Alone
26 História
Notas iniciais

— Lauren...
A garota deitada de bruços sobre o chão sujo e frio abriu suas pálpebras em lentidão ao reconhecer a voz cabreira que acabara de chamá-la. Sentia uma queimação ardente por trás de seus olhos, e uma dor incomodativa que afetara toda a região de sua testa. Suas mãos roçando o chão apoiaram-se tentando levantar, algo que não foi tão fácil, devida a fraqueza e dor física.
— E então? Como se sente? — Adam perguntou, e mesmo não demonstrando ironia, foi o que pareceu com uma pergunta tão afoita.
Ela não respondeu. E em seu estado, nem conseguiria. Vestígios sobre a última vez que viu Jeff passavam como relâmpagos em sua mente. Lembrava-se perfeitamente da rua, das pessoas, e até mesmo do cheiro que impregnava pelo local. Aconteceu tudo tão rápido, mal conseguiu acompanhar. Quando foi levada, defendeu-se de todas as maneiras possíveis, até mesmo conseguiu matar um dos homens fincando uma caneta através de sua garganta, mas, pelo cansaço após longo período de treino excessivo, seu corpo ainda precisava se recuperar para mais ataques e defesas, além de estar em minoria.
Não sabia há quanto tempo estava naquela jaula, presa como um animal escravizado. Boa parte do seu tempo dormia, e quando acordava não se lembrava de absolutamente nada. Entretanto, sentia uma dor extrema em áreas sensíveis de seu corpo, até mesmo em meio às pernas o que julgou ser o resultado de algum estupro bem violento. Só que a dor física não era a única preocupação, todavia, era bem torturada psicologicamente.
A comida era entregue após um longo atraso, não era nada apetitosa, e só comia para não morrer de fome e provocar mais desmaios. Às vezes, encontrava algum inseto em meio à comida, até mesmo larvas de moscas, o que a enojava e muito, acabando por vomitar.
Não tinha muito espaço na jaula, mas conseguia notar uma pequena câmera em uma de suas laterais, que gravava todas as suas ações e eram assistidas por Adam em sua sala. Como gostaria de entender... Como gostar de saber por que Adam fazia isso com ela. Pais deveriam amar seus filhos, não era assim que deveria ser? Por que tirou dela tudo o que tinha?
— Há quanto... Tempo, estou aqui? — ela indagou com dificuldade, ainda esparramada pelo chão, onde Adam colocando o pé sobre seu peito virou-a deitando pra cima.
— Cinco semanas. — havia um pequeno sorriso em seus lábios.
Cinco semanas... Jeff não deve fazer idéia de onde ela estava presa. Mesmo se soubesse, não tinha como saber se ele teria a intenção de salvá-la, atos heroicos não fazem parte de sua natureza.
— Por que não me mata de uma vez? — sua voz saiu fraca, mas demonstrou um pouco de frustração.
O homem abaixou-se ao lado dela, mexendo em seu cabelo como se o penteasse, observando-a recuar de seu toque.
— Por que eu mataria alguém que amo tanto?
— Você não sabe... Não sabe o que é amar alguém.
— E você sabe Lauren? Que eu saiba tudo o que você sente pela raça humana agora, é nojo.
Respirou pesado.
— O que mais esperava depois do que me fez? Você nem humano é... É um monstro.
— Igual Jeffrey? Não, não diga isso, Lauren. Não sou como ele. Jamais serei.
— Assassino é assassino.
Ele aproximou seus dedos dos olhos dela, como se fosse perfurá-los com os mesmos, mas apenas parou em curta distância fazendo-a perder o compasso de sua respiração.
— Faço isso para o seu bem, meu amor. Para o nosso bem. — levantou-se ajeitando o terno. — Espero que um dia entenda. — sorriu, retirando-se.
Não, Lauren não queria entender. Não queria ao menos tentar entender. Nada do que ele dissesse ou fizesse mudaria o que estava acontecendo. Nada justificaria... Nada que saísse por sua boca poderia mudar o que ele fez. Adam não tinha o direito de falar de Jeff sendo que faz coisas piores que o mesmo. Tudo o que ganharia de Lauren, seria o desprezo.
(***)
Jeff estava sentado com o corpo encostado sobre a parede de um entre tantos esconderijos. Tinha em sua mão direita uma garrafa de uísque que consumia a todo fervor. A bebida aliviava, mesmo que pouco, sua frustração. Não conseguia deixar de pensar em tudo o que aconteceu. Desde que Lauren surgiu em seu caminho, foi como se tivesse parado pra refletir sobre todos os outros que antes o desafiaram. Tudo mudou. Não de modo positivo, mas sim o mostrou um lado mais negativo, que conseguiu surpreender até alguém como ele. Não existiam limites para a crueldade, seu passado parecia vir á tona e o que tinha em mente era a duvida entre o certo e o errado, que agora já não parecia haver diferença alguma.
Ele fracassou, e negava-se a isso. Lauren... Ela não devia ter sido morta por suas mãos? O tempo inteiro, essa foi à ideia. Por que sempre há alguém para se intrometer? Agora sabe-se lá se ela estava viva ou não, sofrendo ou não, feliz ou não. Nada disso lhe dizia respeito, mas ainda assim, estava inconformado. Mais que isso, colocar as mãos em Adam era seu principal e único objetivo daqui em diante. Sem nenhuma mulher, homem ou criança, para impedi-lo de agir.
— Que vida mais bosta. — murmurava, dando a última golada de seu uísque e sentindo a ardência passando por sua garganta, com uma expressão de desaprovação pela bebida ter acabado tão cedo.
Suspirou com rudez, levantando-se e chutando o primeiro móvel que teve em seu alcance. Estava prestes a buscar mais uísque, e conseqüentemente, beber mais outro tanto e sair para praticar umas de suas façanhas. Mas sua atenção foi tomada pelo celular que acabara de tocar em estridência. Seus olhos rolaram, crispando os lábios e limpando a garganta ainda ardente. Pegou o aparelho atendendo-o e levando até a orelha.
— Jeff? — logo reconheceu a voz, até porquê era impossível não reconhecê-la. Podia reconhecer Liu há quilômetros de distância.
— Você não morreu? Caralho.
— Poderia ao menos dizer “alô”, não acha? — o rapaz questionou, parecendo exausto para agüentar o mau-humor do irmão.
— Você que me ligou, portanto você que tem a obrigação de ser cortês. E além do mais, não tenho interesse algum em conversar com você, Liu. Se me ligou apenas pra isso, sugiro que volte para sua vidinha medíocre ou simplesmente vá para o raio que te parta.
Estava prestes a desligar, quando Liu foi rápido o suficiente para dizer:
— Espere! Estou aqui para falar... Sobre Lauren. — então era isso? Só ligou para se exibir? Se fosse o caso, Jeff faria questão de lançar-lhe palavras nada amigáveis. — Quero ajudá-lo a salvá-la.
Isso foi muito inusitado, mais até do que gostaria, já que a ajuda de Liu não é nada bem-vinda.
— O que você ganha com isso?
— Não tenho nada contra a moça, Jeff. Nós dois sabemos que meus problemas são com você, mas no geral, não sou uma pessoa tão ruim ao ponto de me alegrar com o sofrimento alheio. A menos, claro, que esse sofrimento seja o seu.
— Estou tentando entender as entrelinhas. — ironizou.
— Estou disposto a ajudá-lo, se for para salvar Lauren. Irei ajudar a invadir o local onde ela está, que por sinal, você tem tatuado em suas costas. Mas pode demorar um pouco, para não levantar suspeitas.
Agora estava começando a compreender. Embora, devido à bebida, seu raciocínio não estava dos melhores.
— Devo deduzir que depois de ajudá-la, planejará minha morte. Estou certo? — fechou o cenho.
Um sorriso divertido brotou nos lábios de Liu.
— Vejo que está começando a entender onde quero chegar, Jeffrey Woods.
(***)
— Ela é um problema. — um dos homens ao lado de Adam observava pela câmera. — Quanto tempo ela aguentará nesse estado, senhor? Não me leve a mal, mas ela já está aqui há dias, e você nos instruiu para aplicar na garota todas as torturas que tínhamos conhecimento, além do trauma psicológico fazendo-a assistir vídeos de estupro violento e castração humana.
— Connor... — virou-se para o homem — Se está insatisfeito com o modo que trabalho, sugiro que dê meia volta e volte para sua vida miserável.
— Não senhor, eu...
— Tem mais alguma reclamação?
A voz firme fez o rapaz engolir seco, negando com a cabeça.
— Ótimo. — Adam continuou, voltando a manter-se atento à câmera na jaula de Lauren, enquanto entrava em outro assunto pendente: — Qual o nome da irmã de Rachel mesmo?
— Ariel, se não me engano.
— Uh... Acho que vou colocá-la à venda.
— C-Como? — Connor pareceu surpreso, o que era compreensível para alguém que entrou em negócios ilegais há tão pouco tempo.
— Aquele rapaz... Irmão de Jeff... Acho que ele está de olho na garota.
— Liu? Mas por que ele faria isso?
Adam riu abafado.
— Ah, o amor... Leva jovens ingênuos a atos impensáveis. — suspirou vagamente, encarando o ajudante de soslaio — Eu sei o que fazer. Volte aos seus afazeres, Connor.
— Sim, senhor. — afastou-se, atravessando a porta em sua saída.
O homem ajeitou-se em sua cadeira observando atentamente os movimentos – ou falta deles – de Lauren. Ela não estava reagindo nada bem, e nem precisava.
Lauren ouviu passos, tentando se afastar com suas poucas forças do homem que havia adentrado a jaula. Havia um capuz preto tampando boa parte de seu rosto, que com sua visão embaçada não conseguia analisar tão bem. Rebecca estava ao seu lado, mas por ironia do destino, parecia estar morrendo a cada dia, como se uma sombra preta estivesse presente por volta de todo seu corpo e nenhum pensamento em forma de palavras saísse por sua boca. Isso a preocupava, pois... Se Rebecca estava morrendo, é sinal que ela também.
— Você sabe o que dizem, não é? — o desconhecido puxou sua blusa suja deixando suas costas à mostra, e embora o chutasse, tentasse acertar qualquer ponto vulnerável, não machucou tanto quanto gostaria o que enfureceu ele ainda mais. Ele segurava um instrumento que parecia... Um marcador de gado? — A dor reanima o corpo! — marcou suas costas que queimavam ao ponto de sair fumaça do ferro, aprofundando a marca ainda mais em sua pele. Mesmo não querendo demonstrar fraqueza, seu grito estridente foi ouvido de longe, até mesmo Liu que vigiava em outra área, estremeceu ao imaginar o que havia provocado-a tanta dor.
(***)
Seu corpo estava amarrado contra uma cadeira de madeira, em uma sala aonde a única iluminação vinha da janela quadrada que espalhava a luz do dia mesmo que pouco. Não podia negar, esperava pelo pior. Achou que seria mais uma tortura, mais uma dor que seu corpo deveria agüentar e com muito esforço tentar se reerguer. Mas assim que viu Adam entrar pela porta, desacompanhado, começou a ponderar essa ideia.
Jeff, Liu... Onde eles estavam esse tempo todo? É um enorme erro pensar neles agora, sabendo que deve se proteger, ao invés de fazer o papel da mocinha indefesa. Esteve desacordada vários dias; com febre forte, delirante. Sentiu dores que jamais esqueceria, muitas vezes tendo que engolir seu sofrimento e focar-se em outros assuntos, como forma de esquecê-lo ao menos minimamente. Mas agora... Seria o fim? Quando Adam parou em sua frente, com um olhar piedoso que prejulgou ser falso, teve suas dúvidas.
— Lauren... É tão triste vê-la assim.
A garota, por mais exausta que estivesse, ergueu seu rosto cuspindo na cara de seu... Pai (?).
— Não me venha com essa... — pronunciou pausadamente — Se quer me matar, que seja. Você pagará por isso de qualquer forma. Você não passa de um filho da puta. — começou a rir, e mesmo tossindo não ousou parar com o deboche.
Limpou seu rosto, sorrindo.
— Vim apenas para conversar.
— Conversar o quê?
— Tenho uma história para te contar.
Encarou confusa.
— Que história seria essa?
— Sobre eu... E sua mãe. — suspirou, olhando para o chão. — O nome dela era Lucy...
— Eu não quero saber! — gritou, com os olhos lacrimejando. Seria... Seria pior saber disso.
— Você irá ouvir.
— NÃO!
Adam lançou sua mão no rosto da garota, marcando com um tapa ardente em seu rosto.
— Apenas escute.
— Lucy... — o rapaz atrapalhado aproximava-se da garota, entregando um buque de flores vermelhas cujo cheiro era mais do que agradável. Lucy esbanjou um sorriso sincero.
— Obrigada, Adam. É muito gentil.
— Eu... Queria te dizer uma coisa.
Curiosa, ela indagou:
— O que é?
— Quero... Pedi-la em namoro.
Isso havia a pegado de surpresa, não foi difícil perceber.
— Me sinto lisonjeada, mas... Não. Não te vejo dessa forma... Sinto muito. — tentou ser o mais delicada possível, não querendo machucá-lo em momento algum.
— Mas... Eu achei que nós...
— Eu sinto muito, Adam. — interrompeu, ouvindo uma de suas amigas chamá-la — Tenho que ir, espero que fique bem. — sorriu, depositando um beijo em sua bochecha.
— Eu sabia que não podia deixar ela me recusar desse jeito. Eu a amava como jamais amei ninguém... Eu precisava fazê-la enxergar que era ao meu lado que pertencia. — falou, enquanto continuava a contar a história, lembrando-se de momento por momento, cortando algumas cenas. — Eu havia a seguido pra casa certo dia...
— Lucy! — um rapaz, loiro, alto, de boa aparência, chamava-a com simpatia em sua voz.
— Logan! — ela correu até ele, com um sorriso esbanjado que Adam observava de longe. Abraçou-o com todas as suas forças, algo que doeu e muito no seguidor que assistia há distância. Por que...? Por que ele? O que tinha errado em si para ela o trocar assim? Queria... Queria descobrir.
Logan colocou seu braço em volta do pescoço da garota, que segurava sua mão e encostava a cabeça em seu ombro. Adam os seguiu até uma casa branca em meio há uma floresta, queria investigar a fundo, e sentia algo errado pairado no ar. Quando o casal adentrou a casa, ficou na área dos fundos escutando todo e qualquer barulho que ouvisse.
— Lucy, os boatos que estão soltando sobre você e Adam...
— São apenas boatos.
— Deixe-me terminar. — falou secamente. — Não é bom pra minha reputação saber que minha namorada está se esfregando com qualquer nerd iludido que encontra por aí.
— COMO PODE FALAR ASSIM?
Irritou-se com os modos do rapaz, que mais parecia se referir a uma mulher de programa.
— Só quero deixar claro que não irei tolerar um chifre na cabeça, entendeu? — segurou-a pelo pulso — Se você ousar fazer algo assim acabarei com sua raça.
— Eu não reconheço mais você!
— Ela sabia do temperamento dele, sempre soube... Achou que ele fosse capaz de mudar e insistiu no relacionamento... Mas ele só veio a piorar com o tempo. Eu escutava tudo, e já não estava agüentando me manter parado.
Empurrou a porta com um olhar de fúria.
— Como ousas tratá-la assim?
— Adam? — disse surpresa.
Logan ria alto.
— O que o nerdzinho vai fazer? Bater-me com o livro de matemática?
— Eu havia chegado a meu limite... Quando me dei conta, estava em cima de Logan socando seu rosto com toda a minha força, vendo-o sangrar... Até seu coração parar de bater.
— Adam, o que você fez?! — perguntava horrorizada, olhando para o corpo no chão que já não se movia.
— Eu... Fiz por você... — percebia no olhar dela certo pavor... Certo... Medo — Por favor... Não faça isso. Eu te salvei, não é? — sorria, tentando se aproximar.
— Não se aproxime de mim! — pegou uma faca, que iria usar para se defender.
— Eu quero seu bem... Amor...
— NÃO ME CHAME ASSIM!
— Eu sabia que ela jamais me perdoaria. Mas eu queria tê-la... Queria amá-la como ninguém amou antes.
— Você...? — Lauren estava incrédula, mesmo a história ainda não sendo concluída.
— Sim. Eu a estuprei. Fui rápido, invasivo... Cheio de desejo. Quanto mais ela debatia-se no meu braço, mais eu passava a gostar. — sorriu, lembrando que o pai havia feito o mesmo com sua mãe, por ironia do destino — Quando a soltei sobre a cama, ela estava imóvel, chorando desesperadamente...
— P-Por quê? — soluçava — Por que fez... Isso comigo?
Mesmo querendo, não tinha o que responder para a mulher, abaixando a cabeça.
— Eu entendo agora... — falou, pegando-a de surpresa, ainda com lágrimas rolando por seu rosto e umedecendo seus lábios. — Meu pai me ensinou tudo. Deu-me seu nome para que começasse uma vida em uma cidade estrangeira, me deu todo seu trabalho inacabado, me deixou com todas suas dívidas não-pagas... Agora entendo. Meu pai me amou de todo o coração, destruiu sua vida por uma mulher, e eu fui idiota o suficiente para fazer o mesmo. Não... Isso não irá se repetir. Se você ama alguém, essa pessoa tem que ser sua, ela não pode... Simplesmente te recusar. — o garoto começou a rir — Ao amar alguém, deve-se esperar por essa pessoa em outras vidas se necessário... Você deve conseguir o que quer para não ser um fracassado.
O tom de voz dele começou a assustá-la, seus olhos estalados, cheio de ódio e luxúria... Ele havia sido tomado por algo ruim, estava completamente... Louco.
— No dia seguinte fui levado a um manicômio. Fui dado como louco... Por causa daquela mulher sacrifiquei tudo, e sequer me arrependi. Passei meses lá dentro, até conseguir sair por um único dia... — virou-se para Lauren. — O nascimento de minha filha.
— Lucy? — ele perguntou, entrando no quarto onde a mulher havia dado a luz, mas encontrando apenas o bebê que chorava coberto na cama. Era uma menina... Uma doce e linda menina que pegou no colo olhando de perto e tentando abafar seu choro. — Minha filha... Você se chamará Lauren, como sua avó. — sorriu sinceramente.
A pequena voltou a chorar depois de alguns minutos, mesmo sendo consolada por seu pai.
— Você deve estar com fome... — sussurrou — Onde está a mamãe? — olhou em volta, estranhando tamanha calmaria. Colocou Lauren sobre a cama confortavelmente, certificando-se de que ela não iria correr nenhum risco de cair da cama. — Papai já volta. — beijou-a em sua bochecha inflada, sentindo aquele cheiro delicado de neném.
— Eu sabia que tinha algo errado, que Lucy jamais deixaria a filha sozinha. Para ela fazer isso, só se tivesse algo extremamente importante pra fazer. Mas não esperava encontrá-la naquele estado...
Abriu a porta dando ao banheiro que tinha no quarto de hospital. Seus olhos estalaram-se quando teve a visão da mulher deixada no chão, com as vestes sujas de sangue, e com vidros de remédios vazios em sua mão esquerda. Ela havia se matado. Mais que isso, havia levado uma parte dele junto a sua. Adam a abraçou e derramou lágrimas em meio à tremedeira, seu desespero foi tanto que mal cabia no peito. E com a falta de remédios para seus delírios psicóticos, levantou-se indo em direção a cama, onde tentou enforcar a criança.
— Então tentou me matar? — Lamentavelmente não deu certo, pensou. — E qual a moral dessa história, papai?
Ignorando o comentário da garota, continuou:
— Eu estava pronto para matá-la, quando me dei conta de uma coisa...
Chegando a frente da cama, olhou com desdém para o bebê, que abria seus olhos lentamente, com uma cor azulada indefinida. Havia brilho... Havia algo que a mãe possuía. E com a mais absurda das idéias, Adam afirmou para si mesmo:
— Minha filha nada mais é, do que a reencarnação da mãe.
Lauren perplexa, indagou:
— Não entendo. Qual a moral dessa história?!
Aproximando-se da morena, ele suspirou.
— Sua mãe tirou a própria vida no dia de seu nascimento. Não foi consciência, ela estava... Passando pro seu corpo. Começando uma nova vida. — sorriu emocionado, derramando uma lágrima no olho direito — Você Lauren... Você é Lucy. O amor da minha vida.
Um arrepio imenso rodeou seu corpo, arregalando os olhos e petrificando-se diante de tamanha loucura que acabara de ouvir.
— Você é um lunático!
Novamente, ele ignorou suas palavras e continuou a dizer:
— Eu precisava fazer você passar pelas mesmas experiências que eu... Você precisava me entender, precisava me amar. E agora... Sei que deu certo. — continuava a limpar suas lágrimas, com um sorriso psicótico no rosto.
— Não, eu não amo. — protestou — Tudo o que você fez pra mim... Tudo o que você fazpra mim. Eu te desprezo com todo o meu ser. Quero vê-lo sofrer, queimar em meio as chamas do inferno. Eu te odeio Adam.
Ele paralisou. Como ela pôde dizer coisas tão brutais depois de tudo? A mesma história se repetia... E não iria permitir isso.
— Nesse caso... — tirou uma arma de seu bolso, apontando pra ela e voltando a sorrir alegremente, com um semblante esperançoso. — Iremos recomeçar do zero, Lucy.
— Do que está falando, seu idiota?
Pela primeira vez, Lauren não temia a morte. Depois de tanta dor, esperava que acontecesse em breve. Tudo o que pensou foi... Nas coisas que não conseguiu ter. Seu sonho sempre foi ter uma vida normal quando tudo terminasse. Sem vingança, sem ódio... E talvez, ao lado de alguém que ame até envelhecer. Mas depois do que presenciou, após ser o fruto de um estupro, amor também pareceu ser um mal.
— Se nessa vida não deu certo para nós dois, na próxima dará. — destravou a arma, apontando para a testa da garota. Ele não se importava com o que deixaria, sua mente estava além de tudo isso. Era o fim, ele iria garantir isso. Os dois morreriam ali, e recomeçariam ainda mais distante. — Até mais, Lauren.
— Lauren? — Jeff apareceu após a porta ser brutalmente escancarado por ele e seu irmão, que encarava a cena com pavor.
— ADAM, NÃO FAÇA ISSO! — Liu gritou, indo em direção a ele para impedir.
Assim que Lauren olhou para os dois com a vista doendo, a última coisa que ouviu foi o disparo em sua direção. Seu corpo foi pra trás, caindo juntamente com a cadeira no chão. E tudo se tornou escuro.
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