou a cheirar o pescoço de Lauren como um animal faminto, enquanto ela pensava em um jeito de reverter à situação ao seu favor. O problema está, simplesmente no fato dele ser bem mais forte e experiente, logo, é mais complicado tentar acertá-lo na situação em que estava. Era só o que faltava... Antes Dylan, agora também Jeffrey. Já não era só impressão sua literalmente estava rodeada por dois tarados invasivos. — Não negarei: Você está começando a me provocar...

— Jeffrey!

Não sabia se robotizava pela vergonha, ou o estapeava pela raiva. Mesmo assim, se deixasse ele prosseguir com a ação, teria sérios problemas.