Alone
16 Domínio

Levantou-se, tentando afastar o sono. Seguia Jeff que se apressava, algo que ela não conseguia fazer com tanta facilidade no momento. Nenhuma luz na cabana compartilhara de seu brilho, e sons de morcegos que abrigarem-se no local se espalhavam a cada passo que dava entre o piso de madeira. Ao chegar até a sala, avistou uma lamparina na mesinha de centro, pela qual Jeff pegou, erguendo o braço à sua frente para a luz iluminar por onde passara. O seguiu, com receio. A aparência de Jeff parecia ainda mais disforme naquele escuro, e apenas naquele instante se deu conta que suas vestes pareciam molhadas tais como suas madeixas. Com certeza ele não tinha tomado um banho...mas era 04:00, o que ele estaria fazendo antes de acordá-la pra ter acabado todo molhado? Talvez tivesse algum lago por perto, mas ainda assim não explicava essa finalidade.
Continuou a andar, se acostumando com a caminhada apesar do sono. O viu se aproximar de uma mesa, colocando a lamparina sobre ela. Apesar da luz fraca emitida, conseguiu ver uma pistola e um facão militar. Esperava um pouco mais, mas sendo o primeiro treinamento era melhor não comentar nada.
— E então Jeff?
— O quê? — pegou o facão, apreciando cada lado do instrumento.
— Como assim "o quê"? Você me acorda às 04:00 pra treinar, me traz pro meio do nada, e não tem nada pra me dizer?
— Sim, tenho algo a dizer.
Mesmo sem conseguir ver o rosto dele estando de costas, podia jurar que Jeff estava sorrindo ao dizer aquilo. Ele lançou o facão na direção dela que mau conseguiu prever seus movimentos. O facão atingiu pouco à cima de seu ombro, fincando sua blusa à árvore onde ele jogou a arma. Jeff soltou uma risada baixa, e voltou sua atenção à mesa.
— Ok...o que foi isso? — respirou fundo após o susto, tirando o facão da árvore.
— Ao invés de começar um treino lutando contra você, tive a ideia de fazer algo diferente e inovador.
— Diga.
— Você passará dois dias nessa floresta, apenas com a roupa do corpo e as duas armas que te entregarei. O facão poderá ser útil no que você bem entender, mas quanto á essa pistola 938... — pegou a arma. — só darei duas balas pra serem utilizadas.
Cerrou o cenho, intrigada.
— Eu não entendo Jeff, qual o objetivo disso?!
— Vou te explicar e quero que você leve esse ensinamento como uma filosofia de vida. — esbanjou um sorriso divertido. — Quando estiver aqui, no meio dessa floresta, muitas coisas poderão acontecer: animais raivosos, caçadores que sabe-se lá o que fariam ao encontrá-la aqui desprotegida em vestes tão maltrapilhas, uma fome quase insuportável pela qual você matará pra aliviá-la, uma sede que te levará a percorrer quilômetros só para saciá-la...
— Onde quer chegar com isso?
Ele apontou o dedo em direção ao seu rosto, desafiador.
— Chegará uma hora em que você não aguentará, e acabará usando as armas que te dei. Não se sinta mal por isso, é da natureza humana colocar sua sobrevivência como prioridade. Mas aqui nessa floresta, você passará pelo mesmo que eu, e acredito que muitos assassinos já passaram também. A maior luta aqui, será contra si mesma. Não importa quantas pessoas você ataque, você sempre será seu maior inimigo. Você conhece suas fraquezas, seus medos...isso que acaba te destruindo por completo. E o motivo de eu deixar você aqui — colocou a arma na mão da garota, junto com as duas balas. — é porque está na hora de buscar seu equilíbrio físico e mental, para ser um assassino, precisa enfrentar a si mesmo. — se afastou.
Ainda tentando absorver tudo o que ele a disse, o fitou se afastando.
— Jeff, espera...
— O treinamento começará agora. Daqui a dois dias verei como se saiu. Eu te desejaria sorte, mas sei que irá fracassar como de costume. — continuou andando. Aqueles insultos também tinham fundamento, Jeff gostava de ver o que afetava as pessoas primeiro: suas mentes ou seus corpos. Quando a prova que ela a lançou terminasse, descobriria o que fazia ela fracassar. A falta de domínio de seu próprio corpo, ou a corrupção de sua mente...
A lamparina que Jeff levara se distanciou tornando o local escuro. O ambiente era iluminado pela claridade proveniente da lua cheia entre o céu negro e estrelado. As aves noturnas puseram-se a cantar, e entre moitas ela se sentira observada, tentando ignorar a companhia de animais misteriosos que ali se escondiam. Se sentou encostada sobre a árvore, abraçando seu corpo para se aquecer. Escolheu esperar que amanhecesse, para pensar melhor no que fazer. Nunca ficou em uma floresta, ou em uma situação de sobrevivência parecida. Era claro que Jeff estava cobrando muito da garota, e que desde que ela pediu seu auxílio, ele não seria piedoso. Mas estava levando isso como uma experiência única, sendo boa ou não. Mas apesar de toda sua determinação, seus olhos entre o escuro começaram a se fechar, tentando recuperar o sono perdido.
Acordou ao ouvir pássaros cantarolando, com reflexos da luz solar que atingiam seu rosto. Sua roupa estava suja de terra, entre as folhas secas sobre o chão onde estivera. Suas costas certamente doíam, desacostumadas. Se levantou, apoiando-se sobre a árvore. Sua barriga roncava, faminta. A água nem fazia tanta falta, mas os alimentos tornavam-se necessidades. Procurava com o olhar à sua volta uma árvore frutífera, mas não obtinha muito sucesso em sua busca. Não teria escolha a não ser matar algum animal pra se alimentar de sua carne. Segurou a arma e o facão, um em cada mão, os avaliando para ver qual utilizaria primeiro.
Em um tronco caído e não tão distante, uma pomba branca com algumas manchas pretas pousou, movimentando seu pescoço, curiosa. Tomou muito cuidado, agindo lentamente para não assustar a ave. Pegou a arma, tentando fazer os mínimos barulhos possíveis. Levantou seu braço aos poucos, sem assustá-la. Quando conseguiu mirar, apertou o gatilho, acertando a cabeça do pobre pássaro. Apesar de atingir em cheio, também acabou acertando a árvore, e embora tivesse sucesso em sua tentativa, teria que se dedicar ao seu treinamento de mira.
Usou o facão para separar o pescoço dela de seu corpo, a despenando aos poucos. Ao terminar, foi atrás de algo para fazer fogo. Pegou pequenos ramos formando um ninho, logo em seguida pegando um pedaço de casca de árvore e um graveto. Colocou o graveto entre as palmas de suas mãos, o girando em dois sentidos firmemente, com rapidez. Transferiu a brasa que se formara na casca de árvore, colocando-a sobre o ninho que as poucos transformava-se em chamas. Esquentou aos poucos seu alimento, que embora não fosse lá o que a agradasse, para matar sua fome, teria que se acostumar.
— Dois dias nisso... — bufou, comendo enojada. — Acho que o próximo passo é aprontar o local onde dormirei essa noite... — falava com a boca cheia.
Ao terminar, se levantou, andando pela floresta em busca de um local para descansar quando a noite viesse a chegar. Seus braços coçavam pelas picadas dos insetos, vermelhos por conta de sua alergia. Ouviu um barulho vindo ao lado, espiando entre a árvore por qual se escondia. Viu um homem, aproximadamente de 25 anos, com um chapéu azul e uma barraca ao lado. Ele se sentava em frente a fogueira, comendo algo em uma panela que trouxe com si. Segurou o facão, indo por trás e segurando seu rosto ao cortar seu pescoço. O corpo dele caiu, e antes de fazer qualquer coisa viu um garotinho saindo da barraca, com os olhos azuis demonstrando não ódio, mas sim tristeza, embora não estivesse chorando. Suas sobrancelhas se juntaram, ficando com pena da criança que não esperava encontrar.
— Eu não queria fazer algo assim na sua frente... — se ajoelhou, na altura dele. — Sinto muito. — pegou o chapéu do pai dele, colocando na cabeça do menino. — Eu me chamo Lauren, e se quando você crescer essa dor não passar...pode me procurar.
Ele a encarou, sem dizer nenhuma palavra. E depois correu, saindo da floresta. Se ele queria ou não se vingar dela um dia, não sabia. Mas esperava, apesar de todas as coisas ruins que já fez, que o garoto não se tornasse o que ela tornou.
***
No dia seguinte, já era o período da noite e não conseguia fechar seus olhos. A fome voltou a atacar, e sua boca seca implorava por água. O que a servia se consolo era o fato de que logo Jeff estaria ali, finalizando a prova. Não dava pra dizer o quanto aquilo foi útil, afinal, não era o tipo de treinamento que se via todos os dias. Ficou se lembrando quando Jeff se referiu à essa experiência como algo que já passou. Mas ninguém treinou o Jeff...ele fez aquilo por pura e espontânea vontade? Quanto mais pensava nele, mais o via como um louco.
Já tinha desperdiçado as duas balas conseguindo o que comer, e mesmo se tentasse atacar algum animal que passasse para se alimentar, estava escuro pra conseguir ver, e seu corpo frágil demais pra acompanhar a corrida com as criaturas astutas da floresta. Não via a hora de chegar em casa, tomar um banho, comer o que visse pela frente.
— Você está um lixo. — comentou Jeff, se aproximando.
— É bom te ver também. — respondeu ao insulto fraca, suspirando.
Ele a olhou por um tempo, julgador.
— Certo. Pode ir pra casa.
— O quê?! Não tem mais nada a dizer sobre sua "filosofia de vida"?!
— Não, foi só isso mesmo. — cuspiu as palavras, sem interesse.
— Jeff, seu...
Tentou atacá-lo, embora com sua fraqueza acabou tropeçando, fazendo-o rir.
— Não seja tola, lutar comigo agora seria burrice. Não é a hora nem o lugar pra falar sobre isso. — tirou uma mochila de suas costas, a entregando. — Agora vamos. Você carrega.
Segurou a mochila pesada, sustentando o peso em seu ombro.
— O que tem aqui dentro?
— Armas. Temos que continuar o treinamento.
— Você acha mesmo que eu consigo lutar depois de tudo o que passei?! — o encarou raivosa.
— Terá que conseguir. Quem sabe com isso você aprenda que ser um assassino não é uma brincadeira para crianças. — sorriu.
Continua...
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